PERSONAGENS
Até no futebol Maluf se
infiltra
É uma das histórias que
contamos. A outra é de Zé Duarte.
Zé Duarte voltou para
os passarinhos
Existem dois Zé Duarte.
Um, o homem com uma extraordinária sensibilidade para captar o talento
futebolístico florescente de qualquer jovenzinho que desponte nas várzeas
interioranas – que ele conhece como a palma da mão. Outro, o menino crescido
que constrói gaiolas e arapucas para emprenhar-se, dias e dias, em flores
instransponíveis, segundo fascinado o canto dos bentevis, coleirinhas, canários
e curiós – que ele também conhece como poucos. Zé tem extrema dificuldade para
dissociar uma personalidade da outra. Por isso mesmo, ingênuo, é passarinho
fácil nas armadilhas dos cartolas.
Foi assim no Santos, no
Cruzeiro, no Fluminense e, mais recentemente, no Internacional. Lá está ele
desempregado, com tempo para prosar com os compadres e aperfeiçoar as suas
habilidades manuais. Esses mesmos compadres já o preveniram várias vezes para
as malandragens do futebol, mas ele é mesmo um ingênuo inveterado.
Como aconteceu nas
vezes anteriores, agora ele viu seu trabalho ser minado pelo supervisor Cláudio
Duarte – poderia ser um dirigente, um conselheiro – e insistiu na sua ilimitada
boa-fé.
Para Zé Duarte, um
talentoso técnico de futebol, basta ser uma celebridade local, o mais famoso
morador do bairro de Proença, em Campinas. Na sua simplicidade prosaica – “o
que poderia o filho de imigrantes, antigo encanador e mau jogador querer mais?”,
disse-me certa vez – ele acredita que qualquer ser humano é cheio de bondade
até prova em contrário. Como esta prova tem que ser uma evidência cabal, Zé
acaba sempre desempregado.
Daí, talvez, a sua fama
de “técnico dos times de Campinas”, uma vez que só fez sucesso no Guarani e na
Ponte Preta. Na verdade, Zé não pode oferecer resultados aos cartolas a curto
prazo. Ele é um artesão, que costuma moldar pacientemente a massa até formar
uma bela estátua, como aquela Ponte de 77. Esse extemporâneo Zé Duarte não
percebeu que na pressa dos cartolas está a razão direta do seu faturamento em
termos políticos.
A política entra em
campo
Desta vez, Paulo Salim
Maluf não poderá ser acusado de trapaceiro. Afinal, ele está demonstrando ser
aquele tipo de político que arruma um inexplicável amor pelo Corinthians para
poder faturar politicamente. O governador torce pelo São Paulo, o que nunca
escondeu. E está agindo em completa harmonia com sua consciência ao tentar
infiltrar-se no Conselho Deliberativo do clube do Morumbi.
Na verdade, o futebol
continua sendo o segundo plano. O que Maluf deseja é esvaziar politicamente o
seu adversário Laudo Natel. Para quem não sabe, Natel é um fósforo apagado
apenas na política, pois continua exercendo o seu poder dentro do São Paulo,
onde é um dos grandes “cardeais”, junto com Henri Aidar e Manoel Raimundo Paes
de Almeida.
Enfim, o ex-governador
é peça decisiva naquela oligarquia caduca que domina o tricolor há mais de 25
anos.
A infiltração estaria
sendo feita através do governador José Maria Marin e do deputado Ademar de
Barros (não confundir com o filho de dona Leonor), que também é conselheiro do
clube. Uma vez concluída, ela daria a Maluf outro reduto político que desse
asas à sua desmedida ambição pessoal.
O São Paulo, contudo, é
um clube blasé. Comenta-se que nas reuniões do Conselho Deliberativo o pau
costuma quebrar a níveis em que nem as mamães são poupadas. Mas ninguém fica
sabendo. Os conselheiros e dirigentes se aprumam dentro dos ternos muito
bem-cortados, arrebitam os narizes e escondem os problemas. Por isso, nem os
“cardeais” nem a “Legião Tricolor” – a única oposição clubística brasileira que
possuí registro em cartório – comentaram a pretensão de Maluf.
No entanto, a torcida
vai chegando a uma triste conclusão: para quem já possuí Edu, Viana, Mug e
Estevam, um flagelo a mais ou a menos não faz muita diferença.
Publicado originalmente
no Jornal da República em 21 de
setembro de 1979, edição 26
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