segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Até no futebol Maluf se infiltra” (21/9/1979)

PERSONAGENS

Até no futebol Maluf se infiltra

É uma das histórias que contamos. A outra é de Zé Duarte.

 


Zé Duarte voltou para os passarinhos

Existem dois Zé Duarte. Um, o homem com uma extraordinária sensibilidade para captar o talento futebolístico florescente de qualquer jovenzinho que desponte nas várzeas interioranas – que ele conhece como a palma da mão. Outro, o menino crescido que constrói gaiolas e arapucas para emprenhar-se, dias e dias, em flores instransponíveis, segundo fascinado o canto dos bentevis, coleirinhas, canários e curiós – que ele também conhece como poucos. Zé tem extrema dificuldade para dissociar uma personalidade da outra. Por isso mesmo, ingênuo, é passarinho fácil nas armadilhas dos cartolas.

Foi assim no Santos, no Cruzeiro, no Fluminense e, mais recentemente, no Internacional. Lá está ele desempregado, com tempo para prosar com os compadres e aperfeiçoar as suas habilidades manuais. Esses mesmos compadres já o preveniram várias vezes para as malandragens do futebol, mas ele é mesmo um ingênuo inveterado.

Como aconteceu nas vezes anteriores, agora ele viu seu trabalho ser minado pelo supervisor Cláudio Duarte – poderia ser um dirigente, um conselheiro – e insistiu na sua ilimitada boa-fé.

Para Zé Duarte, um talentoso técnico de futebol, basta ser uma celebridade local, o mais famoso morador do bairro de Proença, em Campinas. Na sua simplicidade prosaica – “o que poderia o filho de imigrantes, antigo encanador e mau jogador querer mais?”, disse-me certa vez – ele acredita que qualquer ser humano é cheio de bondade até prova em contrário. Como esta prova tem que ser uma evidência cabal, Zé acaba sempre desempregado.

Daí, talvez, a sua fama de “técnico dos times de Campinas”, uma vez que só fez sucesso no Guarani e na Ponte Preta. Na verdade, Zé não pode oferecer resultados aos cartolas a curto prazo. Ele é um artesão, que costuma moldar pacientemente a massa até formar uma bela estátua, como aquela Ponte de 77. Esse extemporâneo Zé Duarte não percebeu que na pressa dos cartolas está a razão direta do seu faturamento em termos políticos.

 

A política entra em campo

Desta vez, Paulo Salim Maluf não poderá ser acusado de trapaceiro. Afinal, ele está demonstrando ser aquele tipo de político que arruma um inexplicável amor pelo Corinthians para poder faturar politicamente. O governador torce pelo São Paulo, o que nunca escondeu. E está agindo em completa harmonia com sua consciência ao tentar infiltrar-se no Conselho Deliberativo do clube do Morumbi.

Na verdade, o futebol continua sendo o segundo plano. O que Maluf deseja é esvaziar politicamente o seu adversário Laudo Natel. Para quem não sabe, Natel é um fósforo apagado apenas na política, pois continua exercendo o seu poder dentro do São Paulo, onde é um dos grandes “cardeais”, junto com Henri Aidar e Manoel Raimundo Paes de Almeida.

Enfim, o ex-governador é peça decisiva naquela oligarquia caduca que domina o tricolor há mais de 25 anos.

A infiltração estaria sendo feita através do governador José Maria Marin e do deputado Ademar de Barros (não confundir com o filho de dona Leonor), que também é conselheiro do clube. Uma vez concluída, ela daria a Maluf outro reduto político que desse asas à sua desmedida ambição pessoal.

O São Paulo, contudo, é um clube blasé. Comenta-se que nas reuniões do Conselho Deliberativo o pau costuma quebrar a níveis em que nem as mamães são poupadas. Mas ninguém fica sabendo. Os conselheiros e dirigentes se aprumam dentro dos ternos muito bem-cortados, arrebitam os narizes e escondem os problemas. Por isso, nem os “cardeais” nem a “Legião Tricolor” – a única oposição clubística brasileira que possuí registro em cartório – comentaram a pretensão de Maluf.

No entanto, a torcida vai chegando a uma triste conclusão: para quem já possuí Edu, Viana, Mug e Estevam, um flagelo a mais ou a menos não faz muita diferença.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 21 de setembro de 1979, edição 26

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