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quarta-feira, 15 de abril de 2015
domingo, 19 de outubro de 2014
“Ganhei dez mil reais de direitos autorais durante toda a minha carreira”’
São mais de 40 longas-metragens como autor de trilhas
sonoras. Mesmo desconhecido do grande público, Beto Strada é um dos
profissionais que mais colaborou nos bastidores do cinema brasileiro. Ele afirma que trabalhou em 42 longas-metragens. “Não sei
porque no IMDB diz que fiz apenas 34 filmes”, reclama. Strada tem uma
história de vida um tanto curiosa: ele nasceu em São Luís do Maranhão e iniciou
sua carreira na sétima arte no Rio com Jece Valadão. Depois, o músico mudou-se
para São Paulo. Na Boca paulistana, Strada trabalhou com diversos realizadores
como Jean Garrett, Clery Cunha, José Mojica Marins e sobretudo Adriano Stuart.
“Ele admirava muito o meu trabalho. Tanto que chegou uma época em que eu fazia
a trilha de todos os filmes dele. Inclusive os longas dos Trapalhões”. Aos 64
anos, Strada vive em Goiânia onde curte seu sétimo casamento. “Eu sempre vinha
aqui e gostei muito da cidade. Acabei ficando”. No Planalto Central, o músico
dirigiu o curta-metragem O Caso Letícia
e está planejando a realização de mais trabalhos como diretor. Strada conversou
por telefone comigo durante horas.
Violão,
Sardinha e Pão- Como o senhor começou a se interessar por música?
Beto Strada- Rapaz, eu comecei a estudar música com
seis anos de idade. Ainda em São Luís do Maranhão. Acabei aprendendo violino
com o único professor que tinha desse instrumento na minha cidade. Ele era um
veterano da Segunda Guerra e não sei como ele foi parar lá. Estudei durante
seis anos violino e música erudita em geral. Sempre fui apaixonado por cinema.
Em São Luís, eu vivia indo no Cine Roxy que ficava perto da minha casa. Como lá
era muito quente, eles deixavam as portas do cinema abertas quando anoitecia.
Nisso, eu acabava dando um jeito de entrar e via os filmes. Isso eu estou
falando de 1957, 58. Mas era bacana porque eu via de tudo: Truffaut, Hitchcock.
Eu não perdia nenhum filme. Com 12 anos, eu mudei pro Rio de Janeiro e foi lá
que eu comecei a compor, fazer música. Porque compor no violino é muito complicado.
Ele é um instrumento de solo harmônico mas nisso eu fui pegando conhecimentos
de harmonia. No Rio, fui estudar com o maestro Alexandre Gnattali, irmão do
Radamés. Foi nessa época que comecei a aprender violão inclusive.
VSP- Depois
o senhor acabou fazendo um curso com o maestro Guerra-Peixe?
BS- Sim. Foi um curso promovido pelo Museu da
Imagem e Som do Rio de Janeiro sobre técnicas de música para cinema. Foi onde
eu aprendi o que era tema principal, música incidental, tudo isso. Na verdade, eu
já tinha uma ideia do que era tudo isso, só faltava alguém me ensinar. Mas eu
já tinha sacado várias coisas. Nisso, eu tentei ser músico popular. Acabei me
tornando guitarrista de uma banda, aquelas coisas de maluco sabe? Cheguei a
gravar um compacto com uma amiga minha. Até o Moacyr Franco chegou a gravar em
LP uma música minha. Mas tudo isso não dava em nada. Eu já percebia que o meu
negócio era compor para cinema.
VSP- Como
o senhor começou a compor trilhas para cinema?
BS- Fiquei sabendo que o Jece (Valadão) ia fazer um
filme chamado O Mau Caráter. Era algo
baseado no Beto Rockfeller (novela da TV Tupi de grande sucesso). Fui no
escritório dele na maior cara de pau e tomei o maior chá de cadeira. Fiquei
esperando um tempão. Aí quando chegou a minha vez eu aumentei a história, disse
que tinha regido orquestra. O Jece me disse: “Eu te dou o roteiro e você vê se
consegue fazer alguma música”. Aí eu fui pra casa e li não sei quantas vezes
aquele roteiro. Fiz um tema e a letra também. Lembro que estava muito inseguro.
Tanto que mostrei aquela canção pra várias pessoas. Mas a maioria das pessoas
acabaram gostando. Ficou muito swingada e o Jece acabou gostando da canção.
Acabei tendo o convite de fazer a trilha inteira daquele filme. Depois fiz
outra trilha pro Jece num outro longa dele chamado Nós, os Canalhas. Vários diretores do Rio foram me chamando e
depois mudei pra São Paulo onde colaborei com diversos diretores.
VSP- Como
foi trabalhar com Jece Valadão?
BS- O Jece era um batalhador, um cara que amava
cinema, entende? Ele tinha o seu valor. Mas era uma pessoa difícil, muitas
vezes atrasava os pagamentos, era grosseiro. Agora, ele tem seu valor porque
ele amava trabalhar com cinema. Tinha um puta amor por aquilo que ele fazia.
Fiz apenas dois filmes com ele, um policial e uma comédia quando ele já tinha a
Magnus Filmes.
VSP- O
Beco da Fome era a região do Rio onde se produziam os filmes populares. O que o
senhor lembra desse ambiente?
BS- Era Beco da Fome? Nem me lembrava mais que se
chamava assim. Faz muito tempo. Eu era um frequentador e ali era um centro
produtor porque o cinema dava dinheiro naquela época. Tinham várias produtoras,
o laboratório da Líder, as empresas de mixagem, as companhias que alugavam
moviola. Tinha de tudo lá.
VSP- Como
o senhor começou a trabalhar em filmes paulistas?
BS- Mudei pra São Paulo por causa do cinema e da
publicidade. Eu sabia que lá tinha mais campo. Cheguei lá em 1970, quando eu
tinha vinte anos. Aí fui começar do zero em São Paulo...inclusive cheguei a
dormir na rua. Porque quando a gente tem vinte anos, a gente faz um monte de
merda, sabe? Fui trabalhar numa produtora de comerciais chamada Prova. Você já
ouviu falar nessa produtora?
VSP- Não.
BS- Foi lá que o Secos e Molhados gravaram o
primeiro álbum deles. Na Prova, eu fui fazer contato porque eu já tinha feito
trilha em uns dez longas-metragens no Rio. Fiquei lá até 1975 quando fui
mandado embora porque eu tive uma ideia muito boa. Explico: eu tive a ideia de
criar o primeiro arquivo de trilhas. Na época, as propagandas brasileiras
duravam em média 30 segundos, 45 segundos e um minuto. Então, eu criei pequenas
trilhas com duração nesses tempos correspondentes. Fiz um álbum de música
urbana, infantil, folclore, Bossa Nova, jazz, rock, country. Lembro que até
trilha de música andina eu criei pra aquela produtora. Foram uns cem temas que
deixei pronto. Essa foi uma das fases que eu mais ganhei dinheiro na vida. A
Caloi chegou a comprar dez trilhas minhas de uma vez só. Muitos amigos de
produtoras concorrentes ficaram com inveja e o preço começou a inflacionar.
Isso porque antes eles cobravam uma baita grana somente por um jingle. Fiz
muito sucesso com esse sistema e cheguei a ser capa daquela revista Propaganda. Eu queria muito achar esse
exemplar.
VSP- Existia
muita rivalidade entre os cineastas de São Paulo e Rio?
BS- Tinha. Sempre teve né? Sempre teve essa briga
porque a Embrafilme ficava no Rio de Janeiro. Mas o interessante é que tinha um
órgão que controlava os exibidores, obrigava a passar filme brasileiro. Por
causa disso a Haway passou a produzir cinema e o próprio Severiano Ribeiro no
Rio. Tinha que cumprir a cota de tela. O dono do filme ganhava dinheiro pelo
seu filme. Não tinha isso de Ancine, lei Rouanet. Bacalhau por exemplo: custou 500 mil e faturou mais de dois
milhões. Triplicou o investimento, entendeu?
VSP- Um
dos seus grandes trabalhos é Excitação
do Jean Garrett. Como foi isso?
BS- O Jean Garrett era um puta diretor, um cara bom
pra caramba. O Jean estava fazendo um filme de suspense chamado Excitação. Não tinha nada de sacanagem. Eu
descobri que ele estava dublando esse filme na Odil Fono Brasil. Acabamos
conversando: “Eu quero fazer a trilha”. O Jean: “O problema é que não tem
dinheiro”. Eu pedi o mínimo pra eu conseguir pagar os músicos. Consegui contratar
quatro músicos com um cachê mínimo. Era abaixo do valor estabelecido pelo
sindicato, mas eles toparam. Nós tivemos apenas doze horas pra fazer a trilha
toda, mixar. Acabei ganhando o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos
de Arte) de melhor trilha concorrendo com Dona
Flor e seus Dois Maridos. O Excitação
era um filme muito bom no meio de coisas ruins que eram feitas na Boca. Fui
pedir o mínimo pra conseguir fazer algo bacana, sabe? Eu sou fã do cinema
americano, francês, italiano. No Rio, eu trabalhei com o Alberto Pieralisi que
era primo da Virna Lisi, uma atriz linda. Ela chegou a intermediar uma maneira
de eu trabalhar com o Ennio Morricone na Itália. Mas tinha acabado de nascer o
meu filho, acabei não indo. Fiquei em São Paulo trabalhando nos filmes da Boca.
Esse tipo de trabalho era legal porque eles davam dinheiro. Então, você vivia
de fazer trilha e acabava emendando um trabalho no outro.
VSP- Como
foi receber aquele prêmio da APCA?
BS- Ah, foi uma coisa que me honrou muito né? Deu repercussão.
Primeiro porque eu não ganhei nada. Fiz por puro amor, a arte de fazer cinema.
Tive que convencer quatro músicos profissionais a ganharem um cachê abaixo da
lei. Era tudo tão rápido que o meu nome não aparece no cartaz. Mas o filme está
no You Tube e até hoje eu recebo elogios. É um dos melhores trabalhos da
Boca...o Jean era excelente diretor. Era um pouco arrogante, como todo artista
né? Mas ele curtiu demais o meu trabalho. O próprio (Rubem) Biáfora fez uma
crítica belíssima e destacou a trilha.
VSP- O
senhor trabalhou diversas vezes com o Adriano Stuart. Como era essa parceria?
BS- Olha, o Adriano era uma figura que nem sei o
que te falar dele. Porque ele tinha um lado meio ruim, tinha pouquíssimos
amigos, era meio problemático. Mas tinha o lado bom que te desafiava muito né?
Eu gostava demais dele. Eu tenho gratidão pelas pessoas que me ajudaram na
minha vida profissional. E o Adriano foi uma dessas pessoas. A vida de quem
trabalha nesse mercado é difícil. É difícil pra caramba entrar nesse meio. Eu
tenho 64 anos e posso falar isso por conhecimento próprio. O Adriano se
apaixonou pelo meu trabalho e não parou de trabalhar comigo. Isso tanto nos
filmes como nas peças de teatro dele. Fiz a trilha de três longas-metragens dos
Trapalhões que ele dirigiu. Num desses filmes eu tive a honra de dirigir a orquestra
da rede Globo. Inclusive eles lançaram esses filmes em DVD e não tive direito a
nada. Nem eu, Dedé, Zacarias, Mussum. Isso porque a pessoa que detém os
direitos não tem um pensamento colaborativo, solidário. Sabe quanto eu ganhei
de direitos autorais na minha carreira toda, sabe quanto? Não chega a dez mil
reais. Sabe quanto o Francis Hime ganhou de direito autoral pela trilha do Dona Flor? Cem dólares. Ele me disse que
esses cem dólares ele colocou num quadro. Os caras não pagam. O seu Remo Usai
morreu há pouco tempo. Ele é o cara que mais musicou filmes no Brasil, ele fez
de 64 longas senão estou enganado. Fez Assalto
ao Trem Pagador inclusive. O Usai morreu sem receber um tostão do ECAD. O
processo está rolando até hoje. Tudo muito difícil, muito complicado.
VSP- Como
foi trabalhar no Kung Fu Contra as
Bonecas?
BS- Foi sensacional. Até hoje eu acho muito bom
essa tiração de sarro em cima dos filmes de kung
fu. O Adriano (Stuart) tinha paixão por aqueles filmes do Bruce Lee. Então,
ele decidiu fazer uma paródia e não foi todo mundo que entendeu. Uma das partes
mais engraçadas foi quando aquele cangaceiro grandão (Maurício do Valle) faz um
papel de homossexual. Aquilo foi muito criativo né?
VSP- O
senhor frequentou muito o polo cinematográfico da Boca do Lixo?
BS- Sim. A Boca funcionava como uma grande empresa
de rua. Era super legal porque a gente encontrava com todos os nossos amigos ou
ficava no (bar) Soberano. De repente, aparecia o Galante e dizia: “Betão, tem
uma trilha pra você fazer”. Aí ele me dava um roteiro pra eu ler. Era um
ambiente hollywoodiano em minúsculas proporções, entende? Era uma época em que
o cinema dava dinheiro. O filme era um produto. O produtor investia dinheiro e
sabia que ia ter lucro de volta.
VSP- Outro filme em que o senhor trabalhou foi no O Homem de Papel
do Carlos Coimbra. O que você lembra desse trabalho?
BS- Foi o Jece que me indicou pra esse filme. O
Carlos Coimbra era gente finíssima e um grande diretor. Ele era um cara
diferente, vegetariano né? (risos). Mas um cara que sabia de cinema, editor de
mão cheia. Tenho saudades do Coimbra. Esse filme teve co-produção da Embrafilme
e o Coimbra acabou deixando o apartamento dele como garantia pra empresa. Uma espécie
de garantia. Como o filme não foi tão bem, ele acabou perdendo o apartamento.
VSP- Fala
um pouco do Emanuelle Tropical.
BS- Olha, eu acho que musiquei muita bobagem.
Muitos filmes que eu não gostei do resultado final. Mas eu gostei do meu
trabalho no Emanuelle Tropical. Foi
uma versão do Emanuelle com uma versão tropical brasileira. Você sabe a
história desse filme? Eles colocaram cinco roteiristas, tinha cinco tratamentos
diferentes. Isso porque o produtor queria fazer um bom filme, algo bacana. Mas
aí veio o diretor (Jota Marreco) e jogou tudo aquilo fora. O resultado é que
ficou algo bobo, uma bobagem. Dá até certa vergonha a gente assistir esse filme
hoje. O Jota Marreco até que era bom fotógrafo, mas acho que não conseguia ser
um bom diretor.
VSP- Como
foi o final da Boca como polo de produção?
BS- Acabou por causa do fim da Embrafilme. Algumas
produções da Boca conseguiram ajuda da empresa. Mas acabou essa parte e agora
o cinema é dependente do Estado.
VSP-
Recentemente, o senhor dirigiu alguns curtas-metragens como O Caso Letícia. Como foi essa
experiência?
BS- Eu sempre quis dirigir. Mas quando acabou a
Embrafilme, uma série de pessoas pararam de me chamar para trabalhar. Nisso,
apareceram novos compositores e fiquei meio distanciado. No final dos anos 1980,
passei a fazer outras coisas, trabalhei com publicidade. O meu primeiro curta
comecei a planejar em São Paulo. Aluguei uma câmera, uma equipe pequena e
chamei uma atriz. Fizemos um curta experimental chamado Despedida. Aí eu comecei a gostar do negócio, fiz uma trilha bacana
pra esse curtinha inclusive. Esse roteiro do Caso Letícia eu tinha na minha cabeça há muitos anos. Mandei o
roteiro pra lei Rouanet, fui aprovado e isso me ajudou a conseguir apoio.
Nisso, eu consegui chamar o Flávio Galvão que é meu amigo desde a época do Excitação. Ele é uma pessoa generosa e
fez o papel principal do curta. Já o papel feminino ficou pra Sandra Barsotti,
uma mulher maravilhosa que eu conheci no Rio de Janeiro há muitos anos. Trouxe
todo esse povo pra Goiânia e produzi meu primeiro curta profissional. Inclusive
o Canal Brasil comprou esse curta recentemente. Pra te falar a verdade, eu
tenho uma série de reservas sobre esse trabalho mas muita gente elogiou. Foi
uma experiência que tem dois lados, porque foi profundamente doloroso fazer.
Porque eu escrevi duas sinfonias, mas nunca fiz nada mais difícil que dirigir esse filme. Aqui em Goiânia é complicado trabalhar com
cinema. As pessoas não conhecem a área e isso torna tudo difícil.
VSP-
Quais são seus novos projetos?
BS- A Ancine (Agência Nacional de Cinema) aprovou o
projeto de um outro curta que eu vou fazer chamado Uma Questão Muito Delicada. É um trabalho que vai custar 150 mil
reais. Tenho apalavrado com o Werner Schünemann pra ele fazer o papel principal
nesse filme que é sobre um reencontro amoroso. Mas tem influência do Carlos
Zéfiro, sabe? (risos).
VSP-
Aquele dos catecismos?
BS- Sim (risos). Eu quero fazer em Brasília esse
filme porque lá tem um polo de cinema muito bacana. Tenho muitos amigos por lá
e acho que vai ser mais fácil produzir um lá que aqui em Goiânia.
VSP- O
senhor acredita que o Brasil é um país ingrato com os seus artistas? O senhor
acha que deveria ser mais lembrado pelos seus trabalhos dentro do cinema
brasileiro?
BS- Ah sim. Claro. Eu vou te contar uma coisa: todo
mundo sabe que meu trabalho é de primeira qualidade. Sei fazer comentário
musical, música que acompanhe os personagens durante toda uma narrativa
cinematográfica. Procurei crescer com a tecnologia musical e sei usar todos os softwares
de última geração pra editar música. Inclusive, agora recentemente terminei de
fazer a trilha pra um curta-metragem de um rapaz de Santa Catarina chamado
Ronaldo Araújo. Eu gostaria muito de voltar a fazer cinema como na época do
Adriano (Stuart), do tempo da Boca. Mas não tenho mais tanto espaço, não
conheço mais tanta gente que faz cinema. Estou me dedicando a minha produtora
fazendo clipes, vídeos empresariais e dou aulas de som para cinema. Disso que
eu estou vivendo no momento.
VSP-
Quais filmes o senhor mais gostou de ter trabalhado?
BS- Olha, eu adorei fazer a trilha do Bacalhau. Inclusive, o Ed Motta disse
que é meu fã por esse meu trabalho. Ele chegou a explicitar isso no Facebook.
Muitos DJs usam essa trilha em baladas até nos Estados Unidos. Agora, eu amei fazer a trilha do Excitação
mesmo a gente trabalhando com uma qualidade de som muito ruim. Não recebi quase
nada por esse filme que acabou sendo premiado. Uma produção em que eu adorei
fazer e foi um fracasso de público foi A
Noite dos Duros. O Homem de Papel
e Nós, os Canalhas foram trilhas que
ficaram boas. Fiz O Rei da Boca de um amigo querido, o Clery (Cunha) que respeitou muito o meu trabalho. Tem um longa chamado Confissões
de Uma Viúva Moça baseado num conto do Machado de Assis com Sandra
Barsotti, José Wilker. É um filme impossível de ser visto hoje mas foi muito
legal. Quase todos os filmes com o Adriano (Stuart) ficaram bons. O lado bom
dele é que ele respeitava o trabalho dos outros. Nunca consegui fazer uma
música que ele não gostasse. Ele respeitava o trabalho dos outros, dos
colaboradores dele.
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VSP entrevista
segunda-feira, 26 de maio de 2014
sábado, 3 de agosto de 2013
André Klotzel relembra trabalhos e convivência com Adriano Stuart
Adriano Stuart (1944-2012) possui
uma trajetória interessante dentro das artes brasileiras. O realizador nasceu
em um circo na cidade de Quatá, interior de São Paulo. Foi ator mirim da TV
Tupi e roteirista de inúmeros programas de televisão. Na Boca paulista foi
um diretor conhecido por seus trabalhos nas comédias. Clássicos como Kung Fu Contra as Bonecas e Bacalhau foram assinados por ele. Stuart
também colaborou intensamente com o grupo Trapalhões dirigindo programas e
cinco longas-metragens com a trupe. Após essa fase, Adriano voltou a ser ator. Criou
tipos interessantes em filmes de realizadores de diversas gerações como Carlos
Reichenbach (Garotas do ABC), Flávio
Frederico (Urbânia), Beto Brant (Os Matadores) e sobretudo Ugo Giorgetti
(Festa, Boleiros, O Príncipe, Boleiros
II).
Stuart morreu ano passado sem
merecer o devido reconhecimento. O cineasta André Klotzel trabalhou em quatro longas-metragens
ao lado de Adriano Stuart: Exorcismo
Negro (1974), Cada um Dá o Que Tem
(1975), Kung Fu Contra as Bonecas
(1975) e Sabendo Usar Não Vai Faltar
(1976). Ambos estiveram próximos no período de maior sucesso das produções da
rua do Triunfo. Klotzel conversou por telefone com a reportagem de VSP e recordou
alguns episódios que viveu ao lado de Adriano.
Violão,
Sardinha e Pão- Como você conheceu o Adriano Stuart?
André Klotzel- Ele foi a primeira
pessoa com quem eu trabalhei profissionalmente em cinema. Naquela época, eu estava
indo na Boca tentar conseguir algum trabalho. Mas eu batia de porta em porta, me
colocava disposição e nunca tinha uma chance. Eu estava no primeiro ano de
cinema da ECA (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo). Fomos
com uma turma conversar com o Aníbal (Massaini, produtor e proprietário da
Cinedistri). Um dos meus colegas, o Alain Fresnot cobrou o Aníbal que ele
deveria dar uma oportunidade pra alguém da USP. Ele tinha uma vaga de assistente
de produção. Nisso, eu falei que topava e acabei indo trabalhar junto com o
Adriano (Stuart). A partir daí, nós tivemos bastante contato e fomos criar uma amizade
no Exorcismo Negro. O Aníbal ia
produzir esse filme do Zé do Caixão mas ele tinha ficado noivo, precisava
viajar pra fora do país. O Adriano acabou ficando como entreposto dele aqui. Um
assistente que representava o produtor frente ao Mojica. Fiquei muito amigo do
Adriano e nisso eu fiquei conhecendo o eterno dele: o pai dele Walter Stuart, o
Lima Duarte. Aí fiz com ele Sabendo Usar Não
Vai Falta e ele dirigiu um longa em que eu fui assistente de direção
chamado Kung Fu Contra As Bonecas. Eu
não queria mais fazer produção. Esse filme foi um caos, um desastre.
VSP- Por
quê?
AK- Kung Fu foi feito de maneira muito precária. O Walter Stuart que
fazia um dos papéis principais acabou quebrando a perna no começo da filmagem.
Foi tudo feito numa precariedade tremenda. Eu como assistente acabava cobrindo
pepinos de produção no meio de todo processo. A produção era do (Alfredo)
Palácios e do (Antônio Pólo) Galante. Não sei o que aconteceu, mas as condições
de filmagem foram muito precárias. A equipe ficava hospedada em lugares
difíceis com recursos mínimos. Foi tudo feito em Porto Feliz (interior de São
Paulo), mas foi muito divertido apesar de bem complicado. Tivemos um tempo
mínimo pra realizar aquilo tudo. Depois, o Adriano foi fazer o Bacalhau e me
chamou pra trabalhar de novo com ele. Mas eu estava fora de São Paulo, no
Nordeste e acabei não fazendo mais nenhum filme com ele.
VSP-
Vocês tiveram mais contato na época dos trabalhos pro Aníbal?
AK- Sim. Nesse período tivemos
bastante contato. Teve outro episódio de um filme do Aníbal chamado Cada Um Dá o Que Tem do John Herbert em
que ele foi ator. Também estivemos juntos nessa. O Sílvio de Abreu dirigiu esse
episódio com ele. Lembro que enquanto fazíamos esse trabalho eu fui com o
Adriano no sítio em que o (Luiz Sérgio) Person morava. Ele era muito amigo do
Person. Convivi bastante com o Adriano durante um, dois anos. Ele ia muito na
Tupi e eu era muito garoto...tinha dezenove anos na época. O Adriano já tinha uns trinta
anos.
VSP- Como
era trabalhar em um filme produzido pelo Aníbal naquela época?
AK- É curioso. Na Boca apesar de
você ter um baixo orçamento tinha um profissionalismo grande. As pessoas trabalhavam
ali regularmente. O diretor de fotografia não era qualquer um, ele tinha que
ter todo um trabalho, um passado profissional. Isso era uma maneira de
trabalhar bem estabelecida mesmo sendo filmes que não tinham uma estrutura de
produção grande. Dentro da Boca, os filmes do Aníbal eram os mais bem
produzidos. Normalmente, eles podiam durar mais tempo com equipes menores e
atores qualificados. O Massaini resolveu produzir o Mojica depois que ele
ganhou um prêmio de cinema fantástico na Espanha e começou a ficar cult. Como
produtor, o Aníbal queria fazer um filme do Mojica mais sofisticado,
mais produzido. Mas não que foi bem isso que acabou acontecendo.
VSP- O
Adriano era um cara que vinha da televisão. Isso refletia na direção dele?
AS- Sim, ele era cria de
televisão. Ele vinha da Tupi desde criança. Inclusive, ele tinha sido ator
mirim na primeira versão do Sítio do
Picapau Amarelo. Depois, ele fez circo...a TV vinha do rádio. Então, tudo
era um pouco ligado. O próprio Mazzaropi era de circo...a Tupi também. O
Adriano e Walter Stuart eram atores criados no circo, a família inteira. Não
sei se você sabe disso, mas ele era dublê em cenas perigosas. Mesmo se fosse
pra fazer figuração. O Adriano sabia rolar da escada, fazer cena perigosa,
cair, se jogar. A Tupi tinha haver com o circo. A televisão era muito
interligada a esse universo circense.
VSP- Como era o Adriano no set de filmagem?
AK- Um cara tranquilo, bastante
tranquilo. Era um dos meus primeiros filmes, é até difícil eu fazer uma
avaliação objetiva daquilo tudo. Eu estava entrando no cinema. Mas eu não tenho
nenhuma lembrança de nervosismo dele, sair do sério, ficar exaltado. Ele tinha
uns gestos descompassastes. Lembro que ele deu um susto na (atriz) Alcione
Mazzeo e ela quase chorou. Depois, ele acabou se desculpando. Então, ele
aprontava umas coisas assim mas nada de se exaltar. Um cara um pouco
aprontadador, daqueles que enganavam as pessoas, sabe? Fazia umas brincadeiras.
Aliás, ele tinha um repertório vasto nisso de piadas e brincadeiras constantes.
Ele era de circo, dessa tradição circense. Tanto que ele fez cinema, dirigiu
Trapalhões e ainda voltou a ser ator.
VSP- Você
percebia que ele tinha preocupações formais com os trabalhos dele?
AK- Isso na Boca era algo
estabelecido pelo produtor. Ele não era um cara de cinema, mas tinha algum
conhecido. Era um estreante que conhecia televisão, alguma coisa de teatro.
Mesmo assim, acabava dependendo muito do produtor. Como o Aníbal era um
produtor preocupado com isso as coisas eram bem acabadas. A Cinedistri que
tinha feito O Pagador de Promessas.
Então, era uma empresa preocupada em oferecer um produto bem acabado para o mercado.
A empresa do Aníbal conseguia produzir em um padrão elevado pros filmes da Boca
em geral. O padrão acabou caindo justamente no Kung Fu Contra as Bonecas que
foi algo completamente precário. Por isso, acabou ficando um filme um pouco
diferenciado em relação aos outros. Agora, eu reassisti outro dia e achei muito
divertido. Um filme bem engraçado.
VSP- Ele
pensou em fazer uma sátira aos filmes de kung fu do Bruce Lee que faziam muito
sucesso na época?
AK- Não sei. Provavelmente sim. O
Adriano sempre foi um cara criativo e tinha um monte de ideias.
VSP- É
verdade que a Helena Ramos treinou pra fazer as cenas de luta?
AK- Ela treinou um pouco, mas o
Adriano que sabia essas coisas. Ele na hora fazia e mostrava pra ela. Lembro que
ele se preocupava com os barulhos da porrada. Ele pediu que eu fosse com um
gravador cassete gravar os ruídos de socos e porradas dos filmes do Bruce Lee
para serem usados. Lembro que fui num cinema do centrão fazer
isso. Dessa parte marcial, o Adriano cuidava pessoalmente disso porque ele
entendia muito dessas coisas. Não sei se ele chegou a treinar artes marciais,
coisas assim. Mas ele mostrava os golpes pros atores, fazia coreografia da
luta. Onde dar a porrada, como dar a porrada, essas coisas todas.
VSP- Como
foi o relacionamento de vocês com a Helena nesse filme? Ela já era uma musa do
cinema e como você falou que aquele era um longa-metragem de orçamento
restrito.
AK- A Helena foi sensacional,
sensacional. Eu achei ela o máximo, super esforçada naquele filme. Ela sempre
ficava próxima de todos, inclusive a equipe, os técnicos. Não era aquela pessoa
que ficava distante, inacessível. Fiquei amigo dela fazendo esse filme.
VSP- Como
era a direção de atores do Adriano?
AK- Ele era ator né? Então, ele
tinha um diálogo muito grande e cumplicidade com todo elenco. Muitos eram
amigos dele, colegas de profissão. O Rubens Moral, o Maurício do Valle no Kung Fu Contra as Bonecas. A direção
dele sempre tinha camaradagem e cumplicidade. Direção de ator é algo muito
complicado. Você avalia melhor o resultado porque as pessoas que subatuam
muitas vezes conseguem aproveitar o ator da melhor maneira possível. O
resultado na tela é o melhor parâmetro pra se avaliar algum trabalho.
VSP- O
que você acredita que aprendeu de direção com o Adriano Stuart?
AK- Olha, o Adriano me deu
confiança. Uma confiança no meu batismo profissional. Eu não sabia como era
trabalhar em cinema. Sei que eu saí daqueles filmes sabendo que eu era um
profissional da área. Trabalhar com ele me deu essa confiança. O próprio Aníbal
me possibilitou isso. Mas o Adriano me fez ter essa continuidade que me
possibilitou ser ao mesmo tempo aluno da USP e profissional de cinema. Era algo
raro alguém que fazia faculdade ter uma vida profissional na Boca. Poucos
colegas conseguiram isso.
VSP- Muita
gente da Boca tinha certo preconceito contra o pessoal da USP. O Adriano não tinha isso?
AK- Não, em absoluto. Ele sempre
foi a maior simpatia comigo. Me acolheu muito bem. Posso inclusive dizer que de
certa forma ele foi o meu mentor. Você precisa ter em mente que eu estava
começando. Eu via ele como um grande diretor, um grande cara. O primeiro filme
dele ele tinha uns trinta anos e devia estar um bocado inseguro. Como eu era um
jovem disposto, louco para trabalhar em cinema e que faria qualquer coisa que
fosse possível. Eu sempre me senti muito a vontade na Boca, queria ter feito
mais filmes lá. Eu pegava o carro da minha mãe pra fazer produçao. Usávamos o
carro pra levar ele na padaria com os atores da Tupi. A padaria Real era o ponto
de encontro Tupi que ainda existia naquela época. Isso acabou sendo o meu batizado, meu
primeiro trabalho. Eu aprendi pela primeira vez o que é trabalhar, o que é
trabalhar em cinema. Foi meu primeiro emprego pra valer na vida.
VSP- Como
era o relacionamento do Adriano com o Aníbal?
AK- Eles eram muito cúmplices.
Tinham quase a mesma idade inclusive. Lembro de algumas vezes eles marcava, de
beber uísque juntos, fazerem programa não sei onde, assistir tal coisa. Eles
discutiam muito os filmes. Eu não participava tanto dessa parte e não sei
exatamente o que eles conversavam. Mas havia muita confiança entre os dois.
Depois, eu perdi contato do Adriano e só fui reencontrá-lo quando ele estava
com o Festa (do Ugo Giogetti) no Festival de Gramado. De vez em quando tinha algum encontro esporádico
em algum festival, algum amigo em comum.
VSP-
Vendo os filmes dele como ator, principalmente os trabalhos do Giorgetti a
gente percebe que ele era um ator muito do improviso. Você concorda com isso?
AK- Sim. Ele tinha muito de improviso, de resolver
algo na hora. Ele tinha muitas coisas de um humor seco, áspero, muitas vezes até
carrancudo. Ele tinha um tipo durão né? Sempre tinha essa coisa de durão. O
humor dele era muito bem marcado.
VSP- Na
sua opinião, qual é o legado do Adriano pro cinema paulista e brasileiro?
AK- Não sei. Legado é algo tão
maior que é até difícil eu dizer isso objetivamente. Acho que ele representa
bem essa transição que foi interrompida de um cinema industrial em grande
escala feito no Brasil. Na Boca era feito um longa-metragem atrás do outro e
muitos realizados de maneira concentrada. O Adriano foi um dos caras que fez isso
com desenvoltura. Acho que vocês críticos, jornalistas sabem contextualizar
isso melhor.
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