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domingo, 19 de outubro de 2014

“Ganhei dez mil reais de direitos autorais durante toda a minha carreira”’



São mais de 40 longas-metragens como autor de trilhas sonoras. Mesmo desconhecido do grande público, Beto Strada é um dos profissionais que mais colaborou nos bastidores do cinema brasileiro. Ele afirma que trabalhou em 42 longas-metragens. “Não sei porque no IMDB diz que fiz apenas 34 filmes”, reclama. Strada tem uma história de vida um tanto curiosa: ele nasceu em São Luís do Maranhão e iniciou sua carreira na sétima arte no Rio com Jece Valadão. Depois, o músico mudou-se para São Paulo. Na Boca paulistana, Strada trabalhou com diversos realizadores como Jean Garrett, Clery Cunha, José Mojica Marins e sobretudo Adriano Stuart. “Ele admirava muito o meu trabalho. Tanto que chegou uma época em que eu fazia a trilha de todos os filmes dele. Inclusive os longas dos Trapalhões”. Aos 64 anos, Strada vive em Goiânia onde curte seu sétimo casamento. “Eu sempre vinha aqui e gostei muito da cidade. Acabei ficando”. No Planalto Central, o músico dirigiu o curta-metragem O Caso Letícia e está planejando a realização de mais trabalhos como diretor. Strada conversou por telefone comigo durante horas.



Violão, Sardinha e Pão- Como o senhor começou a se interessar por música?


Beto Strada- Rapaz, eu comecei a estudar música com seis anos de idade. Ainda em São Luís do Maranhão. Acabei aprendendo violino com o único professor que tinha desse instrumento na minha cidade. Ele era um veterano da Segunda Guerra e não sei como ele foi parar lá. Estudei durante seis anos violino e música erudita em geral. Sempre fui apaixonado por cinema. Em São Luís, eu vivia indo no Cine Roxy que ficava perto da minha casa. Como lá era muito quente, eles deixavam as portas do cinema abertas quando anoitecia. Nisso, eu acabava dando um jeito de entrar e via os filmes. Isso eu estou falando de 1957, 58. Mas era bacana porque eu via de tudo: Truffaut, Hitchcock. Eu não perdia nenhum filme. Com 12 anos, eu mudei pro Rio de Janeiro e foi lá que eu comecei a compor, fazer música. Porque compor no violino é muito complicado. Ele é um instrumento de solo harmônico mas nisso eu fui pegando conhecimentos de harmonia. No Rio, fui estudar com o maestro Alexandre Gnattali, irmão do Radamés. Foi nessa época que comecei a aprender violão inclusive.



VSP- Depois o senhor acabou fazendo um curso com o maestro Guerra-Peixe?



BS- Sim. Foi um curso promovido pelo Museu da Imagem e Som do Rio de Janeiro sobre técnicas de música para cinema. Foi onde eu aprendi o que era tema principal, música incidental, tudo isso. Na verdade, eu já tinha uma ideia do que era tudo isso, só faltava alguém me ensinar. Mas eu já tinha sacado várias coisas. Nisso, eu tentei ser músico popular. Acabei me tornando guitarrista de uma banda, aquelas coisas de maluco sabe? Cheguei a gravar um compacto com uma amiga minha. Até o Moacyr Franco chegou a gravar em LP uma música minha. Mas tudo isso não dava em nada. Eu já percebia que o meu negócio era compor para cinema.



VSP- Como o senhor começou a compor trilhas para cinema?



BS- Fiquei sabendo que o Jece (Valadão) ia fazer um filme chamado O Mau Caráter. Era algo baseado no Beto Rockfeller (novela da TV Tupi de grande sucesso). Fui no escritório dele na maior cara de pau e tomei o maior chá de cadeira. Fiquei esperando um tempão. Aí quando chegou a minha vez eu aumentei a história, disse que tinha regido orquestra. O Jece me disse: “Eu te dou o roteiro e você vê se consegue fazer alguma música”. Aí eu fui pra casa e li não sei quantas vezes aquele roteiro. Fiz um tema e a letra também. Lembro que estava muito inseguro. Tanto que mostrei aquela canção pra várias pessoas. Mas a maioria das pessoas acabaram gostando. Ficou muito swingada e o Jece acabou gostando da canção. Acabei tendo o convite de fazer a trilha inteira daquele filme. Depois fiz outra trilha pro Jece num outro longa dele chamado Nós, os Canalhas. Vários diretores do Rio foram me chamando e depois mudei pra São Paulo onde colaborei com diversos diretores.



VSP- Como foi trabalhar com Jece Valadão?



BS- O Jece era um batalhador, um cara que amava cinema, entende? Ele tinha o seu valor. Mas era uma pessoa difícil, muitas vezes atrasava os pagamentos, era grosseiro. Agora, ele tem seu valor porque ele amava trabalhar com cinema. Tinha um puta amor por aquilo que ele fazia. Fiz apenas dois filmes com ele, um policial e uma comédia quando ele já tinha a Magnus Filmes.



VSP- O Beco da Fome era a região do Rio onde se produziam os filmes populares. O que o senhor lembra desse ambiente?



BS- Era Beco da Fome? Nem me lembrava mais que se chamava assim. Faz muito tempo. Eu era um frequentador e ali era um centro produtor porque o cinema dava dinheiro naquela época. Tinham várias produtoras, o laboratório da Líder, as empresas de mixagem, as companhias que alugavam moviola. Tinha de tudo lá.



VSP- Como o senhor começou a trabalhar em filmes paulistas?



BS- Mudei pra São Paulo por causa do cinema e da publicidade. Eu sabia que lá tinha mais campo. Cheguei lá em 1970, quando eu tinha vinte anos. Aí fui começar do zero em São Paulo...inclusive cheguei a dormir na rua. Porque quando a gente tem vinte anos, a gente faz um monte de merda, sabe? Fui trabalhar numa produtora de comerciais chamada Prova. Você já ouviu falar nessa produtora?



VSP- Não.



BS- Foi lá que o Secos e Molhados gravaram o primeiro álbum deles. Na Prova, eu fui fazer contato porque eu já tinha feito trilha em uns dez longas-metragens no Rio. Fiquei lá até 1975 quando fui mandado embora porque eu tive uma ideia muito boa. Explico: eu tive a ideia de criar o primeiro arquivo de trilhas. Na época, as propagandas brasileiras duravam em média 30 segundos, 45 segundos e um minuto. Então, eu criei pequenas trilhas com duração nesses tempos correspondentes. Fiz um álbum de música urbana, infantil, folclore, Bossa Nova, jazz, rock, country. Lembro que até trilha de música andina eu criei pra aquela produtora. Foram uns cem temas que deixei pronto. Essa foi uma das fases que eu mais ganhei dinheiro na vida. A Caloi chegou a comprar dez trilhas minhas de uma vez só. Muitos amigos de produtoras concorrentes ficaram com inveja e o preço começou a inflacionar. Isso porque antes eles cobravam uma baita grana somente por um jingle. Fiz muito sucesso com esse sistema e cheguei a ser capa daquela revista Propaganda. Eu queria muito achar esse exemplar.



VSP- Existia muita rivalidade entre os cineastas de São Paulo e Rio?



BS- Tinha. Sempre teve né? Sempre teve essa briga porque a Embrafilme ficava no Rio de Janeiro. Mas o interessante é que tinha um órgão que controlava os exibidores, obrigava a passar filme brasileiro. Por causa disso a Haway passou a produzir cinema e o próprio Severiano Ribeiro no Rio. Tinha que cumprir a cota de tela. O dono do filme ganhava dinheiro pelo seu filme. Não tinha isso de Ancine, lei Rouanet. Bacalhau por exemplo: custou 500 mil e faturou mais de dois milhões. Triplicou o investimento, entendeu?



VSP- Um dos seus grandes trabalhos é Excitação do Jean Garrett. Como foi isso?



BS- O Jean Garrett era um puta diretor, um cara bom pra caramba. O Jean estava fazendo um filme de suspense chamado Excitação. Não tinha nada de sacanagem. Eu descobri que ele estava dublando esse filme na Odil Fono Brasil. Acabamos conversando: “Eu quero fazer a trilha”. O Jean: “O problema é que não tem dinheiro”. Eu pedi o mínimo pra eu conseguir pagar os músicos. Consegui contratar quatro músicos com um cachê mínimo. Era abaixo do valor estabelecido pelo sindicato, mas eles toparam. Nós tivemos apenas doze horas pra fazer a trilha toda, mixar. Acabei ganhando o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor trilha concorrendo com Dona Flor e seus Dois Maridos. O Excitação era um filme muito bom no meio de coisas ruins que eram feitas na Boca. Fui pedir o mínimo pra conseguir fazer algo bacana, sabe? Eu sou fã do cinema americano, francês, italiano. No Rio, eu trabalhei com o Alberto Pieralisi que era primo da Virna Lisi, uma atriz linda. Ela chegou a intermediar uma maneira de eu trabalhar com o Ennio Morricone na Itália. Mas tinha acabado de nascer o meu filho, acabei não indo. Fiquei em São Paulo trabalhando nos filmes da Boca. Esse tipo de trabalho era legal porque eles davam dinheiro. Então, você vivia de fazer trilha e acabava emendando um trabalho no outro.



VSP- Como foi receber aquele prêmio da APCA?



BS- Ah, foi uma coisa que me honrou muito né? Deu repercussão. Primeiro porque eu não ganhei nada. Fiz por puro amor, a arte de fazer cinema. Tive que convencer quatro músicos profissionais a ganharem um cachê abaixo da lei. Era tudo tão rápido que o meu nome não aparece no cartaz. Mas o filme está no You Tube e até hoje eu recebo elogios. É um dos melhores trabalhos da Boca...o Jean era excelente diretor. Era um pouco arrogante, como todo artista né? Mas ele curtiu demais o meu trabalho. O próprio (Rubem) Biáfora fez uma crítica belíssima e destacou a trilha.



VSP- O senhor trabalhou diversas vezes com o Adriano Stuart. Como era essa parceria?



BS- Olha, o Adriano era uma figura que nem sei o que te falar dele. Porque ele tinha um lado meio ruim, tinha pouquíssimos amigos, era meio problemático. Mas tinha o lado bom que te desafiava muito né? Eu gostava demais dele. Eu tenho gratidão pelas pessoas que me ajudaram na minha vida profissional. E o Adriano foi uma dessas pessoas. A vida de quem trabalha nesse mercado é difícil. É difícil pra caramba entrar nesse meio. Eu tenho 64 anos e posso falar isso por conhecimento próprio. O Adriano se apaixonou pelo meu trabalho e não parou de trabalhar comigo. Isso tanto nos filmes como nas peças de teatro dele. Fiz a trilha de três longas-metragens dos Trapalhões que ele dirigiu. Num desses filmes eu tive a honra de dirigir a orquestra da rede Globo. Inclusive eles lançaram esses filmes em DVD e não tive direito a nada. Nem eu, Dedé, Zacarias, Mussum. Isso porque a pessoa que detém os direitos não tem um pensamento colaborativo, solidário. Sabe quanto eu ganhei de direitos autorais na minha carreira toda, sabe quanto? Não chega a dez mil reais. Sabe quanto o Francis Hime ganhou de direito autoral pela trilha do Dona Flor? Cem dólares. Ele me disse que esses cem dólares ele colocou num quadro. Os caras não pagam. O seu Remo Usai morreu há pouco tempo. Ele é o cara que mais musicou filmes no Brasil, ele fez de 64 longas senão estou enganado. Fez Assalto ao Trem Pagador inclusive. O Usai morreu sem receber um tostão do ECAD. O processo está rolando até hoje. Tudo muito difícil, muito complicado.



VSP- Como foi trabalhar no Kung Fu Contra as Bonecas?



BS- Foi sensacional. Até hoje eu acho muito bom essa tiração de sarro em cima dos filmes de kung fu. O Adriano (Stuart) tinha paixão por aqueles filmes do Bruce Lee. Então, ele decidiu fazer uma paródia e não foi todo mundo que entendeu. Uma das partes mais engraçadas foi quando aquele cangaceiro grandão (Maurício do Valle) faz um papel de homossexual. Aquilo foi muito criativo né?



VSP- O senhor frequentou muito o polo cinematográfico da Boca do Lixo?



BS- Sim. A Boca funcionava como uma grande empresa de rua. Era super legal porque a gente encontrava com todos os nossos amigos ou ficava no (bar) Soberano. De repente, aparecia o Galante e dizia: “Betão, tem uma trilha pra você fazer”. Aí ele me dava um roteiro pra eu ler. Era um ambiente hollywoodiano em minúsculas proporções, entende? Era uma época em que o cinema dava dinheiro. O filme era um produto. O produtor investia dinheiro e sabia que ia ter lucro de volta.



VSP- Outro filme em que o senhor trabalhou foi no O Homem de Papel do Carlos Coimbra. O que você lembra desse trabalho?



BS- Foi o Jece que me indicou pra esse filme. O Carlos Coimbra era gente finíssima e um grande diretor. Ele era um cara diferente, vegetariano né? (risos). Mas um cara que sabia de cinema, editor de mão cheia. Tenho saudades do Coimbra. Esse filme teve co-produção da Embrafilme e o Coimbra acabou deixando o apartamento dele como garantia pra empresa. Uma espécie de garantia. Como o filme não foi tão bem, ele acabou perdendo o apartamento.



VSP- Fala um pouco do Emanuelle Tropical.



BS- Olha, eu acho que musiquei muita bobagem. Muitos filmes que eu não gostei do resultado final. Mas eu gostei do meu trabalho no Emanuelle Tropical. Foi uma versão do Emanuelle com uma versão tropical brasileira. Você sabe a história desse filme? Eles colocaram cinco roteiristas, tinha cinco tratamentos diferentes. Isso porque o produtor queria fazer um bom filme, algo bacana. Mas aí veio o diretor (Jota Marreco) e jogou tudo aquilo fora. O resultado é que ficou algo bobo, uma bobagem. Dá até certa vergonha a gente assistir esse filme hoje. O Jota Marreco até que era bom fotógrafo, mas acho que não conseguia ser um bom diretor.



VSP- Como foi o final da Boca como polo de produção?



BS- Acabou por causa do fim da Embrafilme. Algumas produções da Boca conseguiram ajuda da empresa. Mas acabou essa parte e agora o cinema é dependente do Estado.



VSP- Recentemente, o senhor dirigiu alguns curtas-metragens como O Caso Letícia. Como foi essa experiência?



BS- Eu sempre quis dirigir. Mas quando acabou a Embrafilme, uma série de pessoas pararam de me chamar para trabalhar. Nisso, apareceram novos compositores e fiquei meio distanciado. No final dos anos 1980, passei a fazer outras coisas, trabalhei com publicidade. O meu primeiro curta comecei a planejar em São Paulo. Aluguei uma câmera, uma equipe pequena e chamei uma atriz. Fizemos um curta experimental chamado Despedida. Aí eu comecei a gostar do negócio, fiz uma trilha bacana pra esse curtinha inclusive. Esse roteiro do Caso Letícia eu tinha na minha cabeça há muitos anos. Mandei o roteiro pra lei Rouanet, fui aprovado e isso me ajudou a conseguir apoio. Nisso, eu consegui chamar o Flávio Galvão que é meu amigo desde a época do Excitação. Ele é uma pessoa generosa e fez o papel principal do curta. Já o papel feminino ficou pra Sandra Barsotti, uma mulher maravilhosa que eu conheci no Rio de Janeiro há muitos anos. Trouxe todo esse povo pra Goiânia e produzi meu primeiro curta profissional. Inclusive o Canal Brasil comprou esse curta recentemente. Pra te falar a verdade, eu tenho uma série de reservas sobre esse trabalho mas muita gente elogiou. Foi uma experiência que tem dois lados, porque foi profundamente doloroso fazer. Porque eu escrevi duas sinfonias, mas nunca fiz nada mais difícil que dirigir esse filme. Aqui em Goiânia é complicado trabalhar com cinema. As pessoas não conhecem a área e isso torna tudo difícil.



VSP- Quais são seus novos projetos?



BS- A Ancine (Agência Nacional de Cinema) aprovou o projeto de um outro curta que eu vou fazer chamado Uma Questão Muito Delicada. É um trabalho que vai custar 150 mil reais. Tenho apalavrado com o Werner Schünemann pra ele fazer o papel principal nesse filme que é sobre um reencontro amoroso. Mas tem influência do Carlos Zéfiro, sabe? (risos).



VSP- Aquele dos catecismos?



BS- Sim (risos). Eu quero fazer em Brasília esse filme porque lá tem um polo de cinema muito bacana. Tenho muitos amigos por lá e acho que vai ser mais fácil produzir um lá que aqui em Goiânia.



VSP- O senhor acredita que o Brasil é um país ingrato com os seus artistas? O senhor acha que deveria ser mais lembrado pelos seus trabalhos dentro do cinema brasileiro?



BS- Ah sim. Claro. Eu vou te contar uma coisa: todo mundo sabe que meu trabalho é de primeira qualidade. Sei fazer comentário musical, música que acompanhe os personagens durante toda uma narrativa cinematográfica. Procurei crescer com a tecnologia musical e sei usar todos os softwares de última geração pra editar música. Inclusive, agora recentemente terminei de fazer a trilha pra um curta-metragem de um rapaz de Santa Catarina chamado Ronaldo Araújo. Eu gostaria muito de voltar a fazer cinema como na época do Adriano (Stuart), do tempo da Boca. Mas não tenho mais tanto espaço, não conheço mais tanta gente que faz cinema. Estou me dedicando a minha produtora fazendo clipes, vídeos empresariais e dou aulas de som para cinema. Disso que eu estou vivendo no momento.



VSP- Quais filmes o senhor mais gostou de ter trabalhado?



BS- Olha, eu adorei fazer a trilha do Bacalhau. Inclusive, o Ed Motta disse que é meu fã por esse meu trabalho. Ele chegou a explicitar isso no Facebook. Muitos DJs usam essa trilha em baladas até nos Estados Unidos. Agora, eu amei fazer a trilha do Excitação mesmo a gente trabalhando com uma qualidade de som muito ruim. Não recebi quase nada por esse filme que acabou sendo premiado. Uma produção em que eu adorei fazer e foi um fracasso de público foi A Noite dos Duros. O Homem de Papel e Nós, os Canalhas foram trilhas que ficaram boas. Fiz O Rei da Boca de um amigo querido, o Clery (Cunha) que respeitou muito o meu trabalho. Tem um longa chamado Confissões de Uma Viúva Moça baseado num conto do Machado de Assis com Sandra Barsotti, José Wilker. É um filme impossível de ser visto hoje mas foi muito legal. Quase todos os filmes com o Adriano (Stuart) ficaram bons. O lado bom dele é que ele respeitava o trabalho dos outros. Nunca consegui fazer uma música que ele não gostasse. Ele respeitava o trabalho dos outros, dos colaboradores dele.

sábado, 3 de agosto de 2013

André Klotzel relembra trabalhos e convivência com Adriano Stuart



Adriano Stuart (1944-2012) possui uma trajetória interessante dentro das artes brasileiras. O realizador nasceu em um circo na cidade de Quatá, interior de São Paulo. Foi ator mirim da TV Tupi e roteirista de inúmeros programas de televisão. Na Boca paulista foi um diretor conhecido por seus trabalhos nas comédias. Clássicos como Kung Fu Contra as Bonecas e Bacalhau foram assinados por ele. Stuart também colaborou intensamente com o grupo Trapalhões dirigindo programas e cinco longas-metragens com a trupe. Após essa fase, Adriano voltou a ser ator. Criou tipos interessantes em filmes de realizadores de diversas gerações como Carlos Reichenbach (Garotas do ABC), Flávio Frederico (Urbânia), Beto Brant (Os Matadores) e sobretudo Ugo Giorgetti (Festa, Boleiros, O Príncipe, Boleiros II).



Stuart morreu ano passado sem merecer o devido reconhecimento. O cineasta André Klotzel trabalhou em quatro longas-metragens ao lado de Adriano Stuart: Exorcismo Negro (1974), Cada um Dá o Que Tem (1975), Kung Fu Contra as Bonecas (1975) e Sabendo Usar Não Vai Faltar (1976). Ambos estiveram próximos no período de maior sucesso das produções da rua do Triunfo. Klotzel conversou por telefone com a reportagem de VSP e recordou alguns episódios que viveu ao lado de Adriano.





Violão, Sardinha e Pão- Como você conheceu o Adriano Stuart?



André Klotzel- Ele foi a primeira pessoa com quem eu trabalhei profissionalmente em cinema. Naquela época, eu estava indo na Boca tentar conseguir algum trabalho. Mas eu batia de porta em porta, me colocava disposição e nunca tinha uma chance. Eu estava no primeiro ano de cinema da ECA (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo). Fomos com uma turma conversar com o Aníbal (Massaini, produtor e proprietário da Cinedistri). Um dos meus colegas, o Alain Fresnot cobrou o Aníbal que ele deveria dar uma oportunidade pra alguém da USP. Ele tinha uma vaga de assistente de produção. Nisso, eu falei que topava e acabei indo trabalhar junto com o Adriano (Stuart). A partir daí, nós tivemos bastante contato e fomos criar uma amizade no Exorcismo Negro. O Aníbal ia produzir esse filme do Zé do Caixão mas ele tinha ficado noivo, precisava viajar pra fora do país. O Adriano acabou ficando como entreposto dele aqui. Um assistente que representava o produtor frente ao Mojica. Fiquei muito amigo do Adriano e nisso eu fiquei conhecendo o eterno dele: o pai dele Walter Stuart, o Lima Duarte. Aí fiz com ele Sabendo Usar Não Vai Falta e ele dirigiu um longa em que eu fui assistente de direção chamado Kung Fu Contra As Bonecas. Eu não queria mais fazer produção. Esse filme foi um caos, um desastre.



VSP- Por quê?



AK- Kung Fu foi feito de maneira muito precária. O Walter Stuart que fazia um dos papéis principais acabou quebrando a perna no começo da filmagem. Foi tudo feito numa precariedade tremenda. Eu como assistente acabava cobrindo pepinos de produção no meio de todo processo. A produção era do (Alfredo) Palácios e do (Antônio Pólo) Galante. Não sei o que aconteceu, mas as condições de filmagem foram muito precárias. A equipe ficava hospedada em lugares difíceis com recursos mínimos. Foi tudo feito em Porto Feliz (interior de São Paulo), mas foi muito divertido apesar de bem complicado. Tivemos um tempo mínimo pra realizar aquilo tudo. Depois, o Adriano foi fazer o Bacalhau e me chamou pra trabalhar de novo com ele. Mas eu estava fora de São Paulo, no Nordeste e acabei não fazendo mais nenhum filme com ele.



VSP- Vocês tiveram mais contato na época dos trabalhos pro Aníbal?



AK- Sim. Nesse período tivemos bastante contato. Teve outro episódio de um filme do Aníbal chamado Cada Um Dá o Que Tem do John Herbert em que ele foi ator. Também estivemos juntos nessa. O Sílvio de Abreu dirigiu esse episódio com ele. Lembro que enquanto fazíamos esse trabalho eu fui com o Adriano no sítio em que o (Luiz Sérgio) Person morava. Ele era muito amigo do Person. Convivi bastante com o Adriano durante um, dois anos. Ele ia muito na Tupi e eu era muito garoto...tinha dezenove anos na época. O Adriano já tinha uns trinta anos.



VSP- Como era trabalhar em um filme produzido pelo Aníbal naquela época?



AK- É curioso. Na Boca apesar de você ter um baixo orçamento tinha um profissionalismo grande. As pessoas trabalhavam ali regularmente. O diretor de fotografia não era qualquer um, ele tinha que ter todo um trabalho, um passado profissional. Isso era uma maneira de trabalhar bem estabelecida mesmo sendo filmes que não tinham uma estrutura de produção grande. Dentro da Boca, os filmes do Aníbal eram os mais bem produzidos. Normalmente, eles podiam durar mais tempo com equipes menores e atores qualificados. O Massaini resolveu produzir o Mojica depois que ele ganhou um prêmio de cinema fantástico na Espanha e começou a ficar cult. Como produtor, o Aníbal queria fazer um filme do Mojica mais sofisticado, mais produzido. Mas não que foi bem isso que acabou acontecendo.



VSP- O Adriano era um cara que vinha da televisão. Isso refletia na direção dele?



AS- Sim, ele era cria de televisão. Ele vinha da Tupi desde criança. Inclusive, ele tinha sido ator mirim na primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo. Depois, ele fez circo...a TV vinha do rádio. Então, tudo era um pouco ligado. O próprio Mazzaropi era de circo...a Tupi também. O Adriano e Walter Stuart eram atores criados no circo, a família inteira. Não sei se você sabe disso, mas ele era dublê em cenas perigosas. Mesmo se fosse pra fazer figuração. O Adriano sabia rolar da escada, fazer cena perigosa, cair, se jogar. A Tupi tinha haver com o circo. A televisão era muito interligada a esse universo circense.



VSP- Como era o Adriano no set de filmagem?



AK- Um cara tranquilo, bastante tranquilo. Era um dos meus primeiros filmes, é até difícil eu fazer uma avaliação objetiva daquilo tudo. Eu estava entrando no cinema. Mas eu não tenho nenhuma lembrança de nervosismo dele, sair do sério, ficar exaltado. Ele tinha uns gestos descompassastes. Lembro que ele deu um susto na (atriz) Alcione Mazzeo e ela quase chorou. Depois, ele acabou se desculpando. Então, ele aprontava umas coisas assim mas nada de se exaltar. Um cara um pouco aprontadador, daqueles que enganavam as pessoas, sabe? Fazia umas brincadeiras. Aliás, ele tinha um repertório vasto nisso de piadas e brincadeiras constantes. Ele era de circo, dessa tradição circense. Tanto que ele fez cinema, dirigiu Trapalhões e ainda voltou a ser ator.



VSP- Você percebia que ele tinha preocupações formais com os trabalhos dele?



AK- Isso na Boca era algo estabelecido pelo produtor. Ele não era um cara de cinema, mas tinha algum conhecido. Era um estreante que conhecia televisão, alguma coisa de teatro. Mesmo assim, acabava dependendo muito do produtor. Como o Aníbal era um produtor preocupado com isso as coisas eram bem acabadas. A Cinedistri que tinha feito O Pagador de Promessas. Então, era uma empresa preocupada em oferecer um produto bem acabado para o mercado. A empresa do Aníbal conseguia produzir em um padrão elevado pros filmes da Boca em geral. O padrão acabou caindo justamente no Kung Fu Contra as Bonecas que foi algo completamente precário. Por isso, acabou ficando um filme um pouco diferenciado em relação aos outros. Agora, eu reassisti outro dia e achei muito divertido. Um filme bem engraçado.



VSP- Ele pensou em fazer uma sátira aos filmes de kung fu do Bruce Lee que faziam muito sucesso na época?



AK- Não sei. Provavelmente sim. O Adriano sempre foi um cara criativo e tinha um monte de ideias.



VSP- É verdade que a Helena Ramos treinou pra fazer as cenas de luta?



AK- Ela treinou um pouco, mas o Adriano que sabia essas coisas. Ele na hora fazia e mostrava pra ela. Lembro que ele se preocupava com os barulhos da porrada. Ele pediu que eu fosse com um gravador cassete gravar os ruídos de socos e porradas dos filmes do Bruce Lee para serem usados. Lembro que fui num cinema do centrão fazer isso. Dessa parte marcial, o Adriano cuidava pessoalmente disso porque ele entendia muito dessas coisas. Não sei se ele chegou a treinar artes marciais, coisas assim. Mas ele mostrava os golpes pros atores, fazia coreografia da luta. Onde dar a porrada, como dar a porrada, essas coisas todas.



VSP- Como foi o relacionamento de vocês com a Helena nesse filme? Ela já era uma musa do cinema e como você falou que aquele era um longa-metragem de orçamento restrito.



AK- A Helena foi sensacional, sensacional. Eu achei ela o máximo, super esforçada naquele filme. Ela sempre ficava próxima de todos, inclusive a equipe, os técnicos. Não era aquela pessoa que ficava distante, inacessível. Fiquei amigo dela fazendo esse filme.



VSP- Como era a direção de atores do Adriano?



AK- Ele era ator né? Então, ele tinha um diálogo muito grande e cumplicidade com todo elenco. Muitos eram amigos dele, colegas de profissão. O Rubens Moral, o Maurício do Valle no Kung Fu Contra as Bonecas. A direção dele sempre tinha camaradagem e cumplicidade. Direção de ator é algo muito complicado. Você avalia melhor o resultado porque as pessoas que subatuam muitas vezes conseguem aproveitar o ator da melhor maneira possível. O resultado na tela é o melhor parâmetro pra se avaliar algum trabalho.



VSP- O que você acredita que aprendeu de direção com o Adriano Stuart?



AK- Olha, o Adriano me deu confiança. Uma confiança no meu batismo profissional. Eu não sabia como era trabalhar em cinema. Sei que eu saí daqueles filmes sabendo que eu era um profissional da área. Trabalhar com ele me deu essa confiança. O próprio Aníbal me possibilitou isso. Mas o Adriano me fez ter essa continuidade que me possibilitou ser ao mesmo tempo aluno da USP e profissional de cinema. Era algo raro alguém que fazia faculdade ter uma vida profissional na Boca. Poucos colegas conseguiram isso.



VSP- Muita gente da Boca tinha certo preconceito contra o pessoal da USP.  O Adriano não tinha isso?



AK- Não, em absoluto. Ele sempre foi a maior simpatia comigo. Me acolheu muito bem. Posso inclusive dizer que de certa forma ele foi o meu mentor. Você precisa ter em mente que eu estava começando. Eu via ele como um grande diretor, um grande cara. O primeiro filme dele ele tinha uns trinta anos e devia estar um bocado inseguro. Como eu era um jovem disposto, louco para trabalhar em cinema e que faria qualquer coisa que fosse possível. Eu sempre me senti muito a vontade na Boca, queria ter feito mais filmes lá. Eu pegava o carro da minha mãe pra fazer produçao. Usávamos o carro pra levar ele na padaria com os atores da Tupi. A padaria Real era o ponto de encontro Tupi que ainda existia naquela época. Isso acabou sendo o meu batizado, meu primeiro trabalho. Eu aprendi pela primeira vez o que é trabalhar, o que é trabalhar em cinema. Foi meu primeiro emprego pra valer na vida.



VSP- Como era o relacionamento do Adriano com o Aníbal?



AK- Eles eram muito cúmplices. Tinham quase a mesma idade inclusive. Lembro de algumas vezes eles marcava, de beber uísque juntos, fazerem programa não sei onde, assistir tal coisa. Eles discutiam muito os filmes. Eu não participava tanto dessa parte e não sei exatamente o que eles conversavam. Mas havia muita confiança entre os dois. Depois, eu perdi contato do Adriano e só fui reencontrá-lo quando ele estava com o Festa (do Ugo Giogetti) no Festival de Gramado. De vez em quando tinha algum encontro esporádico em algum festival, algum amigo em comum.



VSP- Vendo os filmes dele como ator, principalmente os trabalhos do Giorgetti a gente percebe que ele era um ator muito do improviso. Você concorda com isso?



AK- Sim. Ele tinha muito de improviso, de resolver algo na hora. Ele tinha muitas coisas de um humor seco, áspero, muitas vezes até carrancudo. Ele tinha um tipo durão né? Sempre tinha essa coisa de durão. O humor dele era muito bem marcado.



VSP- Na sua opinião, qual é o legado do Adriano pro cinema paulista e brasileiro?



AK- Não sei. Legado é algo tão maior que é até difícil eu dizer isso objetivamente. Acho que ele representa bem essa transição que foi interrompida de um cinema industrial em grande escala feito no Brasil. Na Boca era feito um longa-metragem atrás do outro e muitos realizados de maneira concentrada. O Adriano foi um dos caras que fez isso com desenvoltura. Acho que vocês críticos, jornalistas sabem contextualizar isso melhor.