Palestra minha com a
atriz Débora Muniz que aconteceu no último dia 8 de novembro na Casa Guilherme
de Almeida (rua Cardoso de Almeida, 1943, São Paulo) dentro do curso “A Boca
Por Eles e Elas”. Fotos de Angélica Pretto.
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quinta-feira, 28 de novembro de 2019
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Musa da Boca Débora Munhyz lança biografia
Por Matheus Trunk
São mais de 20
longas-metragens no currículo. A pernambucana Débora Munhyz tornou-se nome
conhecido no cinema nos anos 1980 quando participou de diversões produções da
Boca paulistana. Seu início foi com o diretor e produtor José Mojica Marins, o
Zé do Caixão e prosseguiu depois trabalhando com diversos profissionais do
quadrilátero. “A Boca foi a minha segunda casa. Eu escolhi viver e usufruir do
lado positivo da grande indústria cinematográfica: o castelo de sonhos que
virava realidade”, relembra ela com nostalgia.
A vida profissional da musa está no livro Débora Munhyz: do terror ao amor
publicado pela editora Laços com organização do radialista e produtor cultural
Rafael Spaca. A obra não teve lançamento oficial mas pode ser adquirida
diretamente com a editora pelo email editoralacos2016@gmail.com. Débora conversou com o VSP sobre o livro e sua trajetória na
sétima arte.
Como surgiu a ideia desse livro?
Débora
Munhyz: A ideia do livro surgiu mais ou menos em 1999. No
final da década de 1980, eu parei com tudo: cinema, teatro, atuação. Fui pro
Japão trabalhar com danças e eventos e voltei pro Brasil somente em 1999. Nessa
época, um jornalista chamado André Lourenço se interessou e teve a ideia de
fazer um livro sobre isso. Na época, eu achava uma loucura, dizia: “Não estou
preparara para isso. De jeito nenhum”. Mas ele insistiu tanto e começou a fazer
pesquisas, levantou um material grande. Mas no decorrer disso tudo aconteceu
uma coisa horrível que foi a morte do André. Foi um acidente e eu nem gosto de
falar sobre isso. Aí deixou de existir o projeto do livro.
Muitos anos depois eu
conheci o Rafael (Spaca, editor) que estava fazendo uma matéria sobre outra
atriz da Boca. Ficamos conversando e ele ficou insistindo na história de fazer
um livro. Aí novamente veio toda aquela história, mexeu com a minha cabeça. Mas
a insistência do Rafael durou dois anos e eu comecei a pensar no pedido do
André. Então, eu resolvi aceitar o
convite em homenagem a esse amigo querido. Isso foi rolando por alguns anos e
agora finalmente está saindo.
Como
você descobriu que queria ser atriz?
Eu descobri que queria
ser atriz quando nem sabia o significado disso. Eu cresci no interior do Paraná
numa fazenda e depois mudamos para a cidade chamada Itapejara do Oeste. Botaram
uma televisão na praça central e foi ali que tive o primeiro contato com a
atuação. É incrível que até hoje eu tenho a imagem da primeira cena que
assisti: um pai pegando no braço de uma menininha atravessando a rua. Na mesma
hora, eu peguei na mão do meu pai e falei: “Vou fazer aquilo”. Nem sabia do que
se tratava, do que era.
Passou o tempo e vim
para São Paulo quando eu tinha dez anos. Foi quando comecei a me inteirar e
assistir televisão na casa de uma tia. A vontade foi aumentando a vontade de participar
daquilo. Tive o acesso num primeiro anúncio do jornal que falavam das
escolinhas de cinema. Nisso, eu acabei caindo na escolinha da Planeta Filmes do
(cineasta) Wilson Rodrigues. Fiquei ali uns dois meses mais ou menos. De lá, o
(assistente de câmera) Geraldo Damasceno me levou para a escola de atores do
José Mojica Marins que na época ficava ali na (rua) Barão de Jaguara, na Mooca
(zona leste de São Paulo). Aí começou toda história e me tornei aluna do Zé do
Caixão.
Como
foi esse começo com o José Mojica Marins? Que importância ele teve na sua
carreira?
Naquela época, os
cursos de interpretação eram ministrados pelos alunos mais experientes. O
senhor Mojica passava somente as provas pra gente. Dividiram a gente em três
grupos. Montava-se um grupo que concorria com o outro. O meu grupo acabou
vencendo e foi maravilhoso. Era muito bom porque você aprendia a fazer de tudo:
montagem, continuidade e sempre acabava fazendo uma pontinha em alguma
produção. Mas o aprendizado com o seu Mojica não foi como atriz somente, mas
principalmente como pessoa. Ele tinha um círculo de amizades muito bom e para
mim era maravilhoso já que eu era adolescente ainda. Então, eu tinha muita
curiosidade de aprender e ficava num cantinho ouvindo pessoas conversando como
o (físico) Mário Schenberg, o (ator) Jofre Soares ou o (produtor) Wilson
Garcia. O Mojica foi muito importante como uma grande universidade e a minha
família mesmo não aceitava aquilo. Na época que eu entrei fiz amizades muito
fortes com outras pessoas que estavam começando como o Satã ou com a Fátima
Sena Porto. Então, o Mojica foi uma espécie de pai que eu respeito muito. Dele
guardo muito carinho e consideração.
Como
você começou a trabalhar com outros diretores de São Paulo?
O Mojica abriu um
escritório no edifício Soberano na rua do Triunfo. Esse espaço funcionava para
recrutar alunos para fazer a escola dele. Eu era secretária desse escritório,
resolvendo de tudo um pouco. Recebíamos as pessoas de fora que procuravam a
escola, fazíamos o cadastro dos futuros alunos e foi assim que conheci diversas
pessoas da antiga Boca do Cinema. Foi lá que conheci o Ary Fernandes, o Elias
Khouri. Resolvíamos os problemas dos filmes, o lado burocrático das viagens do
Mojica. Ali começou o meu convívio diário na rua do Triunfo trabalhando no
escritório e tendo contato com as pessoas que circulavam por ali.
Eu só tinha feito um
filme nessa época que era A Mulher Que
Põe a Pomba no Ar da Rosângela Maldonado. Nessa produção, a minha
personagem chamava-se Débora. O meu nome verdadeiro é Maria das Neves. Mas
diziam: “Você é a Débora do filme da Rosângela?”. E acabou ficando Débora. Esse
virou meu nome artístico.
Já
que você citou o Ary Fernandes, fala um pouco do convívio com ele. O que você
aprendeu com ele?
O Ary foi uma das
primeiras pessoas que eu conheci na Boca. Ele foi um dos primeiros amigos e
protetores que eu tive na minha história ali. O primeiro filme que eu fiz com
ele foi Essas Deliciosas Mulheres que
foi filmado em Poços de Caldas (interior de Minas Gerais). Cheguei a fazer
quatro filmes com ele como A Fábrica de
Camisinhas, Taras Eróticas. Tudo
participação pequena, mas era o meu começo. O Ary me ensinou como era a
política do meio cinematográfico da época, como eu devia me portar com as
pessoas da rua do Triunfo. Então, ele me ensinou muito da postura que eu tinha
que ter como profissional.
E
com o Tony Vieira? Você fez um filme com ele, certo?
O Tony Vieira foi um
grande amigo. Aprendi com ele muito da vida, a ser humano e enfrentar as
dificuldades. Fiz um único trabalho com ele que foi um marco na minha vida: O Último Cão de Guerra. Era uma época
em que estava terminando a Ditadura e o Tony foi muito corajoso em fazer um
filme com aquele tema. Era um tema sério, polêmico e filmado dentro da Base
Aérea de Cumbica. Nós filmamos acho que vinte dias lá. Foi muito enriquecedor
já que tivemos acesso a muitas coisas que aconteciam ali dentro. Eu costumo
dizer que tanto o Tony como o Mojica foram pessoas muito interessantes e com as
quais eu aprendi muito. O Mojica mais como um pai e o Tony mais como aquele
amigo que me ensinou que não existe limites quando você quer algo, quando você
busca algo de verdade na sua vida. Eu defino o Tony como um operário do cinema
da Boca. Foi um grande amigo e me ensinou a encarar a vida sem medo de lutar em
busca do que quero.
Como
era pra uma mulher frequentar um ambiente como a Boca? Era muito machista?
É incrível que
praticamente eu não percebi esse lado machista da Boca. Eu tinha amigos muito
queridos que me protegeram lá dentro. Claro que o meio artístico da época era
muito machista. O cinema sempre foi muito machista e quem trazia o grande
público para as produções eram as meninas. Mas eu passei a minha adolescência
na Boca. Tinha um círculo de amizades com pessoas que tinham outra cabeça, uma
cabeça mais familiar. Então, eu chamo de minha família da Boca. Essas pessoas
me viam primeiro como ser humano, como uma adolescente querendo aprender.
Agradeço muito a Deus por ter conhecido pessoas como Ary Fernandes, Augusto de
Cervantes, Jean Garrett, Satã, Mojica, Tony Vieira, Chico Cavalcanti. Esses
sempre me protegeram. Então, eu tive pessoas queridas foram me cuidaram de
verdade e acho que pela orientação deles eu não vi tantas pessoas que viam a
mulher como objeto. Eles criaram uma redoma em volta de mim deixando muita
gente sem acesso.
Quando vinham algumas cantadas
eu sempre bancava a bobinha que não estava entendendo tudo. Então, enquanto me
viam como boba eu trabalhava. A Boca naquele momento era a minha segunda casa.
Claro que existiram muitos problemas, fofocas como todo lugar, mas nunca dei
importância. Nunca alimentei o lado negativo. Eu escolhi viver e usufruir do
lado positivo da história da Boca que foi a grande indústria cinematográfica: o
castelo de sonhos onde podia virar realidade. Onde eu podia ir para a frente da
tela fazer os meus filmes, as minhas amizades. Então, o lado ruim eu nunca
levei em conta. Nunca alimentei essa coisa toda.
Você
trabalhou na fase explícita. Como foi isso? Como você avalia essa parte da sua
carreira?
Quando chegou filmes
como Coisas Eróticas e O Império dos Sentidos ficou difícil. A
Boca começou a produzir somente longas-metragens com sexo explícito. Fiquei
muito tempo sem aceitar fazer. Só que o tempo foi passando e comecei a me
questionar. O Ary Fernandes era um que falava muito comigo: “Vamos conversar
sério. Você vai parar ou continuar? Que rumo você via dar?”. Foi quando eu
recebi um convite da (produtora) Haway através do (produtor) Fernando
(Gregório) pra fazer A B... Profunda.
Eu fiquei seis meses pensando desde que veio a primeira proposta. Depois,
acabei indo numa reunião na Haway onde inclusive conheci o (diretor ) Álvaro de
Moya. Então, aí começou o questionamento interior: “O que fazer?”. Aí não era
mais a questão de aceitar fazer o explícito ou não. Era a questão aceitar
continuar fazendo cinema ou não e no começo foi muito difícil, a opção, aceitar
fazer foi muito complicado. Mas eu pensava
muito no que o Ary Fernandes tinha me falado: “Débora se você não fizer
o cinema parou”. Foi quando eu optei em
fazer. Ou seja: no momento não foi em fazer sexo explícito eu optei em
continuar fazendo cinema.
O Moya sabia das
dificuldades. Tanto que no primeiro dia de filmagens tive uma rejeição interna
enorme. Mas eu avisei o Moya: “Se cortar eu não repito a cena. Então, fica de
primeira não dá pra cortar, pra repetir não”. Ele levou isso muito a sério,
colocou duas câmeras e foi. Minha cabeça entrou num turbilhão. Fiz a cena
inteira e quando ele disse: “Corta”, eu desmaiei. Foi um dos momentos mais
difíceis da minha vida no meio artístico. Depois veio inclusive um médico me
visitar. Foi um dia muito difícil nas filmagens. Mas voltou ao normal e comecei
a pensar na Débora que veio para vencer, que sabia o que queria da vida e
cinema era a minha vida. Eu me propus a fazer cinema que era o que eu queria e
se naquele momento a única forma de fazer cinema era aceitar esse tipo de
segmento tudo bem. Já tinha feito o primeiro.
Naquele período eu só
fazia cena explícita com um ator. Normalmente, eu fazia uma cena por filme com
exceção do Gozo Alucinante do Jean
Garrett com produção do Augusto de Cervantes. Essa foi uma das maiores
produções de sexo explícito que teve na rua do Triunfo. Então, a partir daquele
momento que aceitei, eu levantei a cabeça e falei: “Vou fazer o melhor que eu
puder, mas com a responsabilidade de fazer cinema”. Depois, a maioria dos
diretores passaram a se preocupar somente com as cenas de sexo explícito até
que virou somente sexo explícito. Então, eu acho que na verdade o cinema da
Boca foi prostituído.
Como
você se adaptou ao final da Boca para ser ativa no teatro e em outros lugares?
Depois de um tempo
acabei desistindo daquele cinema. Parei com tudo e fui embora pro Japão viver
de dança, eventos e shows. Quando voltei de lá, encontrei com amigos queridos
que estavam indo pro teatro como o diretor Roberto Rocco. Meu primeiro
espetáculo nessa volta foi o Tropicanalha
do Aziz Bajur. Naquele momento eu queria fazer teatro, queria fazer cinema, mas
com muito cuidado e foi o que aconteceu. Fiquei muito tempo sem fazer cinema
porque as coisas que vinham não me interessavam. Então, esperei vir algo que eu
acabei me interessando.
Que
importância teve pra você participar do curta-metragem Amor Só de Mãe do Dennison Ramalho? O que mudou na sua vida depois
disso?
Eu
fui conhecer o Dennison quando ele me mandou esse roteiro. Acredito que
conhecer ele abriu um novo horizonte pra mim. Desde o primeiro momento vi que
ele era um jovem sincero, batalhador e que buscava um cinema sério. Acho que
foi a coisa mais certa que eu fiz na minha vida. Me senti respeitada como pessoa,
profissional e como mulher. Então, Amor
Só de Mãe foi um marco na minha vida, foi o meu retorno de forma digna
porque fazia muito tempo que eu não fazia cinema. Espero muito que eu encontre
outro filme, outro personagem que me dê tantas possibilidades. Um personagem
como Formosa que eu fazia no Amor Só de
Mãe. Pra mim, foi o melhor personagem que já fiz em cinema.
O
que você espera com o livro?
Espero contar parte da
minha história. Mas principalmente falar de pessoas queridas da Boca. Dessa
parte da rua do Triunfo com a minha visão, da forma que eu vivi, da forma que
eu convivi com pessoas que respiravam cinema e se alimentavam de cinema. A
minha prioridade é lembrar dessas pessoas, muitas delas nem são lembradas hoje.
Vamos dizer que seja uma homenagem a amigos queridos, essa família linda que eu
tive o prazer de conviver e que pra mim é um grande orgulho. Foi um presente de
Deus ter podido estar presente na história do cinema nacional na metade da
década de 70 e 80. Não tenho pretensões em fazer um livro acadêmico de mostrar
uma história luxuosa, não nada disso. A Boca não era nada disso: a Boca era
simples, a Boca era humilde. E assim é o meu livro.
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sábado, 21 de maio de 2016
Superfêmeas III: Débora Muniz
DÉBORA
MUNIZ
Luz,
câmera, ação, desmaios
Por Bianca Bellucci,
Heros Macedo, Heverton Bruno, Larissa Palmer, Renata Rocha e Tamires Camargo.
- Rápido! Chamem o
resgate!
- Mas o que aconteceu?
- A Débora desmaiou!
E assim, a emergência foi
chamada ao set de filmagem de “A b... profunda” (1983). As câmeras estavam
posicionadas, os técnicos prontos e a cena da vez era um momento íntimo da
personagem Helena transando com três homens em uma casa de praia. A atuação
impactante poderia ter permanecido para sempre na memória de Débora Muniz, a
intérprete da ninfeta. Mas não foi bem assim. A única coisa que ela lembra é
que a cena é linda, cheia de florezinhas que caem pelo corpo da personagem. De
resto só o breu. Estava desmaiada.
O diretor do longa,
Álvaro de Moya, teve um dia incomum com sua atriz desmaiada antes dele gritar:
“Corta!”. Mas, para a musa, aquele foi um dia como qualquer outro. Não porque
ela estava mais uma vez envolvida em um projeto e filmando uma cena, e sim
porque desmaiava toda vez que precisava ficar nua para interpretar uma personagem.
Mesmo com toda a sua
coragem, perseverança e amor pelo cinema, essa não foi uma cena tão fácil de
ser gravada, ainda mais se tratando do primeiro filme de sexo explícito da
carreira de Débora.
Fosse nesses longas ou nas pornochanchadas, apagar era o reflexo do nervoso extremo que sentia todas as vezes que precisava se despir para gravar uma cena. A cabeça entrava em parafuso e Maria das Neves de Lima, como foi batizada, lembrava-se de toda a sua trajetória desde a saída da cidade natal, Afogados da Ingazeira, interior de Pernambuco, até tudo o que tinha sofrido, feito e desfeito para se firmar como uma atriz séria.
Ainda criança, ela saiu
do Nordeste do Brasil com a família e foi para Tapejara do Oeste, interior do
Paraná, local onde, com sete anos de idade, descobriu o que queria fazer da
vida enquanto ia para a missa de domingo com o pai. A caminho da igreja, a
menina viu uma aglomeração próxima ao aparelho de televisão que era colocado
todos os dias no meio da praça. Curiosa como sempre, se aproximou e viu na tela
uma garota de saia colegial vermelha e blusa branca atravessando a rua. Uma
simples cena de um programa qualquer abriu os seus olhos para um novo mundo.
“Eu quero fazer isso aí”. Foram as palavras que saíram de sua boca diretamente
para os ouvidos do pai, que não deu bola aos delírios da criança. Eles mal
sabiam o que era aquilo, mas a garota colegial permaneceu sempre em suas
lembranças.
Três anos depois se mudou para São Paulo e, na adolescência, a diversão máxima era cabular aula para assistir os filmes no cinema Caboclo, na Vila Matilde, zona leste da cidade. O cinema ia cada vez mais fazendo a sua cabeça e, em 1975, o filme “Efigênia dá tudo o que tem” foi a gota d`água da paixão por esse mundo. O fato de ser apaixonada por Ricardo Petráglia, o galã do filme, ajudou muito no carinho por esse longa.
A entrada para a vida artística foi pelos palcos do teatro com a peça “Dr. John e Frank”, A menina tinha 14 anos de idade e encerrou a montagem com colegas por algumas escolas na cidade. Logo depois, decidiu entrar de vez para um grupo de atores. Buscou em anúncios de jornais e, em 1975, tornou-se aluna da escola de atores de Wilson Rodrigues, na rua Riachuelo, centro da cidade. Três meses depois, reuniu-se com outros alunos e mudou para a escola de atores de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, onde aprendeu técnicas de intepretação e produção, além de ser apresentada à Boca do Lixo, em 1977.
Na Boca, encontrou um
verdadeiro lar. Passava grande parte do dia por lá e em pouco tempo estrelou “A
mulher que põe a pomba no ar” (1978) e “Perversão” (1979), ambos de Mojica.
Os desmaios começaram
logo no primeiro filme, mesmo não sendo tão comprometedor, já que aparecia sem
roupa, mas sentada em uma cadeira, contando uma história e sem mostrar muita
coisa. O bicho começaria a pegar quando filmou uma cena de estupro em “Mundo,
mercado do sexo” (1979). Messe, desmaiou de verdade.
Mas mesmo apagando nas
cenas de nu, era presença certa em vários filmes, fosse em papéis principais ou
coadjuvantes. Por passar muito tempo na Boca, era considerada filha de todo
mundo e gostava de estar com a equipe técnica em momentos de descontração e
mesmo durante as filmagens. Seu jeito de moleca não só rendia papéis em longas
por toda a rua do Triunfo, como o conhecimento do processo de produção dos
filmes, técnicas e direção.
Certa vez, no intervalo
de gravação de “Perversão”, ela conversava com outros colegas do elenco quando
o assunto se voltou aos ídolos de cada um. Imediatamente falou que era
apaixonada pelo galã de “Efigênia dá tudo o que tem” e, para a sua surpresa, o
rapaz do seu lado era ninguém menos que Ricardo Petráglia, a sua paixonite de
adolescência.
- Ciganinha, eu fui a
paixão da sua vida- disse ele, chamando-a pelo apelido que ganhou na Boca. Ela não
sabia onde enfiar a cara de vergonha e, se tivesse descoberto antes quem era
ele, provavelmente não conseguiria atuar ao seu lado. O motivo dos desmaios
seria muito maior do que simplesmente a nudez em cena.
Porém, nem tudo eram
flores e claquetes no início da carreira. O pai não aceitou que a filha fosse
atriz, e Débora perdeu a conta de quantas vezes apanhou em casa. O senhor José
dizia que ela era a vergonha da família.
Mas mesmo sem o apoio
familiar, Débora seguiu em frente e sua carreira estava pegando fogo. As
produções na Boca do Lixo também estavam em plena ebulição, mas a nova década
que surgia trouxe mudanças para o cinema nacional que afetaram diretamente a
rua do Triunfo. Os filmes produzidos nos Estados Unidos e Europa que estavam
chegando ao solo brasileiro apresentavam conteúdo de sexo mais picante e
completamente explícito, ao contrário do que era mostrado nas pornochanchadas.
O público, é claro, preferiu essa novidade.
Sem alternativas, os
produtores passaram a produzir esse tipo de filme e Débora foi convidada a
estrelar essa nova vertente do mercado cinematográfico. Outras atrizes
receberam o mesmo convite, mas, de todas, Débora foi a única que aceitou. Ela
chegou à conclusão que, se recusasse, teria que abandonar o cinema, coisa que nem
cogitava na época.
Não foi uma decisão
fácil, tampouco rápida. Ela resistiu muito tempo, ignorou testes e ligações de
produtores que a queriam num filme novo. Um dia a chamaram na produtora e
perguntaram se ela faria. Entre muitos sim e não, deu finalmente o sinal
positivo e os produtores imediatamente disseram: “Então assina o contrato”.
Foi desta maneira
repentina que Débora estrelou “A b...profunda”. A Haway, produtora do longa, já
sabia que ela estava balançada e providenciou tudo o que ela poderia precisar
para se hospedar no Guarujá, local onde o filme foi rodado. Se dissesse sim,
haveria uma mala e itens de higiene prontos, além de um cachê bastante gordo,
suficiente para comprar um carro na época.
Assinou o contrato, filmou e desmaiou. Tudo no mesmo dia. Enquanto transava para obter uma cena, uma mistura de questões, que envolviam o que ela estava fazendo ali e o que tinha que fazer em seguida, passava pela sua cabeça. A família logo aparecia em sua mente, mas ela não desistiu.
Depois do seu sim à
indústria pornô, a primeira vez que Débora encontrou na rua do Triunfo antigos
colegas, como os produtores Augusto de Cervantes, Jean Garrett e José Mojica
Marins, foi muito questionada. Com certa bronca na voz, eles perguntaram o
motivo de ela ter se submetido a essa nova linha do cinema. Débora sempre tinha
a resposta na ponta da língua e rebatia dizendo que fazia pornô porque nenhum
deles havia dado um emprego para ela. Neste momento em que assumiu que
realmente estava no pornô e que fazia coisas extremamente ousadas em frente às
câmeras, sentiu que os antigos colegas a estavam vendo como mulher pela
primeira vez. A menininha que havia aparecido no auge da adolescência e que
tinha crescido naquele meio tinha ido embora e no seu lugar havia uma mulher
forte, decidida e que faria de tudo para continuar no cinema. Fosse fazendo
sexo na telona ou não, tudo não passava de trabalho. APENAS trabalho. E um
tantinho de paixão também.
Mesmo desmaiando nas
cenas de nu, Débora destacou-se nos filmes pornôs brasileiros até o fim da
década de 80, quando deu um tempo na telona para dedicar-se à direção de filmes
e ao teatro.
Em 1992, deixou o país
para morar e trabalhar em uma casa de shows brasileira no Japão, onde
permaneceu até 2003. De volta ao Brasil, ajudou a fundar a “Rama Kriya”,
companhia teatral que se dedica à produção de peças na religião espírita.
FICHA TÉCNICA
Nome completo: Maria das
Neves de Lima
Nome artístico: Débora
Muniz
Data de nascimento: 26 de
agosto de 1959
Naturalidade: Afogados da
Ingazeira, Pernambuco.
Principais bilheterias da
pornochanchadas:
“A mulher que põe a pomba
no ar” (1978), José Mojica Marins
“Perversão” (1979), José
Mojica Marins
“Mundo, mercado do sexo”
(1979), José Mojica Marins
Outros trabalhos
relevantes:
“A b... profunda” (1983),
Álvaro de Moya
“Oh! Rebuceteio” (1984),
Cláudio Cunha
“Gozo alucinante” (1985),
Jean Garrett
Onde vive hoje: São Paulo
(SP)
Onde faz hoje: Atriz
integrante do grupo teatral “Ram Kriya”, especializado em peças espíritas.
Publicado originalmente
no trabalho acadêmico Superfêmeas- as
mulheres que fizeram a história da pornochanchada de autoria de Bianca
Bellucci, Heros Macedo, Heverton Bruno, Larissa Palmer, Renata Rocha e Tamires
Camargo, publicado como trabalho de conclusão do bacharelado em jornalismo da
Universidade Metodista de São Paulo em 2014.
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Um rolê para o outro cinema
Prêmio reúne veteranos da Boca paulistana
Tarde de dezembro. O
público chega devagar ao espaço Matilha Cultural no centro de São Paulo. Lá
teria início um evento que reuniu cineastas, atores, técnicos, pesquisadores e anônimos
que de alguma maneira gostam da antiga Boca paulista. Tratava-se da primeira
exibição pública do longa-metragem Rua do
Triumpho- o filme do veterano Mário Vaz Filho. Era também a segunda
produção do Instituto Ozualdo Candeias, entidade que reúne remanescentes da
Boca do Lixo paulista. “Fiquei 2015 todo montando e remontando esse filme. Deu
um trabalho do cão”, reclama Marinho.
Já o produtor Diomédio
Piskator é mais otimista. Presidente do Instituto, ele comemora que a primeira
produção da entidade (Memórias da Boca)
chega na quarta semana em cartaz no Cine Belas Artes. Piskator afirma que novos
projetos devem estrear em breve. “Fazemos tudo de maneira independente. Nossa
ideia principal é manter o pessoal ativo”. Misto de documentário e ficção, Rua do Triumpho é um trabalho que sofre
com o orçamento controlado. Mesmo assim, existem boas ideias e momentos
engraçados. Principalmente quando o foco do filme fica nos suvaquinistas. “Eram
aquelas pessoas que carregavam o roteiro debaixo do braço, mas não concluíam
nada. Os fazedores de filmes inacabados”, explica Mário Vaz Filho. Ele afirma
que conheceu diversos suvaquinistas na rua do Triunfo. Muitos não chegaram a
terminar nenhuma produção. “Agitavam, agitavam e acabavam não concluindo nada”,
diz rindo.
Rua
do Triumpho foi produzido sem nenhum recurso
público tendo como protagonistas remanescentes da própria Boca como Clery
Cunha, José Lopes (Índio), Zé da Ilha e Franco Lino. A aposta é que o filme
chegue a ser exibido no próprio Belas Artes. “Eles possuem um espaço legal pra
quem trabalha de maneira independente. Não temos por trás nenhum apoiador”, conta
Diomédio.
Após a exibição do
longa-metragem, aconteceu a segunda parte do evento. O Instituto Ozualdo
Candeias organizou a entrega da primeira edição do prêmio Francisco Cavalcanti,
destinado a personalidades do cinema paulista. O evento aconteceu no
restaurante e pizzaria Estrela da Ipiranga, local próximo ao Matilha Cultural.
Entre as personalidades que receberam a placa estão atrizes como Neide Ribeiro
e Débora Muniz. O cineasta Alfredo Sternheim e o professor e montador Máximo
Barro também foram homenageados.
Mas a plateia ficou em
êxtase quando o cineasta José Mojica Marins foi receber sua placa. O realizador
conhecido pelo personagem Zé do Caixão teve duas paradas cardíacas nos últimos
anos e ficou cinco meses internado na UTI do Incor (Instituto do Coração).
Mesmo com todos esses problemas de saúde, Mojica recebeu a placa e fez um
emocionante discurso. “Eu acho que todos que lutaram tem o seu devido valor.
Não importa se estão mortos, se estão afastados. Onde quer que seja, basta que
eles fizeram algo pelo cinema e eles precisam ser valorizados”. Aos 79 anos,
Mojica prossegue trabalhando nos seus projetos pessoais. Ele inclusive foi tema
da minissérie Zé do Caixão exibido no
canal pago Space. A filha do diretor, Mariliz Marins, explica que está
concluindo uma loja virtual para comercializar produtos referentes ao pai. “Os
fãs vão poder comprar camisetas e outros adereços referentes ao mitológico
personagem. Vamos inclusive vender uma cachaça Zé do Caixão”.
Organizador da premiação, Diomédio Piskator afirma que 2016 será um ano importante para o Instituto Ozualdo Candeias. Novas produções devem entrar em cartaz e a segunda edição do prêmio Francisco Cavalcanti será realizada. “Estamos concluindo o São Paulo Zero 15. É um longa-metragem composto por quinze episódios de ficção tendo a cidade de São Paulo como protagonista. São quinze diretores de gerações diferentes num único filme”. Ele espera que o longa-metragem estreie para o grande público no segundo semestre de 2016.
sábado, 31 de agosto de 2013
“Eu tive a minha adolescência na Boca. A rua do Triunfo será sempre o solo sagrado do cinema nacional.”
Uma atriz que não
esqueceu sua trajetória na Hollywood paulistana. Essa é Débora Muniz. Após
atuar em dezenas longas-metragens, a intérprete prosseguiu a sua carreira nos
palcos e na sétima arte. Em 2012, Débora estrelou o curta-metragem A Mulher Barata de Mário Vaz Filho. No
lançamento deste filme, VSP conversou rapidamente sobre este trabalho e
relembramos parte da trajetória da musa. Sempre educada e gentil, Débora é
dessas pessoas que falam sobre a Boca do Lixo com emoção e
sentimento.
Violão,
Sardinha e Pão- Quantas vezes você trabalhou com o Marinho?
Débora Muniz- Com o
Marinho eu trabalhei...que eu me lembro pelo menos seis vezes.
VSP-
Seis vezes?
DM- Tem bastante coisa
que eu fiz com o Marinho. Tem uma história bem longa.
VSP-
Como é trabalhar com ele?
DM- O Marinho é aquela
coisa que eu falei com pessoal...eu estou tendo o privilégio de estar de volta
no solo sagrado do cinema nacional que é a rua do Triunfo. E Marinho foi um
grande personagem de toda essa história, eu digo que ele era o mais despojado e
continua sendo o mais despojado. É o único que conversa com você assim: “Vamos
fazer essa porra logo. Vamos rodar essa porra logo”. É uma delícia trabalhar
com o Marinho porque ele não é uma pessoa com uma única formação. Marinho é
tudo ao mesmo tempo: ator, diretor, roteirista, faz tudo em comportamento. Então, você encontra o Marinho
como se fosse o seu parceiro na cena. E é divino porque você não tem ele numa
única função É uma delícia trabalhar com o Marinho porque é um grande amigo em
primeiro plano. E um porra louca da rua do Triunfo (risos). Principalmente
isso.
VSP-
Como foi ser protagonista nesse curta?
DM- Ele é um puto. Ele
é um puto porque ele sabe que quando ele escreveu a única louca que faria esse
papel seria eu. Então, ele já tinha certeza disso. Porque o Marinho além do
diretor é em primeiro lugar o amigo. Então, mesmo depois que a Boca parou, toda
essa história...nossa eu adoro o Marinho de paixão. É um grande amigo, um irmão
querido. Coincidentemente a gente se encontrou numa mostra dos filmes do Chico
(Cavalcanti). Nisso, ele coçando a cabeça veio me falar: “Porra Débora não sei
como te falar um negócio aí”. Eu respondi: “Fala logo Marinho. Desempucha
porra, você não é de rodeios”. “É um filme aí que tem pelada...”, aí eu
perguntei quem iria dirigir. Ele: “Eu...”. “Então vamos embora e não enche o
saco”. “Mas você não viu o texto?”, “Mas isso me interessa? Quando a gente for
rodar eu vejo.”
VSP-
Você nem viu o texto?
DM- Eu não vi o
roteiro. “Que dia começa?”, “Tem que ver produção, orçamento”. As dificuldades
de sempre né? Eu falei: “Quando tiver pronto você me liga dois dias antes e
vamos embora”. Foi assim...existem pessoas que mesmo da boa época da Boca
quando começaram a fazer o explícito, essa coisa toda. Eu mesma resisti um
tempo: “Não vou, não vou, não vou”. Aí quando eu vi que eu faria ou pararia de
fazer cinema a única coisa que me interessava era saber quem iria me dirigir, o
autor do roteiro e a equipe técnica. Com o Marinho agora foi a mesma coisa.
Vira e mexe o pessoal me liga: “Débora, vamos fazer um filme?”. Algumas vezes
eu estou com compromissos: “Não tenho tempo. Eu estou fazendo teatro”. Agora
depende de quem vem a proposta. Essa veio de uma pessoa que eu amo de paixão e
confio. Então, mais uma vez eu fiz uma porralouquice.
VSP-
No bom sentido...
DM- No bom sentido e eu
amo. Eu acho que isso é Boca, é cinema nacional. Tanto que algumas pessoas
falam: “Mas isso é trash”, a
realidade é que o Brasil é trash.
Entende? Eu amo o meu país, amo a Boca e amo o cinema nacional.
VSP-
Hoje você trabalha mais com teatro...
DM- Aí você vê a
maluquice. É tão maluco que eu no
momento estou em cartaz com Darwin, o
Canto dos Canários Cegos, um espectáculo divino. Estou voltando com Os Ossos do Barão do Jorge Andrade, um
clássico e também faço espetáculo espírita. Amo fazer espetáculo espírita.
VSP-
Quais peças você está fazendo pra esse segmento?
DM- Estou com O Amor Venceu da Zíbia Gasparetto e
estou com O Advogado de Deus também
da Zíbia.
VSP-
Poxa, mas como você decora tanta coisa ao mesmo tempo?
DM- Olha é tanta
confusão. Na próxima semana, eu vou fazer Os
Ossos do Barão a tarde, a noite Darwin
e depois vou fazer O Advogado de Deus.
Mas é incrível que eu digo que cada personagem tem a sua essência. Então, eu
sempre vivo seguinte maneira: o ator, a atriz não tem que interpretar. Eu sou a
personagem. Então, no momento certo eu sou Emma Darwin. Depois, eu sou Verônica
de Jorge Andrade. Então, naquele momento não tem como confundir porque as
personalidades são completamente diferentes. Naquele momento específico eu sou
aquela mulher e aquela personagem não conhece a outra. Então, não tem como
misturar. É algo divino.
VSP-
Você deve gostar muito de teatro. Mas o cinema continua sendo a sua grande
paixão?
DM- Cinema é a minha
grande paixão. Só que hoje é muito difícil fazer a cinema né? Então, eu me
realizo com teatro. E me realizo quando os amigos resolvem fazer loucuras e
acabam decidindo fazer um filme dessa maneira. Nisso, eu acaba embarcando
nesses projetos.
VSP-
Filmar com a barata foi dificil?
DM- Tadinha da
barata...ela tava quase morrendo. Eu fiquei com dó da barata, foi ao contrário
(rindo). Aí é aquela coisa de cinema que a gente fala: achei maravilhosa a
fotografia. Eu achei divina a foram como eles conduziram que parece que a
barata foi. Mas a verdade não foi. Mas a barata estava convadescendo sabe?
Então foi uma gracinha. Ela era pequeninha. Não era meiga?
VSP-
Era bem pequeninha. Não dava muito medo da barata.
DM- Mas mesmo que fosse
um baratão, o que é uma barata perto de tudo que a gente passa nesse país?
Nada. Podia ser um rato também. Não mudava o sentido da coisa.
VSP-
Débora, me desculpa perguntar isso...mas você tem quantos anos?
DM- Eu estou maravilhosamente bem com os meus 52 anos. E amo ter 52 anos.
VSP-
Como é pra você ser uma das musas da Boca e uma das únicas que continua fazendo
cinema. Você é muito guerreira? Porque muitas desistiram.
DM- Eu acho que
guerreira...guerreira eu sou com certeza. Mas eu acho que eu sou mais
apaixonada pela arte e pelo cinema. Eu digo sempre que o diferencial foi que
cada uma chegou na Boca em um momento pra ser a estrela, pra grandes
personagens. Eu tive a minha adolescência na Boca. Então é incrível porque eu
tive pais de verdade na Boca. Então, eu tive desde o começo da minha
adolescência com o Mojica. Eu era mais uma filha junto com o Crounel e a
Mariliz. Depois, teve o Augusto de Cervantes...isso é algo que me entristece de
vir na Boca. Porque eu olho a antiga janelinha (do escritório da Masp Filmes) e
é sério...pra mim o Augusto ainda está lá (emocionada). Pra mim Ody...você vai
chegar ali e encontrar o Ody. Pra mim, abrindo a portinha daquele boteco eu vou
encontrar com o Tony Vieira. Então, isso é muito forte e eu admiro esse pessoal
com esse cineclube aqui porque é aquilo que eu digo: aqui é o grande tapete e
vai continuar sendo daqui a 100 anos. Eu acho que quem está nascendo agora vai
conhecer a história da Boca e vai passar e dizer: “Era aqui que diziam que era
o grande castelo”.
VSP-
Hollywood de São Paulo?
DM- Hollywood de São
Paulo, nosso solo sagrado. Então, a Boca, a rua do Triunfo será sempre o solo
sagrado do cinema nacional.
VSP-
Você ainda participar de cinema com nu isso não tem problema pra você esse tipo
de trabalho?
DM- Eu dizia sempre e
inclusive eu brincava muito com o Alfredinho (o cineasta Alfredo Sternheim), outro que eu amo de paixão: se eu
tivesse continuado fazendo um filme em seguida do outro eu teria morrido em
frente a uma câmera. Porque ás vezes o pessoal pergunta: “Débora, o que você
fez em cinema?”. Eu respondo: “Mais fácil você perguntar o que eu não fiz em
cinema”. Porque em cinema eu acho que eu fiz tudo e continuo aberta pra fazer
mais. Então, eu acho que cinema é essa coisa maluca, é o diferente, o além. Eu
quero me surpreender e ainda continuo esperando o personagem que vai me surpreender.
Aí me perguntam: “Você já fez o seu melhor personagem?”. Não, ainda estou
esperando ele. Esperando e tenho certeza que vai chegar.
VSP-
Débora, você acha que o Mojica vai ficar enciumado de você ser protagonista em
um curta de terror?
DM- Mais isso não foi a
primeira vez. Você sabe que quando eu fiz Amor
Só de Mãe que foi de terror também e nós ganhamos vários prêmios foi uma
coisa maluca. Isso porque veio o diretor de uma revista americana especializada
em terror e veio fazer uma reportagem sobre o filme. O americano entrevistou o
Mojica, entrevistou o Dennilson (Ramalho, diretor do curta Amor Só de Mãe) e a gente brincou muito. Nos perguntávamos: “Quem
vai fazer a capa da revista?”, eu falei com o Mojica: “Não adianta. Você é o
mestre”. Mas foi a discípula que acabou saindo na capa. Então, eu acho que não
existe ciúmes. O Mojica sabe que ele vai continuar sendo um paizão, um mestre.
Mas a discípula quer ir muito além.
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