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quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Fotos do Curso "A Boca por Eles e por Elas 2019"- dia 2 com Débora Muniz





















Palestra minha com a atriz Débora Muniz que aconteceu no último dia 8 de novembro na Casa Guilherme de Almeida (rua Cardoso de Almeida, 1943, São Paulo) dentro do curso “A Boca Por Eles e Elas”. Fotos de Angélica Pretto.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Musa da Boca Débora Munhyz lança biografia



Por Matheus Trunk

São mais de 20 longas-metragens no currículo. A pernambucana Débora Munhyz tornou-se nome conhecido no cinema nos anos 1980 quando participou de diversões produções da Boca paulistana. Seu início foi com o diretor e produtor José Mojica Marins, o Zé do Caixão e prosseguiu depois trabalhando com diversos profissionais do quadrilátero. “A Boca foi a minha segunda casa. Eu escolhi viver e usufruir do lado positivo da grande indústria cinematográfica: o castelo de sonhos que virava realidade”, relembra ela com nostalgia.

A vida profissional da musa está no livro Débora Munhyz: do terror ao amor publicado pela editora Laços com organização do radialista e produtor cultural Rafael Spaca. A obra não teve lançamento oficial mas pode ser adquirida diretamente com a editora pelo email editoralacos2016@gmail.com. Débora conversou com o VSP sobre o livro e sua trajetória na sétima arte.

Como surgiu a ideia desse livro?

Débora Munhyz: A ideia do livro surgiu mais ou menos em 1999. No final da década de 1980, eu parei com tudo: cinema, teatro, atuação. Fui pro Japão trabalhar com danças e eventos e voltei pro Brasil somente em 1999. Nessa época, um jornalista chamado André Lourenço se interessou e teve a ideia de fazer um livro sobre isso. Na época, eu achava uma loucura, dizia: “Não estou preparara para isso. De jeito nenhum”. Mas ele insistiu tanto e começou a fazer pesquisas, levantou um material grande. Mas no decorrer disso tudo aconteceu uma coisa horrível que foi a morte do André. Foi um acidente e eu nem gosto de falar sobre isso. Aí deixou de existir o projeto do livro.
Muitos anos depois eu conheci o Rafael (Spaca, editor) que estava fazendo uma matéria sobre outra atriz da Boca. Ficamos conversando e ele ficou insistindo na história de fazer um livro. Aí novamente veio toda aquela história, mexeu com a minha cabeça. Mas a insistência do Rafael durou dois anos e eu comecei a pensar no pedido do André.  Então, eu resolvi aceitar o convite em homenagem a esse amigo querido. Isso foi rolando por alguns anos e agora finalmente está saindo.

Como você descobriu que queria ser atriz?
Eu descobri que queria ser atriz quando nem sabia o significado disso. Eu cresci no interior do Paraná numa fazenda e depois mudamos para a cidade chamada Itapejara do Oeste. Botaram uma televisão na praça central e foi ali que tive o primeiro contato com a atuação. É incrível que até hoje eu tenho a imagem da primeira cena que assisti: um pai pegando no braço de uma menininha atravessando a rua. Na mesma hora, eu peguei na mão do meu pai e falei: “Vou fazer aquilo”. Nem sabia do que se tratava, do que era.
Passou o tempo e vim para São Paulo quando eu tinha dez anos. Foi quando comecei a me inteirar e assistir televisão na casa de uma tia. A vontade foi aumentando a vontade de participar daquilo. Tive o acesso num primeiro anúncio do jornal que falavam das escolinhas de cinema. Nisso, eu acabei caindo na escolinha da Planeta Filmes do (cineasta) Wilson Rodrigues. Fiquei ali uns dois meses mais ou menos. De lá, o (assistente de câmera) Geraldo Damasceno me levou para a escola de atores do José Mojica Marins que na época ficava ali na (rua) Barão de Jaguara, na Mooca (zona leste de São Paulo). Aí começou toda história e me tornei aluna do Zé do Caixão.


Como foi esse começo com o José Mojica Marins? Que importância ele teve na sua carreira?
Naquela época, os cursos de interpretação eram ministrados pelos alunos mais experientes. O senhor Mojica passava somente as provas pra gente. Dividiram a gente em três grupos. Montava-se um grupo que concorria com o outro. O meu grupo acabou vencendo e foi maravilhoso. Era muito bom porque você aprendia a fazer de tudo: montagem, continuidade e sempre acabava fazendo uma pontinha em alguma produção. Mas o aprendizado com o seu Mojica não foi como atriz somente, mas principalmente como pessoa. Ele tinha um círculo de amizades muito bom e para mim era maravilhoso já que eu era adolescente ainda. Então, eu tinha muita curiosidade de aprender e ficava num cantinho ouvindo pessoas conversando como o (físico) Mário Schenberg, o (ator) Jofre Soares ou o (produtor) Wilson Garcia. O Mojica foi muito importante como uma grande universidade e a minha família mesmo não aceitava aquilo. Na época que eu entrei fiz amizades muito fortes com outras pessoas que estavam começando como o Satã ou com a Fátima Sena Porto. Então, o Mojica foi uma espécie de pai que eu respeito muito. Dele guardo muito carinho e consideração.

Como você começou a trabalhar com outros diretores de São Paulo?
O Mojica abriu um escritório no edifício Soberano na rua do Triunfo. Esse espaço funcionava para recrutar alunos para fazer a escola dele. Eu era secretária desse escritório, resolvendo de tudo um pouco. Recebíamos as pessoas de fora que procuravam a escola, fazíamos o cadastro dos futuros alunos e foi assim que conheci diversas pessoas da antiga Boca do Cinema. Foi lá que conheci o Ary Fernandes, o Elias Khouri. Resolvíamos os problemas dos filmes, o lado burocrático das viagens do Mojica. Ali começou o meu convívio diário na rua do Triunfo trabalhando no escritório e tendo contato com as pessoas que circulavam por ali.
Eu só tinha feito um filme nessa época que era A Mulher Que Põe a Pomba no Ar da Rosângela Maldonado. Nessa produção, a minha personagem chamava-se Débora. O meu nome verdadeiro é Maria das Neves. Mas diziam: “Você é a Débora do filme da Rosângela?”. E acabou ficando Débora. Esse virou meu nome artístico.

Já que você citou o Ary Fernandes, fala um pouco do convívio com ele. O que você aprendeu com ele?
O Ary foi uma das primeiras pessoas que eu conheci na Boca. Ele foi um dos primeiros amigos e protetores que eu tive na minha história ali. O primeiro filme que eu fiz com ele foi Essas Deliciosas Mulheres que foi filmado em Poços de Caldas (interior de Minas Gerais). Cheguei a fazer quatro filmes com ele como A Fábrica de Camisinhas, Taras Eróticas. Tudo participação pequena, mas era o meu começo. O Ary me ensinou como era a política do meio cinematográfico da época, como eu devia me portar com as pessoas da rua do Triunfo. Então, ele me ensinou muito da postura que eu tinha que ter como profissional.

E com o Tony Vieira? Você fez um filme com ele, certo?
O Tony Vieira foi um grande amigo. Aprendi com ele muito da vida, a ser humano e enfrentar as dificuldades. Fiz um único trabalho com ele que foi um marco na minha vida: O Último Cão de Guerra. Era uma época em que estava terminando a Ditadura e o Tony foi muito corajoso em fazer um filme com aquele tema. Era um tema sério, polêmico e filmado dentro da Base Aérea de Cumbica. Nós filmamos acho que vinte dias lá. Foi muito enriquecedor já que tivemos acesso a muitas coisas que aconteciam ali dentro. Eu costumo dizer que tanto o Tony como o Mojica foram pessoas muito interessantes e com as quais eu aprendi muito. O Mojica mais como um pai e o Tony mais como aquele amigo que me ensinou que não existe limites quando você quer algo, quando você busca algo de verdade na sua vida. Eu defino o Tony como um operário do cinema da Boca. Foi um grande amigo e me ensinou a encarar a vida sem medo de lutar em busca do que quero.

Como era pra uma mulher frequentar um ambiente como a Boca? Era muito machista?
É incrível que praticamente eu não percebi esse lado machista da Boca. Eu tinha amigos muito queridos que me protegeram lá dentro. Claro que o meio artístico da época era muito machista. O cinema sempre foi muito machista e quem trazia o grande público para as produções eram as meninas. Mas eu passei a minha adolescência na Boca. Tinha um círculo de amizades com pessoas que tinham outra cabeça, uma cabeça mais familiar. Então, eu chamo de minha família da Boca. Essas pessoas me viam primeiro como ser humano, como uma adolescente querendo aprender. Agradeço muito a Deus por ter conhecido pessoas como Ary Fernandes, Augusto de Cervantes, Jean Garrett, Satã, Mojica, Tony Vieira, Chico Cavalcanti. Esses sempre me protegeram. Então, eu tive pessoas queridas foram me cuidaram de verdade e acho que pela orientação deles eu não vi tantas pessoas que viam a mulher como objeto. Eles criaram uma redoma em volta de mim deixando muita gente sem acesso.
Quando vinham algumas cantadas eu sempre bancava a bobinha que não estava entendendo tudo. Então, enquanto me viam como boba eu trabalhava. A Boca naquele momento era a minha segunda casa. Claro que existiram muitos problemas, fofocas como todo lugar, mas nunca dei importância. Nunca alimentei o lado negativo. Eu escolhi viver e usufruir do lado positivo da história da Boca que foi a grande indústria cinematográfica: o castelo de sonhos onde podia virar realidade. Onde eu podia ir para a frente da tela fazer os meus filmes, as minhas amizades. Então, o lado ruim eu nunca levei em conta. Nunca alimentei essa coisa toda.

Você trabalhou na fase explícita. Como foi isso? Como você avalia essa parte da sua carreira?
Quando chegou filmes como Coisas Eróticas e O Império dos Sentidos ficou difícil. A Boca começou a produzir somente longas-metragens com sexo explícito. Fiquei muito tempo sem aceitar fazer. Só que o tempo foi passando e comecei a me questionar. O Ary Fernandes era um que falava muito comigo: “Vamos conversar sério. Você vai parar ou continuar? Que rumo você via dar?”. Foi quando eu recebi um convite da (produtora) Haway através do (produtor) Fernando (Gregório) pra fazer A B... Profunda. Eu fiquei seis meses pensando desde que veio a primeira proposta. Depois, acabei indo numa reunião na Haway onde inclusive conheci o (diretor ) Álvaro de Moya. Então, aí começou o questionamento interior: “O que fazer?”. Aí não era mais a questão de aceitar fazer o explícito ou não. Era a questão aceitar continuar fazendo cinema ou não e no começo foi muito difícil, a opção, aceitar fazer foi muito complicado. Mas eu pensava  muito no que o Ary Fernandes tinha me falado: “Débora se você não fizer o cinema parou”.  Foi quando eu optei em fazer. Ou seja: no momento não foi em fazer sexo explícito eu optei em continuar fazendo cinema.
O Moya sabia das dificuldades. Tanto que no primeiro dia de filmagens tive uma rejeição interna enorme. Mas eu avisei o Moya: “Se cortar eu não repito a cena. Então, fica de primeira não dá pra cortar, pra repetir não”. Ele levou isso muito a sério, colocou duas câmeras e foi. Minha cabeça entrou num turbilhão. Fiz a cena inteira e quando ele disse: “Corta”, eu desmaiei. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida no meio artístico. Depois veio inclusive um médico me visitar. Foi um dia muito difícil nas filmagens. Mas voltou ao normal e comecei a pensar na Débora que veio para vencer, que sabia o que queria da vida e cinema era a minha vida. Eu me propus a fazer cinema que era o que eu queria e se naquele momento a única forma de fazer cinema era aceitar esse tipo de segmento tudo bem. Já tinha feito o primeiro.
Naquele período eu só fazia cena explícita com um ator. Normalmente, eu fazia uma cena por filme com exceção do Gozo Alucinante do Jean Garrett com produção do Augusto de Cervantes. Essa foi uma das maiores produções de sexo explícito que teve na rua do Triunfo. Então, a partir daquele momento que aceitei, eu levantei a cabeça e falei: “Vou fazer o melhor que eu puder, mas com a responsabilidade de fazer cinema”. Depois, a maioria dos diretores passaram a se preocupar somente com as cenas de sexo explícito até que virou somente sexo explícito. Então, eu acho que na verdade o cinema da Boca foi prostituído.

Como você se adaptou ao final da Boca para ser ativa no teatro e em outros lugares?
Depois de um tempo acabei desistindo daquele cinema. Parei com tudo e fui embora pro Japão viver de dança, eventos e shows. Quando voltei de lá, encontrei com amigos queridos que estavam indo pro teatro como o diretor Roberto Rocco. Meu primeiro espetáculo nessa volta foi o Tropicanalha do Aziz Bajur. Naquele momento eu queria fazer teatro, queria fazer cinema, mas com muito cuidado e foi o que aconteceu. Fiquei muito tempo sem fazer cinema porque as coisas que vinham não me interessavam. Então, esperei vir algo que eu acabei me interessando.

Que importância teve pra você participar do curta-metragem Amor Só de Mãe do Dennison Ramalho? O que mudou na sua vida depois disso?
Eu fui conhecer o Dennison quando ele me mandou esse roteiro. Acredito que conhecer ele abriu um novo horizonte pra mim. Desde o primeiro momento vi que ele era um jovem sincero, batalhador e que buscava um cinema sério. Acho que foi a coisa mais certa que eu fiz na minha vida. Me senti respeitada como pessoa, profissional e como mulher. Então, Amor Só de Mãe foi um marco na minha vida, foi o meu retorno de forma digna porque fazia muito tempo que eu não fazia cinema. Espero muito que eu encontre outro filme, outro personagem que me dê tantas possibilidades. Um personagem como Formosa que eu fazia no Amor Só de Mãe. Pra mim, foi o melhor personagem que já fiz em cinema.

O que você espera com o livro?
Espero contar parte da minha história. Mas principalmente falar de pessoas queridas da Boca. Dessa parte da rua do Triunfo com a minha visão, da forma que eu vivi, da forma que eu convivi com pessoas que respiravam cinema e se alimentavam de cinema. A minha prioridade é lembrar dessas pessoas, muitas delas nem são lembradas hoje. Vamos dizer que seja uma homenagem a amigos queridos, essa família linda que eu tive o prazer de conviver e que pra mim é um grande orgulho. Foi um presente de Deus ter podido estar presente na história do cinema nacional na metade da década de 70 e 80. Não tenho pretensões em fazer um livro acadêmico de mostrar uma história luxuosa, não nada disso. A Boca não era nada disso: a Boca era simples, a Boca era humilde. E assim é o meu livro. 

sábado, 21 de maio de 2016

Superfêmeas III: Débora Muniz

DÉBORA MUNIZ

Luz, câmera, ação, desmaios



Por Bianca Bellucci, Heros Macedo, Heverton Bruno, Larissa Palmer, Renata Rocha e Tamires Camargo.

- Rápido! Chamem o resgate!

- Mas o que aconteceu?

- A Débora desmaiou!

E assim, a emergência foi chamada ao set de filmagem de “A b... profunda” (1983). As câmeras estavam posicionadas, os técnicos prontos e a cena da vez era um momento íntimo da personagem Helena transando com três homens em uma casa de praia. A atuação impactante poderia ter permanecido para sempre na memória de Débora Muniz, a intérprete da ninfeta. Mas não foi bem assim. A única coisa que ela lembra é que a cena é linda, cheia de florezinhas que caem pelo corpo da personagem. De resto só o breu. Estava desmaiada.

O diretor do longa, Álvaro de Moya, teve um dia incomum com sua atriz desmaiada antes dele gritar: “Corta!”. Mas, para a musa, aquele foi um dia como qualquer outro. Não porque ela estava mais uma vez envolvida em um projeto e filmando uma cena, e sim porque desmaiava toda vez que precisava ficar nua para interpretar uma personagem.

Mesmo com toda a sua coragem, perseverança e amor pelo cinema, essa não foi uma cena tão fácil de ser gravada, ainda mais se tratando do primeiro filme de sexo explícito da carreira de Débora.

Fosse nesses longas ou nas pornochanchadas, apagar era o reflexo do nervoso extremo que sentia todas as vezes que precisava se despir para gravar uma cena. A cabeça entrava em parafuso e Maria das Neves de Lima, como foi batizada, lembrava-se de toda a sua trajetória desde a saída da cidade natal, Afogados da Ingazeira, interior de Pernambuco, até tudo o que tinha sofrido, feito e desfeito para se firmar como uma atriz séria.

Ainda criança, ela saiu do Nordeste do Brasil com a família e foi para Tapejara do Oeste, interior do Paraná, local onde, com sete anos de idade, descobriu o que queria fazer da vida enquanto ia para a missa de domingo com o pai. A caminho da igreja, a menina viu uma aglomeração próxima ao aparelho de televisão que era colocado todos os dias no meio da praça. Curiosa como sempre, se aproximou e viu na tela uma garota de saia colegial vermelha e blusa branca atravessando a rua. Uma simples cena de um programa qualquer abriu os seus olhos para um novo mundo. “Eu quero fazer isso aí”. Foram as palavras que saíram de sua boca diretamente para os ouvidos do pai, que não deu bola aos delírios da criança. Eles mal sabiam o que era aquilo, mas a garota colegial permaneceu sempre em suas lembranças.

Três anos depois se mudou para São Paulo e, na adolescência, a diversão máxima era cabular aula para assistir os filmes no cinema Caboclo, na Vila Matilde, zona leste da cidade. O cinema ia cada vez mais fazendo a sua cabeça e, em 1975, o filme “Efigênia dá tudo o que tem” foi a gota d`água da paixão por esse mundo. O fato de ser apaixonada por Ricardo Petráglia, o galã do filme, ajudou muito no carinho por esse longa.

A entrada para a vida artística foi pelos palcos do teatro com a peça “Dr. John e Frank”, A menina tinha 14 anos de idade e encerrou a montagem com colegas por algumas escolas na cidade. Logo depois, decidiu entrar de vez para um grupo de atores. Buscou em anúncios de jornais e, em 1975, tornou-se aluna da escola de atores de Wilson Rodrigues, na rua Riachuelo, centro da cidade. Três meses depois, reuniu-se com outros alunos e mudou para a escola de atores de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, onde aprendeu técnicas de intepretação e produção, além de ser apresentada à Boca do Lixo, em 1977.

Na Boca, encontrou um verdadeiro lar. Passava grande parte do dia por lá e em pouco tempo estrelou “A mulher que põe a pomba no ar” (1978) e “Perversão” (1979), ambos de Mojica.

Os desmaios começaram logo no primeiro filme, mesmo não sendo tão comprometedor, já que aparecia sem roupa, mas sentada em uma cadeira, contando uma história e sem mostrar muita coisa. O bicho começaria a pegar quando filmou uma cena de estupro em “Mundo, mercado do sexo” (1979). Messe, desmaiou de verdade.

Mas mesmo apagando nas cenas de nu, era presença certa em vários filmes, fosse em papéis principais ou coadjuvantes. Por passar muito tempo na Boca, era considerada filha de todo mundo e gostava de estar com a equipe técnica em momentos de descontração e mesmo durante as filmagens. Seu jeito de moleca não só rendia papéis em longas por toda a rua do Triunfo, como o conhecimento do processo de produção dos filmes, técnicas e direção.

Certa vez, no intervalo de gravação de “Perversão”, ela conversava com outros colegas do elenco quando o assunto se voltou aos ídolos de cada um. Imediatamente falou que era apaixonada pelo galã de “Efigênia dá tudo o que tem” e, para a sua surpresa, o rapaz do seu lado era ninguém menos que Ricardo Petráglia, a sua paixonite de adolescência.

- Ciganinha, eu fui a paixão da sua vida- disse ele, chamando-a pelo apelido que ganhou na Boca. Ela não sabia onde enfiar a cara de vergonha e, se tivesse descoberto antes quem era ele, provavelmente não conseguiria atuar ao seu lado. O motivo dos desmaios seria muito maior do que simplesmente a nudez em cena.

Porém, nem tudo eram flores e claquetes no início da carreira. O pai não aceitou que a filha fosse atriz, e Débora perdeu a conta de quantas vezes apanhou em casa. O senhor José dizia que ela era a vergonha da família.

Mas mesmo sem o apoio familiar, Débora seguiu em frente e sua carreira estava pegando fogo. As produções na Boca do Lixo também estavam em plena ebulição, mas a nova década que surgia trouxe mudanças para o cinema nacional que afetaram diretamente a rua do Triunfo. Os filmes produzidos nos Estados Unidos e Europa que estavam chegando ao solo brasileiro apresentavam conteúdo de sexo mais picante e completamente explícito, ao contrário do que era mostrado nas pornochanchadas. O público, é claro, preferiu essa novidade.

Sem alternativas, os produtores passaram a produzir esse tipo de filme e Débora foi convidada a estrelar essa nova vertente do mercado cinematográfico. Outras atrizes receberam o mesmo convite, mas, de todas, Débora foi a única que aceitou. Ela chegou à conclusão que, se recusasse, teria que abandonar o cinema, coisa que nem cogitava na época.

Não foi uma decisão fácil, tampouco rápida. Ela resistiu muito tempo, ignorou testes e ligações de produtores que a queriam num filme novo. Um dia a chamaram na produtora e perguntaram se ela faria. Entre muitos sim e não, deu finalmente o sinal positivo e os produtores imediatamente disseram: “Então assina o contrato”.

Foi desta maneira repentina que Débora estrelou “A b...profunda”. A Haway, produtora do longa, já sabia que ela estava balançada e providenciou tudo o que ela poderia precisar para se hospedar no Guarujá, local onde o filme foi rodado. Se dissesse sim, haveria uma mala e itens de higiene prontos, além de um cachê bastante gordo, suficiente para comprar um carro na época.

Assinou o contrato, filmou e desmaiou. Tudo no mesmo dia. Enquanto transava para obter uma cena, uma mistura de questões, que envolviam o que ela estava fazendo ali e o que tinha que fazer em seguida, passava pela sua cabeça. A família logo aparecia em sua mente, mas ela não desistiu.
Depois do seu sim à indústria pornô, a primeira vez que Débora encontrou na rua do Triunfo antigos colegas, como os produtores Augusto de Cervantes, Jean Garrett e José Mojica Marins, foi muito questionada. Com certa bronca na voz, eles perguntaram o motivo de ela ter se submetido a essa nova linha do cinema. Débora sempre tinha a resposta na ponta da língua e rebatia dizendo que fazia pornô porque nenhum deles havia dado um emprego para ela. Neste momento em que assumiu que realmente estava no pornô e que fazia coisas extremamente ousadas em frente às câmeras, sentiu que os antigos colegas a estavam vendo como mulher pela primeira vez. A menininha que havia aparecido no auge da adolescência e que tinha crescido naquele meio tinha ido embora e no seu lugar havia uma mulher forte, decidida e que faria de tudo para continuar no cinema. Fosse fazendo sexo na telona ou não, tudo não passava de trabalho. APENAS trabalho. E um tantinho de paixão também.

Mesmo desmaiando nas cenas de nu, Débora destacou-se nos filmes pornôs brasileiros até o fim da década de 80, quando deu um tempo na telona para dedicar-se à direção de filmes e ao teatro.

Em 1992, deixou o país para morar e trabalhar em uma casa de shows brasileira no Japão, onde permaneceu até 2003. De volta ao Brasil, ajudou a fundar a “Rama Kriya”, companhia teatral que se dedica à produção de peças na religião espírita.


FICHA TÉCNICA
Nome completo: Maria das Neves de Lima
Nome artístico: Débora Muniz
Data de nascimento: 26 de agosto de 1959
Naturalidade: Afogados da Ingazeira, Pernambuco.

Principais bilheterias da pornochanchadas:
“A mulher que põe a pomba no ar” (1978), José Mojica Marins
“Perversão” (1979), José Mojica Marins
“Mundo, mercado do sexo” (1979), José Mojica Marins

Outros trabalhos relevantes:
“A b... profunda” (1983), Álvaro de Moya
“Oh! Rebuceteio” (1984), Cláudio Cunha
“Gozo alucinante” (1985), Jean Garrett

Onde vive hoje: São Paulo (SP)

Onde faz hoje: Atriz integrante do grupo teatral “Ram Kriya”, especializado em peças espíritas.


Publicado originalmente no trabalho acadêmico Superfêmeas- as mulheres que fizeram a história da pornochanchada de autoria de Bianca Bellucci, Heros Macedo, Heverton Bruno, Larissa Palmer, Renata Rocha e Tamires Camargo, publicado como trabalho de conclusão do bacharelado em jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo em 2014.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Um rolê para o outro cinema

Prêmio reúne veteranos da Boca paulistana



Tarde de dezembro. O público chega devagar ao espaço Matilha Cultural no centro de São Paulo. Lá teria início um evento que reuniu cineastas, atores, técnicos, pesquisadores e anônimos que de alguma maneira gostam da antiga Boca paulista. Tratava-se da primeira exibição pública do longa-metragem Rua do Triumpho- o filme do veterano Mário Vaz Filho. Era também a segunda produção do Instituto Ozualdo Candeias, entidade que reúne remanescentes da Boca do Lixo paulista. “Fiquei 2015 todo montando e remontando esse filme. Deu um trabalho do cão”, reclama Marinho.
                
Já o produtor Diomédio Piskator é mais otimista. Presidente do Instituto, ele comemora que a primeira produção da entidade (Memórias da Boca) chega na quarta semana em cartaz no Cine Belas Artes. Piskator afirma que novos projetos devem estrear em breve. “Fazemos tudo de maneira independente. Nossa ideia principal é manter o pessoal ativo”. Misto de documentário e ficção, Rua do Triumpho é um trabalho que sofre com o orçamento controlado. Mesmo assim, existem boas ideias e momentos engraçados. Principalmente quando o foco do filme fica nos suvaquinistas. “Eram aquelas pessoas que carregavam o roteiro debaixo do braço, mas não concluíam nada. Os fazedores de filmes inacabados”, explica Mário Vaz Filho. Ele afirma que conheceu diversos suvaquinistas na rua do Triunfo. Muitos não chegaram a terminar nenhuma produção. “Agitavam, agitavam e acabavam não concluindo nada”, diz rindo.

Rua do Triumpho foi produzido sem nenhum recurso público tendo como protagonistas remanescentes da própria Boca como Clery Cunha, José Lopes (Índio), Zé da Ilha e Franco Lino. A aposta é que o filme chegue a ser exibido no próprio Belas Artes. “Eles possuem um espaço legal pra quem trabalha de maneira independente. Não temos por trás nenhum apoiador”, conta Diomédio.

Após a exibição do longa-metragem, aconteceu a segunda parte do evento. O Instituto Ozualdo Candeias organizou a entrega da primeira edição do prêmio Francisco Cavalcanti, destinado a personalidades do cinema paulista. O evento aconteceu no restaurante e pizzaria Estrela da Ipiranga, local próximo ao Matilha Cultural. Entre as personalidades que receberam a placa estão atrizes como Neide Ribeiro e Débora Muniz. O cineasta Alfredo Sternheim e o professor e montador Máximo Barro também foram homenageados.

 Mas a plateia ficou em êxtase quando o cineasta José Mojica Marins foi receber sua placa. O realizador conhecido pelo personagem Zé do Caixão teve duas paradas cardíacas nos últimos anos e ficou cinco meses internado na UTI do Incor (Instituto do Coração). Mesmo com todos esses problemas de saúde, Mojica recebeu a placa e fez um emocionante discurso. “Eu acho que todos que lutaram tem o seu devido valor. Não importa se estão mortos, se estão afastados. Onde quer que seja, basta que eles fizeram algo pelo cinema e eles precisam ser valorizados”. Aos 79 anos, Mojica prossegue trabalhando nos seus projetos pessoais. Ele inclusive foi tema da minissérie Zé do Caixão exibido no canal pago Space. A filha do diretor, Mariliz Marins, explica que está concluindo uma loja virtual para comercializar produtos referentes ao pai. “Os fãs vão poder comprar camisetas e outros adereços referentes ao mitológico personagem. Vamos inclusive vender uma cachaça Zé do Caixão”. 


Organizador da premiação, Diomédio Piskator afirma que 2016 será um ano importante para o Instituto Ozualdo Candeias. Novas produções devem entrar em cartaz e a segunda edição do prêmio Francisco Cavalcanti será realizada. “Estamos concluindo o São Paulo Zero 15. É um longa-metragem composto por quinze episódios de ficção tendo a cidade de São Paulo como protagonista. São quinze diretores de gerações diferentes num único filme”. Ele espera que o longa-metragem estreie para o grande público no segundo semestre de 2016. 

sábado, 31 de agosto de 2013

“Eu tive a minha adolescência na Boca. A rua do Triunfo será sempre o solo sagrado do cinema nacional.”



Uma atriz que não esqueceu sua trajetória na Hollywood paulistana. Essa é Débora Muniz. Após atuar em dezenas longas-metragens, a intérprete prosseguiu a sua carreira nos palcos e na sétima arte. Em 2012, Débora estrelou o curta-metragem A Mulher Barata de Mário Vaz Filho. No lançamento deste filme, VSP conversou rapidamente sobre este trabalho e relembramos parte da trajetória da musa. Sempre educada e gentil, Débora é dessas pessoas que falam sobre a Boca do Lixo com emoção e sentimento.



Violão, Sardinha e Pão- Quantas vezes você trabalhou com o Marinho?



Débora Muniz- Com o Marinho eu trabalhei...que eu me lembro pelo menos seis vezes.



VSP- Seis vezes?



DM- Tem bastante coisa que eu fiz com o Marinho. Tem uma história bem longa.



VSP- Como é trabalhar com ele?



DM- O Marinho é aquela coisa que eu falei com pessoal...eu estou tendo o privilégio de estar de volta no solo sagrado do cinema nacional que é a rua do Triunfo. E Marinho foi um grande personagem de toda essa história, eu digo que ele era o mais despojado e continua sendo o mais despojado. É o único que conversa com você assim: “Vamos fazer essa porra logo. Vamos rodar essa porra logo”. É uma delícia trabalhar com o Marinho porque ele não é uma pessoa com uma única formação. Marinho é tudo ao mesmo tempo: ator, diretor, roteirista, faz tudo em  comportamento. Então, você encontra o Marinho como se fosse o seu parceiro na cena. E é divino porque você não tem ele numa única função É uma delícia trabalhar com o Marinho porque é um grande amigo em primeiro plano. E um porra louca da rua do Triunfo (risos). Principalmente isso.



VSP- Como foi ser protagonista nesse curta?



DM- Ele é um puto. Ele é um puto porque ele sabe que quando ele escreveu a única louca que faria esse papel seria eu. Então, ele já tinha certeza disso. Porque o Marinho além do diretor é em primeiro lugar o amigo. Então, mesmo depois que a Boca parou, toda essa história...nossa eu adoro o Marinho de paixão. É um grande amigo, um irmão querido. Coincidentemente a gente se encontrou numa mostra dos filmes do Chico (Cavalcanti). Nisso, ele coçando a cabeça veio me falar: “Porra Débora não sei como te falar um negócio aí”. Eu respondi: “Fala logo Marinho. Desempucha porra, você não é de rodeios”. “É um filme aí que tem pelada...”, aí eu perguntei quem iria dirigir. Ele: “Eu...”. “Então vamos embora e não enche o saco”. “Mas você não viu o texto?”, “Mas isso me interessa? Quando a gente for rodar eu vejo.”



VSP- Você nem viu o texto?



DM- Eu não vi o roteiro. “Que dia começa?”, “Tem que ver produção, orçamento”. As dificuldades de sempre né? Eu falei: “Quando tiver pronto você me liga dois dias antes e vamos embora”. Foi assim...existem pessoas que mesmo da boa época da Boca quando começaram a fazer o explícito, essa coisa toda. Eu mesma resisti um tempo: “Não vou, não vou, não vou”. Aí quando eu vi que eu faria ou pararia de fazer cinema a única coisa que me interessava era saber quem iria me dirigir, o autor do roteiro e a equipe técnica. Com o Marinho agora foi a mesma coisa. Vira e mexe o pessoal me liga: “Débora, vamos fazer um filme?”. Algumas vezes eu estou com compromissos: “Não tenho tempo. Eu estou fazendo teatro”. Agora depende de quem vem a proposta. Essa veio de uma pessoa que eu amo de paixão e confio. Então, mais uma vez eu fiz uma porralouquice.



VSP- No bom sentido...



DM- No bom sentido e eu amo. Eu acho que isso é Boca, é cinema nacional. Tanto que algumas pessoas falam: “Mas isso é trash”, a realidade é que o Brasil é trash. Entende? Eu amo o meu país, amo a Boca e amo o cinema nacional.



VSP- Hoje você trabalha mais com teatro...



DM- Aí você vê a maluquice. É tão maluco que  eu no momento estou em cartaz com Darwin, o Canto dos Canários Cegos, um espectáculo divino. Estou voltando com Os Ossos do Barão do Jorge Andrade, um clássico e também faço espetáculo espírita. Amo fazer espetáculo espírita.



VSP- Quais peças você está fazendo pra esse segmento?



DM- Estou com O Amor Venceu da Zíbia Gasparetto e estou com O Advogado de Deus também da Zíbia.



VSP- Poxa, mas como você decora tanta coisa ao mesmo tempo?



DM- Olha é tanta confusão. Na próxima semana, eu vou fazer Os Ossos do Barão a tarde, a noite Darwin e depois vou fazer O Advogado de Deus. Mas é incrível que eu digo que cada personagem tem a sua essência. Então, eu sempre vivo seguinte maneira: o ator, a atriz não tem que interpretar. Eu sou a personagem. Então, no momento certo eu sou Emma Darwin. Depois, eu sou Verônica de Jorge Andrade. Então, naquele momento não tem como confundir porque as personalidades são completamente diferentes. Naquele momento específico eu sou aquela mulher e aquela personagem não conhece a outra. Então, não tem como misturar. É algo divino.



VSP- Você deve gostar muito de teatro. Mas o cinema continua sendo a sua grande paixão?



DM- Cinema é a minha grande paixão. Só que hoje é muito difícil fazer a cinema né? Então, eu me realizo com teatro. E me realizo quando os amigos resolvem fazer loucuras e acabam decidindo fazer um filme dessa maneira. Nisso, eu acaba embarcando nesses projetos.



VSP- Filmar com a barata foi dificil?



DM- Tadinha da barata...ela tava quase morrendo. Eu fiquei com dó da barata, foi ao contrário (rindo). Aí é aquela coisa de cinema que a gente fala: achei maravilhosa a fotografia. Eu achei divina a foram como eles conduziram que parece que a barata foi. Mas a verdade não foi. Mas a barata estava convadescendo sabe? Então foi uma gracinha. Ela era pequeninha. Não era meiga?



VSP- Era bem pequeninha. Não dava muito medo da barata.



DM- Mas mesmo que fosse um baratão, o que é uma barata perto de tudo que a gente passa nesse país? Nada. Podia ser um rato também. Não mudava o sentido da coisa.



VSP- Débora, me desculpa perguntar isso...mas você tem quantos anos?


DM- Eu estou maravilhosamente bem com os meus 52 anos. E amo ter 52 anos.



VSP- Como é pra você ser uma das musas da Boca e uma das únicas que continua fazendo cinema. Você é muito guerreira? Porque muitas desistiram.



DM- Eu acho que guerreira...guerreira eu sou com certeza. Mas eu acho que eu sou mais apaixonada pela arte e pelo cinema. Eu digo sempre que o diferencial foi que cada uma chegou na Boca em um momento pra ser a estrela, pra grandes personagens. Eu tive a minha adolescência na Boca. Então é incrível porque eu tive pais de verdade na Boca. Então, eu tive desde o começo da minha adolescência com o Mojica. Eu era mais uma filha junto com o Crounel e a Mariliz. Depois, teve o Augusto de Cervantes...isso é algo que me entristece de vir na Boca. Porque eu olho a antiga janelinha (do escritório da Masp Filmes) e é sério...pra mim o Augusto ainda está lá (emocionada). Pra mim Ody...você vai chegar ali e encontrar o Ody. Pra mim, abrindo a portinha daquele boteco eu vou encontrar com o Tony Vieira. Então, isso é muito forte e eu admiro esse pessoal com esse cineclube aqui porque é aquilo que eu digo: aqui é o grande tapete e vai continuar sendo daqui a 100 anos. Eu acho que quem está nascendo agora vai conhecer a história da Boca e vai passar e dizer: “Era aqui que diziam que era o grande castelo”.



VSP- Hollywood de São Paulo?



DM- Hollywood de São Paulo, nosso solo sagrado. Então, a Boca, a rua do Triunfo será sempre o solo sagrado do cinema nacional.



VSP- Você ainda participar de cinema com nu isso não tem problema pra você esse tipo de trabalho?



DM- Eu dizia sempre e inclusive eu brincava muito com o Alfredinho (o cineasta Alfredo Sternheim), outro que eu amo de paixão: se eu tivesse continuado fazendo um filme em seguida do outro eu teria morrido em frente a uma câmera. Porque ás vezes o pessoal pergunta: “Débora, o que você fez em cinema?”. Eu respondo: “Mais fácil você perguntar o que eu não fiz em cinema”. Porque em cinema eu acho que eu fiz tudo e continuo aberta pra fazer mais. Então, eu acho que cinema é essa coisa maluca, é o diferente, o além. Eu quero me surpreender e ainda continuo esperando o personagem que vai me surpreender. Aí me perguntam: “Você já fez o seu melhor personagem?”. Não, ainda estou esperando ele. Esperando e tenho certeza que vai chegar.



VSP- Débora, você acha que o Mojica vai ficar enciumado de você ser protagonista em um curta de terror?



DM- Mais isso não foi a primeira vez. Você sabe que quando eu fiz Amor Só de Mãe que foi de terror também e nós ganhamos vários prêmios foi uma coisa maluca. Isso porque veio o diretor de uma revista americana especializada em terror e veio fazer uma reportagem sobre o filme. O americano entrevistou o Mojica, entrevistou o Dennilson (Ramalho, diretor do curta Amor Só de Mãe) e a gente brincou muito. Nos perguntávamos: “Quem vai fazer a capa da revista?”, eu falei com o Mojica: “Não adianta. Você é o mestre”. Mas foi a discípula que acabou saindo na capa. Então, eu acho que não existe ciúmes. O Mojica sabe que ele vai continuar sendo um paizão, um mestre. Mas a discípula quer ir muito além.