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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Nossa Canção: Germano Mathias


 
Historicamente, a produção cultural da cidade de São Paulo sempre foi tratada pela intelectualidade brasileira como algo menor. No campo literário, autores como Marcos Rey, Henrique Matteucci e Lourenço Diaféria sempre foram subestimados pela classe universitária. No campo musical, existem diversos artistas que não ganharam o devido reconhecimento.

Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini são os compositores mais conhecidos e lembrados do samba de São Paulo. Nomes como Noite Ilustrada, Mauricy Moura e Jorge Costa sempre foram subestimados. O sambista Germano Mathias é outro artista que pertence a esse time.

O Marlon Brando do Pari fez muito sucesso no final dos anos 1950 e início dos 60. Inventivo, ele aprendeu a cantar nas rodas dos engraxates das praças Clóvis Bevilácqua, Sé e República. O primeiro contrato profissional de Germano, feito na Rádio Tupi de São Paulo, o considerava “cantor e executante de instrumentos exóticos”.

O escritor e pesquisador Caio Silveira Ramos é autor de Sambexplícito- as Vidas Desvairadas de Germano Mathias, (2009), biografia oficial do sambista. Ele considera o artista paulistano uma figura transgressora para os anos 50. “Em seu período inicial no Brasil, a televisão era muito séria, sisuda. O Germano era um artista diferente pra época pela personalidade dele. Ele chegava nos programas de TV e pulava na platéia, dava pirueta”, explica. A popularidade do Catedrático do Samba era tanta que ele acabou participando de dois longas-metragens no período.

Em 1959, Germano fez sua estreia no cinema na comédia Quem Roubou Meu Samba? de José Carlos Burle. Produção da Cinelândia Filmes, esta chanchada trata do polêmico tema dos direitos autorais. O filme é baseado numa peça do dramaturgo Silveira Sampaio e o elenco é encabeçado por Ankito, Maria Vidal, Aurélio Teixeira e Catalano. O cantor aparece em uma cena ao lado de Ankito e canta a canção Figurão, faixa do disco Em Continência do Samba.

No mesmo ano, Mathias participou da fita O Preço da Vitória, de Osvaldo Sampaio, um dos primeiros filmes nacionais a tratar do futebol. O argumento é sobre um jovem (o galã Maurício Morey) que sonha em ser um jogador bem sucedido e famoso. No entanto, ele encontrará uma série de dificuldades até se firmar na profissão. Germano Mathias participa de uma antológica cena ao lado do cantor Nerino Silva, em que reproduz uma roda de engraxates da Praça da Sé, região central de São Paulo. Na mesma cena, o sambista aparece cantando o sucesso Lata de Graxa. “Na verdade, O Preço da Vitória não é um grande filme. A película vale mais por ter a presença dos jogadores que tinham sido campeões mundiais na Suécia”, avalia Silveira Ramos.

Conhecido popularmente como Mandusca, Barra Funda, e Marlon Brando do Pari, Germano Mathias teve altos e baixos em sua carreira. “A grande influência dele foi o cantor Caco Velho. No entanto, ele é um artista bastante diferente do Caco. Na minha opinião, ele continua sendo um dos três grandes cantores brasileiros”, opina o cantor e médico Francisco José Bueno Aguiar.

Cantor do asfalto e do concreto de São Paulo, o Catedrático do Samba nem sempre foi bem aceito pela crítica musical. A maioria dos jornalistas cariocas julgou que Germano sempre teve um sotaque muito característico em suas músicas. O crítico José Ramos Tinhorão sempre considerou a canção Minha Nega na Janela preconceituosa. Já Tarik de Souza sempre foi um defensor do sambista. No livro 300 Discos Importantes da Música Brasileira, ele comenta sobre o artista: “Uma espécie de Moreira da Silva paulista, malandro das malocas, de camisa listrada, chapeuzinho enterrado, sapato branco, Germano foi boxeador e bom de pernada”.

Aos 76 anos, o Marlon Brando do Pari continua dando shows e gravando discos. Tive a oportunidade de conversar rapidamente com Germano no ano passado. Muito sério no início da conversa, ele me perguntou: “Mas afinal, você é realmente meu fã?”, eu respondi: “Sim”. Ele deu uma rápida risada e me respondeu: “Olha meu filho, eu não tenho culpa do seu mau gosto”.

Texto de minha lavra publicado originalmente na edição 41 da revista eletrônica Zingu! com dossiê sobre o cineasta José Miziara.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O CATEDRÁTICO DO SAMBA/ Germano Mathias


O excelente sambista Germano Mathias, um dos melhores do Brasil, numa seleção muito boa de sambas, destaque para os autores Padeirinho da Mangueira, Jorge Costa e Zé Kéti, com músicas inéditas. Acompanhado pelo Regional do Arlindo, alternando formações diferentes para mudar o som de fundo dos sambas (algumas faixas têm órgão), num LP de alta qualidade. Com sua voz estridente (em “Terreiro de Itacuruçá” lembra Jackson do Pandeiro) e muito balanço, Germano canta dolente às vezes acrescentando frases às letras, no estilo dos sambistas de morro cariocas. Criador de grandes sucessos como “Baile do Risca-Faca”, “Nêga na Janela” e “Guarde a Sandália Dela”, Germano volta a interpretar algumas obras-primas: “Doutor no Samba”, “Vou Ficar Devagar”, “Mundo Cão”, “Regenerado”, e “Cozinheiro à Força”. Bonitos solos de clarineta, neste disco importante e agradável de ouvir. Cantagalo-625.

Publicado originalmente na revista Veja em 5 de março de 1969

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O ex-malandro


O ex-malandro

As histórias de um sambista que aderiu à teosofia

Um pequeno apartamento na Vila Industrial de Campinas, interior de São Paulo, foi alugado às pressas para que o sambista Germano Mathias e a cabelereira Ivone pudessem enfrentar a mais nova etapa de sua vida de casados que já dura cinco anos. Lá, Germano, barriguinha saltando fora do cinto, aos 44 anos, está eufórico com o novo emprego. “Vou inaugurar o primeiro forró-sambão de Campinas”, diz ele, felicíssimo. A razão para tal euforia se explica: nos últimos nove anos ele cantou seus antigos sucessos em desconhecidas gafieiras e cabarés de São Paulo. E isto, quando conseguia comover seus proprietários que, em troco, lhe pagavam cachês simbólicos. Por pouco, Germano não entra para a gloriosa – mas pouco rentável – galeria dos “monstros” da música popular brasileira, o que equivale ao esquecimento total por parte de gravadoras e rádios, e o reconhecimento não-remunerado de teóricos e historiadores.

Mas, para sua surpresa, acaba de sair pela Phonogram o LP “Gilberto Gil e Germano Mathias”, onde suas primeiras gravações – de vinte anos atrás – são alteradas com interpretações de Gil para seus grandes sucessos. “Eu nem sabia de nada”, espanta-se Germano. “A gravadora bem podia ter-me procurado para que eu regravasse as músicas”. A Phonogram, porém, o procurou em vão, durante semanas, pela noite paulista e muita gente sequer se lembrava de seu nome. “Fiquei muito relegado ao segundo plano”, lamenta. “Acho que é porque sou um sambista autêntico demais e isso choca”.

BATUQUE DE ENGRAXATE- A história do paulistano Germano Mathias – de fato um autêntico sambista de bossa sincopado – é típica dos artistas do passado.  Muito sucesso na década de 50, bajulação, dinheiro aos montes. De repente, as portas se fechando, o dinheiro sumindo – e teve início uma nova e penosa trajetória. Quando surgiu em 1955 – contratado pela Rádio Tupi para substituir o sambista Caco Velho –, Germano trazia no seu jeito de cantar uma novidade para a época. Frequentador assíduo das rodas de samba que os engraxates dar praças da Sé, Clóvis Beviláqua e João Mendes costumava fazer aos fins de tarde, ele levava para suas apresentações uma tampa de lata de graxa niquelada e gingava com o corpo no mesmo estilo dos engraxates – uma espécie de jogo de capoeira.

“Todo sambista tem que cantar o samba e enfeitá-lo. Precisa ter coreografia, criar um tipo”, explica ele, dando os exemplos de Moreira da Silva com a gíria, Caco Velho imitando o som da cuíca com a boca, Joel de Almeida batucando no chapéu de palha e Cyro Monteiro na caixa de fósforos. “Eu compareci com a minha trampolina de gordura – tampa de graxa”.  Depois do primeiro disco lançado em 1956 pela Polydor (hoje um selo da Phonogram) – “Minha Nega na Janela” – “começou a chover na minha horta”. As gravações se sucediam – gravou até hoje 17 LPs, onde estão seus maiores sucessos, “Guarde a Sandália Dela”, “Tem que Ter Mulata”, “Nega Dina” – e os convites para apresentações eram inúmeros. Em 1964 recebeu da Escola de Samba X-9, de Santos, um diploma de bacharel do samba e ficou conhecido como “O Catedrático do Samba”.

PERSONALIDADE PARADOXAL- “Tudo ia muito bem até aparecer essa tal de Jovem Guarda”, conta Germano. “Aí tudo mudou”. Germano acha que entrou numa fase tão negra que alguns jornalistas, ao falarem de seus discos, argumentavam que a música era uma bobagem e que ele usava acompanhamentos pré-históricos. Indignou-se: “Então cavaquinho, violão e pandeiro viraram, de uma hora pra outra, acompanhamento pré-histórico?” dos programas de televisão e shows de boates famosas, Germano passou imediatamente a frequentar gafieiras e cabarés. Uma época – em 1975 – foi obrigado a abandonar a carreira e arrumar emprego no fórum como oficial de justiça criminal. “Me sujeitei a trabalhar por cachês irrisórios, fui muito humilhado por pessoas que antes me bajulavam. Mas o pior de tudo é que fui muito farrista. Gastei todo meu dinheiro – e como tinha naquela época ! – com jogo, mulheres e bebida”. É por isso que hoje aconselha aos que estão numa boa a guardar o “onipotente deus no mundo”, o venerável dinheiro. “Cheguei num ponto em que, se visse uma nota de 500 pela frente, era capaz de beijá-la por ardor”.

De farrista e malandro hoje Germano não tem mesmo mais nada. Há cinco anos casou-se e tornou-se adepto do espiritismo.

“Tenho uma personalidade paradoxal”, ele explica. “Como sambista, interpreto sambas de malandragem, deveria ter vícios, beber, fumar, jogar. Abandonei tudo. Sou completamente o oposto”.

Em Campinas, em pleno clima de Copa do Mundo, ele estava animado com as perspectivas abertas pelo lançamento do LP de Gilberto Gil: “Eu o conheci numa apresentação em São Paulo, cantando uma música minha. Fui cumprimentá-lo e ele me disse que um dia ainda teria uma grande surpresa”.

E, mais que qualquer teórico, encontrou uma surpreendente explicação para a volta da música brasileira às paradas: “Só pode ter sido o fato de nos tornarmos campeões do mundo em 1970”. E agora?

Publicado originalmente na revista Veja em 28 de junho de 1978