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sábado, 12 de agosto de 2023

NENÊ A BORDO (Placar 943, 1º de julho de 1988)

 


Nenê a Bordo (Placar 943,1º de julho de 1988)

 

As locomotivas de Ênio Andrade querem atropelar os rivais na reta final e o zagueiro é uma das armas

 

Por Mário Sérgio Venditti

 

Qual a semelhança entre o zagueiro Nenê, do Palmeiras, e a nova novela global Nenê a Bordo? Enquanto a pequena Heleninha inferniza a vida de Ana (Isabela Garcia) e Tonico (Tony Ramos) na telinha, Nenê tira o sossego dos atacantes adversários em campo. Só isso? Não. Ao chegar em casa, depois dos treinos do período da tarde, Nenê liga a televisão e se diverte com as trapalhadas do jovem casal. Com o passar dos capítulos, ele começou a perceber que a sua carreira poderia render também um bom enredo para novela.

 

No começo do ano, Nenê esperou dois meses até os cartolas palmeirenses resolverem realmente contratá-lo. Era muito tititi, que lhe acabou causando uma verdadeira hipertensão. Os dirigentes relutavam em desembolsar 15 milhões de cruzados pedidos pelo Juventus. Mas, para seu alívio, concordaram em pagar. Nenê já havia defendido o Palmeiras por empréstimo na Copa União. “Foi difícil mostrar o meu potencial em apenas três meses”, choraminga.

 

Nesse curto espaço de tempo, porém, recebeu grandes demonstrações de carinho da torcida e quis devolver tudo com seu futebol de raça e coragem. Afinal, amor com amor se paga. Ao voltar a seu berço de origem, a Rua Javari, decidiu que não vestiria mais a camisa do Juventus. E esperou a concretização do negócio com o Palmeiras.

 

Nenê, é verdade, não era bem-amado pelos corneteiros. Sem espernear, superou mais esta roda de fogo. “Todos os jogadores são cobrados no Palmeiras”, conforma-se. “Procuro sempre levar as críticas para o lado positivo”. Iniciou, então, sua escalada. Mostrou seriedade em todas as jogadas, sem plumas e paetês. Nenhum centroavante ousa mais ficar sassaricando a sua frente. Leva vantagem nos lances de corpo a corpo graças a seus 1,87 m e 83 kg. Passou a representar também a figura de um anjo mau aos inimigos nas cobranças de escanteio. Diante de Noroeste e Portuguesa, acertou duas cabeçadas brilhantes que deram a vitória ao Palmeiras.

 

Apesar do apelido infantil, Nílton Rodrigues Felão Júnior, 25 anos, tem uma saúde de cavalo de aço. Com ela, Nenê só pensa em ajudar o Palmeiras a encerrar, com final feliz, a arrastada novela de onze anos sem títulos. Acha que está na hora de parar de encher linguiça. Para isso, avisa que vale tudo – menos cambalacho. As locomotivas de Ênio Andrade querem atropelar os adversários na reta final. E com Nenê a bordo.

 


Publicado originalmente na revista Placar 943 em 1º de julho de 1988

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

MERECIDA RECOMPENSA (Placar 931, 8 de abril de 1988)

 Merecida Recompensa (Placar 931, 8 de abril de 1988)

 


Ditinho Souza torna-se o novo titular da ponta-esquerda alviverde depois de um ano de muita luta

 

Por Mário Sérgio Venditti

 

Há um ano, quando veio para o Parque Antártica, Ditinho Souza sabia que tinha uma parada dura pela frente. Emprestado pelo CSA, de Alagoas, chegava para ajudar o Palmeiras a tentar a interromper um longo jejum de conquistas. De quebra, disputaria a camisa 11 com Mauro – aclamado como um dos melhores pontas-esquerdas do estado até então.

 

E ele teve de esperar quase todo esse tempo para ganhar a chance de mostrar sua utilidade ao clube. Isso só aconteceu depois que Mauro caiu em desgraça junto aos torcedores e aos famosos corneteiros alviverdes. Intranquilo, o ex-ponte pretano perdeu o lugar na equipe. O técnico Rubens Minelli, então, resolveu recorrer ao pequeno Ditinho Souza, de 1,66 metro de altura e 62 kg. Não se arrependeu.

 

Entrando no segundo tempo da difícil partida contra o Juventus – na terceira rodada do Campeonato Paulista -, ele abriu o caminho para a vitória de 2 x 1 com uma certeira cabeçada. Rápido e driblador, mostrou-se uma eficiente arma para ser usada em contra-ataques. Ganhou a preferência de Minelli – e também da torcida. Mauro, o ex-titular, acabou trocado pelo ponta-esquerda do Pinheiros, Marquinhos, que pode ir para a Itália em junho.

 

Assim, o caminho está aberto para Ditinho Souza, 23 anos. Ele sabe disso e promete não deixar nada atrapalhá-lo. Nem mesmo o barulho das cornetas de plantão. “Não me deixo influenciar”, garante. “Nunca fui de dar bola para o que dizem”. Se for verdade, o tempo dirá. Mas não será por falta de ânimo que este paulista de Espírito Santo do Pinhal fracassará em sua tentativa de sucesso.

 

Já no final de 1987 ele mostrava tanto empenho nos treinamentos que conseguiu realizar uma façanha. Convenceu os cartolas a pagarem os 2 milhões de cruzados exigidos pelo CSA, mesmo tendo jogado pouquíssimas vezes pelo time titular.

 

VIDA NOVA – Ao receber a notícia de sua contratação em definitivo, o jovem Benedito Luís Souza e Silva teve a certeza de estar começando vida nova. “No Palmeiras, ganho o triplo do que receberia no Nordeste”, comemora. Sua situação financeira, porém, está longe do ideal. Ditinho só anda de ônibus em São Paulo e mora num modesto apartamento alugado no bairro do Bom Retiro. “Não dirijo porque bati o carro do meu pai quando tinha 14 anos e fiquei traumatizado”, justifica.

 

Amassar o carro do velho Benedito foi uma das muitas peripécias do menino Ditinho em sua cidade natal. Sétimo filho de uma família de nove irmãos, surpreendeu a todos ao tentar a sorte no futebol em Alagoas, depois de jogar a Segunda Divisão paulista pelo Ginásio Pinhalense. Menos ao pai – hoje presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade -, que foi seu primeiro técnico no Paineira, um time amador local. Nem agora, que o filho atua como profissional, Benedito abandona os cuidados de antigamente. “Ele não me deixa participar das peladas de rua com a molecada”, conta Ditinho. “Tem medo de que eu me machuque”.

 


Não seria necessária toda essa precaução. Nos dias de folga, o jogador viaja 198 km até Espírito Santo do Pinhal, para rever Thiago, seu filho de 2 anos, que vive com a mãe, Suzana. Fora isso, as maiores atenções, ele sabe, têm de ser dedicadas à carreira. A hora é de continuar mostrando o mesmo futebol voluntarioso e aplicado que lhe garante a posição até aqui. E o recém-chegado Marquinhos pode ajudar nisso. “Com ele na briga”, explica Ditinho, “eu fico mais animado”.

 

Publicado originalmente na revista Placar 931 em 8 de abril de 1988

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

EDU, A MUNIÇÃO DE CARABINA (Placar 881, 20 de abril de 1987)

Edu, a Munição de Carabina (Placar 881, 20 de abril de 1987)

 


De técnico novo e com um meia em estado de graça, o Palmeiras empurra o Corinthians para a crise e a lanterna

 

Por Mário Sérgio Venditti

 

Não foi um gol qualquer. Edu tabelou com Júnior e escapou como um raio entre a defesa corintiana. Diante de Carlos, soltou a bomba de canhota e fez a torcida explodir em alegria pela segunda vez. O gol serviu para definir a 54º vitória palmeirense num clássico – o de maior rivalidade do futebol paulista – que está completando 70 anos. E não bastasse perder por 2 x 0, o Corinthians fez com que a Fiel passasse uma madrugada suarenta e insone. O time ocupa a lanterna do campeonato, que este ano determina a queda de quatro equipes para a Segunda Divisão. “Minha estrela sempre bilha contra eles”, divertia-se Edu.

 

Edu, porém, não foi uma estrela solitária. O novo técnico, Waldemar Carabina, contratado na semana passada para substituir o demitido Carbone, estreou com o pé direito e quente. Waldemar, 532 anos, jogou catorze pelo Palmeiras. Aparece em quase todas as velhas fotos como quarto-zagueiro da inesquecível Academia da década de 60. Como treinador que conseguiu notoriedade no Nordeste (veio do CSA), está mais para falcão que para pombo. Linha dura, canalizou todos os telefonemas da concentração para seu próprio quarto. “Se o assunto for procedente, permito que o jogador atenda”, determinou.

 


TELESPECTADOR TÁTICO- Saudosistas de plantão viram em Carabina um replay daquele velho e triunfante Osvaldo Brandão. Como o antigo treinador, mantém tudo sob controle. E já no primeiro treino ressuscitou a expressão “Chegar junto”, tática predileta do septuagenário Brandão. Mas, entre gritos e xingamentos, o novo comandante parece ter conquistado a confiança do elenco. “E não vamos nos acomodar depois dessa vitória”, dizia nos vestiários, dispensando os confetes.

 

A carranca de Carabina só se desanuviou à noite, no programa Mesa-Redonda, da TV Gazeta de São Paulo, onde era o convidado especial. Um telespectador com ideias mirabolantes a respeito de tática telefonou para perguntar se a posição mais indicada para Edu não seria a lateral-esquerda. Faltou pouco para uma gargalhada do técnico. “O menino é um excelente jogador e talhado para atuar na ponta-de-lança”, respondeu.

 

É verdade. Lançado no time em outubro de 1985 pelo então treinador Vicente Arenari, atualmente no Bandeirante de Birigui, o meia-esquerda deu os ombros ao peso da camisa. Brilhou como um veterano na vitória de 3 x 0 – coincidência – sobre o próprio Corinthians, avalizando a decisão da diretoria que afastara Mário Sérgio e Rocha para dar voz às pratas da vasa. “Vencer o Corinthians sempre dá moral”, contata Edu. “Assim como perder pode ser uma desgraça”.

 

A fama de Eduardo Antônio dos Santos, nascido há 20 anos em Osasco, município da Grande São Paulo, parece mesmo aumentar em jogos contra o arqui-rival. Em agosto do ano passado, ele marcou o segundo gol no massacre de 5 x 1 imposto ao inimigo. Tal goleada, como se esperava, impulsionou o alviverde até as semifinais diante do próprio Corinthians e à decisão frente à Internacional, de Limeira. Nem por isso a torcida palmeirense comemorou o título esperado há dez anos. “Vencer os corintianos espanta crises mas não vale faixas”, ponderava o capitão Vágner, alisando um curativo sobre os quatro pontos que recebera na testa. “Temos de pensar nos próximos adversários com humildade”, concordava Edu.

 

SOAM CORNETAS – O carrasco dos corintianos não perdeu o jeitão simples de garoto da periferia. O diretor de futebol Nicola Raccioppi, que o viu crescer no clube, não teme que ele se afogue no mar da paparicação fácil. “Está aprovado como craque e tem a cabeça no lugar”, acredita o cartola. “Sim, tenho estrutura para aguentar a fama”, avisava o namorado de Alessandra, que, pacientemente, esperava o herói do lado de fora do Pacaembu. Os pombinhos passaram o resto da noite de domingo em frente à TV, saboreando os lances da vitória.

 

Para trás, Edu deixou novos admiradores que certamente exigirão atuações cada vez mais corretas e gols decisivos. “Tem um toque de esquerda tão genial que me faz lembrar Gérson, nosso Canhotinha de Ouro”, exagera o corneteiro Gílton Avallone. “Mas um de seus defeitos é se achar o dono do time”, procura pelo em ovo Antero Mendo, da torcida Mancha Verde. Não era preciso ser do Gallup, porém, para se constatar que sobraram elogios.

 

Ao coroar o camisa 10 e festejar mais uma vitória sobre o histórico desafeto, os alviverdes pareciam virar uma página: a perda do antigo ídolo Jorginho para o inimigo. “Ense, ense, ense, Jorginho é palmeirense”, gritavam em coro no final. Jorginho fora expulso no jogo anterior, a derrota de 2 x 0 para o Juventus, dia 9, e não entrara em campo para enfrentar o ex-time. Acusado de ter forçado a expulsão para não encarar a antiga torcida, ele se defendia: “Coincidência. Eu nem merecia o cartão vermelho”.

 


Para o Corinthians, o resultado foi uma catástrofe. Saiu de campo tão batido e humilhado quanto Marvin Hagler frente a Sugar Ray Leonardo. Para evitar sururus, os jogadores demoraram a deixar o vestiário. Percorreram em silêncio em fila indiana o caminho para o ônibus, apedrejado. Cautela e caldo de galinha...

 

Publicado originalmente na revista Placar 881, 20 de abril de 1987

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

VÁGNER: “AGORA É GUERRA” (Placar 888, 8 de junho de 1987)

Vágner: “Agora é Guerra” (Placar 888, 8 de junho de 1987)

 


O capitão do Palmeiras prevê um segundo turno duríssimo e quer dedicar o esperado título a sua torcida

 

Por Mário Sérgio Venditti

 

O vozeirão sóbrio esconde um malandro escolado e lhe valeu o apelido de “Bacharel”. O futebol eficiente e o espírito de liderança significaram a faixa de capitão do Palmeiras e ajudaram o time na conquista do primeiro turno deste ano. Tudo isso, porém, é café pequeno diante de um sonho maior. O carioca Vágner Araújo Antunes, 31 anos, quer mesmo o título completo, arrasando com uma entressafra que está prestes a completar onze anos.

 

Criado no subúrbio de Marechal Hermes, Vágner é bamba em bola e batuque. No começo do ano que vem, vai trocar o uniforme do Palmeiras pelo da Escola de Samba Estácio de Sá para cair no embalo do Sambódromo. Sabe, contudo, que a vida não é só Carnaval. Tem dinheiro aplicado e planeja, ao pendurar as chuteiras, mudar-se para Joinville, Santa Catarina, com sua mulher Renata e o casal de filhos. “Sou barriga-verde de coração”, brinca. De fato, ele teve sua grande fase na equipe que lhe empresta o nome, mas seu currículo incluí também Botafogo, Madureira, Internacional e Cruzeiro.

 

Na semana passada, saboreando a vitória do Brasil sobre a Escócia por 2 X 0, o zagueiro do Palmeiras recebeu, em se confortável apartamento do bairro paulistano do Sumaré, o repórter Mário Sérgio Venditti. O resultado da conversa, muitas vezes temperada com humor, é esta entrevista.

 

PLACAR – Em 1983, você veio do Joinville para o Palmeiras como reserva. Hoje, é um dos intocáveis do Parque Antártica. O que mudou?

VÁGNER – Eu tinha consciência de havia sido contratado para ser banco. Mas, aos poucos, fui mostrando minha capacidade. O técnico da época era Rubens Minelli. Ele reconheceu que eu possuía condições de ser titular. Aí, quando entrei, não saí mais.

 

PLACAR – A equipe começou mal este Campeonato Paulista. Com a chegada do técnico Waldemar Carabina, aconteceu uma transformação e o Palmeiras acabou beliscando o título do primeiro turno. Como foi este processo?

VÁGNER – De fato, Carabina chegou num momento que o time andava mal. Tanto que ocupava o 11º lugar na classificação geral. Então, ele implantou seus métodos, Ele foi honesto e às vezes, até aos berros, disse que os jogadores teriam de se empenhar ao máximo e quem não se enquadrasse não teria vez. Isso mexeu com a rapaziada. Afinal, quem não mostrasse vontade seria sacado do time. O resultado foi que todos se superaram e papamos o título.

 

PLACAR – Você quer dizer que Carabina é melhor que seu antecessor, Carbone?

VÁGNER – Não é isso. O time vice-campeão do ano passado foi praticamente desmontado com as saídas de Mendonça, Jorginho e Éder. Mudou a estrutura da equipe e não foram contratados, de imediato, jogadores para recompor o elenco. Aí, Carbone teve de optar pela escalação de juniores. Além disso, os novos contratados demoraram para se adaptar. Com os maus resultados, a diretoria achou melhor trocar de treinador. Mas, cria, lamentamos muito a saída de Carbone naquela ocasião.

 

PLACAR – Carabina tem fama de linha dura. Uma de suas primeiras medidas foi centralizar os telefonemas para a concentração para o quarto dele. O grupo não torceu o nariz para atitudes dessa natureza?

VÁGNER – Nada disso. Ocorre que esse problema sempre existiu nas concentrações. São torcedores que ligam para o hotel e muitas vezes bem-intencionados. Carabina quis nos preservar e fazer com que o pessoal ficasse alheio a qualquer tipo de interferência. Mas ele está longe de ser um cara radical.

 



PLACAR – Fale um pouco dos bastidores dessa relação entre o técnico e o grupo. Carabina é muito turrão?

VÁGNER – Ele não é sisudo como muita gente imagina. É até brincalhão nas conversas que tem com a gente. Mas debochado mesmo é o auxiliar dele, Minuca.

 

PLACAR – Conte essas coisas. Tem muito papo furado?

VÁGNER – Que nada! São histórias mesmo (risos). Certa vez, quando ainda jogava (Minuca foi quarto-zagueiro do Palmeiras nos anos 60), roubaram-lhe o relógio durante o pai-nosso, oração que se faz antes das partidas. Então ele falou: “Pô, logo na hora da reza... Assim não tem santo que dê jeito”. Depois do jogo, o time voltou a fazer outra prece no vestiário. No momento que as luzes se apagaram, o gato devolveu o relógio sem que ninguém descobrisse quem era.

 

PLACAR – Mudando de assunto, você pretende ser técnico quando pendurar as chuteiras?

VÁGNER – Não tenho essa intenção. Acho que o futebol já me tirou muitos prazeres por causa das concentrações e viagens. Meu pensamento é partir para a outra. Tenho uma firma de confecções infanto-juvenis em Santa Catarina, negócio que está indo bem. Já recebi até convites do PMDB de Joinville para me candidatar a vereador. Olha, ninguém sabe o futuro. Pode ser até que eu vire técnico.

 

PLACAR – A propósito, qual o treinador que fez mais sua cabeça?

VÁGNER – Não escondo que foi Rubens Minelli. O homem sabe demais. E, graças a ele, estou numa boa situação. De meu ponto de vista, Minelli sempre foi um grande injustiçado em termos de Seleção Brasileira.

 

PLACAR – E o que você está achando de Carlos Alberto Silva?

VÁGNER – O trabalho dele começou corretamente, baseado nos talentos que despontaram há pouco tempo. No Brasil, infelizmente, existe a cobrança de resultados imediatos. Nunca se dá um prazo adequado para que o cara possa trabalhar sossegado. Assim, fica difícil colher bons frutos. Nosso imediatismo é de amargar.

 

PLACAR – Sinceramente, aos 31 anos, você ainda pensa em Seleção?

VÁGNER – Não digo que tenha perdido a esperança. Veja o caso de Morten Olsen, da Dinamarca, que disputou a última Copa, no México, com 37 primaveras no costado. Mas, em 1984, em minha melhor fase, fui preterido por Carlos Alberto Parreira. Hoje estou vacinado contra essas coisas.

 

PLACAR – Vamos voltar a falar do Palmeiras. O time não é campeão há mais de uma década e deixou de escapar uma chance fantástica no ano passado, na decisão contra a Internacional de Limeira. O que realmente houve naquela final?

VÁGNER – Falaram em intranquilidade do time, mas não vi nada disso. No primeiro jogo daquela decisão, o 0 X 0, a rapaziada não se porto bem por causa do desgaste nas partidas anteriores, as semifinais contra o Corinthians. Não atuei no segundo, que a Inter venceu de 2 x 1, porque estava contundido. Será que fiz falta? Acho, sem máscara, que não. O azar de Denys, que falou no segundo gol da Inter, acabou desestabilizando o grupo.

 

PLACAR – Muita gente diz que esse título do primeiro turno não vale nada. O que você acha disso?

VÁGNER – Isso é um absurdo, principalmente quando parte da boca dos dirigentes. Ao ouvir essa bobagem de um cartola, o torcedor perde até a motivação de ir aos estádios. Esse pensamento tem de mudar.

 

PLACAR – Como você analisa o nível da arbitragem brasileira?

VÁGNER – Epa! Macaco velho não mete a mão em cumbuca (risos). Bem, sempre estouram crises, por exemplo, aqui em São Paulo. Os cartolas, porém, nunca mergulham no caso para tentar resolvê-lo. Os que têm responsabilidade de apurar os fatos não se interessam. Desse jeito, é claro que o descrédito aumenta. Não se confia mais nos juízes nem em quem os dirige. Agora vou jogar um confete: Dulcídio Wanderley Boschilia, por saber lidar com os boleiros, é nosso melhor juiz.

 

PLACAR – E o pior?

VÁGNER – Que é isso, você está maluco? (Risos.) Não vou me queimar. Ficaria marcado se abrisse o bicho.

 

PLACAR – Você é muito supersticioso. Como nasceu isso?

VÁGNER- Tudo começou quando eu jogava no Internacional, em 1980, porque lá o pessoal também era. Com o passar do tempo, fui-me envolvendo com a coisa. Mas sou supersticiosos apenas no futebol. Só me aqueço com a camisa do jogo – e tem de ser a 6. Durmo na mesma camisa da concentração e viajo sempre em determinado banco do ônibus. Até a forma de enrolar as ataduras no tornozelo é a mesma.

 

PLACAR – E sua fama de catimbeiro é justificada?

VÁGNER – Não. É evidente que, ás vezes, procuro esfriar ao adversário. Mas não gosto de perturbações. Em nossa vitória de 2 X 0 sobre o América de São José do Rio Preto (dia 16 de abril), fui chutar um pênalti e ouvi um jogador deles comentar: “Poxa, o Verdão está mal mesmo. Quem bate pênalti é o beque”. Eu respondi que Marolla, goleiro americano, nem iria aparecer na fotografia. Dito e feito. Marquei o gol e mal comemorei, só para tirar uma casquinha (risos).

 


PLACAR – Catimba chama samba. Como pintou sua paixão pelo pagode?

VÁGNER – Se você pensar que é por modismo, está errado. Sempre gostei, desde criança. No Rio, participava daquelas reuniões no fundo de quintal, mandando ver uma feijoada. Infelizmente, o pagode só explodiu há pouco tempo.

 

PLACAR – E quanto às apostar que você faz com outros jogadores?

VÁGNER – Ah, adoro isso. Já fiz apostas com Luís Pereira, Cláudio Adão e até coloquei meu bigode em jogo, numa com Lima, então no Corinthians, nas semifinais paulistas do ano passado. Meu bigode... onde é que eu estava com a cabeça? (Risos.) Elas servem para motivar o espetáculo. Acho que a posta com meu camarada Luisão Pereira, de doar cobertores aos pobres, foi a mais importante. Tem outra: até hoje não perdi uma...

 

PLACAR – Voltando ao Campeonato Paulista: a invencibilidade de Zetti, que ficou 1.238 minutos sem tomar gol, estava pesando sobre os jogadores ou isso é besteira?

VÁGNER – Creio que ela influenciava mais os adversários. Eles queriam quebrar o tabu e a pressão foi aumentando. E veja só que fase: tudo aconteceu na hora certa. O gol do Santo André (dia 24 de maio), que acabou com a invencibilidade, surgiu no finalzinho da partida, e o empate de 1 x 1 nos interessava para garantirmos o título do primeiro turno.

 

PLACAR – Se o Palmeiras ganhar também o segundo turbo, será campeão direto. Logo, a pressão sobre vocês deve aumentar, concorda?

VÁGNER – Agora é guerra, não vai ser mole. Se o time disparar na frente, todos vão brigar para quebrar nossa hegemonia.

 

PLACAR – Então, qual o segredo que a equipe do Palmeiras saia campeã sem precisar ir ao quadrangular?

VÁGNER – A filosofia de trabalho deve ser mantida. Antes de tudo, o time tem de morder, para depois sair ao ataque. Aí, entram em ação os zagueiros, que correm em busca do gol na área do inimigo.

 

PLACAR – Trocando de tema, o futebol brasileiro vive um momento de mudanças. Qual será o bom caminho para ele?

VÁGNER – Entendo que nosso futebol precisa ser administrado por jovens. Tenho um carinho todo especial por Márcio Papa, com quem trabalhei no Palmeiras. Carlos Miguel Aidar, do São Paulo, também é um sujeito de ideias arejadas. Admiro ainda, Adílson Monteiro Alves, muito combatido ao implantar a Democracia Corintiana no Parque São Jorge. Ele não foi bem aceito pela velharada, que hoje está no poder dando mostras de sua incapacidade. O Corinthians está comendo o pão que o diabo amassou. É uma pena.

 

PLACAR – Olhando de fora, você apontaria soluções ao técnico Chico Formiga, do Corinthians?

VÁGNER – Acho que só os jogadores são capazes de tirar o time do sufoco. Eles é que estão dentro de campo vivendo esse drama. E, no segundo turno deste campeonato, as dificuldades vão aumentar. Com honestidade, lamento porque tenho amigos dentro do Corinthians.

 

PLACAR – O ambiente no Parque Antártica também é conturbado. Para começar, existem os corneteiros, que vivem dando palpites. Eles chagam a tirar o sono dos jogadores?

VÁGNER – Se tiram! (Risos.) Isso é o que mais acontece, principalmente quando nãos e conseguem resultados positivos. O que eles tumultuam não é brincadeira. Além do mais, essas pessoas não conhecem o cotidiano e as dificuldades dos jogadores. Gostam mesmo é de cornetear. E fazem isso bem para caramba.

 

PLACAR – Você é carioca, sambista, meio malandro. Em tese, não teria nada a ver com um time da colônia italiana de São Paulo, cujos torcedores são tipicamente classe média. Como se deu essa identificação com o Palmeiras?

VÁGNER – Sem frescura, acho que transmito um certo carisma e a galera me coloca na condição de símbolo. Isso aumenta minha responsabilidade, mas é bom. Eu gosto de desafios. Sonho ganhar o Campeonato Paulista para oferecer a essa torcida maravilhosa. Falam do Corinthians, mas nossa massa é muito mais fiel e merece ser feliz.

 

Publicado originalmente na revista Placar 888, 8 de junho de 1987

terça-feira, 8 de agosto de 2023

OS SEGREDOS DE LEÃO (Placar 973, 3 de fevereiro de 1989)

Os segredos de Leão (Placar 973, 3 de fevereiro de 1989)



O ex-goleiro alviverde assume o cargo de treinador, ganha a confiança do elenco e começa a trabalhar duro para o fim do longo jejum

 

Por Mário Sérgio Venditti

 

No primeiro dia no Clube de Campo Santa Rita, em São José dos Campos, o treinamento dos jogadores palmeirenses era acompanhado, de longe, por um ou outro golfista que compartilhava o imenso gramado. Parecia um refúgio. O local ideal para que o treinador Émerson Leão esculpisse a nova personalidade da equipe. Forte, decidida, um reflexo de que ele próprio representou com a camisa alviverde.

Dia a dia, porém, cresceu o número de garotos armados de papel e caneta, seguindo os passos do time na cidade distante 97 km de São Paulo. “O entusiasmo com o novo Palmeiras está aumentando”, atesta Leão. Um fenômeno provocado pelos doze anos sem títulos, mas também incentivado pela postura do clube neste início de 1989. Afinal, ninguém investiu mais no futebol. Foram desembolsados 700.000 cruzados novos para a contratação de sete jogadores. Alguns deles, desconhecidos da torcida, como jovem ponteiro-direito Buião, que veio do Marília. Mas outros fadados a assumirem a posição de ídolos. Caso dos meias Júnior (ex-São José e Coritiba) e Neto (Guarani).

Enquanto os torcedores se motivam com novos nomes, a equipe sofre transformações menos palpáveis e mais profundadas. O carisma de Leão de manifesta a cada treino. Sua participação em trabalhos físicos ou técnicos se centra na psicologia. Seu principal objetivo é banir o estigma de time perdedor. “Procuro sempre conversar com meu grupo”, explica. “Doutrinar, se necessário”.

Até o final da pré-temporada, marcado para o dia 9 de fevereiro, o programa de mentalização dos jogadores vai ser intenso quanto o físico. Todos os dias os exercícios de velocidade e resistência começam às 8 horas. “Neto, agora aquela arrancada do final do jogo”, grita Leão, incentivando o meia a dar o último pique de 200 m, depois de quase duas horas de treinamento. Como ex-jogador, ele sabe que precisa estimular o elenco com um belo cenário e competições para não tornar o trabalho maçante. “Eles sabem que o treino é duro, mas é legal”, resume.




“É muito, muito puxado”, desabafa Neto, que com sua cintura roliça é o alvo predileto do técnico. Com 76 kg, 3 a mais de quando disputou a final do Campeonato Paulista, no ano passado, o meia precisa intensificar uma luta que parece eterna contra a balança. “O principal é conscientiza-lo da necessidade”, planeja o preparador físico Inaldo Alves, fiel escudeiro de Leão (veja o quadro na página 26). “Temos de iniciar o Paulistão com tudo”, confirma Neto. “Daí vamos conquistar a confiança da torcida”.

Para comprovar a mudança total no Parque Antártica, Leão só manteve os dois roupeiros da antiga comissão técnica. Até velhos conhecidos, como o treinador de goleiros Waldir Moraes, com quem trabalhou na Seleção Brasileira foram trocados. No que toca aos jogadores, o maior respaldo aparece nos pequenos detalhes. “Agora, todos treinamos com o mesmo uniforme”, conta o centroavante Gaúcho. “Sinal que possuímos uma retaguarda”.

Conquistando a confiança dos atletas com pequenos gestos, Leão ganha espaço para ser cada vez mais exigente. “Não faço força alguma para mudar a imagem de durão”, confessa. Apesar de ter trabalhado com técnicos que preferiam conversas ao pé do ouvido, como Oswaldo Brandão, ele gosta de decidir qualquer questão na presença de todo o time. “Se tenho de chamar a atenção, faço bem alto para o cara ficar envergonhado mesmo”.

Durante o primeiro treino com bola, na quarta-feira da semana passada, Leão tratou de colocar seu método em prática. “Borges, não é para parar metade do exercício”, fulminou. “Justamente você que mais precisa trabalhar”. O fato é que o técnico pretende dar uma nova oportunidade para Carlos Alberto Borges, que estava há cinco meses parado, depois de ter sido emprestado. Desde que foi vítima de uma descarga de um raio, em pleno Parque Antártica, seis anos atrás, o jogador interrompeu uma carreira promissora e passou a alternar bons e maus momentos. Se conseguir reabilitá-lo, Leão desmentirá o ditado de que um raio jamais cai duas vezes no mesmo lugar.




Ao que parece, os próprios jogadores já resolveram sair em defesa do treinador. “Carrasco Ele apenas gosta de trabalhar”, surpreende-se o atacante Careca, que ao lado de Neto compôs a maior transação do clube neste início de temporada – 350.000 cruzados novos, mais o passe do ponta Tato, capazes de dobrar a resistência dos dirigentes do Guarani. Mas é o quarto-zagueiro Márcio quem garante que o técnico tem a sensibilidade de perceber quando a equipe está se empenhando e terminar um treinamento antes do previsto. Leão só não admite que os jogadores tomem água durante os trabalhos. “É impossível não se adaptar”, revela. Com seis anos de Palmeiras, ele viveu metade do drama alviverde e passou pelas mãos de metade do treinador, durante o jejum de títulos. “Esta é a primeira mudança real”, analisa. “Antes, mudavam os nomes, mas o time permanecia com a mesma filosofia, acomodado”.

Parte deste novo pensamento se resume à constante superação dos limites. É a grande fronteira que o Palmeiras precisa transpor para realmente se credenciar ao título e adquirir personalidade. “No campeonato vamos empregar o nosso ritmo”, avisa Leão. “Não vamos estudar os adversários”. A determinação de Leão parece ser uma marca que carrega desde o início da fulminante carreira, há dois anos, no Sport. Quando os jogadores reclamaram certa vez do gramado da Ilha do Retiro, ele não teve dúvidas: “Vamos aprender a jogar nele como está”. E foi assim que a equipe pernambucana chegou ao primeiro lugar do Módulo Amarelo do Campeonato Brasileiro. “Aqui, vamos usar as mesmas armas”, garante.

Entre os trunfos palmeirenses está o ponta-esquerda Paulinho Carioca, trocado com o Corinthians pelo também ponteiro Mauro. Campeão paulista do ano passado e marginalizado pelo treinador José Carlos Fescina, ele terá uma disposição especial para tentar desbancar o Timão e levar o “scudetto paulista” para o Parque Antártica. Nem se preocupa com o excesso de jogadores para as posições de frente. “Time que quer ganhar o título tem de ter mais de um jogador por posição”, ensina. E Leão, que pretende avaliar o elenco na pré-temporada, não descarta a possibilidade de novas contratações. Já os cartolas prometem transformar qualquer pedido dele em realidade. Razões suficientes para que o sonho do campeonato fique ainda mais real para os torcedores.

 

SEGUINDO OS PASSOS DOS TIOS FAMOSOS

Quando Delphino Facchina assumiu a presidência do Palmeiras em 1959, o time do Parque Antártica amargava um jejum de títulos há nove temporadas. Devolvendo ao clube o rótulo de vencedor, Delphino foi um de seus mais felizes presidentes – basta dizer que durante sua gestão na década de 60, além do Santos, só o Palmeiras foi campeão paulista.

Trinta anos depois – desde 5 de janeiro – o novo presidente do Palmeiras é Carlos Bernardo Facchina Nunes, sobrinho de Delphino. Como o tio, seu maior desafio será redescobrir o caminho das conquistas. “O forte do Palmeiras sempre foi o futebol e esta será nossa prioridade”, prometeu.

Para provar, gastou cerca de 120.000 cruzados novos para satisfazer a uma das exigências de Leão e contratou o volante Júnior, do São José. Dorival Silvestre Júnior, 26 anos, tem algo em comum com seu presidente: é sobrinho de Dudu, outro personagem importante da história de glórias do clube. Seu tio, aliás, depois de serviu o Palmeiras com um futebol brigador, foi o técnico do último campeonato paulista, em 1976. “Será muito difícil igualá-lo”, evita comparações. “Já me darei por satisfeito se corresponder à confiança de todos”.

 

O PREPARADOR VERSÁTIL

“Nordestino prodígio”. A definição de Leão para o preparador físico Inaldo José Alves, 44 anos, não é exagerada: ele é advogado, professor de Educação Física, coronel reformado da Polícia Militar, ex-comandante-geral da PM e diretor do Detran. Para completar, está desde 1970 no futebol.

Com disciplina e organização, Inaldo encontrou tempo para tudo isso. E foi justamente esta filosofia, herdada da caserna, que o aproximou do treinador, em 1986, quando Leão ainda era goleiro do Sport. No ano passado, a dupla fez sucesso no São José e no Coritiba.

 

UMA HISTÓRIA DE CONQUISTAS

Em 10 de agosto de 1978, na primeira partida final do Campeonato Brasileiro, o goleiro Leão foi expulso depois de ter dado um soco no centroavante Careca, do Guarani. O time de Campinas foi campeão e Leão encerrava um período de dez anos como o titular absoluto no gol palmeirense. No Parque Antártica, foram três títulos paulistas, dois brasileiros e o Robertão de 1969, o Campeonato Nacional da época. No breve retorno entre 1984 e 1986, conheceu uma fase menos áurea no clube.

Leão iniciou a carreira de goleiro em 1965, no São José, por obra de Diede Lameiro. Passou pelo Comercial de Ribeirão Preto, sua cidade natal, antes de chegar emprestado ao Palmeiras, em 1969. Goleiro da Seleção em quatro Copas do Mundo (1970, 1974, 1978 e 1986), jogou também no Vasco, Grêmio, Corinthians e Sport Recife, no qual começou a trabalhar como treinador.

 

NEM TUDO ESTÁ NO SEU DEVIDO LUGAR

Apesar do espírito renovado, o Parque Antártica ainda sofre com os resquícios de tempos recentes. Na semana passada, enquanto a equipe rumava para São José dos Campos, dois novos problemas atormentavam os cartolas: o meia Edu voltou a desaparecer – como já havia acontecido em outubro – e o marcador eletrônico despendeu sobre as arquibancadas por causa das chuvas. O jogador tentou justificar, falando de problemas particulares, mas acabou sendo multado em 60% do salário e suspenso por quatro dias. Esta economia, porém, não vai cobrir o prejuízo no estádio.

 


Publicado originalmente na revista Placar 973, 3 de fevereiro de 1989.

 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Gigantes do Jornalismo Esportivo: Mário Sérgio Venditti

Mário Sérgio Venditti (1964-) foi uma das grandes revelações da revista Placar na década de 80. Na publicação, esteve sob as ordens do diretor de redação Carlos Maranhão. Como repórter, se firmou na elaboração de matérias realizadas com  grande apuração. Palmeirense convicto, é um dos autores do Almanaque do Verdão, realizado em parceria com o jornalista corintiano Celso Unzelte. Tive a oportunidade de dividir a arquibancada com Venditti em diversos jogos do Palestra. É daqueles torcedores nostálgicos, que gostam de relembrar os tempos da Academia e de reclamar dos novos tempos no Parque Antártica. 

Reuni aqui uma matéria muito interessante que ele realizou para a revista da editora Abril sobre o Nacional, o simpático clube da Rua Comendador Souza.  

TRENZINHO DE GLÓRIAS



Campeão da Taça São Paulo de Juniores, o ex-clube dos ferroviários paulistanos sonha reviver seus velhos tempos

Por Mário Sérgio Venditti

Campeão da 19º Taça São Paulo de Futebol Júnior, conquistada no último dia 25, o Nacional conseguiu voltar ás manchetes. Afinal, a valente equipe da Comendador Souza – uma simpática ruela que termina bem em frente aos portões de sua sede, no bairro paulistano da Água Branca – desde 1972 não conquistava um título importante, justamente o da Taça São Paulo daquele ano.

Na época, comentou-se que na zebrinha entrara em ação. Poucos acreditavam que o time do goleiro Tonho e do ponta-esquerda Toninho Vanusa teria chances diante do Internacional de Falcão, Batista e Caçapava. Entretanto, os tempos são outros e o Nacional, comandado pelo atacante Mil – que terminou artilheiro do certame com sete gols -, respira novos ares.

Encerrado o ciclo de estagnação, o próximo passo é reconduzir o time principal à Primeira Divisão do Paulista, da qual despencou em 1959 e nunca mais subiu.

Seu retorno esteve bem próximo no ano passado, durante a disputa da Intermediária. Em partida decisiva contra o São José, dia 29 de novembro, no Canindé, em São Paulo, o empate deixaria o Nacional numa posição privilegiada. Um pênalti muito contestado, porém, deu a vitória ao São José e iniciou um qüiproquó entre os jogadores do Nacional, dispostos a agredir o juiz José Carlos Gomes do Nascimento.  Com a derrota, o time irá amargar mais um ano longe da Primeira Divisão.

FUTURO DE CRAQUE- “Temos estrutura para disputar o Paulistão”, proclama o presidente Aírton Santiago. Ao assumir o cargo, em 1983, ele prometeu ampliar o quadro de associados. Hoje, numa área de 102.000 metros quadrados, cerca de 50 000 pessoas dão o ar colorido e festivo ao velho clube, cuja renda mensal de 5 milhões de cruzados cobre a folha de pagamento de 120 funcionários e dos 22 jogadores profissionais. “Era preciso sacudir o Nacional”, proclama o presidente Santiago.

É no velho campo do Estádio Nicolau Alayon, com capacidade para 15 000 torcedores, contudo que o clima de renovação pode ser presenciado. Ali, 250 garotos treinam vislumbrando um futuro de craque. Trabalho que faz parte da rotina da recém-criada escolinha Alfredo Ramos, em homenagem ao técnico do time titular. Ex- jogador do Santos, São Paulo e Corinthians, Alfredo chegou ao Nacional em 1961. Permanece até hoje com umas idas e vindas. “Aqui não existe política nem barganha”, garante. “Por isso se trabalha mais”.

Disciplinador, Alfredo surpreende a equipe aplicando normas nada convencionais. Com ele, jogador suspenso por levar o terceiro cartão amarelo não tem refresco: treina e acompanha a delegação. “Já vi muita gente forçar a expulsão para participar de churrascada”, afirma.

 Se o treinador se tornou patrimônio do clube, o administrador Aureliano Santiago, 74 anos, é uma de suas lendas vivas. Pai do presidente Aírton, o velho Santiago é sócio desde 1927. Jamais pleiteou cargo na diretoria. “Isso aqui é espeto”, ensina.

Sua mesa de trabalho confirma. Atulhado de papéis, documentos e carteirinhas de associados, o administrador vem recebendo nos últimos tempos o auxílio da informática. “Tínhamos de modernizar os nossos serviços”, explica.

Os mais antigos frequentadores do Nacional – cientes que a modernização é sinal dos tempos – olham para trás com nostalgia. Do passado, restou apenas o velho vagão de madeira fincado no gramado do clube. Um símbolo histórico que remonta ao ano de 1903. Naquela data, um grupo de ferroviários da São Paulo Railway – companhia inglesa que operava a estrada de ferro ligando Santos a Jundiaí – resolveu fundar um clube. À luz de lampião, nascia o São Paulo Railway Foot-Ball Club, popularmente conhecido por SPR.

MAIOR PATRIMÔNIO- Com a Primeira Guerra Mundial, suas atividades permaneceram interrompidas até 1919. Ao retomá-las, o fez com o Atlético Clube inserido na sigla. Dessa época, o Nacional alimenta uma polêmica mantida até os dias atuais. “A data exata de fundação do clube é 1903”, sentencia o presidente Aureliano Santiago. Para provar, ele recorre a um antigo recibo registrando a taxa de manutenção de um sócio.

De qualquer modo, o grande momento para a vida do clube foi a doação pelo inglês Arthur Owen – superintendente da São Paulo Railway – da área onde seria erguido o Estádio Nicolau Alayon, construído em 1937, até hoje seu maior patrimônio.

Em 1946, com a empresa inglesa encampada pela Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, a diretoria do clube decidiu optar pela mudança do nome. Em novembro daquele ano, num plebiscito organizado pelo diretor Arnaldo de Paula, surgia o Nacional Atlético Clube. Como homenagem, manteve as cores da bandeira inglesa: azul, branca e vermelha. “Estreamos o novo uniforme no segundo tempo do jogo contra o Flamengo, no Pacaembu”, recorda o velho Santiago. “Apanhamos de 4 a 2”.

COQUELUCHE DA ÉPOCA- Foi vestindo a camisa do Nacional que muitos jogadores trilharam o caminho da fama – como o zagueiro Mário Travaglini e o atual técnico palmeirense Rubens Minelli. Ou deram contribuições antes de encerrar a carreira, como Chineisinho, Gino Orlando e Romeu Cambalhota. “Foi maravilhoso defender as cores do time”, orgulha-se Travaglini. “Mas a queda para a Segunda Divisão, em 1959, nem quero lembrar”.

Quem não experimentou tamanho dissabor foi Minelli, que em 1953 atuou como meia-esquerda na equipe. “Era a coqueluche da época”, lembra. “Todos queriam jogar em nosso estádio”.

São esses sentimentos que voltam a empolgar a torcida. Com a vitória de 3 X 0 sobre o América de São José do Rio Preto, os juniores reacenderam a chama de luta no time titular. Impulsionada pela pequena e valente torcida, a equipe está confiante no retorno à Primeira Divisão. Até lá, a promessa é treinar para ganhar. Afinal, à beira de completar trinta anos afastado dos principais embates do futebol paulista, a volta seria recebida como uma glória que não cabe em trem nenhum.

Publicado originalmente na revista Placar em 5 de fevereiro de 1988