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domingo, 3 de outubro de 2010

Maguila e as eleições


Não vou falar muito sobre as eleições. Só fico feliz que o ex-boxeador Adílson “Maguila” Rodrigues não tenha sido eleito deputado federal. Ele foi o nosso maior peso pesado e é uma figura com uma história de vida fantástica. Por isso mesmo, exercer um cargo como esse iria sujar a biografia deste grande nome do boxe brasileiro. Ainda mais estando no mesmo partido de notáveis lideranças como Cameron Brasil, Mulher Pêra e Luizinho do Ferro Velho (?).

Pretendo colocar em breve aqui no blog diversas reportagens que abordem a trajetória no esporte e na vida deste grande campeão. Tenho certeza que o público admirador da nobre arte irá gostar.

Maguila, por isso mesmo, pode ser considerado como um fenômeno deste boxe liliputianos. Não chega a ser um gigante, mas tem altura – 1,86 m – e fortaleza física suficientes para a categoria, além de mobilidade rara nessa divisão. Em relação aos pesos pesados do passado, Maguila só tem uma equivalência: a coragem. É valente mesmo, como Ditão, como Vicentão, que nunca tremeram diante de nenhum adversário.Henrique Matteucci em "Boxe Mitos e Histórias"

sábado, 1 de agosto de 2009

A bela primazia de Galasso



Em fins de 1946, um garotinho do Bixiga, tímido, pálido e um tanto encurvado, procurou o técnico Waldemar Zumbano na academia do Clube Espéria, na Ponte Grande. Naquele ano centenas de jovens estavam se apresentando para treinar, e aquele menino franzino não chamou a atenção de ninguém. Parecia ser mais um desses que se apresentam, treinam uma ou duas vezes e desaparecem. Parecia, mas não era. No dia seguinte, quando Waldemar chegou para abrir a academia, ele já estava na porta, sentado na soleira. E no outro também. Três semanas depois, quando o garoto entrou no ringue e fez o primeiro treino com luvas, Waldemar observou:

- Esse é daqueles que, se não tem talento, vencem pela garra e, se não têm garra, vencem na teimosia...

Foi uma observação profética. Talento, relativo. Garra, demais. Quanto á teimosia, algo assim invadindo o terreno da obstinação. Seu nome é Pedro Galasso. Pela garra, pela obstinação, pelo boxe agressivo logo demonstrado, foi chamado de “Piranha”. E também fez história. Mais do que isso. Deu brilho a essa história com sua coragem fora do comum e uma dedicação quase religiosa ao boxe. Como Kaled Curi, com Lúcio Inácio e como todos os Jofre e todos os Zumbano. Pedro Galasso mergulhou tão fundo na alma do pugilismo e a ele se integrou de tal maneira que jamais se poderá se desvincular um do outro.

Enquanto pugilista, Galasso foi em tudo um exemplo para os demais. Dedicado aos treinos como poucos, consciente da disciplina e da sua responsabilidade perante o público, jamais subiu num ringue fora de forma e sempre, sem nunca decepcionar, ofereceu grandes espetáculos, mesmo quando derrotado. Sua dedicação era tanta que, quando voltou ao Latino-Americano de Lima, com a mão quebrada e gessada, no dia seguinte ao embarque foi à academia, fez ginástica e bateu no saco de areia com a outra mão. E assim treinou todos os dias, até tirar o gesso e receber do médico a autorização para o treinamento completo.

Galasso estreou no campeonato de A Gazeta Esportiva em 1947 e foi campeão dos penas. No mesmo ano foi, ainda, campeão de Novíssimos, Novos e Paulista. Quatro títulos para começar, e depois uma série tão longa que ele talvez seja o boxeador brasileiro que mais títulos conquistou até hoje. Em 1948 foi campeão de Novíssimos, Novos, Paulista e Brasileiro, tendo ainda integrado a equipe nacional no Sul-Americano de Santiago. Em 1949 foi apenas vice-campeão paulista, mas em 1950 foi campeão paulista e brasileiro, repetindo o feito em 1951, quando participou, mas sem êxito, do Pan-Americano de Buenos Aires. Em 1952, idem e participação na Olimpíada de Helsinque. Com tanto empenho e tanta raça, ele não poderia encerrar a carreira amadorística sem um título internacional. Tentou-o no Latino-Americano de Lima, onde foi prejudicado pelos jurados, mas conseguiu realizar o sonho no Latino-Americano de 1953, em Montevidéu, onde foi não apenas o campeão dos leves, mas também, segundo a imprensa uruguaia, “o melhor boxeador do campeonato”.

No profissionalismo, que ele abraçou em 1953, não havia a possibilidade de tantos títulos, mesmo porque não existem campeonatos atuais tipo Novos, Novíssimos, essas coisas do amadorismo. Nem por isso, porém, Galasso deixou de brilhar. Brigador, valente, enfrentou os melhores leves da América do Sul e chegou até a lutar duas vezes com o campeão italiano em Campari. Na primeira, empatou (em Roma), em dez assaltos. Na segunda, quando levava vantagem, a luta foi suspensa porque faltou luz no estádio. Antes disso, numa memorável luta com Sebastião Ladislau (“Gibi”), que destronara Kaled Curi, Galasso ganhou o título de campeão brasileiro.

Foi nessa condição que ele enfrentou, no Rio, o famoso norte-americano Joe Brown, ex-campeão mundial dos penas. Uma luta duríssima, na qual Galasso mostrou toda a sua bravura. Escorou como um estóico a agressividade de Joe Brown, que levou sobre ele apenas uma pequena vantagem. Galasso perdeu por decisão médica no oitavo assalto, em razão de um profundo corte no supercílio e de uma perigosa hemorragia.

No camarim, Galasso protestou:

- Ele estava cansado. Eu ia vencer a luta, não foi justo.

Disse isso com o médico “costurando” seu supercílio, sem se importar com a dor ou com a possibilidade de uma pequena deformação. Era do seu feitio. Nunca temeu nenhum adversário, nem sequer ficou tenso antes de qualquer combate, por mais perigoso que fosse o adversário. Ele era um homem tranqüilo e em toda a sua carreira procurou transmitir essa calma aos companheiros. Quando não estava programado, ia ao camarim e ficava ao lado dos companheiros ajudando a colocar-lhes as bandagens e dizendo-lhes palavras de estímulo.

O maior feito de Galasso, porém, aconteceu na noite de 25 de agosto de 1958, quando ele enfrentou o campeão sul-americano de peso leve, o então invicto chileno Sergio Salvia. Salvia era um mestre, inclusive com pretensões ao título mundial. Sabia tudo. Só não sabia da obstinação e da agressividade de Pedro Galasso. E foi surpreendido pela garra do brasileiro, que não parou de atacar até a última batida do gongo, no 12º assalto. Galasso venceu por pontos, uma vitória justa, indiscutível. Na revanche, em Santiago, Galasso sofreu uma tremenda “guerra fria” antes da luta. Nem camarim lhe deram. Trocou de roupa debaixo de uma escada, no mesmo corredor por onde passava o público. Não pôde se concentrar, não teve condições psicológicas. E perdeu. Contudo, ficou-lhe a glória de uma maravilhosa primazia: foi o primeiro profissional brasileiro a conquistar um título internacional.

Imagem e texto retirado de MATTEUCCI, Henrique. Boxe: Mitos e História. São Paulo: Hemus, 1988.

sábado, 27 de junho de 2009

Gibi


Uma figura inesquecível, pelas suas características únicas, exóticas e excêntricas, foi o peso leve Sebastião Ladislau, o “Gibi”. Não tinha punch, mas em habilidade e malícia jamais foi igualado. Era malandro em todos os sentidos-, mas nunca um mau elemento. Seu problema era a carência, a solidão. Não tinha pai nem mãe, ninguém. E por isso se apegava aos amigos, na maioria elementos da vida noturna, todos da malandragem. Entre eles, o célebre “Quinzinho” (que chegou a lutar boxe), chamado “o rei da Boca do Lixo”. Gibi nunca roubou, nunca traficou com tóxicos, mas viveu sempre entre traficantes e foi viciado em maconha.

Sua carreira no pugilismo desafia todas as leis da educação física e da biologia. Pela sua vida desregada- ele jamais se alimentou direito-, meio alcoólatra e notívago, Gibi nem poderia pensar em esporte, muito menos em boxe, modalidade que exige demais do físico e castiga duramente os que não se cuidam. Pois Gibi, sem treinar uma única vez como manda o figurino, sem alimentação e sem repouso (passava as noites na rua, quase sempre com cachaça e maconha), lutou muitos anos, jamais adoeceu e sempre ofereceu grandes espetáculos ao público, chegando mesmo a ser campeão brasileiro dos leves.

Duas passagens em sua carreira são verdadeiramente folclóricas. Uma foi na luta com Kaled Curi, pelo título nacional. No quarto assalto, o Beduíno colocou um forte hoock de direita no estômago e Gibi, acusando ostensivamente o golpe, gemeu, entrou em clinch e reclamou:

-Pô, Turco, não bate aí que eu não como nada há dois dias!...

O ânimo de Kaled foi pra lona. Ele não foi mais capaz de bater pra valer e, por esse gesto humano, só recebeu vaias.

Um dia Jacó Nahun contratou nada mais nada menos do que Alfredo Prada para lutar contra Gibi, que então era o campeão nacional. Prada era o campeão sul-americano e acabara de obter uma memorável vitória sobre o “Tigre” Gatica- também chamado “O Mono”- fraturando-lhe o maxilar com um gancho de direita. Aceitou a luta no Brasil encarando-a como um treino, sem saber o que esperava. Gibi nem sabia quem era ele. Quando um jornalista lhe perguntou se sabia com quem ia lutar, ele respondeu com indiferença:

- Sei lá! Um tal de Prada. Dizem que é gringo.

Na madrugada do dia da luta, o mesmo jornalista encontrou Gibi de quatro na calçada defronte a uma farmácia, na avenida São João, esquina com a rua Aurora.

- Que você está fazendo aí?- perguntou-lhe o jornalista. Gibi, embaraçado por ter sido flagrado naquela posição, ergueu a cabeça e respondeu:

- Estou procurando minha vergonha. Seu Jacó disse que ela deve estar por aqui.

Ele estava alcoolizado. Á noite, apenas dezessete horas depois desse insólito episódio, Gibi fez dez assaltos com Alfredo Prada e deu um suadouro incrível no argentino. O empato foi considerado justo e Prada comentou:
- Nunca enfrentei um adversário tão complicado como esse. Ele é inortodoxo, imprevisível, um maluco! Nunca mais quero ver esse homem na minha frente.

No meio da luta, Gibi abaixou os braços e fez menção de virar as costas a Prada, dando a entender que ia desistir. O argentino sorriu e por sua vez abaixou a guarda, certo de que vencera. E nesse preciso momento o brasileiro voltou-se com incrível rapidez e acertou uma esquerda que quase derrubou o campeão. Quando um jornalista lhe perguntou que golpe era aquele, Gibi respondeu:

- Vapt-vupt. É um faz-que-vai-e-vai-mesmo

Gibi foi o mais folclórico dos nossos pugilistas. Morreu cedo, quase como indigente.

Retirado de: MATTEUCCI, Henrique. Boxe: Mitos e História. São Paulo: Hemus, 1988

Este post é uma homenagem aos jornalistas Henrique Matteucci, José Maria de Aquino e demais colegas que cobriram o boxe paulista em seus anos dourados.