Mostrando postagens com marcador boxe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador boxe. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de outubro de 2010

Maguila e as eleições


Não vou falar muito sobre as eleições. Só fico feliz que o ex-boxeador Adílson “Maguila” Rodrigues não tenha sido eleito deputado federal. Ele foi o nosso maior peso pesado e é uma figura com uma história de vida fantástica. Por isso mesmo, exercer um cargo como esse iria sujar a biografia deste grande nome do boxe brasileiro. Ainda mais estando no mesmo partido de notáveis lideranças como Cameron Brasil, Mulher Pêra e Luizinho do Ferro Velho (?).

Pretendo colocar em breve aqui no blog diversas reportagens que abordem a trajetória no esporte e na vida deste grande campeão. Tenho certeza que o público admirador da nobre arte irá gostar.

Maguila, por isso mesmo, pode ser considerado como um fenômeno deste boxe liliputianos. Não chega a ser um gigante, mas tem altura – 1,86 m – e fortaleza física suficientes para a categoria, além de mobilidade rara nessa divisão. Em relação aos pesos pesados do passado, Maguila só tem uma equivalência: a coragem. É valente mesmo, como Ditão, como Vicentão, que nunca tremeram diante de nenhum adversário.Henrique Matteucci em "Boxe Mitos e Histórias"

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Miguel de Oliveira capa da Placar


Em maio de 1975, o pugilista Miguel de Oliveira conquistou o título mundial de boxe e se tornou conhecido nacionalmente. Um esporte normalmente desprezado pela mídia e pelos jornalistas conseguiu ser capa de diversas publicações esportivas. Na revista Placar não foi diferente. Esta edição é uma preciosidade e até hoje é disputada a tapa em sebos por colecionadores.

domingo, 9 de maio de 2010

Miguel de Oliveira, o segundo rei



Por Henrique Matteucci
A história de Miguel de Oliveira, o segundo brasileiro a conquistar o título mundial de boxe, é bem mais modesta que a de Eder Jofre, mais curta também, porém de igual grandeza, se levar em conta o que significa – e o que custa – a conquista de tal laurel. O boxe é, sem dúvida, o esporte mais difícil de todos. É o único em que o praticante se expõe por inteiro e diretamente, corpo e mente em risco a cada fração de segundo. Um jogador de futebol ou de basquetebol, um atleta do esporte-base ou um tenista, qualquer um deles corre o risco de morrer ali mesmo ou, pior do que isso, sofrer um derrame cerebral e ficar inutilizado para sempre. Ele expõe o rosto à deformação, os olhos à escuridão definitiva. Sempre, até nos treinos.

A caminhada no rumo do título mundial é uma marcha de guerra. Uma batalha atrás da outra, “balas perdidas” raspando e ameaçando sem parar. Quando um pugilista chega ao ranking, a guerra recrudesce e os inimigos se tornam cada vez mais perigosos. Cada adversário é um superguerreiro, com suas armas secretas, suas táticas traiçoeiras. Cada luta é um novo desafio de vida ou morte. E poucos chegam à glória da conquista. Muitos se destroçam no meio do caminho, sem conhecer o doce sabor do título.

Daí a grandiosidade, o heroísmo e a beleza de um cinturão de ouro. Não é o ouro da fivela que vale, é o “espírito” do galardão. É só prestar atenção a este detalhe, para se ter uma ideia do que significa um título de campeão mundial: do dr. Araripe Sucupira a Miguel de Oliveira, num espaço de 54 anos, mais de dez mil jovens ingressaram no boxe em nosso país, mas só dez disputaram o título mundial e só dois chegaram a ele.

Para se avaliar o feito de Miguel de Oliveira, deve-se considerar que ele não teve sequer um por cento da infraestrutura que Eder teve. Miguel não nasceu numa academia, de uma família de pugilistas, não aprendeu a gatinhar dentro de um ringue, não teve um pai técnico e não cresceu motivado por histórias de lutas. Miguel ouviu falar de boxe pela primeira vez aos 14 anos de idade e só aos 17 conheceu uma academia.

Ele nasceu em Lençóis Paulista (SP) no dia 30 de setembro de 1947, mas viveu grande parte da sua primeira infância em São Manuel. Filho de pais lavradores – Bento e Alzira -, Miguel viajou para São Paulo aos 14 anos (1961), para morar com a irmã e completar seus estudos na capital. E deu sorte. Foi trabalhar com o cunhado numa fábrica de náilon – a Rilsan -, que por coincidência tinha um clube interno e, no clube, uma academia de boxe, cujo treinador – Jair Ongaro – vivia olhando para a porta à espera de que um dia por ela entrasse um campeão enviado por Deus.

Mas não foi ali o primeiro contato de Miguel com o pugilismo. Foi ainda em São Manuel, num cinema. Ele foi com amigos para ver um bangue-bangue. E voltou ao cinema por quatro dias seguidos, não pelo bangue-bangue, ao qual nem se lembra, mas pelo “jornal da tela”, que exibia a luta em que Eder Jofre, ao nocautear Eloy Sanches, tornara-se o primeiro brasileiro a conquistar um título mundial. Miguel ficou fascinado. E passou semanas dando golpes no ar, imitando a postura de Eder e sonhando em ser ele também um campeão.

Desde então passou a curtir duas paixões: o boxe e a mecânica. Na Rilsan, encontrou as duas portas. Aprendeu mecânica, que depois aperfeiçoou num curso do Senai, e encontrou o boxe, que aprendeu com Jair Ongano e depois aperfeiçoou com os professores Waldemar Zumbano e Antônio Carollo, aquele na Bel-Boxe e este na Pirelli, empresa que possui a maior academia do Brasil.

Ainda em São Manuel, Miguel dera os primeiros passos. É que o filme da luta de Eder empolgara a cidade, tal como acontecera com Mococa cinqüenta anos antes com as notícias da luta entre Dempsey e Firpo. São Manoel virou uma academia e até nos quintais treinava-se boxe, com sacos de areia improvisados e pendurados em goiabeiras. Ali Miguel deu seus primeiros murros, sem saber que um dia daria murros para a história.

Bom farejador, Jair Ongaro percebeu de imediato que tinha um diamante bruto nas mãos. Notou, em primeiro lugar, seu golpe rápido, seco. Não apenas forte, não propriamente golpe de demolidor. Golpe seco, que no ambiente pugilístico se chama de golpe justo. Ou seja: nem um milímetro pra lá, nem um milímetro pra cá. Justo. É o melhor, porque é o golpe colocado, pega com peso e a velocidade certos, no ponto certo. E derruba.

Ongaro inscreveu Miguel no Campeonato de A Gazeta Esportiva de 1964 e não tinha dúvida de que seu novo pupilo seria campeão. Não deu outra. Ele nocauteou Lima na primeira luta e venceu todas as outras. Depois foi campeão paulista duas vezes, bi também no certame brasileiro e bi no Torneio dos Campeões, terceiro colocado no Latino-Americano do Chile (1968) e participou da Olimpíada de Winnipeg, no Canadá, mas sem sucesso.

Na volta ingressou no profissionalismo e estreou oficialmente contra o forte carioca Alvacir Dória, o qual venceu por pontos em quatro assaltos. E foi vencendo todos os adversários, dezenove por nocaute, dez por pontos, até chegar a primeira grande oportunidade.

Foi em Tóquio, a 9 de janeiro de 1973. Com apenas 29 lutas como profissional, muito inexperiente ainda, Miguel disputou o título mundial com o campeão Kaishi Wajima. E empatou em 15 assaltos. Empatar com o campeão, em Tóquio, equivale a vencer. E até perder por pontos, como ele perdeu depois, tem o seu valor.

Dois anos depois, em 7 de maio de 1975, Miguel de Oliveira teve outra chance em Monte Carlo, onde foi para enfrentar o espanhol José Duran. Duran não era um qualquer. Era um craque. Alto inteligente e hábil, subiu como franco favorito. Pouca gente acreditava em Miguel, mas ele, nesse dia, se superou. Deu uma surra em Duran, mando-o duas vezes à lona e venceu incontestavelmente por pontos em quinze assaltos.

Campeão do mundo! É mole? Foi recebido aqui como herói nacional e desfilou pela cidade no carro dos bombeiros. Eder estava ao seu lado. O Brasil inteiro sentiu-se campeão do mundo naqueles dias.

Em 9 de agosto do mesmo ano, Miguel lutou com o norte-americano Don Cobbs, tido nos Estados Unidos como um provável futuro campeão. O título não estava em jogo. Tranquilo, confiante, Miguel venceu por nocaute no quinto assalto.

Mas em 15 de novembro de 1975, em Paris, numa noite de pouca inspiração e má direção, ele perdeu o título para Elisha Obed, das Bahamas. Miguel poderia ter vencido por nocaute. O perigoso Obed ficou grogue várias vezes e no nono round quase foi à lona. Faltou agressividade a Miguel naquela noite. Faltou-lhe confiança e estímulo do seu “segundo”. A famosa pegada de Elisha influiu inclusive no técnico Antônio Carollo, que, embora brilhante em suas funções, pecou por excesso de zelo. Quando o adversário estava “sentido”, com as pernas bambas, Miguel deveria ter atacado sem reservas, para decidir. Mas o técnico gritou-lhe que se cobrisse, que tomasse cuidado. E ele não atacou. Quem atacou foi Obed. E no 11º assalto Miguel perdeu por nocaute técnico. De pé, porque é assim que ficam os heróis, mesmo na derrota.

Miguel fez mais algumas lutas, depois abandonou o boxe para estudar. Formou-se em Educação Física e foi trabalhar como técnico de boxe da Companhia Atlética, dirigida, no elegante bairro do Brooklin, pelo ex-empresário Glicério Matteu. Deu certo outra vez. Com Maguila como pupilo, ele mostrou que é tão craque como treinador quanto foi como lutador.

Mas a sua maior glória – maior ainda que o título – é que, assim como Eder Jofre e tantos outros heróis desta saga, ele jamais perdeu a humildade.

Texto retirado do livro MATTEUCCI, HENRIQUE. Boxe: Mitos e História. São Paulo: Hemus, 1988.

sábado, 8 de maio de 2010

35 anos da conquista de Miguel de Oliveira


Em 7 de maio de 1975, o boxeador Miguel de Oliveira conseguia uma proeza: tornou-se o segundo pugilista brasileiro a ser campeão mundial. O título foi conquistado no principado de Monte Carlo, onde o lutador bateu o espanhol José Duran. O gringo era o favorito do combate, mas naquele dia o boxeador brasileiro conseguiu se superar e mandou o espanhol para a lona duas vezes.

De origem bastante humilde, Oliveira elevou o nome do esporte brasileiro no mundo. Ele e o técnico Antônio Carollo (que aparece na segunda foto) foram os grandes responsáveis por este feito extraordinário. Na ocasião, Miguel foi recebido no Brasil como herói nacional e tornou-se capa de todos os jornais e revistas de esporte. 


Após encerrar a carreira, Miguel tornou-se um técnico de boxe bem sucedido. Treinou pugilistas como Maguila e a boxeadora Duda Yankovich.

Durante o mês de maio, Violão, Sardinha e Pão realiza uma pequena homenagem a este grande ídolo do boxe nacional.

sábado, 17 de abril de 2010

O treino de Maguila, nosso boxeador número 1

No Brasil, quem quer lutar boxe compra uma grande briga





HOMEM foi a um treino de Adilson “Maguila” Rodrigues para ver como é que o nosso maior boxeador se prepara para derrubar os gringos que tentam desafiá-lo.

Por Marcelo Uchiyama

Fotos de M. Migliano

 No início do mês de outubro, Maguila estava prestes a enfrentar o americano Melvin Epps. Nosso campeão, como todos sabem, é dono do título Sul-Americano dos Peso Pesados e, durante os treinos fixa extremamente nervoso e intimidado. Maguila não quer saber de conversa. Mesmo assim insistimos. Fomos até a Academia Companhia Atlética, que fica no bairro do Brooklin, na cidade de São Paulo. O treino foi puxado, comandado pelo ex-Campeão Brasileiro dos Pesos Médios, Miguel de Oliveira, atual treinador de Maguila. O boxeador número um do Brasil mostrou-se um pouco tenso, concentrado no que estava fazendo. O aquecimento foi feito pulando corda durante um bom tempo, em frente a um espelho. Depois foi a vez de uma série de exercícios físicos, flexões abdominais, de braços e pernas. Já bastante aquecido, o atleta foi bater nos sacos de pancada. Em seguida subiu ao ringue para treinar com dois fortes “sparrings”, enfrentando, como é lógico, um de cada vez. A dupla não é pequena. Mas apanhou um bocado.

Maguila treina em média duas horas por dia, o que ainda é pouco para um lutador que tem um título sul-americano para zelar. Felizmente o nosso lutador vem adquirindo agilidade e técnica, progressivamente, graças a seus esforços e a também Miguel de Oliveira, um homem muito experiente em matéria de ringues.

Como muitos dos jovens que resolveram se dedicar ao esporte aqui no Brasil, Maguila enfrentou, e ainda enfrenta, uma série de dificuldades para chegar onde chegou. O nosso campeão vem de uma família humilde. Seu grande sonho era lutar e tornar-se campeão. Hoje, mesmo com suas constantes vitórias, Maguila reclama da falta de patrocinadores e dos prêmios, pequenos que costumam ser pagos para quem vence lutas de boxe. Maguila acha que a profissão de lutador de boxe é muito pouco reconhecida aqui no Brasil.

Maguila começou a lutar por volta de 1980, profissionalmente falando. Ele próprio afirma que entende pouco do esporte, embora goste muito do que faz. Maguila é um homem de poucas palavras, que gosta de usar mais os músculos que o intelecto. Mas é um grande exemplo de homem batalhador, que venceu as barreiras da vida com as próprias mãos. Ele também é tímido e conservador. Ao ser perguntado sobre o esporte que pratica, preferiu passar a bola para o treinador. Sobre o amor livre afirmou que “não entende nada”. E sobre a questão se o sexo é bom ou não para o atleta, foi categórico: “Não, eu não sei! Não me venha perguntar sobre esse negócio!” E saiu correndo, encerrando bruscamente a entrevista.

Publicado originalmente na revista “Homem” em novembro de 1986 

As fotos deste post foram retiradas de um excelente perfil que a revista "Trip" fez com Maguila para sua edição 336 (abril de 2010). 

segunda-feira, 22 de março de 2010

50 anos da conquista de Eder Jofre


Em 1960, o paulistano Eder Jofre (1936-) conquistou o título mundial de boxe na categoria galos pela Associação Mundial de Boxe. Em 2010, se completam 50 anos desta importante conquista para o esporte brasileiro. Na minha opinião, o “galo de ouro” merece uma estátua em sua homenagem no bairro do Peruche, onde ele nasceu e cresceu. Eder e as famílias Jofre e Zumbano tem muitos serviços prestados ao esporte paulista e brasileiro. Prefeito Gilberto Kassab e demais autoridades: façam algo por este homem que é uma verdadeira lenda viva do esporte brasileiro. Em toda sua trajetória, o “rei do ringue” só tem um único defeito: é são-paulino doente.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Miguel de Oliveira



Miguel de Oliveira: Maestro de Socos

Com a estupenda evolução de seu pupilo Maguila, o ex-campeão mundial começa a despontar como o maior técnico de boxe que o Brasil já teve.

Por Alfredo Ogawa

Em fins de novembro passado, o telefone tocou na casa do técnico de boxe Miguel de Oliveira. Do outro lado da linha, a voz anasalada e com forte sotaque nordestino do campeão sul-americano dos pesos pesados, Adílson “Maguila” Rodrigues, clamava por socorro. Nocauteado dias antes pelo holandês André van der Oestelaar e sob as pressões de sombrias críticas sobre seu futuro como lutador, Maguila havia rompido com o técnico Ralph Zumbano. Ele procurava alguém capaz de colocá-lo novamente de pé. “Miguel, estou disposto a qualquer sacrifício”, prometia.

O campeão encontrou o homem certo. Há oito meses começava a surgir umas das mais bem-sucedidas associações do boxe nacional. De um lado, Maguila, um vigoroso e valente sergipano de 28 anos, que graças á determinação e à força bruta chegara ao 20º lugar do mundo- mas, ao trombar com rivais de maior porte, começara a desabar por falta de melhor orientação. Do outro, Miguel de Oliveira, 36 anos, que uma década antes ostentara o cinturão de campeão mundial dos médio-ligeiros. Trata-se de uma figura atípica no pequeno e extravagante universo do boxe brasileiro. De fato, Miguel não fuma charutos, nem usa coletes xadreses, como o empresário Abraham Katznelson não costuma animar os treinos com gritos como o saudoso técnico Kid Jofre; não é visto com carrões coloridos como o boxeador Tomás Cruz; nem encerrou a carreira estropiado como alguns heróis dos ringues nacionais. Nada disso. Mesmo tendo decidido momentos cruciais de sua vida trocando murros num tablado, o Miguel de roupas discretas e gestos sóbrios pode passar tranqüilamente por um meticuloso gerente de banco.

Operário do Ringue- Se demonstra tarimba para lidar com os sócios da academia, as virtudes de Miguel não são menores para atuar com os profissionais. Um boxeador, pela natureza de sua profissão, não gosta de receber de outro homem nem reconhecer erros ou submeter-se a regas disciplinares. É o caso, por exemplo, de outro pupilo de Miguel, o superfina Tomás Cruz, número 1 do ranking, que deve lutar em setembro pelo título mundial, mas que há dez dias não aparece na Companhia Athlética. “Ele vai estragar sua carreira”, adverte Miguel. O mundo do boxe, porém, sabe que, se alguém ainda puder colocar um pouco de bom senso na cabeça de Cruz, esta pessoa é seu treinador. Capaz de falar por meio de pequenas metáforas e com voz sempre tranqüila. Miguel freqüenta há quatro anos os cursos da misteriosa Pró-Vida, uma instituição que se propõe a aumentar os recursos mentais do ser humano. “O objetivo é ampliar a percepção do mundo nas pessoas”, explica.

De quebra, ele traz em seu currículo a bagagem de alguém que já conheceu várias facetas da vida. Sua cabeça e dedicação de operário da Pirelli, ele transportou para a academia de boxe da empresa, junto com o soco forte que exercitava em Lençóis Paulista (SP), sua cidade natal. “Miguel era um lutador limitado. Só sabia enfiar seu forte braço direito”, lembra Antônio Carollo, seu técnico na Pirelli. Com paciência, Miguel domou a afoiteza, semelhante à de Maguila, e disciplinou-se em todas as regras do boxe.

Último campeão mundial que o Brasil teve, Miguel enfrentou seu destino sem maiores traumas. Continua morando em Osasco, onde montou seu pequeno patrimônio: duas casas e uma chácara. Avesso as extravagâncias, usa um Volkswagen 1980 para se movimentar e é ligadíssimo nas duas filhas adolescentes. “É do tipo caseiro”, define a mulher Maria de Lourdes.

Assim, no lugar do desengonçado Maguila, surge um pugilista que se esquiva bem dos golpes, usa com desenvoltura o jogo de pernas e sabe esperar o momento certo de bater. Ou seja, o mestre das regras do boxe encontrou em Maguila um diamante puro. “O Maguila brigão não existe mais”, orgulha-se o campeão de sua evolução no ringue. Luvas em frente ao rosto, posicionamento do corpo, jogo de pernas e colocações dos golpes são lições que ele repete até a exaustão. “Viemos desde os princípios do boxe e lapida mentos cada detalhe”, ensina Miguel.

O técnico, porém, não se limitou o boxe. Usou todos os seus conhecimentos científicos- nem sempre ao alcance dos boxeadores brasileiros. A avaliação médica inicial mostrou que Maguila só usava 40% do potencial físico. Atualmente, com uma rigorosa rotina diária de 4 horas, já alcançou 60% de sua capacidade total. Isso fica evidente em seus exercícios de musculação. Em fevereiro ele erguia apenas 40 kg com as pernas. Na semana passada, essa carga chegava a 60 kg e breve atingirá os 80 kg. Mais: uma tendinite nos dois punhos enfraquecia seus golpes. Ela foi curada com ultra-som e microondas. Com Miguel, Maguila passou a servir-se de todo o arsenal da medicina do esporte.

Freqüentemente Miguel é visto correndo junto com seu pupilo nos 10 ou 15 km diários planejados. Nesses momentos Miguel conta histórias de suas lutas e escuta as dúvidas de Maguila. São conversas que selam uma união das mais promissoras para o boxe brasileiro.

Publicado originalmente na revista Placar em 11 de agosto de 1986

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Entrevista com Servílio de Oliveira



Servílio de Oliveira recorda carreira no boxe e medalha nas Olimpíadas de 1968

Treinador de boxe do São Caetano, Servílio de Oliveira é o único brasileiro que conquistou uma medalha olímpica na modalidade

MATHEUS TRUNK

No início dos anos 60, o boxe era o segundo esporte brasileiro. Naquele tempo, o “galinho de ouro” Éder Jofre sagrou-se bicampeão mundial e se tornou ídolo de vários jovens que estavam começando no esporte. Servílio de Oliveira, 61, foi uma dessas pessoas.

De origem humilde, Servílio sagrou-se campeão paulista, brasileiro, sul-americano e latino-americano na categoria moscas. Porém, seu maior feito foi ter conquistado a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos na Cidade do México, em 1968. “Ver a bandeira brasileira tremulando junto com as demais bandeiras no pódio foi uma emoção muito forte”, relembra.

Em dezembro de 1971, o pugilista teve de encerrar a carreira de lutador devido a um deslocamento de retina que sofreu em uma luta com o boxeador mexicano Tony Moreno. Nos anos 80, iniciou sua carreira de treinador como auxiliar técnico do Clube Atlético Pirelli, em Santo André.

Com a fundação da Associação Atlética São Caetano, Servílio torno-se técnico e coordenador da equipe de boxe do clube. Atualmente, ele é empresário e revelou grandes nomes da modalidade, como o baiano Valdemir Pereira, o Sertão, que se tornou campeão mundial em 2006.

Rudge Ramos Online- Como o senhor começou a se interessar por boxe? 
Servílio de Oliveira- Quando eu comecei a me interessar por esporte, eu pensava em ser jogador de futebol como o Pelé. Mas eu não levava muito jeito pra isso. Naquele momento, surgiu o Éder Jofre como ídolo nacional. Ele se tornou campeão mundial de boxe no dia 18 de novembro de 1960. Naquela época, houve um "boom" do boxe e todos os garotos queriam praticar a modalidade se espelhando no Éder.

RRO- Como o senhor começou a treinar em academias? 
SO- Eu fui pra academia pela primeira vez em 62, 63 na Caracu Boxe Clube. Essa academia ficava na rua Aurora, em cima do Cine Scala, no centro de São Paulo. Eu estreei com dezessete anos e me tornei campeão do torneio A Forja dos Campeões, que era organizado pelo jornal A Gazeta Esportiva. Depois, eu lutei pela academia Flamingo e logo em seguida fui treinar na Pirelli, que ficava aqui em Santo André.


RRO- Como foi a sua participação no Pan de 1967?
SO- Eu tinha somente dezoito anos. Na primeira luta, ganhei de um colombiano chamado Pedro Bendex. Acabei perdendo a segunda luta para um americano chamado Harlan Marbley e fui desclassificado. Ele era mais velho e um lutador bem mais experiente. O técnico da delegação brasileiro de boxe nessa oportunidade foi o Kid Jofre, o pai do Éder.


RRO- Se sentiu frustrado por ter sido eliminado na segunda rodada?
SO- Não. O meu adversário foi superior dentro do ringue. Em março de 68, eu fui ao Chile e ganhei do Francisco Morocho Rodrigues, venezuelano que tinha sido campeão panamericano. Portanto, éramos todos grandes boxeadores.


RRO- Logo em seguida o senhor participou das Olimpíadas de 68 na Cidade do México e conquistou a medalha de bronze. Como foi isso?
SO- Foi algo excepcional. Sou muito orgulhoso até hoje de ter conquistado esse feito. Sinto que meu nome passou pra história. Tem muita gente que procura esconder o que eu fiz mas vão continuar escondendo. Mas os meus netos, os meus bisnetos e toda a comunidade desportiva sempre vão saber da minha conquista. A delegação brasileira de boxe naquela Olimpíada tinham três membros somente: eu, o boxeador Expedito Alencar e o nosso técnico Antonio Carollo. Foi muito difícil e foi somente na última hora que se resolveu que uma equipe brasileira de boxe ia mesmo ao México, porque na época não tinha verba para o boxe. Para o futebol sempre tem verba, mas para o boxe nunca tem.


RRO- Na semifinal o senhor foi derrotado pelo mexicano Ricardo Delgado. Como isso ocorreu?
SO- O Ricardo tinha sido vice-campeão no Pan de 67. Ele estava lutando na casa dele, tinha apoio da torcida. Fizemos uma luta equilibrada, mas eu acho que ele foi melhor e a conquista dele foi justa.

RRO- Qual foi a importância do técnico Antonio Carollo para a sua carreira?
SO- Ele foi uma pessoa fundamental na minha vida e na de muitos outros boxeadores. O Carollo é uma pessoa que se dedicava mais ao boxe que a própria família dele. Foi um paizão e sempre me ajudou muito. Mesmo quando eu parei, eu fui ser assistente dele na Pirelli, aqui em Santo André. Quando eu precisei de dinheiro, ele sempre me ajudou. Devo muito ao Carollo e a maior parte da minha vida útil no boxe foi ao lado dele.

RRO- Como foi o problema em que o senhor teve um deslocamento de retina em uma luta com o mexicano Tony Moreno, em 1971?
SO- Tive um deslocamento no sétimo round da luta. Eu sofri um golpe ou uma cabeçada que inchou muito o meu olho direito. Depois, o Moreno começou a bater muito em cima e me abriu ainda mais. Mas mesmo assim eu acabei vencendo a luta no décimo round. Eu estava tão concentrado que naquela noite ninguém me derrotaria. Por causa desse descolamento, eu fiquei impedido de lutar boxe.

RRO- O senhor sentiu alguma frustração por estar distante do esporte?
SO- Eu sentia saudades e senti aquele sentido de injustiça. Eu me questionava o motivo daquilo tudo, logo comigo. George Foreman foi campeão do mundo em 1974 e o Miguel de Oliveira logo em seguida, em 75. São todos pessoas que tinham convivido diretamente comigo. Mas depois eu me superei, voltei a lutar novamente profissionalmente. Fiz cinco lutas e ganhei todas. Em 1978, eu desafiei o campeão sulamericano, o chileno Martin Vargas para uma luta. Mas fui impedido de lutar.

RRO- Por causa do ferimento da retina? 
SO- Sim. Eles diziam que estavam protegendo a minha integridade física, mas na verdade eles estavam protegendo a integridade física do chileno. Eu tinha todas condições para vencê-lo. Depois disso, continuei somente no boxe amador. Na minha carreira profissional toda, eu não sofri nenhuma derrota.

RRO- O senhor passou a ser técnico logo depois que parou de lutar? 
SO- Sim. Passei a ser auxiliar do Carollo. Mas a Pirelli terminou em 1992, o Carollo foi ser treinador do São Paulo. Eu montei o departamento do São Caetano e passei a ser técnico do time. Depois fui coordenador e com o tempo me tornei empresário, revelando vários novos nomes do boxe brasileiro.


RRO- Como o senhor conheceu o boxeador Valdemir Pereira, o Sertão? 
SO- Quando eu conheci o Sertão, ele treinava no São Paulo Futebol Clube. Depois, o São Paulo fechou a parte de boxe. Quando isso aconteceu, ele queria voltar pra terra dele, na Bahia, de qualquer maneira. Mas eu sabia que ele tinha um potencial, e insisti pra ele permanecer aqui. Em 2000, ele participou dos Jogos Olímpicos e depois se tornou campeão mundial. Tornou-se um grande campeão e tenho muito orgulho de ter participado disso de alguma maneira.


RRO- O senhor ainda é o único boxeador brasileiro que ganhou uma medalha em Olimpíadas. Na sua opinião, por que isso acontece?
SO- No passado, o material humano do boxe brasileiro era bem melhor. Hoje em dia, em todos os esportes tem muito dinheiro e os jovens acabam se perdendo um pouco. Na minha opinião, falta no Brasil uma massificação da modalidade. Acredito que todas essas leis e bolsas para atletas deveriam ser usados na massificação da prática do boxe. Isso pode incentivar mais a prática do esporte.

RRO- O senhor ganhou muito dinheiro com o boxe profissional? 
SO- Absolutamente nada. A maior verba que eu ganhei em uma luta foi mil e cem dólares, quando ganhei o título sul-americano. Hoje, qualquer lutadorzinho que vai para fora do Brasil recebe oito, dez mil dólares por combate. Atualmente, mesmo no boxe amador gira muito dinheiro. Na minha época, não tinha nada disso.

RRO- Como era o seu dia-a-dia como boxeador? 
SO- Era de muita dedicação, muito treinamento. Eu não bebia álcool, não fumava, não vivia na noite. Eu era um atleta muito disciplinado, passava sede, passava fome. Eu tinha muita dificuldade para dar o peso certo. Era tão concentrado na minha vida atlética que eu esquecia de sexo, de namorar.

RRO- Então, o senhor abriu mão de muitas coisas para ser um boxeador? 
SO- Claro. Pra você ser um grande nome em qualquer segmento, você tem que abrir mão de um monte de coisas. Pra ser um grande ator, um bom ator, um bom advogado você precisa abrir mão de muitas coisas. Porque se não abrir mão, nunca será um grande nome no segmento dele.


RRO- Muitos ex-boxeadores como Luiz Faustino Pires, que foi campeão sul-americano e chegou a lutar contra o George Foreman, tiveram um final de vida muito difícil. Na opinião do senhor, por que isso acontece?
SO- Cada um escolhe o seu caminho. No dia-a-dia, todo ex-atleta tem que procurar crescer dentro da sua área profissional. Eu já estive no fundo do poço e continuei trabalhando e me dedicando. Hoje, eu faço o meu serviço e consigo me manter. Muitas vezes, o atleta não tem uma estrutura familiar muito forte e isso acaba trazendo muitos problemas pra pessoa. Isso acontece também em outras modalidades, como o futebol.


RRO- É verdade que boxeador precisa saber apanhar?
SO- Sim. Saber bater é muito fácil, todo mundo sabe bater. Saber apanhar é muito difícil, poucos sabem. E poucos sabem continuar uma luta depois de apanhar e saber sair de uma situação adversa como essa.

RRO- O senhor sofreu algum preconceito racial dentro do boxe por ser negro? 
SO- Na verdade, o nosso país sempre foi um lugar preconceituoso. Quando eu era menino, a coisa era pior. Hoje, já mudou bastante felizmente. Mas mesmo assim o preconceito, mesmo velado, ainda existe.

RRO- O senhor acredita que ainda existe muito preconceito contra o boxe? 
SO- Existe ainda alguns intelectuais que dizem que o boxe gera a violência. Na verdade, é justamente o contrário. O boxe é uma prática desportiva em que o sujeito deixa de ser violento. Lutador luta contra um oponente do mesmo peso, com as mesmas condições físicas. Quando termina a luta, eles se abraçam e são amigos abaixo do ringue. Diferente do futebol em que um quebra a perna do outro, dá pernada e existem até mesmo as torcidas organizadas. Na minha opinião, o futebol é muito mais violento que o boxe.


Publicado originalmente no Rudge Ramos Online da Universidade Metodista de São Paulo

sábado, 1 de agosto de 2009

A bela primazia de Galasso



Em fins de 1946, um garotinho do Bixiga, tímido, pálido e um tanto encurvado, procurou o técnico Waldemar Zumbano na academia do Clube Espéria, na Ponte Grande. Naquele ano centenas de jovens estavam se apresentando para treinar, e aquele menino franzino não chamou a atenção de ninguém. Parecia ser mais um desses que se apresentam, treinam uma ou duas vezes e desaparecem. Parecia, mas não era. No dia seguinte, quando Waldemar chegou para abrir a academia, ele já estava na porta, sentado na soleira. E no outro também. Três semanas depois, quando o garoto entrou no ringue e fez o primeiro treino com luvas, Waldemar observou:

- Esse é daqueles que, se não tem talento, vencem pela garra e, se não têm garra, vencem na teimosia...

Foi uma observação profética. Talento, relativo. Garra, demais. Quanto á teimosia, algo assim invadindo o terreno da obstinação. Seu nome é Pedro Galasso. Pela garra, pela obstinação, pelo boxe agressivo logo demonstrado, foi chamado de “Piranha”. E também fez história. Mais do que isso. Deu brilho a essa história com sua coragem fora do comum e uma dedicação quase religiosa ao boxe. Como Kaled Curi, com Lúcio Inácio e como todos os Jofre e todos os Zumbano. Pedro Galasso mergulhou tão fundo na alma do pugilismo e a ele se integrou de tal maneira que jamais se poderá se desvincular um do outro.

Enquanto pugilista, Galasso foi em tudo um exemplo para os demais. Dedicado aos treinos como poucos, consciente da disciplina e da sua responsabilidade perante o público, jamais subiu num ringue fora de forma e sempre, sem nunca decepcionar, ofereceu grandes espetáculos, mesmo quando derrotado. Sua dedicação era tanta que, quando voltou ao Latino-Americano de Lima, com a mão quebrada e gessada, no dia seguinte ao embarque foi à academia, fez ginástica e bateu no saco de areia com a outra mão. E assim treinou todos os dias, até tirar o gesso e receber do médico a autorização para o treinamento completo.

Galasso estreou no campeonato de A Gazeta Esportiva em 1947 e foi campeão dos penas. No mesmo ano foi, ainda, campeão de Novíssimos, Novos e Paulista. Quatro títulos para começar, e depois uma série tão longa que ele talvez seja o boxeador brasileiro que mais títulos conquistou até hoje. Em 1948 foi campeão de Novíssimos, Novos, Paulista e Brasileiro, tendo ainda integrado a equipe nacional no Sul-Americano de Santiago. Em 1949 foi apenas vice-campeão paulista, mas em 1950 foi campeão paulista e brasileiro, repetindo o feito em 1951, quando participou, mas sem êxito, do Pan-Americano de Buenos Aires. Em 1952, idem e participação na Olimpíada de Helsinque. Com tanto empenho e tanta raça, ele não poderia encerrar a carreira amadorística sem um título internacional. Tentou-o no Latino-Americano de Lima, onde foi prejudicado pelos jurados, mas conseguiu realizar o sonho no Latino-Americano de 1953, em Montevidéu, onde foi não apenas o campeão dos leves, mas também, segundo a imprensa uruguaia, “o melhor boxeador do campeonato”.

No profissionalismo, que ele abraçou em 1953, não havia a possibilidade de tantos títulos, mesmo porque não existem campeonatos atuais tipo Novos, Novíssimos, essas coisas do amadorismo. Nem por isso, porém, Galasso deixou de brilhar. Brigador, valente, enfrentou os melhores leves da América do Sul e chegou até a lutar duas vezes com o campeão italiano em Campari. Na primeira, empatou (em Roma), em dez assaltos. Na segunda, quando levava vantagem, a luta foi suspensa porque faltou luz no estádio. Antes disso, numa memorável luta com Sebastião Ladislau (“Gibi”), que destronara Kaled Curi, Galasso ganhou o título de campeão brasileiro.

Foi nessa condição que ele enfrentou, no Rio, o famoso norte-americano Joe Brown, ex-campeão mundial dos penas. Uma luta duríssima, na qual Galasso mostrou toda a sua bravura. Escorou como um estóico a agressividade de Joe Brown, que levou sobre ele apenas uma pequena vantagem. Galasso perdeu por decisão médica no oitavo assalto, em razão de um profundo corte no supercílio e de uma perigosa hemorragia.

No camarim, Galasso protestou:

- Ele estava cansado. Eu ia vencer a luta, não foi justo.

Disse isso com o médico “costurando” seu supercílio, sem se importar com a dor ou com a possibilidade de uma pequena deformação. Era do seu feitio. Nunca temeu nenhum adversário, nem sequer ficou tenso antes de qualquer combate, por mais perigoso que fosse o adversário. Ele era um homem tranqüilo e em toda a sua carreira procurou transmitir essa calma aos companheiros. Quando não estava programado, ia ao camarim e ficava ao lado dos companheiros ajudando a colocar-lhes as bandagens e dizendo-lhes palavras de estímulo.

O maior feito de Galasso, porém, aconteceu na noite de 25 de agosto de 1958, quando ele enfrentou o campeão sul-americano de peso leve, o então invicto chileno Sergio Salvia. Salvia era um mestre, inclusive com pretensões ao título mundial. Sabia tudo. Só não sabia da obstinação e da agressividade de Pedro Galasso. E foi surpreendido pela garra do brasileiro, que não parou de atacar até a última batida do gongo, no 12º assalto. Galasso venceu por pontos, uma vitória justa, indiscutível. Na revanche, em Santiago, Galasso sofreu uma tremenda “guerra fria” antes da luta. Nem camarim lhe deram. Trocou de roupa debaixo de uma escada, no mesmo corredor por onde passava o público. Não pôde se concentrar, não teve condições psicológicas. E perdeu. Contudo, ficou-lhe a glória de uma maravilhosa primazia: foi o primeiro profissional brasileiro a conquistar um título internacional.

Imagem e texto retirado de MATTEUCCI, Henrique. Boxe: Mitos e História. São Paulo: Hemus, 1988.

sábado, 27 de junho de 2009

Gibi


Uma figura inesquecível, pelas suas características únicas, exóticas e excêntricas, foi o peso leve Sebastião Ladislau, o “Gibi”. Não tinha punch, mas em habilidade e malícia jamais foi igualado. Era malandro em todos os sentidos-, mas nunca um mau elemento. Seu problema era a carência, a solidão. Não tinha pai nem mãe, ninguém. E por isso se apegava aos amigos, na maioria elementos da vida noturna, todos da malandragem. Entre eles, o célebre “Quinzinho” (que chegou a lutar boxe), chamado “o rei da Boca do Lixo”. Gibi nunca roubou, nunca traficou com tóxicos, mas viveu sempre entre traficantes e foi viciado em maconha.

Sua carreira no pugilismo desafia todas as leis da educação física e da biologia. Pela sua vida desregada- ele jamais se alimentou direito-, meio alcoólatra e notívago, Gibi nem poderia pensar em esporte, muito menos em boxe, modalidade que exige demais do físico e castiga duramente os que não se cuidam. Pois Gibi, sem treinar uma única vez como manda o figurino, sem alimentação e sem repouso (passava as noites na rua, quase sempre com cachaça e maconha), lutou muitos anos, jamais adoeceu e sempre ofereceu grandes espetáculos ao público, chegando mesmo a ser campeão brasileiro dos leves.

Duas passagens em sua carreira são verdadeiramente folclóricas. Uma foi na luta com Kaled Curi, pelo título nacional. No quarto assalto, o Beduíno colocou um forte hoock de direita no estômago e Gibi, acusando ostensivamente o golpe, gemeu, entrou em clinch e reclamou:

-Pô, Turco, não bate aí que eu não como nada há dois dias!...

O ânimo de Kaled foi pra lona. Ele não foi mais capaz de bater pra valer e, por esse gesto humano, só recebeu vaias.

Um dia Jacó Nahun contratou nada mais nada menos do que Alfredo Prada para lutar contra Gibi, que então era o campeão nacional. Prada era o campeão sul-americano e acabara de obter uma memorável vitória sobre o “Tigre” Gatica- também chamado “O Mono”- fraturando-lhe o maxilar com um gancho de direita. Aceitou a luta no Brasil encarando-a como um treino, sem saber o que esperava. Gibi nem sabia quem era ele. Quando um jornalista lhe perguntou se sabia com quem ia lutar, ele respondeu com indiferença:

- Sei lá! Um tal de Prada. Dizem que é gringo.

Na madrugada do dia da luta, o mesmo jornalista encontrou Gibi de quatro na calçada defronte a uma farmácia, na avenida São João, esquina com a rua Aurora.

- Que você está fazendo aí?- perguntou-lhe o jornalista. Gibi, embaraçado por ter sido flagrado naquela posição, ergueu a cabeça e respondeu:

- Estou procurando minha vergonha. Seu Jacó disse que ela deve estar por aqui.

Ele estava alcoolizado. Á noite, apenas dezessete horas depois desse insólito episódio, Gibi fez dez assaltos com Alfredo Prada e deu um suadouro incrível no argentino. O empato foi considerado justo e Prada comentou:
- Nunca enfrentei um adversário tão complicado como esse. Ele é inortodoxo, imprevisível, um maluco! Nunca mais quero ver esse homem na minha frente.

No meio da luta, Gibi abaixou os braços e fez menção de virar as costas a Prada, dando a entender que ia desistir. O argentino sorriu e por sua vez abaixou a guarda, certo de que vencera. E nesse preciso momento o brasileiro voltou-se com incrível rapidez e acertou uma esquerda que quase derrubou o campeão. Quando um jornalista lhe perguntou que golpe era aquele, Gibi respondeu:

- Vapt-vupt. É um faz-que-vai-e-vai-mesmo

Gibi foi o mais folclórico dos nossos pugilistas. Morreu cedo, quase como indigente.

Retirado de: MATTEUCCI, Henrique. Boxe: Mitos e História. São Paulo: Hemus, 1988

Este post é uma homenagem aos jornalistas Henrique Matteucci, José Maria de Aquino e demais colegas que cobriram o boxe paulista em seus anos dourados.