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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Entrevista com Moreira da Silva (Ele Ela, janeiro de 1997)


ENTREVISTA




MOREIRA DA SILVA- O Tal do samba de breque

Por Álvaro da Costa e Silva e Macedo Rodrigues

Viúvo, aos 94 anos – completará 95 no dia da mentira, primeiro de abril -, Moreira da Silva quer experimentar algumas ervas que lhe permitiam fazer “o Bráulio dar uns pulinhos”, como diz. Isto, porque, ainda hoje, quando deixa o apartamento do Catumbi, no Rio, trajando camisa de algodão, terno de linha S-120, gravata, sapato duas cores e chapéu panamá, as mulheres não lhe deixam paz. A ELE ELA o último dos malandros fala das muitas conquistas, da carreira de mais de 60 anos, os tempos áureos da Lapa, de alguns desafetos e do amor ao Brasil. Com sabedoria, humor e até alguns breques de improviso.

Que lembranças o senhor guarda da infância?

Eu comia bolo de milho com guaraná para inchar a barriga e enganar a fome. Fui uma criança sofrida pra caramba. Primeiro, morreu meu pai, nem cheguei a conhecê-lo. Depois, perdi meu padrasto, a pessoa que em ensinou a ler e fazer conta. Aos 11 anos, tive de me virar e fui trabalhar numa fábrica de meia. Minha mãe era cozinheira, ganhava muito pouco, quase não dava para nosso sustento. Lembro que cheguei a morar num galpão, num lugar sem água, cheio de valas, onde viviam duas famílias amontoadas. Aos 17 anos, era um garotão cheio de gás e malnutrido. Fui à festa da Penha, porque morava lá perto, e encontrei um bom crioulo. Ele improvisou um fogão de lata e fez uma sopa de repolho. Aquilo me pareceu um banquete, nunca mais esqueci.

O senhor tomou contato com a malandragem nessa época?

Não conheci os malandros. Conheci pessoas espertas que trabalhavam na estiva e que tinham suas roupinhas legais para danças nas gafieiras, além da turma do carteado e da gigolagem. Mas, quando fiz 18 anos, fui levado para ser ajudante de não-sei-o-quê e pude assumir o sustento da minha família. Me lembro do tempo em que era motorista de praça; Peguei um cara e depois uma prostituta, a pedido do cara. Fui deixa-los na Vista Chinesa. Mas quem comeu a mulher fui eu. O camarada estava dormindo, meio de porre, e eu acabei comendo. Mais tarde, essa mulher se tornou minha amiga. Me lembro de que, na maré braba, dinheiro muito curto, eu dormia com ela na Rua Joaquim Silva, na Lapa. Ao acordar, não me deixava ir trabalhar, me mandava pegar dinheiro na gaveta. Caí no mau caminho.

Muitas destas aventuras estão narradas no livro Moreira da Silva- O Último dos Malandros, do jornalista Alexandre Augusto, lançado pela Editora Record. O que achou da sua biografia escrita em vida?

Só teve uma falhazinha: eu comprei uma música por um conto e 300 e ele escreveu que paguei um conto e quatrocentos. No mais, é um excelente livro. Tudo o que me aconteceu está escrito lá, com todos os detalhes. Agradeço ao Alexandre Augusto, um jovem baiano que fez um trabalho honesto sobre a minha vida.



E o senhor comprou muita música?

Isso é antigo, vem desde o tempo de andar pra frente. O sujeito não tinha dinheiro e vendia. É que nem jornalista, que vende artigos, crônicas e quem assina é outro. Ele vende a inteligência. Esse Paulo Coelho não vendeu uma porrada de livro? Ficou milionário, mas diz que é um mago. Uma vez, me encontrei na madrugada com um rapaz, o Geraldo Pereira. Ele estava precisando pagar o quarto onde morava e me pediu um conto e 300 mil réis, em troca de uma parceria. Era dinheiro pra chuchu. Fiz um acordo verbal que vale até hoje.

Bem todo mundo conta quando compra um samba...

Eu conto porque é a verdade. E já vendi também, já dei parceria por dinheiro. Quem não conta é imbecil e hipócrita. Sempre aconteceu, desde os tempos da música erudita. Aquele surdo, o Beethoven, vendeu os direitos todos.

Como era o Geraldo Pereira, que o senhor citou?

O Geraldo era um escuro simpático, educado, gostava de um chopinho. Assim como você, Macedo, mostra a língua branca aí. Um chopinho de vez em quando não tem problema, o que estraga a saúde é beber em demasia. De repente, o Geraldo fez tanta música bonita! Aliás, dei a ele uma parceria, com autorização do Wilson Batista, o famoso samba Acertei no Milhar. O Wilson concordou, desde que ele trabalhasse a música, desde que ajudasse na divulgação. Antigamente, isso era comum.

Dizem que o Madame Satã matou o Geraldo numa briga em frente ao restaurante Capela, na Lapa?

Não acredito. Há muita lenda em torno do Madame Satã. Eu não admito que um homem sozinho brigue com seis policiais armados, como dizem dele por aí. Que que há, ninguém é besta! O policial dá-lhe um tiro e pronto...Isso é mentira. Por sinal, esse Satã era bissexual, dava também à vontade.

E o Wilson Batista, como era?

Um bom vivant. No final da vida, começou a fumar, a cheirar e foi mais cedo. Uma pena.

Camisa de algodão, terno de linho S-120 de fabricação inglesa ou irlandesa, gravata apertada, sapato duas cores e chapéu panamá. Esse era o uniforme do malandro?
Esse era uma vestimenta tradicional aqui no Brasil. Nesse clima quente, nego cismo em vestir-se assim, vá entender. Eu uso até hoje, mas naquele tempo tinha mais gente, todo mundo alinhadíssimo. Aí veio uma turma americana aqui fazer não sei o quê. Entraram no cinema de calção, bagunçou o coreto do brasileiro, porque o brasileiro é esnobe, gosta de imitar a América do Norte, de macaquear o gringo. O exemplo são eles. Eu me conservei assim.

O senhor era bom no carteado?

Nunca fui um exímio carteador. Já joguei baralho e tal, mas não nasci para ficar rico jogando. Teve uma época em que eu joguei sena e quina por mais de dois anos e nunca acertei nada a não ser um terno.



Em compensação, deu uma baita sorte na carreira artística.

Nem sempre, tive alguns altos e baixos, mas nunca desisti. Comecei a gravar mais ou menos em 1931. Antes, cantava nas horas vagas, em casas de família, aniversários, batizados. Até que um dia me levaram na Odeon para gravar duas músicas afro-brasileiras que não fizeram sucesso. Mas, logo a seguir, gravei Arrasta a Sandália, meu primeiro sucesso mesmo, um estouro de verdade. A partir daí, não parei mais. Meu mais recente trabalho, Os Três Malandros in Concert, com o Dicró e o Bezerra da Silva, é de 1995. É meu 26º disco.

Mas no amor, o senhor não pode negar que deu sorte. Fez até um samba, 1.296 Mulheres, dando conta de algumas conquistas.

Quando um artista está em cartaz, sobre mulher. Se você não machucar, vão chama-lo de veado. Velho como estou, eles ainda ficam dando em cima. Basta eu sair na rua que acontece o diabo a quatro. Fui mulherengo, sou obrigado a confessar. Tirei alguns cabaços. Depois de tirar, não expulsava a menina da cama nem a chamava de galinha. Eu a tratava bem, para que não fosse se queixar com os pais. Se a menina chegasse em casa chorando, ia me entregar na certa: “Foi o Moreira quem introduziu”.

O senhor...

Pode me chamar de você que sou jovem, espiritualmente dizendo.

Você, então, até bem pouco tempo estava fazendo mal às moças?

É verdade, tive uma mocinha depois de ficar viúvo. Mas a mandei embora. Era uma mercenária, não me deixava juntar um níquel. Até hoje ela me procura. Dei casa em Saracuruna, duas televisões a cores, dois freezers. Ela passou bem ao meu lado, é a chamada manutenção. Mas a mandei arrumar outro ombro pra chorar. Era tarada, tarada, tarada, não era uma mulher normal. Me fazia de tudo aqui nesta poltrona, eu na horizontal e ela na vertical. Até frago assado. Língua também. Língua, da parte dela, que fique bem claro. Mas, de lá para cá, eu descansei. Gozei pela última vez em 94. Estou com vontade de experimentar essa tal de catuaba, que andam anunciando por aí. Vamos ver se o Bráulio resolve dar uns pulinhos. Porque tive problemas de saúde, na próstata, nos testículos também. Covarde sei que me podem chamar, mas o médico disse que eu precisava operar, o que se há de fazer? Mas deixaram as bolinhas de gude.


O Nelson Gonçalves fez uma operação uma prótese no pênis.

Sei como é, colocou um canivete lá. O Zé Kéti também colocou. Não gosta da ideia. O que tem dado certo comigo são esses telefonemas eróticas. Passo horas ouvindo sacanagem nas minhas longas noite de insônia.

Foi em uma noite de insônia que surgiu o samba de breque?

Foi por acaso. Vem da parada do inglês, o break. Cantei Na Subida do Morro praticamente falando, sem acompanhamento, por mais de um minuto. Agradou o público na hora. Sempre tive a cabeça boa. Quando estou no palco, invento uns troços, mexo com a plateia, conto piada. A turma ri pra caramba. Eu digo: “Pode rir, depois eu vou pegar o meu cachê”.

Como nasceu o personagem Kid Morengueira?

“Começa o filme com o garoto/ Um telegrama do Arizona onde tem bandido de lascar” (cantando). Foi na época da minha ligação com o publicitário Miguel Gustavo, um cara inteligente que tinha o tino do sucesso. Ele foi autor de jingles antológicos...

Parece que o Miguel Gustavo tinha um cachorro chamado Morengueira...,

O que é isso, rapaz? Estás me chamando de cachorro? Não tinha cachorro nenhum.

E as expressões em inglês e francês?

Aprendi na esquina da vida, esperando a descida de quem subiu e fazendo o confronto entre o malandro pronto e o otário que nasceu pra milionário. Comment ça va, mon amour? Francês, inglês, árabe. Meu grande amigo Hilton Abi-Rihan é árabe. E tive, durante muitos anos, uma amante árabe, que dizia coisas em seu idioma quando estávamos na cama. Ela morreu e me deixou um apartamento. Amor é assim.

A sua mulher tinha conhecimento dessa sua amante?

Tomou conhecimento depois, me perdoou. A cama perdoa tudo. Batom na cueca é fogo, o resto você pode desculpar. “Minha filha, foi um deslize, eu te amo acima de tudo e coisa e tal”.



Me lembro de que, num depoimento no Museu do Carnaval, o senhor...

Senhor não. Você, você. Eu quero intimidade.

Você disse que havia uma chinelada na Araci de Almeida.

Isso tem muitos anos. Levei-a para o Posto Seis, perto do Forte Copacabana. Sentamos num casebre. Ela me pedia para leva-la no cinema, mas eu sabia que, no fundo, queria outra coisa. Então, fomos no piçurico. Primeira vez, eu quis fazer normal, papai-e-mamãe, aquelas coisas. Ela colocou as pernas no meu peito, virando-se e dizendo que não era ali. Fiquei aborrecido e disse: “Vamos embora”. No outro domingo, ela insistiu e vi que era marcha-ré sem debrear. Levei-a para um hotel lá na Frei Caneca.

Não teve erro?

Na bunda. Ela gozou, virou-se de lado, me deu beijinhos no pescoço. Mas nessa época eu era jovem.

E ela também.

Uma belezinha mais jovem que eu. Mas foi só aquela vez. O Noel também pegou.

Fale do seu lado de cantor romântico, naquele tempo em que cantor tinha de inchar a veia do pescoço.

Gravei Cigano, do Lupicínio Rodrigues. Faz sucesso até hoje. Era assim: “Cigano, abandonei o meu bando/ Só para viver cantando”.

Você era comparado ao Jorge Veiga.

O Jorge Veiga era diferente. Tinha uma paradinha gostosa, mas era diferente.

Existiu uma rivalidade entre os dois?

Ele criou esse ambiente. Tenho certeza de que ele vai voltar pra esse mundo, porque acredito em reencarnação. Então, é melhor abafar o caso. Fui ao enterro dele.

Qual o assunto que hoje merece um samba de breque?

Tenho um samba inédito que fala de ecologia. Andam falando muito sobre isso e quem não sabe tem de aprender. Também fiz uma homenagem ao Noel: “Poeta igual a você nunca mais/ Não desfazendo os artistas do presente e do futuro/ Estou dizendo o que meu coração sente/ Não é mentira, é verdade/ Vem, amor, depressa porque eu estou sofrendo/ Nunca mais quero você longe de mim/ Sua ausência é o princípio do meu fim/ Vem agora, vem correndo, amor, porque eu estou sofrendo”.

O que você achou do episódio Tiririca? Antes, não se podia brincar mais? Você gravou Olha o Padilha, um samba que tinha versos assim: “Esta macaca ao teu lado/ É uma mina mais forte/ Que o Banco do Brasil/ Eu manjo de longe este tiziu” .

Acho o Tiririca maravilhoso. O Brasil é composto de mestiços, mas não entendi o grilo do crioulo. Tiririca se veste engraçado, é um palhaço, tira onda em cima disso. Podem censurá-lo, mas as crianças gostam e, quando elas gostam, é porque o negócio é bom. Gostava também muitíssimo dos Mamonas. Eram inteligentes. Rapaziada jovem, ganhavam dinheiro, mas andavam num jatinho.

Você tem medo de avião?

Medo não tenho porque viajo sempre.; Mas esses jatinhos, não sei não.

O que você acha das músicas baiana e sertaneja?

É brasileiro e tal, são criações do povo, gosto. Gosto de qualquer música do mundo.

Mas falou mal uma vez do Caetano Veloso

Porque ele censurou o Ary Barroso. Quem é ele para censurar o Ary Barroso? Esse cara é um otário e é bissexual, ele dá. A Bahia é a mãe do Brasil, é adorada, mas o Caetano não é do tempo “do lá vai cocô”, quando não tinha esgoto. Caetano censurou a expressão “mulato inzoneiro”, disse que não existia. Porra, como esse cara quer censurar o Ary com aquela vozinha pequena? Nem ele, nem o João Gilberto. Cantor para mim é Pavarotti, Vicente Celestino, Orlando Silva, Francisco Alves, Nelson Gonçalves. Agora ficam esses merdas por aí falando bobagem...Admiro o negócio do bumbum, esses troços vêm da Bahia, esse negócio da tanajura.

A Carla do Tchan! Tem bunda boa, não acha?

Pra quem gosta. Nunca gostei muito. Quando era jovem, a gente apelava...

Trepar é bom? Você aconselha? Sua longevidade vem daí?

Não, isso é genético. Não tenho problema de glicose, essas coisas aí. Sou filho de português com crioula e deu isso aí, com o cabelo duro pra caramba. Única coisa ruim é a caspa e a seborreia.

E o Flamengo? Qual o melhor de todos os tempos?

Ele é o campeão. Futebol não é ganhar sempre. Perder ou ganhar é um detalhe. É chato perder, mas é um detalhe. Por exemplo, hoje ele está ruim. Mas amanhã pode dar a volta por cima.

Qual o maior jogador do Flamengo de todos os tempos? Fausto, Doutor Rubens, Dida, Zico?

Uma porção deles, I don´t remember.

Quem você acha que é o seu sucessor?

Sei lá, não apareceu ninguém até agora. Sou um autodidata, se quiser eu digo uma palavra aqui e depois não sei o que significa. Persializar, por exemplo, que porra é essa? Você sabem? Fui procurar no dicionário e não encontrei. Já reparou que, quando o cara quer alguma coisa, ele fala queria. Queria é errado, o certo é quereria. Eu quero, eu quero. O quê? Money para mim.

O Brasil?

É maravilhoso, essa terra que nem todo mundo sabe o tamanho, mas eu sei. Isso é quase um continente e a maioria não sabe nem o tamanho. Quando era rapaz, sabia o hino de cor. Agora, vai ser obrigatório, hoje só sei cantar lendo, é complicado, com palavras difíceis. Mas é lindo. Pena que tem muita gente indo para a América do Norte, para Miami. Eu não abandono minha terra por nada. Em Portugal, certa vez, bateu uma saudade imensa, fiquei doido para voltar.

Se um japonês chegasse e falasse: “Vamos embora, você vai ganhar rios de dinheiro, ficar com todas as gueixas”.

De jeito nenhum, adoro minha pátria. Morro de saudades quando saio do Rio de Janeiro, não sei como a pessoa pode imigrar e emigrar. Como disse o Caymmi, o cara vem da Bahia e fica morrendo de saudade. Não é verdade, Macedo?


Publicado originalmente na revista Ele Ela em janeiro de 1997

quarta-feira, 20 de março de 2019

Amores de Noel: Lindaura


LINDAURA


Por Almirante

A 1º de dezembro de 1934, Lindaura contraia matrimônio com Noel, que a conhecera nas proximidades da rua Maxwell. Sua mãe, a sergipana Olindina Pereira da Mota, era operária da Fábrica Confiança Industrial.

Jovem demais, na sua inexperiência, não conseguiu dominar o volúvel coração do boêmio. Não possuindo meios suficientes para criar um lar, foi dona Marta quem os fez morar no acanhado chalé. A vida em comum não foi feliz e sim repleta de dificuldades.

No intuito de ajudar o sustento da família, Lindaura, um dia aventou a hipótese de obter um emprego qualquer. A reação de Noel refletiu-se, sem demora, nos versos do único samba ligado à história da esposa, “Você Vai Se Quiser”:

Você vai se quiser...
Você vai se quiser...
Pois a mulher
Não se deve obrigar
A trabalhar,
Mas não vá dizer depois
Que você não tem vestido
E o jantar não dá pra dois

Todo cargo masculino
Seja o grande ou pequenino
Hoje em dia é pra mulher...
E, por causa dos palhaços,
Ela esquece que tem braços:
Nem cozinhar ela quer

Os direitos são iguais...
Mas até nos tribunais
A mulher faz o que quer...
Cada qual que cave o seu
Pois o homem já nasceu
Dando a costela à mulher


Lindaura foi companheira dedicada até os derradeiros dias de Noel. Conhecia ou adivinhava as trapaças amorosas do irrequieto esposo. Recalcava os próprios ressentimentos, numa admirável compreensão, desculpando suas irredutíveis atrações à boêmia.

Relativamente aos namoros de Noel e Lindaura, em novembro de 1933, cronistas publicaram as mais imagináveis origens do debatido samba “Três Apitos”. Complementando vários detalhes sobre a falada música, coloquemos aqui todos os pontos nos ii: 1º) Lindaura jamais foi operária da Confiança; 2º) O contramestre da fábrica de botões, no Andaraí ficou registrado nos versos de Noel (vide cap. Fina e 3 apitos); 3º Tratava-se de simples coincidência de nomes de pessoas e de fábricas.

Publicado originalmente em ALMIRANTE. No tempo de Noel Rosa. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1963.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Amores de Noel: Ceci


CECI



Por Almirante

Em junho de 1934, o Cabaré Apolo, na Lapa, se engalanava para receber e homenagear Noel Rosa, devido aos marcantes sucessos de suas produções musicais. Era véspera de São João e a presença do compositor consistia uma das atrações que a casa prometia para aquela noite.

À sua chegada, Noel foi alvo de ruidosa manifestação. Sua atenção desviou-se, contudo, para certa figura “mignon”, cabelos castanhos, cujos modos recatados constratavam naquele ambiente festivo.

A jovem nascera em Campos, à 16 de maio de 1918 e chamava-se Juraci Correia de Morais, mas todos a conheciam simplesmente como Ceci.

Formosa e acessível, era uma das dançarinas mais requestadas do Apolo. Noel também se deixou impressionar, e dela não mais se afastou desde aquele instante. Acompanhou-a, à saída, e no carro de Papagaio conduziu-a à rua Barão de São Félix, para a casa em que residia com uma tia.

Como a apaixonada se conservasse em sua profissão, a fim de não sofrer as agonias de vê-la cumprir sua obrigação, abraçada a uns e outros, volteando a noite inteira, ouvindo galanteios e inconveniências, Noel se demorava pelos cafés, pelas esquinas da Lapa, até a hora em que o cabaré cerrava suas portas.

Não tardou, porém, que o ciúme lhe ferisse o coração, sempre incrédulo com as explicações de Ceci sobre suas naturais ausências. Daí nasceu o belo samba “Pra Que Mentir?”, de parceria com Vadico:

Pra que mentir?
Se tu ainda não tens esse dom
De saber iludir?
Pra que? Pra que mentir?
Se não há necessidade de me trair?
Pra que mentir?
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir?
Se eu sei que gostas de outro,
Que te quis
Que não te quer.

Pra que mentir tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?
Tu sabes que eu te quero,
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero,
Ou por teu amor fungido?


Diariamente Noel discutia com sua amada, mas, por fim, as pazes voltavam. E seus debates resultaram numa nova produção, o samba “O Maior Castigo Que Eu Te Dou”:

O maior castigo que eu te dou
É não te bater
Pois sei que gostas de apanhar
Não há ninguém mais calmo do que eu sou
Nem há maior prazer
De que te ver me provocar

Não dar importância
Á sua implicância
Muito pouco me custou
Eu vou cantar em versos
Os teus instintos perversos
É esse mais um castigo que eu te dou

A porta sem tranca
Te dar carta branca
Para ir onde eu não vou
Eu juro que desejo
Fugir de teu falso beijo
É esse o maior castigo que eu te dou.

Naquele ano, Noel esforçou-se o máximo, com o objetivo de aumentar suas rendas, quer sobre direitos autorais, quer de espetáculos em cinemas ou circos, podendo, assim, manter as despesas normais no seu chalé. Entretanto, o pequeno colégio de dona Marta esfacelava-se aos poucos e seu pai, na iminência de ser recolhido a uma clínica. Para o cúmulo, o dr. Edgar Graça Melo, velho amigo da família, impôs que Noel mudasse de clima, pois seu pulmão poderia ser fulminado. (vide cap. Belo Horizonte).

Num certo dia de março de 1935, Ceci recebeu a triste notícia de que Noel estava às ultimas, à morte, em Minas. Desesperada, rumou para a rua Teodoro da Silva, à noite, sendo atendida pela dona Marta, que lhe deu consoladoras notícias:

- Graças a Deus, Noel está muito bem. Está gordo, rosado, e até sábado chegará ao Rio. Com certeza, vai voltar a cantar no Rádio, no domingo.

Realmente Noel regressou de Belo Horizonte, acompanhado de sua esposa. Dona Marta informou:

- Anteontem esteve aqui uma senhora que eu não conheço, procurando por você.

- Como era ela?- indagou Noel.

- Era bonita, bem vestida, elegante, de chapéu. Com certeza era uma sua fã. Mostrou-se muita satisfeita quando disse que você está completamente bom.

Noel percebeu tudo. Era Ceci. E sem demora escreveu alguns versos, orientando as regras da melodia, a fim de que no dia seguinte o pianista Vadico completasse suas frases. E no “Programa Suburbano”, da Rádio Guanabara, a certa altura, o locutor Allah Xavier de Souza anunciou, retumbante como sempre:

- Noel Rosa acaba de regressar de Belo Horizonte, e criou uma nova série de sambas, de abafar! Em primeiro lugar, apresentará um samba seu, fresquinho, tirado a poucas horas do forno. Chama-se “Ilustre Visita”, versos seus com melodia completada por Vadico.

Seu título definitivo foi mudado, posteriormente, para “Só Pode Ser Você”. Seus versos significativos são como que um relatório completo da presença de Ceci em visita ao seu chalé. É que a própria dona Marta, admirada da elegância de dama, trajada a cetim, de chapéu e com maneiras distintas, indicou-a como uma “ilustre visita”:

Compreendi seu gesto
Você entrou
Naquele meu chalé modesto
Porque pretendia
Somente saber
Qual era o dia
Em que eu deixaria de viver;
Mas eu estava fora,
Você mandou lembranças,
E foi logo embora
Sem dizer qual
O primeiro nome
De tal visita
Mais cruel,
Mais bonita
Que sincera.

E pelas informações que recebi
Já vi
Que essa ilustre visita era você
Não existe nesta vida
Pessoa mais fingida
Do que você


Meses depois, em maio, Noel sofreu enorme choque emocional com a morte de seu pai, em circunstâncias trágicas, razão porque jamais revelou esse fato a ninguém, nem mesmo a seus companheiros mais íntimos. Sua vida descontrolou-se totalmente, tendo somente como único consolo a bebida, e entregando-se por inteiro, de novo, a seu grande amor – Ceci.

Sua inspiração cessou, e durante algum tempo não mais criou quaisquer versos ou melodias. As rendas de seus programas radiofônicos e as minguadas vendas de seus discos tornaram-se ridículas, e em certo dia, Ceci pediu-lhe o necessário para a confecção de um vestido especial, “soirée” indispensável para seu trabalho nos cabarés. O “exagero” do pedido acordou suas sátiras humorísticas surgindo assim o samba “Cem Mil Réis” ou “Voê me Pediu”, de parceria com Vadico.

Nos inícios de 1936, convidado para produzir o filme “Cidade Mulher”, de Carmen Santos, Noel lançou ali seis músicas inéditas (vide cap. “Cinema”). Permanecia toda a noite nas filmagens realizadas no Cassino Beira-Mar. De madrugada, terminadas as funções nos cabarés, aguardava Ceci conduzindo-a para assistir às várias tomadas do filme.

Antigamente, nas aproximações do Carnaval, as cantigas eram lançadas com a maior antecedência. Canções gravadas e editadas já eram apresentadas em setembro, outubro, novembro, para que o público melhor fixasse suas melodias e seus versos para o ano seguinte. Assim, nos fins de outubro, o próprio Noel apresentava dois sambas referentes aos amores de Ceci; o primeiro, de parceria com Vadico: “Quantos Beijos”:

Quantos beijos...
Quando eu saia
Meu Deus, quanta hipocrisia
Meu amor fiel você traia
Só eu é que não sabia
Ai, ai, meu Deus, mas...

Não andava com dinheiro todo dia
Para sempre dar o que você queria
Mas quando eu satisfazia os meus desejos
Quantas juras...Quantos beijos.

Não esqueço aquelas frases sem sentido
Que você dizia sempre ao meu ouvido
Você porém mentia em todos os ensejos
Quantas juras...Quantos beijos


O segundo só Noel, com versos sarcásticos, tentando dar provas falsas e tolas de um amor esquecido ou abandonado: “Quem Ri Melhor...”:

Pobre de quem
Já sofreu neste mundo
A dor de um amor profundo...
Eu vivo bem sem amor à ninguém...
Ser infeliz é sofrer por alguém...
Zombo de quem sofre assim:
Quem me fez chorar, hoje chora por mim
Quem ri melhor é quem ri no fim

Felicidade...
É o vil metal quem dá...
Honestidade
Ninguém sabe onde está
Acaba mal quem é ruim...
Pois quem me fez chorar
Hoje chora por mim:
Quem ri melhor é quem ri no fim

Sabendo disso
Eu não quero rir primeiro
Pois o feitiço
Vira contra o feiticeiro...
Eu vivo bem pensando assim...
Pois quem me fez chorar, hoje
Chora por mim:
Quem ri melhor é quem ri no fim


A 11 de dezembro de 1936, aniversário de Noel, Ceci recebeu convite para uma ceia na Taberna da Glória, ela que então trabalhava na Caverna, dancing existente no sótão do Cassino Beira-Mar...E Noel completamente febril, tentava dizer ironias e contar piadas, tomando cervejas geladas...

Seu estado se agravava, mas aparentemente se demonstrava despreocupado com a própria vida. Seu riso, porém, era cada vez mais triste. Um abcesso, rasgado pelo dentista Bruno de Moraes, insistiu para que novamente mudasse de ares. Por fim, seguiu, em fevereiro pra Friburgo.

Regressando ao Rio, visitou Ceci e, tristemente, lhe deu os versos de um de seus recentes sambas, inteiramente dedicado a ela, chamado “Último Desejo”:

Nosso amor que eu não esqueço,
E que teve seu começo,
Numa festa de São João,
Morre hoje sem foguete
Sem retrato...Sem bilhete...
Sem luar...Sem violão...
Perto de você me calo
Tudo penso...Nada falo...
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar.

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não,
Diga que você me adora...
Que você lamenta e chora
A nossa separação.
Ás pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que o meu lar é um botequim...
Que eu atrasei sua vida,
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim.


Certa madrugada, Ceci encontrou-se com Hélio, irmão de Noel, em companhia de um seu primo-irmão, sendo convidada a ceiar. Palestrando a respeito da situação do doente, a certa altura, inopinadamente, o primo-irmão fez-lhe uma desfeita, atirando-lhe ao rosto um copo cheio de cerveja, taxando-a de culpada da moléstia do compositor. Dias depois Noel procurou-a, pedindo-lhe desculpas pelo ato impensado de seu primo. Foi a última vez que viu Noel Rosa.


Publicado originalmente em ALMIRANTE. No tempo de Noel Rosa. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1963.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Amores de Noel: Julinha


JULINHA


Por Almirante


Era criatura elegante, de certa beleza, somente exagerando nos seus cabelos oxigenados. Atuava em revistas de o interior, especialmente excursionando em circos e pavilhões, mantendo-se em pensões de péssimas referências.


Em 1932 trabalhava em dancings na Lapa, onde conheceu Noel, que lhe dedicou intensa amizade. Residia na Penha, onde Noel inúmeras vezes pernoitou em um barracão, numa favela, sem rua e sem número.



A paixão de Noel por Julinha deu motivo à criação, inicialmente, do samba “Feitio de Oração”, aliás a primeira produção ligada ao inspirado melodista Vadico:



Batuque é um privilégio

Ninguém aprende samba no colégio

Sambar é chorar de alegria

É sorrir de nostalgia

Dentro da melodia



Por isso agora

Lá na Penha vou mandar

Minha morena pra cantar

Com satisfação

E com harmonia

Esta triste melodia

Que é meu samba

Em feitio de oração.



O samba na realidade

Não vem do morro nem lá da cidade

E quem suportar uma paixão

Saberá que o samba então

Nasce do coração





A moradia, na Penha, tão distante e cansativa, fez com que Noel conseguisse nova residência para Julinha – uma pensão, nas proximidades da rua do Riachuelo. Durante várias semanas o “casal” viveu em completa harmonia, mas Julinha descontrolava-se devido aos excessos de bebida. Surgiram, sem demora, rusgas e brigas escandalosas, de que Noel se apavorava, receoso sempre das notícias maldosas de certos jornais. A maneira irregular de vida de Julinha, unindo-se a uns e outros, amargurava Noel. Daí a criação do samba “Vai Para Casa Depressa”, melodia de Francisco Matoso:



Vai para casa depressa

Vai prevenir teu senhor

Que vim cumprir a promessa

Que fiz, de possuir teu amor.

Não quero ser um covarde

Volta pra teu barracão

Antes que seja bem tarde

Para salvarmos nossa reputação



Se a mulher desequilibrada

Dois malandros que têm fibra

Só há uma solução:

Para que brigar a toa?

Vou tirar cara ou coroa,

Com um níquel de tostão.



Se não bastar tirar a sorte

E o amor fala mais forte

Sou o dono da questão;

Para o teu antigo dono

Tu vais dar teu abandono

Dando a mim teu coração





Em certa ocasião, sendo dançarina do Cabaré Flórida, terminada desagradável cena, Julinha completamente alcoolizada, cismou de afogar-se num pequeno riacho raso, existente no Passeio Público...De outra vez, após atitudes ridículas, quebrou o violão de Noel, e numa noite, quando levada à sua pensão, durante o trajeto, no automóvel de Pará, Julinha discutiu sem cessar, aos berros, sempre irritada e embriagada; ao parar o carro, saltou dizendo impropérios, batendo a porta com estrondo, sem admitir explicações de quem quer que fosse. Na noite seguinte, Pará percorreu os pontos em que Noel poderia ser encontrado; estava justamente no Café Nice, despreocupado, palestrando com amigos. O motorista chamou-o, com reservas, e deu-lhe esta informação que tornou Noel pálido e impressionado:


- Julinha foi levada pro Pronto Socorro. Quis se matar...


Aterrado, Noel pediu-lhe que o levasse ao Pronto Socorro, a fim de que êle, Pará tomasse todas as informações possíveis. Lá chegando, Noel, nervoso, sem saltar do veículo, aguardou a volta do amigo.


- Não houve nada. Ela tomou um veneno qualquer, mas não morreu com isso. Era bebedeira...- disse Pará.


O resultado desse episódio deu origem ao samba “Cor de Cinza”, em que Noel escreveu verdadeiro relatório sobre o triste fato:


Com seu aparecimento

Todo o céu ficou cinzento

E São Pedro, zangado;

Depois um carro de praça

Partiu e fez fumaça

Com destino ignorado



Não durou muito a chuva

E eu achei uma luva

Depois que ela desceu

A luva é um documento

Com que provo o esquecimento

Daquela que me esqueceu.



Ao ver um carro cinzento

Com a cruz do sofrimento

Bem vermelha na porta,

Fugi impressionado

Sem ter perguntado

Se ela estava viva ou morta.



A poeira cinzenta

De dúvida me atormenta,

Nem sei se ela morreu

A luva é um documento

De pelica e bem cinzento

Que lembra quem me esqueceu.



O amor de Noel por Julinha foi realmente intenso e inspirou mais dois lindos sambas, de grande sucesso; o primeiro, “Pra Esquecer”:



Naquele tempo

Em que você era pobre

Eu vivia como um nobre

A gastar meu vil metal

E por minha vontade

Você foi para a cidade

Esquecendo a solidão

E da miséria daquele barracão



Tudo passou tão depressa

Fiquei sem nada de meu

Esquecendo a promessa

Você me esqueceu

E partiu com o primeiro

Que apareceu

Não querendo ser pobre como eu



E hoje em dia

Quando por mim você passa

Bebo mais uma cachaça

Com meu último tostão

Pra esquecer a desgraça

Tiro mais uma fumaça

Do cigarro que eu filei

De um ex-amigo que outrora sustentei




O segundo samba marcou de maneira indiscutível as referências existentes aos nomes de Penha e barracão. A saudade, assim vincou a memória de Noel, cirando o extraordinário “Meu Barracão”:



Faz hoje quase um ano

Que eu não vou visitar

Meu barracão lá na Penha

Que me faz sofrer e até mesmo chorar

Por lembrar a alegria

Com que eu sentia

O forte laço de amor

Que nos prendia



Não há quem tenha

Mais saudades lá da Penha

Do que eu, juro que não

Não há quem passa

Me fazer perder a bossa

Só a saudade do barracão.



Mas veio lá da Penha

Hoje uma pessoa

Que trouxe uma notícia do meu barracão

Que não foi nada boa

Já cansado de esperar

Saiu do lugar

Eu desconfio

Que ele foi me procurar.

Publicado originalmente em ALMIRANTE. No tempo de Noel Rosa. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1963.