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terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Homenagem a Rolando Boldrin: Boldrin early years, parte III: Primeiro ofício e ida à Capital

            Capítulo III: Primeiro ofício e ida à Capital

 


Por Willian Corrêa e Ricardo Taira

 

O tempo foi passando. Leili ainda demoraria a tomar rumo na vida, como diziam. Aos 14 anos, afastado da carreira artística, chegara a hora de Rolando aprender um ofício. O pai o levou para a oficina para que aprendesse mecânica de automóveis. Eram em sua maioria caminhões, camionetes e até alguns tratores usados no campo. Rolando passava o dia com o pai cuidando do trator com as ferramentas e atento às explicações sobre o funcionamento do motor, do freio, da embreagem – temas que, pela própria falta de interesse, eram de difícil entendimento. Por ser ainda franzino, o pai não permitia que ele se arriscasse com as peças mais pesadas. Pedia para que ele se afastasse quando iam usar a roldana e as correntes para erguer um motor que precisasse de retífica. A falta de entusiasmo no trabalho na oficina foi logo percebida pelo pai. Mas no início, seu Amadeu não quis dar braço a torcer e insistiu para ver se o garoto pegava gosto por aquele tipo de trabalho.

Mesmo sem trabalhar pesado, Rolando sempre voltava para casa com o rosto cheio de graxa. Na realidade, ele mesmo se sujava para dar a impressão de ter tido um dia exaustivo. A mãe, penalizada, lhe enchia o prato de comida. Não só o dele, também dos outros irmãos, que ajudavam a manter o sustento da família.

Por fim, percebeu que como mecânico não dava mesmo muito certo. A saída foi escolher outra função, e Boldrin disse ao pai que gostaria de ser sapateiro. Foi aprender a profissão que se popularizava com a instalação de fábricas de calçados na região. Aprendeu a fazer sapatos e sandálias e foi trabalhar na fábrica do empresário Chiquinho Mauad, o mesmo da família proprietária da emissora ZYK-4. Um calçado muito procurado na época era  sandália de tiras, batizada de Chiquita bacana, em alusão ao grande sucesso cantado por Carmen Miranda. Boldrin fazia seis pares por dia dessa sandália, para serem vendidos no comércio local e de outras cidades. Ganhou algum dinheiro e se tornou um sapateiro eficiente e rápido. Assim, começou a ser chamado para trabalhar em outras indústrias. Passou um bom tempo exercendo o ofício de sapateiro, mas ainda era o garoto da música, dos causos e das brincadeiras que então estava no chão da fábrica.

Aos 16 anos, em 1952, a inquietude juvenil começava a provocar insônia. Achava-se maduro demais para ainda permanecer sob a tutela dos pais e tinha planos de trocar a boa e pacata cidadezinha de São Joaquim da Barra pela capital. Combinou com dois amigos de arranjar o dinheiro para fazer a viagem de trem ao custo de 98 mil réis só de passagem. Os amigos tinham o suficiente para a jornada e ele se viu obrigado a agir rapidamente. Pegou o violão que o parceiro Formiga havia aposentado e vendeu por 100 mil réis ao alfaiate Chiquinho Cesário, um conhecido boêmio de São Joaquim. Á noite, durante o jantar comunicou á família a viagem que faria em busca de emprego na Capital. O pai ficou orgulhoso e perguntou como seriam cobertas as despesas. Boldrin contou que havia vendido o violão para comprar as passagens e levou um susto ao ver o pai socar a mesa e fazer os pratos pularem, provocando uma sinfonia desafinada do atrito entre talheres e vidros.

- O que você fez?  – questionou seu Amadeu, ainda incrédulo.

- Vendi.

- Pois vamos buscar de volta esse violão.

E assim foi. Com a comida ainda no prato, seu Amadeu levantou-se da mesa e nem precisou pediu ao filho que fizesse o mesmo. Bastou um olhar para que todos se calassem e Rolando seguisse os passos do velho mecânico. Praticamente não houve diálogo com o alfaiate. Apenas uma ordem.

- Devolve o violão do meu filho. Tome aqui o seu dinheiro.

Na volta para casa, silêncio. Rolando sentiu como se tivesse tomado a atitude mais errada na vida. Afinal, um presente de pai não se desfaz dessa forma, mesmo que tenha sido para o irmão, que nãos e interessava mais pelo instrumento. Foi mais uma noite insone. No dia seguinte, para a sua surpresa, o pai o chamou e, com a voz pausada e calma, perguntou se poderia pagar a passagem para o filho viajar a capital. Boldrin, ainda um tanto envergonhado, aceitou e agradeceu. Seu Amadeu passou a mão sobre a cabeça do filho.

- Tome cuidado naquela cidade, caboclinho, e tenha juízo.

O desejo de vender um instrumento musical tinha uma explicação. Viver de música não era o único objetivo de Boldrin, que também tentaria a carreira de ator. Fazer rádio-teatro, cinema e, quem sabe, televisão, a nova mídia inaugurada havia dois anos e que era tema de conversas em todos os lugares. Como ator, um dos nomes mais importantes daquele período era Procópio Ferreira, o carioca baixinho, sem cara de galã, “deficiências” compensadas por um enorme talento. Ele havia acabado de lançar no cinema, mais um sucesso, O comprador de fazendas, baseado em um conto de Monteiro Lobato. As músicas da trilha sonora eram de Hervê Cordovil e Luiz Gonzaga. Procópio fazia o tipo malandro elegante que aplicava golpes em fazendeiros com dificuldades financeiras se propondo a comprar as terras.

Nem precisaria tanto, santa pretensão se comparar a Procópio Ferreira; bastaria ser reconhecido como um ator competente. Foi pensando dessa forma que Boldrin se juntou aos amigos Odair e Pedro para fazer a viagem. Pearam o trem da Rede Mogiana, que nascia em Araguari, passando por Uberlândia, Minas Gerais, e parava nas estações vizinhas como Orlândia. Os vagarosos deslocamentos entre as estações somaram dez horas até a cidade de Campinas, onde era feita a baldeação para os trens da linha Sorocabana com destino à capital. Mais algum tempo e os três estavam desembarcando na Estação da Luz.

Que mundão, imaginaram os rapazes ao observarem tamanha multidão caminhando apressadamente na cidade cheia de prédios, avenidas largas e barulhentas. Um cheiro estranho no ar, incômodo, uma mistura de óleo diesel, querosene, cigarro, urina, tudo ao mesmo tempo. Era um dia de sol, bonito, um convite a um passeio pelos pontos turísticos: as praças da República e da Sé, o Largo do Paissandu, o viaduto Santa Ifigênia, os cinemas com painéis de fotos dos filmes em cartaz; os bondes, os ônibus, os carros. Vivenciar a cidade com os olhos de turista foi muito bom. A realidade começou a atrapalhar quando bateu a fome, fome de quem viajou durante horas, de quem andou pela metrópole por um bom período sob o sol, fome e sede dos que estavam ali para vencer.

Boldrin ganhou 100 mil réis do pai, gastou 98 com a passagem e só sobraram 2 mil réis, que mal davam para comprar um pastel. Odair estava liso, ou seja, sem nada. Pedro Vasconcellos, o Baianinho, havia vendido a bicicleta e carregava nada menos que 700 mil réis, uma fortuna nas mãos de três jovens famintos. Foi Baianinho quem patrocinou o lanche dos amigos, não só naquele dia, mas a semana inteira. Fazia muito sucesso no centro da capital o sanduíche bauru, uma criação do restaurante Ponto Chic, no Largo do Paissandu. Rosbife, tomates, queijo, dentro de um pão francês quentinho. Comiam lanches, pelo menos um por dia, e saíam em bisca de empregos.

Na hora de dormir, outro problema. Os amigos dormiram na rua durante três dias. Boldrin se ajeitava nos degraus de uma estátua em homenagem a Ramos de Azevedo, na avenida Tiradentes, esquina com a rua São Caetano, no bairro da Luz. De manhã, cada um ia para um canto à procura de trabalho. Baianinho arranjou emprego de entregador em uma tinturaria da Santa Ifigênia; Boldrin conseguiu trabalho em uma pequena fábrica de calçados na rua Amaral Gama, em Santana, região norte da cidade; enquanto Odair, que tinha o apelido de Toddy, desistiu e voltou para São Joaquim da Barra.

Baianinho ficaria em São Paulo para sempre. Entraria para a Escola de Paraquedismo do Exército e faria carreira como paraquedista. Morreria em um acidente de carro quando já ostentava a patente de primeiro-tenente. Boldrin matinha um pé em São Paulo e outro em São Joaquim. Na fabriqueta de calçados em Santana, ficou três meses trabalhando, fazendo principalmente sandálias, as famosas Chiquita Bacana, coloridas, com encomendas a todo instante. Em 1952, a região norte de São Paulo tinha ares de interior, com a serra da Cantareira como atração turística e a linha de trem, também com o nome de Cantareira, que passava por bairros ainda em formação. Havia um hospício próximo da serra e um córrego que recebia água límpida que escorria das montanhas. Boldrin dormia na própria fabriqueta, o que possibilitava guardar quase todo salário. Quando a saudade da família apertava, voltava para casa e ficava por lá uns tempos.

No ano de 1952 quem estava novamente no poder era o presidente Getúlio Vargas, dessa vez eleito pelo voto popular. Depois da experiência da ditadura do Estado Novo, o povo trouxe o “pai dos pobres” de volta ao comando do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então capital federal, com 48% dos votos válidos. Getúlio havia se candidato pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e tinha como vice o potiguar Café Filho. Para expressas o sentimento popular, sempre surgia uma marchinha. Tudo acabava em marchinha, e não em pizza como hoje. A marchinha “Retrato do velho” e Getúlio confessou aos mais íntimos que não gostava da música por causa do termo “velho”, que, segundo ele, tirava o dinamismo que pretendia empregar nesse novo mandato com viés desenvolvimentista. O certo é que a composição de Haroldo lobo e Marino Pinto, gravada por Francisco Alves, o rei da voz caiu no gosto de todos.

Bota o retrato do velho outra vez,

Bota no mesmo lugar.

O sorriso do velhinho

Faz a gente trabalhar.

Getúlio Vargas ainda marcaria seu segundo mandato com o slogan nacionalista “O petróleo é nosso”, pontapé inicial da Petrobras, que, ao lado das siderúrgicas, provocou a migração dos trabalhadores do campo para as cidades. O Brasil urbano se tornava mais competitivo, principalmente para jovens dos rincões do país perdidos na cidade grande.

Numa dessas viagens de São Joaquim a São Paulo, Rolando Boldrin conseguiu carona em um caminhão. Perto de Campinas, o motorista estacionou em um posto de gasolina para abastecer. Chamou Boldrin para fazer uma refeição no restaurante e tomou a iniciativa de conversar com o gerente depois de saber do vaivém do rapaz conterrâneo. Perguntou ao gerente se não teria um emprego para o jovem, que estava sem dinheiro para se virar na capital. A abordagem deu certo. Boldrin foi convidado a trabalhar como garçom e ainda ganharia um colchonete para dormir no próprio restaurante. Durante dois meses atendeu caminhoneiros e viajantes de todo o país. De mesa em mesa, equilibrando a bandeja na mão e dando orientações aos cozinheiros: “Sai mais dois pratos do dia (arroz, feijão, bife e ovo frito)” ou “Uma caninha e uma cerveja”.

Naquela época não existiam leis que proibissem a bebida em beira de estrada. A maioria dos caminhoneiros, porém, costumava dormir na boleia do caminhão após um almoço regado a cerveja e cachaça. A competitividade entre eles não era rigorosa como na atualidade e os prazos de entrega costumavam ser mais flexíveis.

Boldrin mostrava eficiência na atividade de garçom e facilidade para entreter o cliente. Conversava bastante e contava os causos da cidade onde nasceu, os anos de música da dupla Boy e Formiga e as aventuras por São Paulo. O rapaz vestia praticamente a mesma roupa todos os dias. E, nem sempre, ela estava devidamente lavada. Para evitar mal-estar entre os fregueses, o gerente tirou Boldrin do restaurante e o colocou como frentista. A vantagem é que ele ganharia um uniforme, ou melhor, um macacão manchado, típico de quem mexe com graxa e óleo de motor. Lembrava muito o passado recente na oficina mecânica do pai, onde se sujava de propósito para parecer envolvido com as tarefas. Só que no posto ele tinha que trabalhar pra valer e, além do salário, também conseguia muitas gorjetas. Ficou só mais um mês no posto e, com o dinheiro que conseguia embolsar, voltou para São Paulo.

As idades e vindas se sucederam até Boldrin completar 18 anos e se alistar no serviço militar na Quarta Região de Infantaria do Exército em Quitaúna, próximo de Osasco. Um uniforme limpo, um alojamento para dormir, quatro refeições por dia, o que mais um jovem poderia querer diante de tantas incertezas em relação ao futuro? Só não contava com a rotina estressante de um quartel. Levantar cedo, antes das cinco da manhã, correr vários quilômetros com mochila nas costas, praticar tiro ao alvo, se arrastar na lama, atravessar rios sem deixar molhar a carabina e dormir ao relento em exercícios de guerra.

Muitas amizades foram surgindo entre os jovens vestidos com o verde-oliva. Uma delas de forma inusitada. Um dia passando diante da carceragem, um dos presos por indisciplina chamou Boldrin.

- Ô meu, dá um cigarro aí. É você mesmo, dá um cigarro aí.

Boldrin ficou incomodado com aquele rosto entre as grades e comentou com os outros soldados.

- Que cara folgado, me intimidando a dar um cigarro!

- Se eu fosse você eu daria um cigarro rapidinho- disparou um dos rapazes.

- Por quê?

- Porque aquele ali é o Madureira!

Boldrin nunca ouvira falar no Madureira, mas pelo jeito dos companheiros, não seria uma atitude inteligente contrariar o preso.

- É o seguinte, não quero mais um cigarro, quero o maço inteiro. Vai passando aí essa maço senão, quando sair daqui, eu te arrebento.

O clima estava piorando e Boldrin achou por bem entregar o que o soldado exigia. Anos mais tarde, quando já estava encaminhado na carreira artística, um amigo lhe trouxe um long play de um sambista que começava a fazer sucesso. A foto trazia um cidadão de chapéu, camisa listada e batucando numa latinha de graxa. Era Germano Mathias.

- Peraí, esse cara eu conheço - disse Boldrin. – Esse tal Germano eu conheci no Exército. Lá ele era chamado de Madureira.

O tempo passou e, felizmente, Boldrin conseguiu levar Germano Mathias aos programas na televisão. E, sempre que possível, os dois se divertiam contando a história do cigarro.

O Exército ainda reservaria outras surpresas ao jovem de São Joaquim da Barra. Em uma manhã de agosto de 1954, todos foram convocados a pegar a indumentária completa da infantaria e subir nos caminhões de transporte. Os oficiais na entrada de cada alojamento reclamavam da demora.

- Rápido, rápido. Nunca vi soldados tão lerdos.

Os recrutas foram para dentro dos caminhões, ficaram sentados na carroceria como boias-frias, apreensivos e curiosos. Alguns não tiveram tempo bem de ir ao banheiro e estavam urinando nas calças. Não foi informado o trajeto e ninguém sabia o que estavam acontecendo. Os caminhões rodaram até a Zona Sul da cidade de São Paulo e entraram na rodovia Anchieta – na época, a moderna ligação entre a capital e a baixada santista. Alguns cochichavam. Diziam ter ouvido algo sobre o presidente da República. Seria um golpe? As tropas da quarta região de infantaria desembarcaram nas docas do Porto de Santos. Somente lá foram informados do suicídio do presidente Getúlio Vargas. Dera um tiro no peito e deixara uma carta testamento. “Saio da vida para entrar na história”, concluía o texto escrito de maneira firme pelo gaúcho de São Borja. O comando do governo passava para as mãos do vice, João Campos Café Filho, que completaria o mandato até novas eleições que elegeriam Juscelino Kubitscheck.

Os chefes militares temiam reações ao desfecho trágico da era Vargas com possíveis atos de sabotagem no principal porto da América do Sul, fundamental na movimentação da economia do país, com as exportações de grãos, principalmente de café. Havia ainda outro motivo de preocupação: a forte influência no sistema portuário exercido pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), a ponto de o local ser chamado de Porto Vermelho. Embora o PCB tivesse engrossado a oposição de Getúlio Vargas no auge da crise política e no dia do suicídio tivesse programado uma marcha de protesto contra o governo nas ruas da capital paulista, isso não significava adesão aos militares. Por isso, os militares não tinham segurança da complacência dos comunistas de que o momento exigia uma trégua.

Os enormes galpões serviram de dormitório para a soldadesca por vários dias. Como era costume, o dia começava com a ordem unida e depois exercícios físicos para os que não estavam de prontidão, em pé, como estátuas, guardando locais estratégicos enquanto os estivadores cuidavam de embarcar e desembarcar mercadorias dos enormes navios atracados. Á noite, a situação mudava. Muitos dos soldados saíam escondidos para frequentar a noite santista, sempre muito animada ao redor do porto. Boldrin organizava as saídas e o grupo elegia alguém para fazer o papel de batedor, ou seja, o avante da tropa encarregado de verificar se há inimigos por perto. No caso, os “inimigos” eram os oficiais que também poderiam estar no balcão de um bar relaxando após um dia cansativo. Com o sinal verde dado pelo batedor, era só entrar e se divertir.

A morte de Getúlio Vargas conturbou ainda mais o ambiente político e administrativo do país. Setores da vida nacional demoraram a se organizar e entrar nos eixos. As Forças Armadas também sentiram o baque. Como consequência, as baixas foram emitidas com atraso. Quem iria passar um ano, como Rolando Boldrin, só pôde sair depois de um ano e meio. Quando deu baixa, recebeu os documentos de reservista de primeira categoria. Tirou também uma carteira de trabalhou e ganhou o primeiro registro como empregado de armazém na zona cerealista. Pouco antes de dar baixa, Boldrin e os demais batalhões que estiveram em Santos ganharam licença de fim de semana como compensação pelo trabalho extra desempenhado nas docas. Boldrin aproveitou para visitar a família em São Joaquim da Barra.

- A sua benção, mãe – dizia o recruta ao entrar em casa.

- Deus te abençoe, meu filho

Só após a formalidade religiosa, mãe e filho se abraçavam para abafar a saudade quase sempre responsável por uma explosão de lágrimas de alegria. A mãe coou um café e mandou chamar todos que naquele momento pudessem ver o quanto o filho estava imponente no uniforme. Boldrin pediu para que não avisassem o avô, que morava com o tio, único irmão de Amadeu. O neto queria fazer uma surpresa. Quando se aproximou do portão e viu o avô sentado na cadeira de balanço, gritou:

- Á sua benção, vozinho querido.

Seu Mário arregalou os olhos e pediu que ele parasse.

- Aspetta. Deixe te ver. Está igualzinho a mim. Que belo ragazzo. Me vejo um carabinieri.

O avô havia sido carabinieri em Pádua, na Itália e costumava contar os casos dos tempos de farda. Falava do respeito e do temos que a população tinha pelos agentes de segurança. Italiano passional dizia que até os muros tremiam quando um carabinieri marchava. Na migração para o Brasil, com os dois filhos e a mulher, que morreria meses depois, seu Mário precisou mudar completamente de atividade. Foi trabalhar de pedreiro e costumava contar que ajudou a construir São Joaquim da Barra. Na realidade, fez parte do grupo que ergueu a primeira igreja, substituída anos mais tarde por uma edificação maior. Ajudou a abrir ruas e a construir algumas casinhas em fazendas e na área urbana. Aquele encontro especial, trajando farda do exército, foi o último entre Boy e o avô. No mês seguinte, Boldrin voltaria a São Joaquim para o enterro do velho imigrante.

 

Publicado originalmente em CORRÊA, Willian. A história de Rolando Boldrin: Sr. Brasil. São Paulo: Contexto, 2017.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Homenagem a Rolando Boldrin, Boldrin early years II: A dupla Boy e Formiga

            Capítulo II: A dupla Boy e Formiga

 


Por Willian Corrêa e Ricardo Taira

 

Depois de fazer dueto com o irmão Leili, em Guaíra, cantando a capela, ou seja, sem instrumentos, vieram as primeiras aulas de viola. A partir daí, os ouvidos ficaram ainda mais grudados no rádio e na vitrola. O pai providenciava discos de duplas e cantores que Boldrin queria incluir no repertório. Era copiar a letra, treinar a batida, casar a voz com a tonalidade. Onde houvesse uma vitrola à manivela lá estava seu Amadeu e o filho copiando música de sucesso. Certa vez, o pai o levou durante o dia à zona de meretrício de São Joaquim, onde entrava sem muito constrangimento. Numa das casas, chamou uma mulher e disse: “Esse aqui é o menino. Ele veio ouvir aquela música que eu comentei”. No canto da sala, havia um gramofone onde o pai colocou um disco 78 rotações. Uma, duas, três voltas na manivela, começou o chiado e depois os primeiros acordes de “Destinos Iguais”, uma toada de Capitão Furtado e Laureano. Com um lápis e um caderno, Boldrin copiava sem se importar com o entra e sai de fregueses na casa simples e deteriorada. (“Já foi no morrer do dia/ Quando eu vi com alegria/ Dois canários a cantar/ Com gorjeios de ternura/ O casal trocava juras de eternamente se amar...”).

O gramofone ajudou Boldrin a copiar outras músicas: “Piracicaba”, de Newton de Almeida Mello, um sucesso enorme nas vozes de Mariana e Cobrinha. A composição foi transformada no hino da cidade famosa pelo rio das corredeiras e da grande quantidade de espécies de peixes (“Piracicaba que adoro tanto, cheia de flores, cheia de encantos...”). Outra letra que entrou para seu repertório foi “Mágoa de carreiro”, de João Baptista de Oliveira Júnior, pai de Linda e Dircinha Batista. (“O progresso me arruinou/ Ai, minha vida de carreiro/ Meu carro tá se estragando/ Ai, sem abrigo no terreiro).

Não demorou, e na família quase sem talentos musicais surgiu uma dupla caipira: Boy e Formiga. Boy era Rolando Boldrin, então com 11 anos; e Formiga, o irmão Leili, com 13. Os dois ensaiavam as músicas que Boldrin escolhia e já sabia pontear na viola. Começaram a cantar em festinhas, inaugurações e após a miss ade domingos. Uma grande oportunidade para a duplinha surgiu quando Chiquinho Mauad e familiares inauguraram a primeira emissora de rádio de São Joaquim da Barra, a ZYK-4, uma potência na época que alcançava cidades vizinhas, como Guará, Santana dos Olhos d´Água, Morro Agudo e Orlândia. O nome artístico “Boy” foi dado pelo pai, fã ardoroso de William Boyd, famoso pelos filmes de caubói. “Formiga” criava um equilíbrio para algo da terra e bem brasileiro.

Na inauguração da ZYK-4, a Rádio São Joaquim, os Mauad não economizaram. Contrataram nada menos que Orlando Silva, o cantor das multidões, que não conseguia ir às ruas sem ser abordado pelas fãs. Algumas vezes, teve as roupas rasgadas pelos agarrões. Contrataram também uma dupla sertaneja, Nhô Nardo e Cunha Júnior, e chamaram cantoras e cantores da região, convidando ainda os garotos Boy e Formiga. O sucesso da duplinha foi enorme. Eram os filhos ilustres da cidade que se enchiam de orgulho como artistas mirins. Uma reportagem no jornal semanal selou a consagração. A emissora fez um acordo com seu Amadeu para a duplinha se apresentar todos os domingos, às onze da manhã, logo após a missa do padre Eugênio. Os dois garotos ganharam um patrocinador, as Casas Salomão, lojas de armarinhos que pagavam 50 mil réis por mês e também davam os tecidos para a confecção de roupas, basicamente camisas xadrezes e calças compridas. Completavam a indumentária os chapéus de palha com o nome artístico de cada um.

Foram três anos de muita cantoria. A dupla Boy e Formiga se tornou a voz de São Joaquim da Barra. Aos domingos, os locutores Lafayette Leandro e Airton Gouveia apresentavam os meninos diante de uma plateia entusiasmada. Ainda sem composições próprias, os dois faziam o riscado em músicas de Alvarenga e Ranchinho, Tonico e Tinoco, Venâncio e Corumba, Cascatinha e Inhana, Raul Torres e Serrinha, João Pacífico, e outros nomes importantes da música caipira na época. Eles também se apresentavam em cidades onde havia sala de cinema, os chamados cineteatros. Era comum haver apresentações artísticas no palco diante da tela antes de rodarem a fita em preto e branco. Foi um período em que Boy tomou uma decisão que o acompanharia para sempre: a defesa da arte brasileira. Como chefe da dupla, ele exigia que o filme fosse nacional: “Senão não toco”.

Seu Amadeu gostava de dizer que sua influência foi responsável pelo surgimento de Boy e Formiga. Com o orgulho dos meninos denunciado a cada gesto, ele não costumava economizar quando se tratava de promover os filhos. Viajava até a capital, São Paulo, só para encomendar matrizes de retratos da dupla no sistema offset, e assim poder imprimir cartazes e divulgar as apresentações. Um desses cartazes dizia que a dupla da Rádio São Joaquim, Boy e Formiga, iria se apresentar pela primeira vez no Cineteatro Santana, da cidade de Santana dos Olhos d´Água – hoje batizada de Ipuã, que em tupi-guarani significa “água que brota da terra”. O “monumental espetáculo” uniriam tela e palco. O filme era E o mundo se diverte, de 1948, uma comédia com ares de obra-prima. Nada menor que Oscarito e Grande Otelo faziam o público rolar nas poltronas de tanto rir. A trilha sonora era de Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Para o jovem Rolando não havia nada melhor do que ver dois dos maiores atores brasileiros em ação ao som de nomes que entrariam para a história da MPB. Naquela noite, também subiria ao palco José Gonçalves, apresentado como verdadeiro intérprete das músicas de Vicente Celestino.

Era uma vida inesperada, um acaso do destino envolvendo dois jovens interioranos, gente propensa a ter uma rotina banal, seja no campo ou na cidade, chamada de “vidinha”. Aquele “bom dia. Como vai?” que tinha como resposta: “Vai levando a vidinha que Deus me deu”, segundo os mais angustiados, os desvalidos, como se os dissabores também tivessem origem em uma graça divina. E se era divina, quem haveria de reclamar. Era seguir e se conformar.

Poderia ser esse o destino dos meninos de São Joaquim da Barra, mas a viola e os ponteios mudaram o rumo das coisas. Dos 11 aos 14 anos, Rolando Boldrin, e dos 13 aos 16, Leili Boldrin, carregavam consigo as fotos deles impressas em offset encomendadas pelo pai para distribuir e dar autógrafos. Não iam à escola, mas eram tratados como se fossem os gênios da tabuada, os futuros doutores e os genros que as mães queriam. E eles só precisavam cantar. Guardadas as proporções, lembravam aqueles times modestos de cidade minúscula quando despontam no campeonato brasileiro e enchem os habitantes locais de orgulho. Isso sem contar os 50 mil réis por mês e o cachê em cada apresentação, combinação financeira que ajudou a alterar a condição da família de pobre para menos pobre.

Rolando perderia as contas de quantas canções aprendeu a dedilhar na viola e depois no violão. O irmão Leili decorava as modas com bastante interesse naquele trabalho tão aguardado pelos ouvintes da ZYK-4 nas manhãs dominicais. A deixa para os primeiros acordes era a frase do locutor “um oferecimento das lojas de armarinho Salomão”.

Ao mesmo tempo em que treinava as músicas Boy lia poesia, contos e prosas. Zé da Luz, um poeta paraibano, Catulo da Paixão Cearense e Guimarães Rosa estavam entre seus preferidos. Em sua mente, a poesia entrava como cúmplice de um projeto maior, uma manifestação para divulgar a arte brasileira. Visionário, nunca colocaria essa obsessão no papel, guardaria tudo na memória. Mesmo garoto já contava “causos” para contar de situações observadas no cotidiano, geralmente situações engraçadas. Tinha também uma tragédia no currículo. Havia testemunhado um tiroteio, que resultara na morte do delegado, quando ainda morava em Guaíra.

Era manhãzinha quando o delegado Agapito deixou o Hotel São Paulo, onde residia temporariamente, para iniciar mais uma jornada de trabalho. Vestia um terno cinza claro e usava um chapéu de palha do tipo Panamá. Os sapatos brilhavam depois de serem lustrados pelo engraxate que atendia os hóspedes no saguão. Ele checou o horário no relógio de bolso com cordão dourado e caminho tranquilamente em direção à praça central. O doutor Agapito, como era chamado, ainda não havia decidido se ficaria na cidade e, por esse motivo, não tinha levado a família, nem alugado uma casa. Quase no centro da praça, foi abordado por Ermelindo Souza, um trabalhador rural que, parado diante do delegado, cravou a frase:

- Eu disse que você nunca mais ia bater na cara de ninguém.

O delegado arregalou os olhos, e Ermelindo sacou a arma e disparou duas balas no corpo do policial civil, que tombou morto, para surpresa e pânico de quem passava pela praça ou entrava na igreja para a primeira oração do dia. Rolando estava na fila do pão no mercadinho junto com alguns amigos. Ele se lembra de ver o atirador parado como uma estátua diante do corpo. Foi o próprio Ermelindo que pediu para chamarem a polícia. Quando os guardas civis chegaram , ele entregou a arma, confessou o crime e foi levado para a cadeia.

O trágico fim daquela contenda teve início no dia anterior. O delegado Agapito, há poucos dias na cidade, entrava e saía dos lugares quase sem abrir a boca. Era de pouca conversa e tinha um olhar soberbo. Na delegacia era visto como alguém experiente, que deixou a capital para prestar um favor a um povo atrasado, pouco afeito ás leis. Na véspera do crime, ele entrou em um boteco no qual Ermelindo e alguns conhecidos tomavam a tradicional cachacinha do fim de tarde para aumentar o apetite no jantar, como costumavam fazer. Ermelindo quis fazer cortesia e ofereceu uma dose de pinga ao delegado, que naquele momento esfregava um lenço na testa para tirar o suor. Sem responder à oferta, o delegado guardou o lenço no bolso do paletó e, em seguida, desferiu um tapa no rosto de Ermelindo, que só não foi ao chão porque seu corpo foi de encontro ao balcão, onde se segurou. Um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente.

- Isso é coisa que se faça? Oferecer pinga a um delegado! Me respeite, caipira- esbravejou o delegado.

Humilhado e trêmulo, Ermelindo perguntou ao balconista quanto precisava pagar.

- Não é nada não, Ermelindo – disse o dono do boteco.

- Faço questão. Quanto devo?

Pagou, ajeitou as calças na cintura e foi até a portado bar. Quando se virou disse ao delegado:

- Você nunca mais vai bater na cara de ninguém.

Saiu a passos largos para cumprir a sina na manhã do dia seguinte.

O jornal O Guaíra – hoje dirigida por Maria Izildinha Lacativa, filha do fundador, Vicente Lacativa – pesquisou sobre o assassinato e dá uma versão um pouco diferente:

- Ermelindo estava no meretrício, ou casa de tolerância, modo mais popular de indicar uma área de prostituição, quando o delegado Agapito chegou alertado por frequentadores que viram Ermelindo portando uma arma. Agapito não só tomou a arma, como deu dois tapas no rosto de Ermelindo, que deixou o local fazendo ameaças. Naquela mesma noite, ele comprou um novo revólver com a intenção de praticar o homicídio na manhã seguinte.

Após o assassinato, Ermelindo foi levado para a prisão de Orlândia, a cidade próxima, de onde escapou. Como fumava muito, deixou uma trilha de bitucas pelo chão e foi localizado por policiais, armado com um machado margeando a linha do trem em direção a Guaíra, onde pretendia se vingar dos que o denunciaram para o delegado. Esse é um caso que Guaíra nunca esqueceu. Cerca de um mês após o homicídio, dona Alzira precisou visitar uma irmã enferma na capital. Levou consigo quatro filhos, entre eles Rolando Boldrin. O grupo foi até Agudos de jardineira e lá pegou o trem da linha Sorocabana. Por coincidência, no mesmo vagão estava Ermelindo, algemado e escoltado por dois policiais fardados. Anos mais tarde, soube-se que Ermelindo havia morrido na prisão em São Paulo.

O testemunho do assassinato entrou na vida de Boy como a experiência desafortunada que muitos tiveram ou terão na vida. Cenas que nunca se apagam da lembrança infantil. Fazer rir ou chorar é parte da exposição do artista. Um caso triste, e a plateia emudece; um caso curioso, e os olhos se arregalam; um conto engraçado, e se desopila o fígado. Com domínio de palco, Boy misturava a palavra cantada com a palavra declamada. Dá para imaginar na voz de menino, olhos fixos na plateia, braços abertos, peito estufado, como ficaria o monólogo de “Luar do sertão”, de Catulo da Paixão Cearense:

Não há, ó gente, oh não, luar como este do sertão...

Oh que saudade do luar da minha terra

Lá na serra branquejando

Folhas secas pelo chão

Esse luar cá da cidade tão escuro

Não tem aquela saudade

Do luar lá do sertão

Ao final, só se ouviam os aplausos. O menino loiro tirava o chapéu e curvava o corpo em agradecimento. Virava em direção ao irmão e dizia: “Vamos mais uma Formiga, mais uma pra gente ir embora. Já tô ficando com fome...”.

As moças do educandário passavam quase todas juntas pelo centrinho de São Joaquim na entrada e saída das aulas, num desfile que mexia com as emoções da rapaziada. Leili já tinha uma namoradinha e pensava em sair da cidade e ir se virar em algum outro canto onde pudesse alcançar o próprio sustento, uma iniciativa comum entre os jovens no início da vida adulta. Sem dons musicais e obstinado por uma nova jornada, Leili anunciou à família o fim da dupla. Terminava ali a carreira de Formiga. Seu Amadeu, inconsolável, passou dias cabisbaixo. Estava ao mesmo tempo triste e orgulhoso do filho que demonstrava o mesmo vigor dos pais imigrantes. Sair em busca de um novo destino. Rolando também decidiu fazer uma pausa na carreira artística. Poderia ter seguido sozinho, mas foi solidário ao irmão naquele momento. Imaginava, porém, que pudessem voltar a cantar juntos maia diante. Afinal, foram três anos de intensa atividade para dois garotos vistos como danados de bons. Todos precisavam de um descanso.

 

Publicado originalmente em CORRÊA, Willian. A história de Rolando Boldrin: Sr. Brasil. São Paulo: Contexto, 2017.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Homenagem a Rolando Boldrin, Boldrin early years, parte I: Do nascimento à arte

Capítulo 1: Do nascimento á arte



Por Willian Corrêa e Ricardo Taira

 

A jabuticabeira ainda está lá, frondosa e generosa, permitindo duas colheitas por ano dos frutos graúdos e doces. Se exibe majestosamente no quintal da modesta casinha de número 693 da rua Marechal Deodoro, antiga rua da Estação, região central de São Joaquim da Barra, ao norte do estado de São Paulo. Foi nesse lugar que o menino branquelo de olhos azuis chegou berrando. Nasceu numa tarde quente de outubro e encantou parteira e senhoras da vizinhança, que ajudavam a pôr filhos no mundo, na cidade onde falar em dar à luz em hospital era quase uma heresia diante de tão competentes mulheres, que perdiam a conta de quantas crianças tiraram do ente materno e colocaram para seguir o destino traçado por Deus. Quando as parteiras entravam em ação, a presença masculina era dispensada. Os homens, geralmente, ficavam na sala de casa à espera do choro desesperado de crianças recém-nascidas, indicativo de que tudo caminhava “nos conformes”, como se costumava dizer de uma tarefa bem-sucedida. Eles assistiam à passagem do balde de água quente, do balde de água fria, das toalhas, da imagem de Nossa Senhora das Dores, da vizinha do lado, da vizinha da frente, da mãe, da tia que veio de longe, da madrinha de casamento. Uma multidão num quarto modesto.

A partir do choro do bebê, os homens se abraçavam, limpavam o suor do rosto, e o dono da casa começava a passar os copos que receberiam a cachacinha de qualidade feita no melhor alambique da região. Quando a parteira saía com a criança embrulhada na manta abençoada na paróquia central, dias antes do nascimento, os beijos exalavam o cheiro da aguardente que, a partir daquele momento, iriam embalar as conversas até altas horas. Uma alegria que se repetia na casa dos Boldrin a cada dois anos.

Quando o menino de olhos azuis nasceu, a família já era bem grande. Rolando foi o sétimo filho do mecânico de automóvel Amadeu e a dona e casa Alzira. Depois dele, ainda viriam outros cinco que completariam a matemática tão sonhada pelo casal: seis homens e seis mulheres. Uma família, como tantas outras de São Joaquim da Barra, cidade a 385 quilômetros da capital de São Paulo, quase divisa com Minas Gerais, e que tinha, na época, como principais fontes de riqueza o café e a pecuária.

Era o dia 22 de outubro de 1936. Os olhinhos azuis ainda incomodados com a luz piscavam passando de colo em colo. Recebia sinais da cruz na teste e beijos um tanto exagerados, bem típicos da expansividade brasileira, misturada à dramaticidade brasileira, misturada à dramaticidade dos italianos, que passaram a habitar em grande número terras no interior paulista e de outros estados nos dois últimos séculos, formando uma das maiores comunidades de imigrantes em território brasileiro.

Os avós paternos, Mario Boldrin e Marieta Zordan, eram italianos. Ele, de Pádua; ela de Verona. Aqui, fizeram amizade com a família Machado, de ancestrais portugueses. Foi quando os pais de Rolando Boldrin se conheceram, namoraram e celebraram o casamento numa festa típica da roça, ao ar livre, com muita comida, bebida, cantoria e dança.

Era comum entre as famílias da primeira metade do século passado – principalmente no interior, onde se precisava de muitos braços para o plantio – aumentarem a prole rapidamente. Com seu Amadeu não foi diferente, embora ele não se interessasse pelo campo e procurasse sempre se aperfeiçoar na profissão de mecânico, mexendo em fordinhos. Ele só respeitava o tempo do chamado resguardo pós-parto. Seu Amadeu e dona Alzira tiveram os filhos Yolanda, Rolanda, Jaques, Tim, Aroldo, Leili, Rolando, Cida, Nino, Alzirinha, Leila e Maria.

O batizado do menino Rolando ainda demoraria. Seu Amadeu, materialista, se dizia ateu. Dona Alzira, católica fervorosa, queria os filhos seguindo as leis canônicas. Não deixava o marido em paz quando o assunto era a vivência com a Igreja. Somente quando Rolando tinha 7 anos de idade, o pai decidiu batizá-lo. E meses depois também levou o garoto para ser crismado. Os padrinhos, de batismo e de crisma, eram fazendeiros e suas respectivas esposas. Era tradição entre as famílias humildes convidar gente abastada para as cerimônias religiosas. O padrinho de crisma foi Enoque Garcia, um dos fundadores de Guaíra e também um dos primeiros prefeitos do então vilarejo. A família Garcia segue hoje na política, com enorme influência no município.

Na visão de seu Amadeu, ir à escola era uma atividade temporária. Os filhos precisavam aprender a ler, escrever e fazer contas, conhecimentos, segundo eles, suficientes para que todos pudessem enfrentar o que viesse pela frente. O importante era aprender um ofício. Isso no caso dos meninos, já que as filhas cuidariam de afazeres domésticos e permaneceriam na segurança do lar até o dia do casamento.

Quando Rolando Boldrin tinha 2 anos, a família se mudou para Guaíra, município próximo de Barretos. O aluguel era mais barato e, com a família crescendo e mais bocas para alimentar, era preciso fazer alguma economia. Foi em Guaíra que ele fez os primeiros anos do primário, hoje chamado de ensino fundamental.

O grupo escolar exigia que os alunos cantassem o Hino Nacional reunidos no pátio e observando o hasteamento da bandeira direita. Mão direita sobre o peito. A maioria disfarçava. Fingia que cantava por não saber a composição. Só havia um trecho que todos soltavam a voz: “Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve”. Na sequência, voltavam os murmúrios. Rolando, no entanto, se esforçava para cantar a maior parte da letra escrita pelo poeta Joaquim Osório Duque Estrada.

A primeira professora foi dona Madalena, uma mulher enérgica, magra e atenta a todos os movimentos dos alunos. Os mais faladores, entre eles o menino de olhos azuis, costumavam ser advertidos com tapas na cabeça e com golpes de régua.

A rua era o parque de diversões daquela molecada nos anos 1930 e 1940, uma extensão dos próprios lares, muitos deles de terra batida, como era o caso do imóvel ocupado pela família Boldrin. Sobre o chão de terra, uma infinidade de colchões de palha e travesseiros de pena garantia a todos uma boa noite de sono, juntinhos – uma dádiva para uma família amorosa e solidária.

Em Guaíra, o pai trabalhava na oficina mecânica de José Maria Marques Bom, também dono das jardineiras, os ônibus que atendiam à população local e das cidades vizinhas. Eram veículos montados sobre chassis de caminhão. O galpão onde funcionava a oficina ainda existe e a Viação José Maria Marques Bom Ltda, segue em operação. Na oficina sempre sobravam alguns pneus velhos, que eram logo transformados em brinquedo pelo grupo de amigos dos irmãos Rolando, Leili e Nino. Estes usavam calça curta por serem os mais novos e não se acostumavam com os sapatos, sempre deixados de lado após a aula. Pés descalços prontos para as aventuras de subir em árvores, lutar na brincadeira de bandido e mocinho, mãe na mula e, a mais divertida de todas, encontrar nos velhos pneus e serem jogados ladeira abaixo. Ver o mundo de ponta cabeça a toda velocidade até bater em algo, uma árvore ou muro, e parar. Pele esfolada e arranhões pareciam não preocupar, eram apresentados como troféus numa demonstração de coragem dos pequeninos.

Desde cedo, Rolando demonstrava sua paixão pela música. Pegava uma vassoura e fingia que estava tocando violão. O pai gostava de ver aquela brincadeira e costumava chamar os amigos da oficina no intervalo do almoço para ouvir o filho cantar músicas de Bob Nelson, o primeiro artista brasileiro a misturar o estilo caipira aos dos caubóis norte-americanos. Um dos seus sucessos, “Oh, Suzana”, dizia: “oh, Suzana, não chores por mim/ Eu vou pro Alabama, vou tocando bandolim”. Com chapéu no estilo texano, lenço no pescoço, cinturão com duas armas, Bob Nelson e seus Rancheiros faziam apresentações em todos os cantos do país. O pequeno Boldrin, além de imitar o andar dos gringos durões, prontos para um duelo, também dava grito dos caubóis: “o-le-rei-iii-tiii...o-le-rei-iiiiii-tiii”. E todos caíam na risada.

A vida pacata era confrontada com um fator externo angustiante. Guaíra, um lugar minúsculo na área urbana, mas gigante na lavoura, também sentiu bastante os efeitos da Segunda Guerra Mundial. Houve racionamento de alimentos básicos, como o arroz e o pão. O mercadinho amanhecia com fila na porta, e todos saíam carregando pouca coisa. Criação de frangos, porcos, plantação de milho, árvores frutíferas e horta no quintal ajudavam a complementar as refeições de uma família tão grande quanto a dos Boldrin. O avô paterno Mário, também morava com eles. A avó, Marieta, já havia falecido.

Sem gasolina, outro produto racionado, os poucos carros de passeio e caminhões agrícolas foram deixados nas garagens. A oficina mecânica quase sem serviço até que, de repente, surgiram os veículos que suportavam, geralmente na parte traseira, o que parecia ser uma miniusina, com chaminés exalando vapor o tempo todo. Era gasogênio, um equipamento primoroso, apesar do tamanho avantajado, que foi uma opção à falta de combustíveis. A pequena usina queimava madeira, carvão ou restos de produtos agrícolas, como bagaço de milho, para criar o vapor responsável pela compreensão e capaz de fazer o motor funcionar. Em 1940, o presidente Getúlio Vargas criou a Comissão Nacional do Gasogênio com o objetivo de facilitar a produção em larga escala do equipamento. A partir daí, surgiram as frotas de ônibus movidas a vapor. Era altamente poluente, mas não deixava ninguém em pé.

A família Boldrin ficou em Guaíra até o fim da Segunda Guerra Mundial. Exatamente em 1945, voltaram a se mudar. Houve uma passagem por Ituverava antes do retorno definitivo a São Joaquim da Barra. A volta à cidade de origem fez o menino de olhos azuis abraçar o sonho de subir no palco. Falava em ser ator e via na moda caipira o início de uma caminhada que poderia leva-lo ao estrelato. O fascínio pelo palco surgiu dentro de um circo. O menino foi subjugado pelo encantamento daqueles que passam a vida sob a lona, saltimbancos, provocando alegria, causando suspense, despertando a coragem, o heroísmo, quando o roteiro circense avançou pelo imenso interior. O circo era o elo da gente simples com a arte. Era o zoológico itinerante, pela quantidade de animais transportada, desde um simples franguinho, que costumava escapar dos palhaços em ziguezagues hilários, até os grandes felinos com seus dentes de sabe intimidados pelo chicote sonoro do domador. O circo era um grande acontecimento, um instante de união das famílias.

O que mais interessou o menino Boldrin foi o circo-teatro. O garoto ficava na primeira fila e decorava peças inteiras: O ébrio, O céu uniu dois corações, O mundo não me quis. Tornou-se um frequentador tão assíduo que passou a se misturar a técnicos e cenógrafos como uma mascote da trupe, sempre curioso, sempre querendo aprender sobre tão nobre trabalho. Certa vez, o dono de um circo-teatro conversou com os pais de Boldrin e esses autorizaram o menino a viajar com o grupo. Por volta dos 9 anos de idade, o garoto chegou a fazer do elenco, sua primeira experiência como ator.

Experiências como o circo-teatro fizeram as brincadeiras darem lugar a uma mente irrequieta decidida a novas conquistas. Era o entusiasmo que tentava vencer o marasmo das poucas opções de sobrevivência profissional aos jovens de uma cidade pequena em um país se adaptando ao pós-guerra. Ganhou uma viola do pai, e um professor de ginásio, Toniquinho Della Vecchia, o ensinou a afinar o instrumento no estilo “Rio abaixo”. Uma viola tem dez cordas, dispostas em cinco pares, e as diferentes afinações variam de acordo com a região do país. A “Rio abaixo”, contadas do agudo, cordas inferiores, para o grave, as superiores, exige a sequencia de notas ré – si – sol – ré – sol, gerando um acorde de sol maior se tocadas simultaneamente. Essa afinação é muito usada no blues americano e é também muito próxima à afinação do cavaquinho brasileiro (ré – si – sol – ré).

 

Publicado originalmente em CORRÊA, Willian. A história de Rolando Boldrin: Sr. Brasil. São Paulo: Contexto, 2017.