Por Tony de Sousa
Muitas produtoras ficavam instaladas no edifício Soberano localizado na rua do Triunfo, 134. Foto: Matheus Trunk
Quando já não aguentava mais a história de passar o dia
na base de média e pão com manteiga, juntei meus últimos trocados, fui ao
Restaurante Soberano na Rua do Triumpho e pedi um comercial. O garçom, o
Alcides, trouxe uns pãezinhos e uma lata de azeito e colocou sobre a mesa.
Perguntou o que eu queria beber. Pedi uma Coca-Cola bem gelada. O cara trouxe a
salada e eu ignorei. Fiquei esperando chegar a sustança: arroz, feijão, ovo
frito e bife. Enquanto isso fui molhando o pão no azeite, comendo e tomando
Coca-Cola. Finalmente o cara trouxe o que interessava. Que prazer indescritível
saborear o feijão com arroz regado a azeite, passar o pão no ovo frito, comer
um pedaço de bife!...
Estava nesse exercício gastronômico quando apareceu o
velho Ozu e sentou-se à minha mesa.
“Tá fazendo algum filme?”
“Por enquanto não.”
“É que geralmente quando o pessoal chega aqui e pede um
a refeição completa todo mundo acha que ele tá na equipe de alguma fita.”
Ficou me olhando um tempo, impressionado com o meu
apetite.
“Não vai comer a salada?”
“Não. Vou ficar na sustança.”
“Posso pegar?”
“Claro.”
Ele colocou um monte de azeite no alface e nas rodelas
de tomate e começou a comer, pegando com a mão mesmo.
“Você é de que lugar do Nordeste?”
“Rio Grande do Norte.”
“Terra do sal, carnaúba. Dizem que encontraram petróleo
lá. É verdade?”
“Eu ando desligado do que acontece na minha terra. Tô
meio por fora.”
Ele ficou me olhando em silêncio por algum tempo e
imagino que naquela fração de segundos tenha inventado a história que virou
lenda na boca do cinema, que dizia que eu era filho de um rico latifundiário do
Rio Grande do Norte e vivia ás custas do dinheiro da minha família. Enquanto
viveu não consegui tirar de sua cabeça essa história. Aproveitei o silêncio
dele para atacar.
“Gosto muito dos seus filmes”
“Você já viu algum?”, perguntou-me meio incrédulo.
“Claro!”
“Qual?”
“A Miragem, A Vingança, Zé Nada, Meu nome é Zé...”
Fez cara de quem estava duvidando e perguntou:
“E o que que você achou?”
“O Zé Nada é
genial. Você radicaliza em tudo. Na linguagem, na abordagem do tema, na
estética. Suas imagens possuem uma força expressiva impressionante. E esses
caras que você usa, nem atores nem nada, mas estão muito convincentes. Lembra
um pouco o método de Bresson. Não é pra puxar o saco não, eu prefiro os seus
filmes aos filmes dele.”
O velho ficou boquiaberto. Mas como era muito
desconfiado, continuou me testando.
“De que outra fita você gostou?”
Aí eu despejei de uma vez:
“Bom, A Miragem
é um filme de imagens. Dá para perceber que quem o fez assimilou bem as lições
dos mestres no cinema russo: Kulechov, Pudvkin, Eisenstein. Lembra um pouco o
universo de Fellini, de Pasolini da fase neorrealista, mas tem uma
expressividade própria. Identifiquei alguma coisa de Limite, de Mário Peixoto. Não sei se foi coincidência ou
proposital. Já Meu nome é Zé é um far-west caboclo, que, assim como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de
Roberto Santos, consegue se livrar dos estereótipos dos filmes americanos do
gênero. A Vingança é uma adaptação
muito feliz do universo Shakespereano para a realidade brasileira”
Ele agora não tinha dúvida de que eu havia mesmo
assistido aos filmes e que tinha uma opinião a respeito. Aproveitei sua
perplexidade para perguntar:
“Quando você vai fazer uma nova fita?”
“Quando aparecer dinheiro. Tô com uma parada na metade.
Minhas fitas eu faço assim: apareceu um pouco de dinheiro eu filmo uma parte,
acabou o dinheiro eu paro.
“Por que não pede um financiamento pra Embrafilme?”
“E você acha que eles me dão?”
“Por que não?”
“Eu vivo metendo o pau neles. E tem outra, minhas fitas
tem uma série de elementos que incomoda muito essa gente”
“Não custa tentar”
“Você conhece alguém de lá?”
“Não, mas posso me informar como funciona”.
“Tá. Vê lá. Se você acha que eu tenho alguma chance,
vamos tentar”.
17
Fui ao escritório da Embrafilme, na Rua Vitória, e
descobri que havia duas linhas de financiamentos disponíveis. Uma para
finalização e outra para produção. Ainda me incrédulo da possibilidade de
conseguir alguma coisa com a Embrafilme, o velho Ozu me falou:
“É o seguinte: tem um monte de burocracia aí que eles
exigem: roteiro, orçamento, não sei o que mais lá. Um monte de papel. Você topa
fazer isso aí pra mim?”
“Faço”.
“Só que eu não tenho dinheiro pra te pagar. Se sair o
tal do financiamento a gente acerta. Pode ser assim?”
“Você me coloca na equipe como seu assistente e me paga
a tabela do sindicato?”
“Tá certo”
“Nesse período de preparação da papelada não dá pra
siar nem um comercialzinho no almoço?”
“Só seu arranjar um sócio. Estou sem grana nenhuma. Faz
o seguinte: venha aqui comigo”.
Levou-me até o 134 da Rua do Triumpho, um pequeno
prédio onde funcionava, na parte debaixo a distribuidora Poli Filmes e, no
primeiro andar, o escritório do Mário Mago. Subimos até o segundo andar. Daí me
apresentou a um cara baixinho, bigodudo, chamado Davero.
“Davero, esse cara aqui conhece um esquema pra arrumar
grana da Embrafilmes pras minhas fitas. Só que eu preciso de uma produtora com
a papelada em ordem. Você topa ser meu sócio?”
“Vamos lá”
Sua firma tá em ordem?”
“Tá. Que você precisa?”
“Tem um monte de papel aí que a Embrafilme exige, o
Antoninho vai falar pra você. Tem mais uma coisa. Ele vai precisar datilografar
uns troços aí na tua máquina. Roteiro, orçamento, currículo meu e da
produtora...O que vai ser duro é o tal de roteiro. Você sabe que eu não faço
roteiro para minhas fitas. Vou ter que passar uns rascunhos aí para ele
datilografar”.
“Tudo bem”.
“Tem uma última coisa. Enquanto ele fez esse trabalho
aí, você tem como pagar um rango pra ele lá no Serafim?”
Davero afiou o bigode, fez pose de produtor e
perguntou:
“Quanto tempo você calcula que vai levar pra fazer
tudo?”
“Umas duas semanas”.
“Tá feito. Vamos lá. O importante é que saia a grana”.
18
Começou então a minha peleja com o velho Ozu para
conseguir material para montar os roteiros. Ele ia me trazendo aos poucos umas
anotações que havia feito nos mais variados tipos de papel. Pedaços de jornal,
saquinhos de padaria, papel almaço, bilhete de loteria, papel rascunho...
Eu precisava montar dois roteiros. Um para um filme
chamado As rosas do caminho e outro para o filme O Jagunço.
As anotações dele eram do tipo: “fulano encontra
sicrano na estrada”. “Jagunço atrás de um toco espera a hora de apertar o
gatilho”. “O cara que o Jagunço vai matar entra em quadro”. “Borracheiro está
trabalhando e mata Rosa. Fala com ele”.
Em nenhuma das anotações que me passava havia diálogo.
“Escuta, desse jeito tá difícil montar os roteiros”.
“É assim que eu faço minhas fitas. Não escrevo o
roteiro”.
“Pois é, mas a Embrafilme exige que tenha um roteiro
prévio. Não só isso. Que seja feita uma análise técnica do mesmo. Relação dos
personagens e tudo mais”.
“Eu sabia que ia ser foda isso aí. Vou ter que
inventar. Depois mudou tudo!”
Eu aproveitava essa demora do velho em que me entregar
as coisas para dar uma embromada, sem que Davero percebesse. Fingia que tava
datilografando o roteiro e escrevia uns troços qualquer lá. Uma ideia para um
curta-metragem. Um jovem cineasta tentando fazer o seu primeiro filme. Até
chegar a hora do almoço e ir comer o comercial delicioso do Serafim.
19
Meu irmão Saulo, amigo do pai de Linda Lindiane,
falou-me que ela andava reclamando do meu sumiço. Ele tinha sido responsável
pelo nosso primeiro encontro, quando lhe falou de um irmão que era ator estava
com uma peça em cartaz. Ela foi assistir à peça e, após a apresentação,
procurou-me no camarim e apresentou-se. Ficamos conversando um tempão.
Depois ela voltou outras vezes e me encantei com o
sorriso dela, com o nome que traduzia exatamente o que ela era. E houve aquela
vez no cinema, quando peguei na mão dela, quando senti o choque da química do
amor se formando. Aquele encontro que custou o meu emprego de fiscal de porta
de cinema. E o meu sumiço da sua vida para me refugiar no mundo dos
“perseguidores de fantasmas”.
Então Saulo convidou-me para irmos juntos à casa dela.
No caminho, falou-me que seu amigo, o coronel Linduarte, estava se aposentando
e indo morar no Nordeste. Os filhos dele, dois rapazes e duas garotas estavam
em crise e não sabiam se o acompanhariam. No caso dos rapazes era provável que
ficassem mesmo em São Paulo. Já as garotas, Linda Lindiane e Linda Helena, o coronel
não permitiria que ficassem.
Quando chegamos à casa do coronel, um sobrado na região
do Jabaquara, ficamos sabendo que ele e a esposa haviam viajado. Linda Lindiane
estava lindamente linda. Havia preparado um jantar para nos receber. Fiquei
conhecendo os dois irmãos dela, Edson e Hudsom dois caras bem legais, e a
irmãzinha mais nova, Linda Helena.
Conversa vai, conversa vem, jantamos. Depois da janta,
os dois rapazes se despediram e saíram. Meu irmão Saulo ficou mais um tempo e
disse que também estava indo embora. Eu quis pegar uma carona com ele, mas
Lindiane insistiu para eu ficar mais um pouco. Não tive como dizer não. Como já
falei, eu andava caído por ela fazia algum tempo, mas quando analisava minha
situação de “perseguidor de fantasmas” ficava receoso de assumir qualquer
compromisso sério com uma garota. Ainda mais ela, filho de um amigo do meu
irmão, que me tinha em grande conta. Então, quando ela veio me falar que não
queria ir para o Nordeste e estava pensando o que faria, eu entendi que estava
me questionando sobre o futuro do nosso relacionamento. Falei com a maior
sinceridade:
“Linda Lindiane, você é a garota dos meus sonhos, mas
infelizmente não posso assumir um relacionamento com você”.
“Por quê?”
“Porque já sou um home compromissado”.
“Você já tem namorada?”
“Pior que isso. Sou casado”.
“Nossa! Seu irmão nunca me falou que você era casado”.
“Mas eu sou”.
“Qual é o nome da sua esposa?”
“Cinema”.
“O quê?”
“Isso m mesmo. Sou casado com o cinema”.
“Ah, para de me gozar”.
“É sério. Jurei amor eterno ao cinema”.
Ela descontraiu, pois havia ficado muito tensa e
indignada quando falei que era compromissado. Aí, continuamos a conversa num
nível mais explícito. Falei que o meio artístico era uma incógnita, que um cara
podia ficar a vida inteira perseguindo algo de que nunca se materializaria,
como um garimpeiro em busca do ouro ou da esmeralda. Que eu não queria expor
ninguém a esse risco, etc, etc, etc, um papo já manjado, mas bastante sincero.
Ficamos conversando até tarde. A irmã dela foi dormir.
Minhas mãos brincaram com os caracóis do cabelo dela. Alisaram a pele macia do
seu rosto. Nossos lábios visitaram-se várias vezes. Quando a coisa estava
evoluindo para o incontrolável, pulei do sofá.
“Nossa como é que vou fazer para chegar no Tucuruvi? Já
passa da meia-noite!”
“Dorme aqui”.
“Tá louca?”
“Eu não vou deixar você sair a essa hora não!”
“Já pensou se seus ais chegam e me pegam dormindo
aqui?”
“Que é que tem? Você é irmão do maior amigo do meu
pai”.
“Isso não quer dizer nada. Sozinho aqui com você e sua
irmã menor?”
“Daqui a pouco meus irmãos chegam”.
“Então vou esperar eles chegarem e vou embora”.
Ela subiu até o andar superior e voltou com um lençol e
um travesseiro.
“Pode dormir aí sossegado. Eu falo para os meus pais
que você perdeu o metrô”.
“De jeito nenhum! Vou só esperar eles chegarem e vou
embora”.
“Pode ser que eles demorem”.
“Então é melhor eu ir embora logo”.
“Pode ser que só retornem amanhã”.
Disse isso e foi subindo em direção ao andar superior.
“Boa noite”
Fiquei com cara de idiota. Só pensava no que poderia
acontecer se os pais dela chegassem de repente e me vissem ali. Ou mesmo os
irmãos. Podiam ter uma reação inesperada.
Demorei a me estender no sofá e relaxar. Deixei a luz
acesa por precaução. Não tive coragem de tirar nem a camisa. Tirei apenas os
sapatos. Para todos os efeitos, estava ali esperando os rapazes chegarem.
Afinal de contas, não era correto deixar as duas garotas sozinhas. Só que os
caras não chegavam. Então, cochilei e tive o seguinte pesadelo: eu era atraído
por uma curiosidade incontrolável de ir ver como era a parte de cima do
sobrado. Começava a subir as escadas vagarosamente, sempre de olho na porta de
entrada, e ao chegar no último degrau da escada, via uma luz acesa em um dos
quartos. Seguia naquela direção. Pelo jeito, era o quarto do casal, do coronel
e da mulher dele. Prendi a respiração e olhei discretamente para dentro do
quarto. Iluminada pela luz do abajur, vi a figura de Linda Lindiane totalmente
nua sobre a cama. Ela estava de olhos fechados e não dava para saber se dormia
ou estava fingindo. Perdi totalmente o controle. Fui entrando apressado no
quarto, sentei-me ao lado dela na cama e comecei a acariciar o seu corpo. Ela
abriu os olhos e sorriu. Tirei a minha roupa e deitei-me ao lado dela.
Começamos um corpo-a-corpo, que foi evoluindo para uma ginástica feroz, uma
batalha interminável. Até que ouvi um barulho de porta se abrindo no andar
debaixo. Pulei da cama, tentei vestir minha roupa, mas não conseguia acertar
para enfiar as mãos nas mangas da camisa e os pés na calça. Sai correndo nu
mesmo, com a roupa na mão, e bem na descida da escada me deparei com o coronel
de arma em punho.
“Te peguei ladrão safado!”
E disparou vários tiros. Senti claramente as balas
penetrarem em meu corpo e o sangue começar a escorrer.
Dei um pulo do sofá. Estava completamente molhado de
suor. Fiquei um tempo escutando as batidas do meu coração que parecia querer
sair pela boca. Um silêncio enorme em toda casa. Não sei por que comecei a
calçar os meus sapatos. Talvez fosse mais prudente mesmo ficar aguardando os
caras chegarem. Eu estava sem relógio, mas calculei que fosse umas duas horas
da madrugada.
Meu pânico foi aumentando e comecei a achar que o
melhor seria dar um jeito de sair logo dali. Olhei em direção à porta de entrada
e não vi sinal de chave na fechadura. Com muito cuidado fui lá conferir se
estava trancada. Estava. Comecei a analisar a minha situação. Eu ainda não
havia entrado para o Partido Comunista, mas era simpatizante de grupos de
esquerda. Sabia das torturas, das mortes e perseguições a esses grupos, por
parte dos militares. Embora meu irmão falasse maravilhosas do coronel
Linduarte, pai da Lindiane, eu tinha convicção de que ele não iria deixar
barato se chegasse naquele momento em casa e se deparasse com aquela situação:
um cara em plena madrugada sozinho com suas duas filhas dentro de casa. Sendo
uma delas menor de idade. Não tinha nada a ver com o fato de eu ser de
esquerda. É que aquilo não tinha cabimento. Se eu estivesse no lugar dele
tomaria uma atitude.
Fui conferir a porta dos fundos e, para o meu alívio, a
chave estava na fechadura. Destranquei cuidadosamente a porta e saí para o
quintal. Havia um muro de uma altura razoável que dava para rua. Refiz meus
cálculos de horário. Devia ser umas quatro horas da madrugada. Não havia uma
única luz acessa nas casas vizinhas e a rua estava totalmente vazia.
Com dificuldade, consegui pular o muro, morrendo de
medo de se surpreendido por alguém, confundo com um ladrão ou coisa que o
valha.
Ao me ver na rua deserta, comecei a correr
desesperadamente. Fui seguindo na direção da Avenida Jabaquara. E enquanto
corria, lembrei-me da cena de um filme, no qual o mocinho está tentando escapar
do vilão correndo o pé em câmera lenta, e, quando parece que vai conseguir, o
vilão aparece num atalho bem na frente dele e lhe dá um chute no estômago. O
mocinho cai de joelhos e o bandido lhe dá muitas porradas. Lembrei também de um
final de ano em que meu amigo Armando decidiu correr na São Silvestre. Eu
fiquei esperando ele passar na subida da Avenida Consolação, com um copo d´água
na mão, e já estava quase desistindo, achando que ele havia me enganado, quando
de repente ele aparece no meio da multidão de corredores. Acenei para ele, que
veio na minha direção, pegou o corpo d´água, bebeu um pouco, e jogou o resto na
cabeça e continuou correndo. Lembrei-me ainda de quando estava na Aeronáutica e
participava de um treinamento de guerra, num tal de “pelotão do cão” e tinha
que correr vários quilômetros todos os dias. Havia momentos em que eu achava
que não ia mais aguentar, que as penas não obedeciam mais o comando do cérebro,
e de repente, aparecia não sei de onde, um fôlego novo, e eu já não comandava
meus movimentos, parecia que flutuava, que estava sendo transportado por uma
força misteriosa que vinha de mim, mas não parecia que era eu.
E assim cheguei à Avenida Jabaquara, que estava
totalmente vazia e fiquei andando de um lado para o outro, perto de um ponto de
ônibus, tentando recuperar o fôlego e controlar o tremor de minhas pernas. Lá
pras tantas passou um ônibus circular e eu o tomei. Desabei na cadeira e
adormeci. Fiquei zanzando nesse ônibus até o metrô começar a funcionar.
20
O prazo de duas semanas para datilografar os projetos
do velho Ozu passou rapidinho. Cheguei à produtora de Davero com dois
calhamaços. Ele e Ozu deram uma olhada nos orçamentos e ficaram impressionados
com os valores. Os orçamentos de filme de longa-metragem na Boca, em média,
giravam em torno dos 100 mil dólares. Havia produções mais elaboradas, mas
mesmo essas produções chegavam no máximo a 300 mil dólares. Na maioria dos
casos o cara recebia parte dessa grana como um adiantamento de um exibidor que
virava sócio do filme. Eu havia chegado a um orçamento de 300 mil dólares
apenas para a finalização do filme As
rosas do caminho. Já O Jagunço ficou em um milhão de dólares.
O velho Ozu me perguntou incrédulo:
“Você acha que eles vão aprovar isso aí? Não é melhor
diminuir um pouco?”
“Eles vão aprovar, sim. Eu não inventei nada. Tirei
tudo das tabelas de preços”.
“Eu duvido! Mas se vocês quiserem mandar assim...Eu
acho que isso aí não vai dar em nada”.
Fui até a Embrafilme com toda papelada e protocolei os
dois projetos. Aí ficamos em compasso de espera. O velho Ozu sempre cético
quanto à possibilidade de sair dinheiro da estatal para os seus filmes, mas
muito simpático comigo. Só que, para mim, dinheiro não pintava. E eu continuava
com aquela pendência com Eligê. Cheguei pro Davero e falei:
“Você não tem nada aí que me renda uma grana? Preciso
arranjar um dinheiro meio urgente”.
Ele me levou até uma área, uma espécie de guarda-tudo,
e retirou de uma prateleira onde havia várias latas de filmes meio
enferrujadas, umas caixas com fitas de gravação magnética e me mostrou:
“Sabe o que é isso?”
Estava escrito nas caixas: “Magnético 17,5”.
“Esse é o tal magnético 17,5?”
“Isso mesmo! Só que esse magnético já foi usado. Tem
gente que compra magnético recuperado. Se você quiser, eu te ensino a fazer a
recuperação. Depois você vende, dá uma parte da grana pra mim e fica com o
resto”.
Eu não tinha muita alternativa no momento. Aceitei a
tarefa. Ele montou uma traquitana sobre uma mesa, pegou umas luvas e começou a
me mostrar como fazia a coisa.
“É bom trabalhar sempre com luva. Tem gente que nem usa
luva, mas é errado. Ah, já conhece a coladeira?”
E me mostrou um negócio com uns pininhos para encaixas
as perfurações do magnético e uma lâmina bem no meio para cortar o magnético ou
filme, e em uma das extremidades um rolo de fita adesiva transparente.
“É assim que se faz: os trechos muito curtos você
descola com cuidado e joga fora. Deixa só os pedaços mais longos. Vai emendando
um no outro assim”.
E me mostrou como usava a coladeira. Como se cortava e
emendava um pedaço de magnético no outro pregando com fita adesiva.
“Esses trechos escuros que você tá vendo é silêncio.
Tem que tirar tudo fora”.
Dei uma olhada e percebi que os trechos que ele chamava
silêncio, eram na verdade, copiões de filme 35mm cortado ao meio.
“Isso aqui é uma invenção de brasileiro. Lá fora, nos
Estados Unidos, eles têm material apropriado para fazer silêncio. Você sabe por
que se chama silêncio, não é?”
“Eu tenho as minhas suposições. Não sei se é o que
estou imaginando”.
“É o seguinte: quando o montador tá fazendo as pistas
de som para mixar o filme, tem trechos de diálogos, trechos de música, trechos
de ruídos e trechos que é só silêncio. Não tem som nenhum. Nesse trecho se
coloca uma ponta de filme que a gente chama de silêncio. Depois, na mixagem,
mesmo esses trechos acabam passando por um processo de colocação de som
ambiente. Ás vezes usamos também isso que chamamos de silêncio para um trecho
de filme que ainda não temos o som definido”>
E assim fiquei alguns dias nessa tarefa de recuperar
magnético. Quando terminei, Davero examinou se as emendas bem feitas e elogiou
o meu trabalho.
“Se você quiser, eu te pago tudo (falou uma quantidade
ridícula que não lembro quanto era, mas pelos meus cálculos no máximo para
pagar uns três almoços no Serafim). Ou você sai por aí, oferecendo aos
montadores. Pode ser que consiga bem mais. Aí me dá uma parte do valor que você
conseguir vender”.
Para não esticar muito a história, peguei o valor que
ele estava me oferecendo, e fiquei torcendo para que a Embrafilme não demorasse
muito a responder a proposta que havíamos feito para os filmes do velho Ozu.
21
Voltei ao velho esquema da média e pão com manteiga,
das noites inteiras na rua, das brigas de gato e rato com Eligê. Fiquei quase
uma semana sem aparecer na Boca. O problema é que Eligê estava sempre por lá e
eu não tinha mais argumentos sobre o dinheiro do aluguel. Enquanto estava
fazendo as coisas na produtora de Davero, falei para ele que iria receber uma
grana pelo trabalho. Só não falei quando essa grana sairia, se é que iria mesmo
sair.
Nesse período, voltei a frequentar o Museu Lasar Segall
todas as tardes. Havia uma garota lá, de uns olhos azuis muito intensos, pele
muito branca e cabelos encaracolados. Não sei exatamente qual era a função
dela, mas sei que fazia de tudo um pouco. Era recepcionista, orientava sobre a
pesquisa dos livros, ia buscar os livros que pedíamos através de uma requisição
com os dados extraídos de uma ficha catalográfica de uns arquivos. Foi ela quem
me apresentou aos mestres do cinema russo.
“Aqui você tem uma versão em espanhol de O Tratado da Realização Cinematográfica,
de Leon Kulechov, O Ator no Cinema de
Pudovkin, O Diretor e o Roteiro,
também de Pudovkin, O Sentido do Filme,
A Forma do Filme e Reflexões de Um
Cineasta de Eisenstein de Eisenstein. Nascimento do Cine-Olho, de Dziga Vertov”.
Comecei pedindo Reflexões
de Um Cineasta de Eisenstein e O Ator
no Cinema de Pudovkin.
Essa garota que atendia no Museu Lasar Segall, toda vez
que me trazia os livros, olhava-me com aqueles olhos azuis lindos e sorria um
sorriso tímido, e eu um jovem carente, não tinha como não me apaixonar. A
história toda com Linda Lindiane resultou que ela ficou muito decepcionada com
a minha fuga naquela noite, resolveu definitivamente ir morar no Nordeste e
nunca mais nos vimos. Então, durante essa semana em que eu ia todas as tardes à
biblioteca do Museu Lasar Segall, apaixonei-me perdidamente por Sarita Maciel.
Era esse o nome da garota. É claro que, como quase todas as minhas grandes
paixões, era uma paixão platônica. Mas decidi declarar meu amor numa carta que escrevi
e que acabei não tendo coragem de colocar no correio. A carta dizia o seguinte:
“Querida Sarita. Durante uma semana tenho me alimentado do azul brilhante dos
seus olhos e da doçura do seu sorriso. Sou um jovem artista em início de
carreira. Poderei vir a ser um dos grandes. Um Tarkovsky, um Antonioni...Por
que não? Todo grande artista teve atrás de si uma grande mulher. Conhece a
história de Dali e Gala? O pintor espanhol não era nada até aparecer na vida
dele a russa Elena Ivanovna Diakinova, então mulher do poeta surrealista Paul
Elard. Dali a arrebatou das mãos do poeta, e ela se transformou em Gala Dali,
que por sua vez transformou as obras do espanhol excêntrico em ouro. Pode ficar
certa de que se eu for famoso não me comportarei como Dali, que virou um
alienado, um dedo duro. Entregou seu amigo Buñuel ás autoridades americanas
acusando-o de comunista. Numa época em que isso significava ser perseguido,
correr risco de morte. Foi tolerante com as ditaduras de Hitler e Franco.
Continuarei um revolucionário. Romântico, como Che Guevara. O que eu estou
propondo, minha querida Saita é que você aceite ser a minha Gala. Que
transforme meu talento em ouro. Do seu eternamente apaixonado, Antoninho
Silva”.
Ao longo dos anos que continuei frequentando o museu,
sempre que ia lá perguntava por ela. Tenho a impressão que muitas vezes fui lá
apenas para vê-la. E ela sempre aparecia, ás vezes quando eu já nem estava mais
esperando, pensando que ela nem trabalhava mais lá. Talvez fosse minha
imaginação que a fazia aparecer entre as prateleiras de livros, sorrindo seu
sorriso tímido, com seus olhos azuis já menos brilhantes, mas intensos o
suficiente para me embriagar.
“Precisa de ajuda?”
“Obrigado. Você já me ajudou mais do que possa
imaginar.
Essa segunda frase eu não falava. Ficava apenas no
“obrigado”.
Publicado originalmente em Sousa, Tony. Boca do Cinema. São Paulo: LCTE Editora,
2012.
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