segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Entrevista de David Cardoso a Ele Ela em novembro de 2007


DAVID CARDOSO FOI O MAIOR NOME DO CINEMA ADULTO BRASILEIRO. NESTA EXCLUSIVA A LAURO MESQUISTA E ANDRÉ MALERONKA ELE DIZ POR QUE SUAS PORNOCHANCHADAS MEXIAM COM A CABEÇA DO POVÃO – E POR QUE O CINEMA PORNÔ ATUAL NÃO MEXE COM A DELE

O mato-grossense David Cardoso encarna como poucos a estrofe de abertura de Mulheres de Martinho da Vila: Já tive mulheres/ De todas as cores/ De todas idades/ De muitos amores. Durante seus 34 de cinema o ator, diretor e produtor celebrizou-se como o maior astro das pornochanchadas e conheceu – no sentido bíblico – algumas das maiores musas do Brasil, como Matilde Mastrangi e Nicole Puzzi. “Nunca na minha vida eu falei pra uma mulher; ‘Transa comigo que o papel é seu’. Comi a maioria mas nunca desse jeito. Elas queriam dar e eu queria comer”, diz.

Apesar de ter estrelado nos populares filmes de Mazzaropi, ter estrelado o clássico Noite Vazia de Walter Hugo Khouri, e em novelas da Globo e da Bandeirantes, David ficou conhecido como o astro das pornochanchadas. Segundo ele, que já participou de mais de 60 filmes nas mais diversas funções (“eu só não fui maquiador”, diz), os seus filmes faziam sucesso por que mexiam com a cabeça do povão. Em entrevista exclusiva a ELEELA, David fala sobre sua trajetória, o estado atual do cinema brasileiro (explícito ou não), polemiza com os atuais padrões de beleza e de quebra ainda narra suas aventuras.

Por que você ficou tão marcado com o cinema da Boca do Lixo?
Eu apareci mais porque era produtor, diretor e ator. Além disso, eu saía do filme e ia trabalhar como jurado no programa do Sílvio Santos, do Raul Gil. O Galante e o Massaini foram muito importantes, mas só trabalhavam na produção. Eu havia feito Cara a Cara com a Fernanda Montenegro na TV Bandeirantes e O Homem Proibido na Globo. O Mazzaropi dizia pra eu não fazer televisão não: “Cardoso, não faz televisão não rapaz. O povo enjoa da sua carta. Quem é que vai pagar ingresso para te assistir depois?”.

Como você foi trabalhar com cinema?
Quando eu era estudante de Direito, em São Paulo, eu contei queria trabalhar em cinema pra um cara no meu trabalho. Ele conhecia o Mazzaropi e fez um bilhete me apresentando a ele. Eu não dormi nessa noite, era louco por cinema. Cheguei lá no largo do Paissandu, fui entrevistado, contratado e aprendi a ser continuísta em O Lamparina, produção de Mazzaropi e direção de Glauco Laurelli. Depois de 45 dias de filmagem, larguei a faculdade. Meu segundo filme foi Noite Vazia, do Walter Hugo Khouri, como continuísta e ator, contracenando com Odete Lara e Norma Benguell. São dois diretores completamente diferentes, aprendi muito com os dois e com muitos outros. Só não fui maquiador, o resto eu fiz de tudo em cinema.

Quando você começou a trabalhar como diretor?
Demorou um pouco. Eu tinha receio. O primeiro filme que produzi foi em 1974, chamava-se Caçada Sangrenta e eu chamei o Ozualdo Candeias para dirigir. O Candeias era um diretor genial. Eu havia trabalhado com ele em A Herança, um Hamlet brasileiro. Ele fazia um cinema diferente, hermético.

E por que você nunca atuou em filmes do Mazzaropi? Você só trabalhou como técnico, para ele, não foi?
Um dia eu cheguei pra ele e disse: “Mazza, por que você não me chama pra ser galã num filme seu?”. Daí ele responde: “Cardoso, você só não é galã porque não quer. É só ir á noite na minha cama, não tem erro”. Não tinha condições. O homem era mais feio que duplicata vencida. Era um gênio, nunca vai haver outro cara como ele no Brasil mais. Eu hoje coloco ao lado do Charles Chaplin, do Jerry Lewis e do Cantinflas. Mas vá ser feio...

Como você saiu do Mazzaropi para as pornochanchadas?
Eu via as comédias picantes italianas, mas não tenho muita noção de como foi essa minha transformação. Eu vi que todo mundo era punheteiro, queria ver mulher pelada e bonita. Então comecei a procurar. Aí foi Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Zilda Mayo, Nicoli Saline que virou Nicole Puzzi, Vera Fischer. Eu lancei todas elas.

E os filmes com elas eram sucessos tremendos...
Modéstia a parte, eu conseguia deixar o público louco de tesão dentro do cinema. Vou descrever uma cena pra você. Não tinha sexo explícito. Eu encontro com a Matilde Mastrangi numa festa de milionários. Saiu num puta carrão e ouço ela falar: “Meu carro tá quebrado”. E eu: “Também não, mas não faz mal eu te dar uma carona, eu moro no Morumbi”. Cinco e meia da manhã, a gente no Morumbi vendo São Paulo do mirante, ela num puta traje a rigor e eu de smoking, e eu apareço com o primeiro agrado, um beijo e corta pra dentro do apartamento. Eu falo: “Espera um pouquinho que eu vou trazer um presente pra você, eu não te conheço, mas gostaria que você viesse aqui”, e dou a caixa pra ela. Corta já pro quarto, ela tomando banho nuazinha, de costas, aparecia o seio, ela abre a caixa, dá um close na cara sacana dela, ai abrindo a câmera e mostra um hábito, de freira. Porque minha tara era comer uma freira. Aí ponho a cabeça embaixo do hábito e ninguém vê, mas sabe que eu tô chupando a perereca dela. E você só vê a expressão dela. Aí, eu me debruço em cima da mesa, tinha um uísque de boca larga, o líquido fica balançando. Eu por trás, transando com ela, só encostado, mas parecia que eu estava fazendo sexo anal. A cabeça dela vai indo pra frente, ela destampa a garrafa e põe na boca e o líquido vem vindo, parece é minha porra, e ela diz que tá gozando. O camarada fica louco, tocando bronha no cinema.

Se você voltasse a filmar, o que faria?
Rodaria uma história no Pantanal. Eu faria um capataz chucro da fazenda. O filme contraria a história de quatro francesas – três mulheres e um travesti – que vêm para o Brasil negociar uma fazenda, e eu transo as três e o travesti. Isso tudo com uma história cheia de cenas bonitas. Mas eu desanimo quando vejo filmes sendo vendidos a R$ 2,00, antes de chegar ao cinema, como aconteceu com esse Tropa de Elite. Devia haver um mecanismo para coibir esse tipo de coisa. Tem ainda uma meia dúzia de pessoas beneficiadas com essas leis de incentivo, cheia de brechas para caixa dois de empresário e produtor mal-intencionado. Por isso eu acabo acompanhando pouco a produção atual.

Uma de suas últimas produções é sobre Aids...
Eu fui o primeiro produtor, diretor e ator a fazer um filme sobre isso. Foi quando o Rock Hudson morreu. Perdi US$ 200 mil, foi um tombo, ninguém ia ao cinema para assistir. Foi bem nessa época que a gente perdeu pro sexo real. Sexo explícito eu nunca fiz. Eu sempre coloquei isso: pornográfico, eu? Pornográfica é a TV brasileira, que eu abomino. Eles (da TV) não gostam de mim porque falo demais.

E você acompanha a produção pornô brasileira?
Há anos não assisto nada disso. Eu já entrei como produtor em três filmes de sexo explícito. Não vi o filme do Frota, nem da Rita Cadillac. Eu não tenho motivação nenhuma pra isso. Há 18 anos eu poderia ter continuado, mas meus interesses eram outros. O que eu acho errado são as pessoas que renegam o que fizeram, como a Xuxa.

Você viveu a época da liberação sexual. Como você vê a situação do sexo nos dias de hoje?
Eu acho que banalizou demais. Há 25 anos atrás, só tinha filme com peito e bunda de mulher, não podia aparecer a parte da frente. Hoje, pornô é aquela coisa: dois caras comendo a mesma mulher, uma outra chupando, já começa com um bacanal. Não leva o sujeito a fantasiar, a criar uma imagem na cabeça dele. Tanto é que todo mundo pega o vídeo e fica correndo as cenas. Ninguém assiste nada do filme, é só o visual mesmo e pronto. Na época da pornochanchada, a Matilde Mastrangi fez um desfile no Gallery (a boate), e leiloou a calcinha dela. Foi um escândalo na época. Hoje qualquer uma faz. O pessoal posa pelado de perna aberta, socialites e atrizes globais, aí quando vão entrevistar elas falam: ‘Não, isso aí foi o Duran que fez, é um ensaio fotográfico’. Mas que ensaio? Perereca é perereca, cara, pau duro é pau duro! Punheteiro vai querer saber quem é Duran? ‘Não, mas eu fotografei na África’. Não importa, aí em Moema mesmo faz, em Guarulhos, o punheteiro não quer saber disso! Você pega dez camaradas e fala: “Você quer comer quem? A miss Brasil, essa que ganhou segundo lugar no Miss Universo ou a Giselle Budchen”. Nove entre dez vão querer a miss. Quem é que quer comer osso? Isso é onda que vocês (imprensa) fazem. A modelo é mais magra que não sei o que. Não sei como o Leonardo Di Caprio comeu um trem daquele.

E as suas mudanças com a idade?
Eu nunca fumei, nunca usei drogas. Eu bebo todo dia, duas, três doses de uísque, umas cervejas. Mas cinco da manhã já tô de pé, tomo meu chimarrão com ervas, e faço uma hora de esporte. Antigamente eu dava três, hoje dou uma. Fazia supino com 100 (quilos), hoje faço com 80. Mas hoje é outra coisa. Eu vejo meu filho. Ele nem tem pra que sair. Pra que? Ele pega o telefone e liga, elas vem e ainda trazem uma pizza. É só você ter grana, ser boa pinta.


Publicado originalmente na edição 431 da revista Ele Ela em novembro de 2007

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