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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

MEMÓRIAS DE UM CAFAJESTE


Por Jece Valadão

Desde a tenra infância, brincando com as priminhas nos fundos dos quintais de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo – de onde teve de fugir do pai de uma moça – Jece Valadão já trazia o germe do grande cafajeste. Neste texto de sua autoria, ele lembra as mulheres com quem transou, defende sua teoria antivirgindade e garante que, em certas circunstâncias, todo homem já foi, um dia, cafetão.
                            
As coisas difíceis me dão tesão. Gosto de tudo o que é difícil – como uma paciência que Napoleão Bonaparte jogava – porque as coisas difíceis satisfazem meu ego. E conquistar o que parece impossível. Em tudo na  vida. Se alguém está interessado em saber se foi assim que ganhei a primeira mulher da minha vida, é bom saber que eu não me lembro quem foi a primeira mulher da minha vida. Só posso dizer que foi assim que eu conquistei a Vera, uma mulher difícil, até hoje. Pelo fato de ela ser uma mulher muito bonita. Na razão direta, ela é muito desejada; e, na razão direta em que ela é desejada, mais me desperta a necessidade de mantê-la junto a mim, presa a mim, entendem?

Vamos fazer um flash-back até Cachoeiro do Itapemirim, uma cidade muito incrível, onde existe o Caçadores Carnavalescos Clube, lugar de elite, onde eu não podia entrar porque era menino pobre, filho de ferroviário. Mas eu tinha uma namorada que frequentava o clube. Era um namoro ás escondidas, porque a família dela não queria de jeito nenhum, porque eu já trazia em mim aquele germe do cafajeste. Um cafajeste meio inibido, morando no interior ainda, porém com o germe do grande cafajeste, que não é outra coisa senão uma desinibição diante da mulher, que eu sempre tive, e e que a maioria dos homens não tem. Não é bem audácia: é desinibição. E, por essa atitude de desinibição diante da mulher do interior, onde ela é resguardada, cercada de todo cuidado, eu representava um perigo para as moças.

Tem o seguinte: não existe mulher honesta, só existe mulher mal cantada. Sempre tive essa opinião: a de que mulher honesta é aquela que nunca foi cantada direito, nunca foi cantada no ângulo certo que ela exige. Desinibidamente. Porque, pelas próprias circunstâncias da sociedade, a mulher sempre foi tratada com um certo recato, em relação aos próprios irmãos, que são homens; em relação ao próprio pai. Hoje, é evidente, isso mudou muito, elas têm um tratamento quase de igualdade em relação aos homens. Mas não vão nunca se igualar porque é impossível mesmo, é um problema até biológico, mas a mulher agora tem acesso a coisas que, na minha época, não tinha, muito menos no interior. E eu era o único rapaz da cidade que, se tivesse desejo de beijar uma moça, beijava, estivesse o pai presente, o tio, o ex-namorado, qualquer coisa. Eu beijava, simplesmente, desde, é claro, que houvesse uma reciprocidade por parte dela. Isso causava escândalos na cidade. Então eu era proibido de me aproximar de qualquer tipo de moça mais chegada à classe A de Cachoeiro do Itapemirim. Por isso, tive de sair de lá. De família pobre, sem nenhuma tradição de nome, sem nenhum acesso aos mais poderosos, tive de me mudar para tentar ser alguém.

Na verdade, não tive de fugir da polícia, mas tive de fugir dos pais de uma moça de lá. Olha, desde que eu me entendo por gente, acho que a virgindade é um negócio tão arcaico, tão superado, que cheguei à conclusão de que, ao nascer uma criança, menina o médico deveria fazer, imediatamente uma pequena cirurgia, entende? Uma incisão para que o grande problema da virgindade deixasse de existir. As cuecas melhorariam, inclusive, porque a mulher cresceria com muito mais liberdade de ação, com muito menos preconceito. É uma membrana ridícula, que cria problemas incríveis, medievais mesmo. Essa minha teoria anticabaço, eu a tenho desde rapazola de 14 ou 15 anos do interior do Espírito Santo, já usando meu sexo. Porque comecei muito cedo. Me auto-usando, mais ou menos dos 13 aos 14 anos, depois comecei a usar mesmo. E só com as menininhas. Sempre tive alergia a homens. Continuo tendo, e espero morrer tendo.


Acontece que sempre há uma prima disponível para a gente brincar de médico. Não conheço nenhum homem que não tenha tido uma prima na vida dele, disposta a iniciação. Foi o que aconteceu comigo. Mas, atenção, que não foi da família da minha prima, ou seja, de minha própria família, que eu tive de fugir, senão não poderia voltar até hoje. E gosta de voltar lá de vez em quando, principalmente pelo fato de eu antes não poder entrar no clube e tal. Em compensação, tive a satisfação de voltar, uma vez, como homenageado principal, no aniversário da cidade que deu tanta gente importante, como Roberto Carlos, Danusa Leão, Darlene Glória, Carlos Imperial, Nélson Ned. Vou muito à minha cidade. E constatei que o pessoal continua criando mulheres bonitas. Aliás, eu sempre reparo em todas as mulheres bonitas, sou um esteta, sou de opinião que todas as mazelas devem ser extraídas da vida, ou pelo menos disfarçadas. Sou absolutamente favorável à beleza total. Eu e Joãozinho Trinta, que disse que intelectual é que gosta de pobreza. E eu concordo plenamente com ele. Porque intelectual é sadomasoquista, né?

Agora, é preciso esclarecer uma coisa: o nome cafetão – quem é que não foi, um dia, em certas circunstâncias? – tem um sentido assim tão pejorativo, mas que pode ser mudado para uma colaboração entre um homem e uma mulher. Ora, se eu estou com uma mulher e ela está melhor do que eu, nada mais justo do que a mulher me ajudar. E a recíproca é verdadeira, certo?

Sabem de uma coisa? No fundo, no fundo, eu devo ser um feminista. Porque sou tão machista...e os dois extremos sempre acabam sempre se encontrando, acabam se completando. Outra coisa: quanto mais liberada a mulher, mais chance tem o machista de sobreviver. Na verdade, acho que a mulher deve ter acesso a tudo, para que ela independa do homem, entende? Na razão direta da independência dela, o machismo pode ser muito mais cultuado. Olha, com esse negócio de eu ter saído de Cachoeiro meio desnorteado com aquela perseguição da tal família importante de lá, cheguei ao Rio ligeiramente apavorado, garotão ainda...E agora já posso voltar, numa boa, a moça já casou, tem filhos e tal, não há mais problemas, quer dizer, o mal foi sanado, entende? Apareceu um boboca, encheu ela de filhos, a família se sentiu recompensada e esqueceu a vingança jurada...

Mas, como eu ia dizendo, cheguei ao Rio meio tumultuado, evidentemente, mas me deu uma louca, eu jogava muito bem sinuca e ronda, aquele jogo de malandro, tanto que hoje tenho pavor de jogo, porque sou um jogador em potencial – se eu me deixar levar, viro jogador profissional, principalmente de cartas...Olhem, hoje não sou um marginal, não sei por que, condições para isso tive...naquele tempo me deu vontade de sair por aí, então fui tão São Paulo, olhava o jornal procurando emprego, arranjava uma pensão até me enturmar, de São Paulo fui pra Curitiba, de lá para Florianópolis, depois Porto Alegre, Uruguaiana, acabei atravessando a fronteira e fui parar na Argentina, em Paço de los Libres, menos de idade, só com uma carteira profissional sem qualquer emprego registrado, jogando minhas sinucas e minhas rondas, pulando por janelas para não pagar as contas, viajando de carona – enfim, eu era um hippie daquela época.

Em Paço de los Libres, lá estou eu tomando uma água, um refrigerante, sei lá, um troço qualquer, sai uma briga, chega a polícia e prende todo mundo, inclusive eu, que não tinha nada a ver com a história. Quando descobriram que eu era clandestino, menor de idade, sem profissão, sem lenço nem documento, me devolveram a Uruguaiana e me entregaram ao Juizado. Dai me perguntaram de onde eu era. Eu disse de onde. O juiz me mostrou o mapa do Brasil e perguntou: “O que é que você está fazendo aqui?”. Eu disse que já tinha vindo andando, e que tinha chegado lá. O papo começou a ficar agradável, eu falei da minha cidade, da minha família, do que tinha acontecido, de como eu tinha ido parar ali, o cara ficou tão impressionado com tudo que acabou me dando um dinheiro, uma verba especial lá do Juizado de Menores, para eu voltar para Cachoeiro.

Peguei o tal dinheiro, entrei num bar que tinha sinuca, perdi tudo. Uma semana depois, me virando de um jeito e de outro, fazendo biscate, o cacete, encontro com o juiz na rua. Ele me conheceu e perguntou o que é que eu estava fazendo ali. Disse que tinha ficado doente, mas que iria naquele mesmo dia de volta. Resultado, peguei um navio cargueiro, desses de pequeno porte, e vim até o Rio. Uma viagem que durou uns 12 ou 15 dias. Eu nunca tinha andado de navio na minha vida, e tinha uns 200 cruzeiros no bolso. No dia 7 de setembro a gente estava em alto-mar, teve de hastear bandeira, aquilo tudo, mas o que interessa é que, quando eu saltei em Niterói, estava com mais cinco mil cruzeiros no bolso, que tinha ganho dos marinheiros, na ronda.

Desci do navio e fui para a casa de uns tios meus que moravam em Padre Miguel, meio Bangu. Logo depois voltei para Cachoeiro. Ninguém exatamente como saí. Acabei locutor da rádio de lá, voltei para cá, trabalhei na Rádio Tupi, ao lado de Ari Barroso e uma porção de gente famosa, entrei para a televisão, teatro, encontrei a Dulce, casei com ela, etcetera...Mas o que interessa é que, nessa viagem, a minha base, geralmente, era a zona de cada cidade em que eu chegava, ou seja, eu tive um aprendizado de malandragem que agora é muito válido na minha vida.

Falando sério, sou três personagens ao mesmo tempo: o empresário bem-sucedido, quando estou atrás da mesa do meu escritório; o chefe de família, quando estou dentro de minha casa; e o grande cafajeste, quando estou em cena. São três homens em um só. E, já que vocês todos estão loucos para saber, em matéria de sexo sou uma pessoa absolutamente normal, da qual, até hoje, mulher alguma reclamou. O que me leva à certeza de que sou um anormal, porque, pelo que sei, elas reclamam muito dos outros homens.

Por exemplo: quando comecei na Rádio Tupi, ganhava tão pouco que dava exatamente para pagar a pensão da dona Matilde, na Rua da Alfândega, para a minha condução e para comprar uma roupinha ou outra. Então, eu não tinha a menor condição de sobreviver. Mas acontece que conheci uma mulher famosíssima na época, estrelíssima, rainha do Carnaval, rainha do Cinema e tudo, chamada Rosângela Maldonado. Foi uma mulher que me marcou muito. Ela me sustentou, durante muito tempo. Por quê? Porque ela tinha condições e eu não. Em síntese: eu já fui sustentado por mulher. Mas quem não foi? E é preciso ser muito honesto para confessor isso! Pra culturinha geral: eu ganhava 600 mil-réis por mês, pagava 450 de pensão, o que é que sobrava de resto? Então fui morar com quem me dava casa, comida, roupa lavada, um dinheirinho, em troca de companhia, amor, prazer, mesmo porque ela gostava de mim, e só por isso é que me dava tanta coisa, porque gostava de mim. E eu contando isso, hoje, ao contrário de denegri-la, enalteço-a. Eu só tenho boas recordações dessa moça, que foi uma ajuda na minha vida, no momento em que precisei. Não sei onde é que ela está, mas se soubesse que estava precisando de alguma coisa, eu a ajudaria, entende? Retribuiria essa ajuda, com o mesmo prazer e a mesma disposição. Foi uma alma boa que encontrei na minha vida, na hora em que mais precisei.

Isto é ser cafetão?

Se essa fase da vida da quase totalidade dos homens, principalmente da minha geração, é negada por muitos, eu tenho a maior honra em confessar. Acho digno, tanto da parte dela, de ter me ajudado, quanto da minha parte, de ter aceito. Agora, se esse fato é considerado como cafetinagem, então eu me confesso um cafetão. Mas para mim é apenas uma obrigação de agradecer a Deus ter encontrado uma determinada pessoa num certo momento que mais precisava. Importante: uma pessoa disposta a ajudar alguém – coisa, aliás, bem rara, cada vez mais. E para a qual eu estou disposto a retribuir todos os favores. Se é o que o que eu dei a ela, na época, já não tinha sido uma retribuição.



Uma coisa que também marcou muito na minha vida era um concurso que havia entre os garotos da minha idade: o de ejaculação a distância, através da masturbação. Era quase todo dia. Mas a primeira sensação de orgasmo que senti, em contato com mulher – que não foi a primeira mulher da minha vida, porque essa eu nem me lembro -, foi exatamente com uma prima, dentro de um armário escondidos. Meus pais tinham saído, foi uma experiência esquisitíssima, não deu nem para entender direito. Por ironia do destino, ela se apaixonara por mim, tinha dado um problema enorme dentro de casa, eu com uns 13 anos de idade...Agora, o último orgasmo, deixa eu contar, foi há meia hora!

Realmente, mulher dá muito trabalho.  Se vocês pararem para pensar, o ato sexual, em si, dá uma tremenda mão-de-obra, para dois segundos de prazer. Mas esses segundos são tão importantes! Aí é que vem o problema da relatividade do tempo. O tempo, que não existe. Porque se vocês pararem para pensar, racionalizar, vão chegar à conclusão de que não compensa a mão-de-obra de um ato sexual: a gente tem de tomar banho, tirar a roupa toda, ás vezes está um calor tremendo, a gente transpira paca, há necessidade de um esforço enorme para agradar, porque é o tal negócio, o bom trepador tem de agradar primeiro a mulher, depois pensar nele. E ás vezes a gente pega mulheres tão difíceis, tão duras de serem agradadas, que a gente tem de se esforçar ao máximo, tem de fazer tanta coisa, tanta coisa, para no final ter alguns instantes de euforia. Se alguém parar para pensar, vai contar até 10, antes de começar.

Eu tive um tempo – antes de conhecer a Vera, é preciso que eu diga – em que estive numa fase de euforia total, querendo comer o mundo inteiro. Mas chegou um momento de estafa, tão grande, que cheguei a desejar a impotência, porque daí tirava esse problema da minha cabeça. Só para provar que eu era macho, eu queria comer o mundo inteiro. O que é uma besteira, porque é muito mais difícil conquistar a mesma mulher todos os dias do que conquistar uma mulher por dia. Se eu sair por aí, conquisto 10 mulheres a cada dia, e isso não leva a nada. É muito mais difícil conquistar a mesma mulher todos os dias. O que existe é a perfeição da conquista.

Quando eu fiz o Boca de Ouro, nos Estúdios Herbert Richers, na Tijuca, depois do filme estreado e tal, pinta lá uma mulher, ás seis da tarde mais ou menos, uma grã-fina aí, da mais alta sociedade daquela época, tremendo carrão, dizendo que queria falar comigo. Fui. Ela perguntou onde é que estava minha boca de ouro. Disse que estava em minha casa, que a boca de ouro era um belo trabalho de um protético, então ela me fez ir para casa, apanhar o tal trabalho protético, colocar na boca e tudo, para ter relações com ela. Ela queria comer o Boca de Ouro, não o Jece Valadão. E eu não podia ir pra minha casa, não podia ir pra casa dela, hotel ela nem pensava, naquele tempo ainda não tinha motel, sabem aonde é que a gente foi fazer amor? Lá em frente ao Itanhangá, em cima de um banco, no meio do mato, perto de uma cachoeira, onde hoje há um loteamento enorme, eu com a boca de ouro, a mulher olhando pros meus dentes, formiga me mordendo de todos os lados. Nós saímos de lá todos os dois empolados, empoladíssimos.

É mais ou menos o suficiente para todos nós chegarmos à conclusão de que o Nelson Rodrigues tem razão. Todas as razões.

Vocês se lembram quando faltava muita água no Rio? Pois eu conheci a mulher de um jornalista famoso aí, linda maravilhosa, com a qual aconteceu uma das coisas mais apocalípticas que já aconteceram na minha vida. Ela me conheceu e resolveu me comer. Eu, modestamente, consenti em ser comido por ela. Marcado o encontro, no apartamento de uma amiga, solteira, em Copacabana, ela chegou primeiro, eu fui depois. Quando cheguei, a música era ambiental, as luzes estavam apagadas, à tardinha, o ambiente altamente romântico. Uma garrafa de vinho foi aberta, tudo, até a gente ir para a cama. Foi uma loucura. De repente, senti uma quentura escorrendo pelas minhas pernas. Olha, era cocô puro! Eu fui ao banheiro, abri as torneiras, nada de água. A mulher lá na cama. Apelei para uma garrafa de álcool, vesti a roupa e me mandei, cheio de bronca, muita bronca. Nunca mais vi essa mulher. Aliás, espero não encontra-la nunca mais! E acredito que ela, também, nunca mais queira me encontrar.

Mas faço absoluta questão de exigir uma ressalva, pra fim de papo: que tudo isso aconteceu antes da Vera, minha mulher, entrar na minha vida. E antes de eu me transformar num executivo, de vez em quando ator, fazendo o papel de cafajeste-padrão.


Publicado originalmente na revista Ele Ela em julho de 1980 

sábado, 12 de outubro de 2013

Memórias de um Cafajeste- parte X: Opiniões sobre a Embrafilme


                   
Por Jece Valadão

Quando a Embrafilme foi fundada, eu fui um dos primeiros produtores a ser chamado para participar como sócio, comprando cotas.

Era uma época de ditadura. Como eu não era comunista, fui logo chamado.

Nunca fui de direita, mas não era comunista.

Figueiredo
O fato de eu ter amigos como o ex-presidente Figueiredo também colaborou para a discriminação do pessoal do Cinema Novo em relação a mim.

Aconteceu que eu conheci o Figueiredo antes de ele ser presidente.

Nunca vi motivos para deixar de ser amigo dele.

Ameaça americana
Por causa das minhas idas à Brasília para defender o cinema nacional, tive a oportunidade de falar com quatro presidentes.

Sempre acontecia a mesma coisa. O presidente se assustava com o que a gente falava – como, por exemplo, que o negativo pagava mais imposto do que o filme pronto que vinha de fora – mas quando ele estava se preparando para tomar alguma atitude, chegava o representante do cinema americano e ameaçava com o corte de importação do café ou de outro produto que o Brasil estivesse exportando para os Estados Unidos.

Reivindicações
O objetivo das nossas conversas com os presidentes era sempre o mesmo: uma lei que permitisse a formação de uma indústria de cinema nacional

Resultados
Depois de muita luta, conseguimos uma reserva de mercado. A lei existe até hoje, mas ninguém cumpre mais.

Cabide de empregos
A finalidade da Embrafilme, quando foi criada, era incentivar e prestigiar a indústria de cinema nacional, com recursos advindos das taxas cobradas sobre os filmes americanos exibidos aqui no Brasil.

Na razão direta em que a produção brasileira fosse crescendo, automaticamente iria diminuindo também a arrecadação sob o filme estrangeiro.

A ideia era que com o tempo, ao fortalecer a produção nacional, a Embrafilme acabasse.

Só que não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, a Embrafilme acabou virando um cabide de empregos deixando de lado, inclusive, o interesse em desestimular a entrada do filme americano no Brasil.

PROTECIONISMO NORTE-AMERICANO
O cinema americano é protegido pela mídia e por interesses muito poderosos. É no bojo do cinema que vem a música americana, o costume americano, o carro, o chiclete...

Por causa disso, a postura do cinema americano sempre foi de domínio.

Postura de domínio
Para manter o mercado funcionando, o Brasil consumia quatrocentos filmes por ano.

Na época, nós produzíamos cerca de cem filmes por ano, portanto o mais justo seria o governo permitir a importação de no máximo trezentos filmes estrangeiros.

Mas o que acontecia era bem diferente. Importávamos seissentos, setessentos filmes por ano, sobrando produto. O melhor, a oferta era maior do que a procura.

Pressão
O resultado disso era que o exibidor, que é um comerciante, obviamente preferia programar filmes americanos, que já vinham com um grande apoio da mídia.

A imprensa brasileira era a primeira a divulgar o cinema americano, pressionada pelas empresas americanas que ameaçavam parar de anunciar nos jornais, revistas e TVs.

Quer dizer, todos eles estavam unidos no sentido de exibir o cinema americano no Brasil e acabar com o cinema nacional.

Isso porque o cinema brasileiro já estava começando a fazer frente ao filme americano no nosso mercado.

Lucro fácil
Além de todo o apoio da mídia, o filme americano também já chegava aqui pago e com lucro.

Como o que ganhasse aqui já seria lucro extra, o distribuidor americano oferecia o filme praticamente de graça para o exibidor.

Foi dessa situação absurda que teve início a nossa luta pela reserva de mercado.

Representante americano
Qualquer reivindicação dos cineastas brasileiros repercurtia imediatamente nos Estados Unidos.

Eles não eram bobos, não. A Associação dos Produtores Americanos pagava um sujeito, o Harry Stone, para representar os interesses deles aqui no Brasil.

O interesse era tão grande que ele, que não era muito chegado ao sexo feminino, chegou até a se casar com uma brasileira.

CINEMA BRASILEIRO HOJE
A saída do cinema brasileiro hoje são as grandes produções.

Não acredito mais na produção em ritmo industrial; o fime brasileiro tem que ser pensado para atingir o mercado exterior. Como está acontecendo com filmes como O Cangaceiro, Tieta do Agreste, O Quatrilho...

Em vez de muitas produções, vamos fazer uma média de apenas dez filmes por ano. Mas filmes que tenham condições de despertar interesse no mundo todo.

Divulgação
O cinema nacional é discriminado sem culpa.

O Brasil sempre foi um importador de filmes; de repente nas décadas de 60 e 70 começou a ser produtor.

Só que o país não se preparou para ser um produtor de cinema. Todas as leis eram direcionados ao filme que vinha pronto.

Trailer
Existia uma lei, por exemplo, que proibia você de exibir um trailer antes de o filme estar pronto. A censura só dava o certificado para o trailer se a cópia estivesse junto. E isso ficou valendo também para o filme nacional.

Consequentemente, você não podia promover seu filme no cinema onde ele seria exibido.

Já o filme americano, que vinha pronto, podia ser divulgado à vontade.

Qualidade do som
Além disso tinha o problema da qualidade dos equipamentos das salas de exibição. O som era péssimo, mas como as fitas americanas tinham legenda, ninguém notava.

Quando as pessoas tiveram que prestar atenção nos diálogos dos filmes nacionais, se assustaram.

As salas tinham os piores equipamentos do mundo.

A EXPERIÊNCIA DO FILME AMERICANO
O hábito de assistir filmes americanos com legenda também prejudicou muito o crescimento do cinema nacional.

Como o brasileiro não fala nem português, quanto mais inglês, quando ele via um filme com legendas era como se estivesse assistindo uma história de quadrinhos. O cara lia a legenda e quando ia ver a cena, já tinha outra legenda. E ficava nesse vai-e-vem a projeção inteira.

De acordo com o estado de espírito do cara, ele julgava aquele filme.

Ele via um filme dois filmes, dez filmes americanos.

Aí, de repente, ele é apanhado de surpresa por um filme brasileiro. Apagam-se as luzes e não tem legenda. De cara, ele já leva um susto.

Sem o empecilho da legenda, o cara liberta todos os seus sentidos: auditivo, visual, tudo.

Em consequencia, ele começa a ver o filme de uma forma totalmente diferente: em toda a sua plenitude.

Aí ele percebe que o som é ruim.

Por quê? Porque não tem acústica, porque o alto-falante está rachado.

Ele começa a ver a fotografia esmaecida.

Por quê Porque a projeção é ruim, a lente está suja, a tela está imunda.

E, ainda, não tendo que ler a legenda, pela primeira vez ele se depara com um filme na sua totalidade.

Enfim, ele vê todos os defeitos que não vê no filme americano; porque se ele se libertasse também no filme americano, veria defeitos também.

É verdade que menos defeitos, porque o cinema americano era e é melhor que o nosso. Mas também tem defeitos.

Julgamento
Outra coisa muito comum era o julgamento que o cara fazia do filme.

Ele via um filme americanizado; se não gostasse, dizia que aquele filme era ruim.

Já quando não gostava de um filme brasileiro, o cara culpava de cara todo o cinema nacional.

Saía alardeando contra toda a produção brasileira.

O público brasileiro
Graças a Deus essa dominação americana está acabando.

O brasileiro está começando a ter auto-estima; está aprendendo a exigir os seus direitos.

Cinema na TV
Você não consegue vender filme brasileiro para a Globo. A Globo acha melhor importar qualquer porcaria americana.

Originalmente publicado em: VALADÃO, Jece. Memórias de Um Cafajeste. São Paulo: Geração Editorial, 1996.

sábado, 5 de outubro de 2013

Memórias de um Cafajeste- parte IX: Reflexões sobre cinema



Por Jece Valadão

CINEMA NOVO

No mesmo ano em que nós filmamos Os Cafajestes, o Glauber estava dirigindo Deus e o Diabo na Terra do Sol, o Roberto Farias estava fazendo O Assalto Ao Trem Pagador e, em São Paulo, o Massaini estava produzindo, com direção do Anselmo Duarte, O Pagador de Promessas.

Quer dizer, num mesmo ano foram feitos quatro filmes importantes, que deram início a uma deslanchada do cinema nacional e ao aparecimento do Cinema Novo.

Exclusão

Surgiram diretores como Bruno Barreto, o Cacá Diegues, o Jabor, o Domingos de Oliveira, entre vários outros.

Eles fizeram uma panelinha e eu simplesmente fui excluído por não concordar com o tipo de filme que eles faziam: um cinema político, de prostesto, de contstação.

Eu sempre quis fazer cinema-arte, cinema-cultura; ou então, um cinema para ganhar dinheiro.

Cu de touro

Depois dos Cafajestes, enquanto eu produzia filmes como Boca de Ouro, Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja, o pessoal do Cinema Novo fazia um cinema que mais parecia o Cu do Touro.

Mais sério que cu de touro não existe.

Atuação

A minha exclusão da panelinha do Cinema Novo tinha um lado engraçado, porque eu atuava, ao lado deles, no meio político cinematográfico, mas não era aceito no meio cultural. E cultural, aqui, eu coloco entre aspas...

Discriminação

Fui discriminado por toda a panelinha do Cinema Novo durante muito tempo, apesar de ter feito filmes como, com o Nelson Pereira dos Santos; um filme respeitado pelos intelectuais até hoje.

Reconciliação com o Cinema Novo

Recentemente fiz as pazes com o Cacá Diegues. Ele me chamou para fazer Tieta do Agreste e eu fui.

Foi ótimo reencontrá-lo. Ele é maravilhoso.

O que havia realmente era uma desinformação, pontos de vista políticos diferentes; mas puramente políticos.

Eles não entendiam a minha postura de não querer fazer política e eu não entendia a postura deles de fazer política através do cinema.

Mas com o tempo isso foi esclarecido.

Técnicos e atores

Já os técnicos e atores gostavam muito de mim, porque eu era o diretor que mais produzia filmes e que, consequentemente, oferecia mais trabalho para eles.

Ator

Acho que essa discriminação não tinha nada a ver com a minha qualidade como ator. O Glauber me achava um ótimo ator. O Nelson Pereira dos Santos também.

Mas em virtude da discriminação política, houve um afatamento por parte de muitos diretores. Uma elite de meia dúzia de pessoas.

Chama acesa

Eu não tiro o mérito que o Cinema Novo tem. O mérito de manter a chama do cinema brasileiro acesa.

Poder na mídia

O pessoal do Cinema Novo tinha um poder muito grande na mídia.

Todos eles eram ligados ao pessoal da imprensa e acabavam exercendo um certo domínio, execrando os outros cineastas do país.

CHANCHADA

A chanchada, que teve um valor fundamental no cinema brasileiro, foi execrada pelo Cinema Novo e pela crítica. Eles achavam a chanchada uma bosta.

Só que através da chanchada foram criados os técnicos, os autores, os artistas, cenógrafos, figurinistas...Os mesmos técnicos que foram usados pelo Cinema Novo.

Revisão crítica

Hoje está sendo feita uma revisão crítica da chanchada.

Acho que ela foi fundamental para o cinema brasileiro. Os filmes tinham um público de dobrar o quarteirão.

Eram filmes ingênuos, superengraçados.

Originalmente publicado em: VALADÃO, Jece. Memórias de Um Cafajeste. São Paulo: Geração Editorial, 1996.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Memórias de um Cafajeste- parte VIII: A repercussão de Rio, 40 Graus e Rio Zona Norte



Por Jece Valadão

“No Rio nunca fez quarenta graus”
O filme é lindo, maravilhoso. E foi feito sem recurso nenhum. Recurso zero.

Só que mesmo pronto, nossos problemas não acabaram. Veio a censura e proibiu a estreia. Foi aquela luta para liberar o filme.

Uma das alegações do chefe de polícia para proibir o filme é que ele era uma mentira do começo ao fim, porque nunca tinha feito quarenta graus no Rio de Janeiro. Só que ele teve o maior azar. No dia seguinte a essa declaração, os termômetros da cidade indicavam claramente: estava fazendo quarenta graus.

Para liberar o filme fizemos um trato com o Juscelino Kubischeck, que na época era candidato a presidente da República. Procuramos o diretor de campanha e ele propôs que a gente colaborasse na campanha em troca da liberação do filme.

O Nelson, comunista, apoiando o Juscelino...o Modeste de Souza, um antor antigo, também comunista, apoiando o Juscelino...Sobrou para mim. Armamos uma banquinha – aquelas de distribuir santinho – na Cinelândia e a minha função era entrar no bonde superlotado, na hora do pique mesmo, e fazer um discurso relâmpago: “Meus amigos, estou aqui em nome da democracia para dizer que o presidente da República sem maioria no Congresso, não pode fazer nada, porque quem manda é o Legislativo. Por isso, o nosso homem é o Juscelino Kubnischeck”. O bonde chegava no ponto, eu saltava, pegava outro e assim ia...Quatro horas fazendo a mesma coisa; e, ainda, sendo vigiado pelo diretor de campanha.

Graças a tudo isso, o filme foi liberado e fez o maior sucesso.

Trilogia
Logo em seguida, começamos a fazer Rio Zona Norte. A ideia era fazer uma trilogia: Rio 40 Graus, Rio Zona Norte e Rio Zona Sul.

O último deles, Rio Zona Sul, o Nelson acabou não fazendo.

CURSO STALIN
Na época do Rio 40 Graus, tive uma participação comunista ativíssima, só que de pouca duração.

Toda a equipe tinha ligação com o partido comunista, menos eu. Sempre fui capitalista, e eles não se conformavam: “Você tem que aderir”.

Presionaram-me de tal maneira que eu acabei cedendo. Marcaram uma noite para eu estar numa esquina do centro do Rio, ás nove horas.

Chega um carro, encosta; um cara salta do carro, abre a porta de trás, me empurra para dentro, me bota uma venda nos olhos e sai a mil por hora. Do meu lado, no banco de trás, tinha uma pessoa com uma venda, também; na frente, o motorista e um outro cara vigiando a gente.

O carro rodou, rodou, mais de uma hora e meia; até que parou. Levaram-me para dentro de uma casa e só aí tiraram minha venda. Não tinha a menor ideia de onde eu estava.

Ganhei um nome de guerra: Rogério.

Dentro da casa tinha várias pessoas; todas desconhecidas. Cada uma tinha um nome de guerra e uma função diferente: “Você, você e você cuidam da parte da limpeza; vocês lavam a louça...”. Distribuíram serviço para todo mundo.

De manhã, de tard e de noite: tome política. Vinha um professor, reunia todo mundo e começava a aula.

Fiquei vários dias sem ver a luz do sol. A casa só tinha uma porta – por onde entrava e saía o professor -, que era vigiadíssimo dia e noite.

Foi quase um mês lavando louça e aprendendo sobre Stalin. O chamado curso Stalin.

Quando saí de lá queria pegar uma metralhadora e matar tudo que era capitalista, tal a lavagem cerebral que me fizeram.

Só que a minha história comunista, depois que eu saí de lá, não durou três dias.

No primeiro dia de comuna, depois que terminei o curso, fui distribuir prospecto dentro da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.

Fui preso na hora.

Chegando na delegacia, os sacanas falaram para mim: “Você, esquece, está queimado”. Deixeram-me lá. O cara era preso, estava queimado no partido.

Fiquei puto: “O quê? Vocês vão para puta que os pariu”. Cheguei para o delegado e falei que era um inocente-útil e contei tudo o que tinha acontecido. Só não dei o endereço porque não sabia.

Os sacanas não mandaram um advogado para me defender, nada; me deixaram sozinho lá.

Depois que consegui sair da prisão, nunca mais quis saber de ser comunista.

A FAMA
Fiquei conhecido no país, como ator, quando ganhei o prêmio de melhor interpretação, por causa do Rio 40 Graus.

Antes eu fazia rádio-novelas, e é muito difícil ficar conhecido só por causa da voz.

RiO ZONA NORTE
Rio Zona Norte também era sobre o malandro, mas outro estilo de malandragem.

O malandro do Rio 40 Graus era mais autêntico, do morro. Já o do Rio Zona Norte era o malandro de rádio.

Malandro asqueroso
O Grande Otelo fazia o papel de um compositor de morro e eu fazia um locutor de rádio, ligado às cantoras. O personagem do Grande Otelo compunha os sambas e levava para o meu personagem apresentar para uma cantora, que gravava essas músicas.

Tipo a Ângela Maria, que fazia muito sucesso na época.

Aí, meu personagem, como um bom malandro, lia a letra do samba e mudava alguns detalhes, trocando por exemplo “também não” por “não também”. Alegava co-autoria e assinava a letra. Quando o disco era gravado, só saía o nome do meu personagem. O nome do autor de verdade não aparecia.

Isso existe até hoje. Um tipo de malandro bem asqueroso.

Originalmente publicado em: VALADÃO, Jece. Memórias de Um Cafajeste. São Paulo: Geração Editorial, 1996.

sábado, 28 de setembro de 2013

Memórias de um Cafajeste- parte VII: Jece e Rio 40 Graus




Por Jece Valadão 

O malandro

O malandro não é necessariamente um cafajeste. Ele pode ser um bom malandro ou um vagabundo. O malandro que eu fiz no Rio 40 Graus era um malandro de morro; bo bom sentido carioca.

Para fazer esse malandro, nós frequentamos a favela durante muito tempo, por mais de um ano. Aproveitei aquele convívio para estudar bem a malandragem, os malandros de morro, não o marginal ou o assassino.

E esse malandro me deu meu primeiro prêmio como ator, em 1956.

O prêmio

Eu interpretei tão bem o malandro que quando meu nome foi sugerido para ganhar o prêmio de melhor ator do ano, o Juraci Camargo, que era o presidente do júri, protestou. Ele disse que não podia, porque aquele prêmio era destinado a atores profissionais. Ele achava que eu era um malandro de morro de verdade, que tinha sido escolhido lá na favela pelo Nelson Pereira dos Santos.

Até então, eu tinha feito pouca coisa: alguns filmes na Atlântida, umas duas ou três chanchadas e Nobreza Gaúcha; por isso o Juraci Camargo não me conhecia.

Quando ele soube que eu era ator, que já havia feito outros trabalhos, não teve dúvida: me deu o prêmio.

É um dos prêmios que eu guardo até hoje com o maior carinho.

Além da estatueta, uma mulher nua- o que é bem significativo-, ainda ganhei um cheque, que consertou minha vida por um bom tempo.

Alma lavada

Na saída do cinema, depois da entrega do prêmio, encontrei nada menos que o Watson Macedo. Háháháhá... Junto com ele, Eliana, Cyll Farney e toda a turma da chanchada.

O Macedo, sem se lembrar do que tinha me dito dois anos antes, me convidou para fazer um filme com ele.

Respondi que não podia, que para fazer um filme com ele tinha que ser um galãzinho de merda, que saí nas ruas e as mulheres corriam atrás

Não sei se ele entendeu, não sei se ele se lembrou. Só sei que lavei minha alma.

O FILME

Quando conheci o Nelson Pereira dos Santos, ele tinha já um projeto de fazer o filme Rio 40 Graus. Em função da nossa participação no congresso, ele me convidou para participar. Topei na hora.

Rio 40 Graus foi um marco na história do cinema do Brasil. Tinha uma linguagem e uma temática totalmente novas no cinema nacional.

O apartamento

Para fazer o filme, toda a equipe se mudou para um apartamento de dois ou três quartos, não lembro bem, na praça da Cruz Vermelha.

Morávamos eu, que era ator e assistente de direção; o Nelson, que além de diretor também era o roteirista do filme; o Hélio Silva, diretor de fotografia; o Ronaldo Carvalho, que era assistente do Hélio; o Zé Keti, que era ator e fazia a música do filme; o Olavo Mendonça, diretor de produção; a Marlizinha, que era uma espécie de quebra-galho do Nelson; e a mulher do Hélio Silva, que depois de um tempo saiu e foi até lavar roupa para ajudar o marido.

Era um negócio impressionante. Eram oito pessoas, uma equipe inteira, nesse apartamento. E a gente só saía para filmar quando tinha dinheiro.

O Hélio Silva conseguiu uma câmera do Ministério da Educação; e só que era uma câmera de cinema mudo, e ele teve que adaptá-la para fazer um filme falado. A luz, quatro ou cinco refletores, foi emprestada por um amigo do Nelson que consertava refletores. Junto com a luz, ele emprestou também uns tripés velhos, que ninguém usava mais; e o resto era rebatedor e sol.

Para conseguir algum dinheiro montamos uma cooperativa, e uns amigos nossos do Banco do Brasil, o Ciro e o Mário, vendiam cotas para os funcionários do banco.

Com esse dinheiro a gente pagava o aluguel do apartamento, comprava comida, quer dizer, comprava macarrão, que era só o que a gente comia. Só dava macarrão, que era só o que a gente comia. Só dava macarrão, pão e café. Todo dia a mesma coisa. E, ainda, claro, comporava negativo com esse dinheiro.

Os outros atores – a Glauce Rocha, o Roberto Bataglin, o Mauro Mendonça, a Cláudia e os três garotinhos -, trabalhavam para receber depois.

Curso de cinema
Primeiro escolhemos o morro em que íamos filmar. Era o morro do Cabuçu, que tinha uma quadra de escola de samba, a nossa base. A gente deixava todo nosso material lá. A equipe só tinha uma kombi à disposição; e ainda por cima, uma kombi bem velha, caindo aos pedaços.

Para filmar, a gente sempre dependia de três fatores: sol, dinheiro e dos ensaios da escola de samba.

Quando chovia e a gente não podia filmar, ficava dentro de casa. Acabava o negativo, ficava dentro de casa. Aí alguém conseguia uma lata de filme, a gente saía para filmar.

Quando a escola de samba ensaiava, a gente ia filmar. Se a escola de samba não marcava ensaio, não filmávamos, porque o suor era da escola de samba mesmo.

Como a gente ficava muito tempo sem poder filmar, trancado no apartamento, tive o maior curso de cinema da minha vida. O Nelson tinha recém-chegado do IDEC. E sempre que a gente tinha de ficar no apartamento sem filmar, ficava fazendo num quadro-negro os planos de filmagem com enquadramento, movimento de câmera, com toda a cenarização do filme. Uma aula de cinema. Como cortava, de onde cortava para onde, qual a lente que deveria ser usada, o diafragma, tudo. Foi minha iniciação como técnico no cinema.

Nos intervalos, a gente fazia campeonatos de xadrez.
Não havia como sair de casa, a gente não tinha dinheiro para nada.

Aí a coisa começou a apertar, porque o filme estava demorando muito. A gente já tinha vendido todas as cotas; não tinha como vender mais de cem por cento das cotas; se não vira picaretagem. Não tinha mais o que fazer; começou a faltar até comida.

A solução
Eu, que era solteiro, fui o escolhido para sair na rua e arrumar namorada. Conhecia a menina, levava para casa, transava com ela. Aí ela gostava e ia ficando. Logo percebia que nem café tinha em casa.

A menina ficava com pena e ia comprar café, comida e cozinhava pra gente. Era aquela alegria.

Quando a menina enjoava e ia embora, eu saía para a rua e arranjava outra.

Quando não tinha mulher em casa, era o Nelson que cozinhava. Eu lavava os pratos e o Hélio arrumava a casa; cada um fazia uma coisa.

A amante do dono do supermercado

Até que de repente mudou uma mulher com um bebezinho para um apartamento na frente do nosso.

Esse prédio tinha um poço de respiração no meio, e por isso a janela do nosso apartamento dava para a janela do apartamento dessa mulher.

Um dia eu estava na janela e lá estava ela. Ela me viu; saiu aquela troca de olhares. Na hora fui perguntar para o porteiro quem era aquela mulher. “Ela é mulher de um cara que é dono de um armazém”. Eram uns armazéns enormes, equivalentes aos supermercados de hoje. E a mulher era amante do dono de um desses armazéns.

A solução estava ali. Imediatamente comecei a paquerar a mulher. Até que um dia ela não resistiu...Fui lá, mas antes que acontecesse qualquer coisa, contei toda a história para ela. Disse que éramos cineastas, que estávamos fazendo um filme, mas que não tínhamos dinheiro para nada; contei toda a nossa miséria. E fui para a cama com ela.

A mulher era uma sádica; me arranhou todo com umas unhas enormes.

Detesto sentir dor, ser machucado. Mas ali era questão de obrigação. Ela me arrancava cabelço, me puxava, me arranhava...Quando voltei para casa, parecia que tinha vindo da guerra. Estava todo arranhado, ensanguentado.

Em compensação, meia hora depois chegava uma cesta básica, com tudo o que a gente tinha direito dentro.

A reação de todos foi imediata: “Agora você tem que ir lá todos os dias”. Era a nossa salvação. Mas eu não queria mais aquilo de jeito nenhum. Era a mulher chegar na janela que eu fugia, passava por baixo da janela para ela não me ver.

Minha tranquilidade acabou no dia em que a cesta básica terminou. Na hora começou a pressão. Não teve jeito. Tive que voltar lá. Um sacrifício.

Antes de qualquer coisa já fui falando para a mulher que eu detesto sentir dor. “Ah, e tem outra coisa: quando você mandar uma cesta, manda uma maior, pô, que são oito pessoas”.

Depois dessa introdução, fomos ás vias de fato. Foi a primeira; ela toda entusiasmada, se segurou. Só que chegou uma hora, na segunda, que ela não aguentou mais; se soltou, e puta que pariu: arranhou no mesmo lugar. A ferida foi pior ainda.

Voltei para casa, a cesta chegou e fui logo avisando: “Podem se contentar, porque lá eu não volto mais; não tem jeito”.

A mulher ficou duas semanas sem me ver. Quando a gente saía para filmar, comia sanduíche para economizar a cesta.

Só que a mulher não se aguentou com o meu sumiço e começou a fazer escandalo. “Vem aqui. Se não vier jogo meu filho pela janela”. Segurava o garoto pela perna na janela; um bebezinho. O Nelson, vendo aquilo, falava para eu ir lá acalmar a mulher. “Vai lá!”. “Vai você, pô!” E a mulher lá, fazendo escandalo. Acordou o edifício inteiro. Queria chamar a polícia...um horror. Se a polícia viesse a coisa ficar preta; o Nelson fichado no Partido Comunista; o Olavo também comunista; o Zé Keti, favelado. Iam prender todo mundo.

Eles falavam pra eu ir; a mulher gritando...Não teve jeito. Fui; pela terceira vez. Três vezes. Fui logo falando para a mulher que era a última vez, porque eu ia mudar de lá.

Para a mulher mudei mesmo, porque ela nunca mais me viu.

E assim nós fizemos o Rio 40 Graus, com todo o sacrifício do mundo. E mais os meus arranhões.