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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Um rolê para o outro cinema

Prêmio reúne veteranos da Boca paulistana



Tarde de dezembro. O público chega devagar ao espaço Matilha Cultural no centro de São Paulo. Lá teria início um evento que reuniu cineastas, atores, técnicos, pesquisadores e anônimos que de alguma maneira gostam da antiga Boca paulista. Tratava-se da primeira exibição pública do longa-metragem Rua do Triumpho- o filme do veterano Mário Vaz Filho. Era também a segunda produção do Instituto Ozualdo Candeias, entidade que reúne remanescentes da Boca do Lixo paulista. “Fiquei 2015 todo montando e remontando esse filme. Deu um trabalho do cão”, reclama Marinho.
                
Já o produtor Diomédio Piskator é mais otimista. Presidente do Instituto, ele comemora que a primeira produção da entidade (Memórias da Boca) chega na quarta semana em cartaz no Cine Belas Artes. Piskator afirma que novos projetos devem estrear em breve. “Fazemos tudo de maneira independente. Nossa ideia principal é manter o pessoal ativo”. Misto de documentário e ficção, Rua do Triumpho é um trabalho que sofre com o orçamento controlado. Mesmo assim, existem boas ideias e momentos engraçados. Principalmente quando o foco do filme fica nos suvaquinistas. “Eram aquelas pessoas que carregavam o roteiro debaixo do braço, mas não concluíam nada. Os fazedores de filmes inacabados”, explica Mário Vaz Filho. Ele afirma que conheceu diversos suvaquinistas na rua do Triunfo. Muitos não chegaram a terminar nenhuma produção. “Agitavam, agitavam e acabavam não concluindo nada”, diz rindo.

Rua do Triumpho foi produzido sem nenhum recurso público tendo como protagonistas remanescentes da própria Boca como Clery Cunha, José Lopes (Índio), Zé da Ilha e Franco Lino. A aposta é que o filme chegue a ser exibido no próprio Belas Artes. “Eles possuem um espaço legal pra quem trabalha de maneira independente. Não temos por trás nenhum apoiador”, conta Diomédio.

Após a exibição do longa-metragem, aconteceu a segunda parte do evento. O Instituto Ozualdo Candeias organizou a entrega da primeira edição do prêmio Francisco Cavalcanti, destinado a personalidades do cinema paulista. O evento aconteceu no restaurante e pizzaria Estrela da Ipiranga, local próximo ao Matilha Cultural. Entre as personalidades que receberam a placa estão atrizes como Neide Ribeiro e Débora Muniz. O cineasta Alfredo Sternheim e o professor e montador Máximo Barro também foram homenageados.

 Mas a plateia ficou em êxtase quando o cineasta José Mojica Marins foi receber sua placa. O realizador conhecido pelo personagem Zé do Caixão teve duas paradas cardíacas nos últimos anos e ficou cinco meses internado na UTI do Incor (Instituto do Coração). Mesmo com todos esses problemas de saúde, Mojica recebeu a placa e fez um emocionante discurso. “Eu acho que todos que lutaram tem o seu devido valor. Não importa se estão mortos, se estão afastados. Onde quer que seja, basta que eles fizeram algo pelo cinema e eles precisam ser valorizados”. Aos 79 anos, Mojica prossegue trabalhando nos seus projetos pessoais. Ele inclusive foi tema da minissérie Zé do Caixão exibido no canal pago Space. A filha do diretor, Mariliz Marins, explica que está concluindo uma loja virtual para comercializar produtos referentes ao pai. “Os fãs vão poder comprar camisetas e outros adereços referentes ao mitológico personagem. Vamos inclusive vender uma cachaça Zé do Caixão”. 


Organizador da premiação, Diomédio Piskator afirma que 2016 será um ano importante para o Instituto Ozualdo Candeias. Novas produções devem entrar em cartaz e a segunda edição do prêmio Francisco Cavalcanti será realizada. “Estamos concluindo o São Paulo Zero 15. É um longa-metragem composto por quinze episódios de ficção tendo a cidade de São Paulo como protagonista. São quinze diretores de gerações diferentes num único filme”. Ele espera que o longa-metragem estreie para o grande público no segundo semestre de 2016. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Privilégio

Da esquerda para a direita: Helena Ramos (rainha do cinema paulista), Neide Ribeiro (a telemoça número 1), este escriba e Zilda Mayo (Rachel Welch de Araraquara). Agradeço aos amigos Felipe Guerra e Gabriel Carneiro pelo envio das fotos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Mostra inédita A boca da Boca – A produção de A. P. Galante


O MIS, em parceria com a Heco Produções, apresenta a mostra A boca da Boca – A produção de A. P. Galante, uma homenagem Antonio Polo Galante, o maior produtor da Boca do Lixo em São Paulo. Com curadoria de Eugenio Puppo, a mostra acontece de 1º a 7 de agosto e traz a projeção de 14 longas-metragens, além de trailers raros da época, que serão exibidos na abertura do evento.
Galante se especializou em quase todos os gêneros em sua filmografia, composta por mais de 65 títulos: dramas, pornochanchadas, westerns, filmes de cangaço, musicais, policiais, sertanejo. Nenhum outro produtor brasileiro possui uma cartela de títulos tão diversificada - o que não o impedia de investir também em produções autorais, como A ilha dos prazeres proibidos (1978) e Anjos do Arrabalde (1987), de Carlos Reichenbach, títulos que integram a grade da mostra.
  
Além das exibições dos filmes, o público poderá ter um contato direto com Antonio Galante na abertura do evento, dia 1º de agosto, quando o produtor participará de um debate com o crítico Inácio Araújo, às 20h no Auditório MIS. O encontro será precedido pela exibição de cinco trailers raros da época, às 18h15, e do longa A mulher de todos, de Rogerio Sganzerla, às 18h30 (confira a programação completa abaixo).
  
Outro grande debate encerra a mostra, no dia 7 de agosto: “Mulheres da Boca” reúne as atrizes Helena Ramos, Neide Ribeiro, Zilda Mayo e Aldine Muller, em uma homenagem ao diretor Carlos Reichenbach, falecido em junho de 2012. O encontro acontece às 20h, logo após a sessão de Anjos do Arrabalde, de Reichenbach.

 Lançamento
 A sessão de abertura da mostra, no dia 1º de agosto, contará com o lançamento do livro O bilhete azul – passaporte para a liberdade, biografia de Galante. Escrita por sua mulher, Manuela, a obra narra sua trajetória de vida - de criança criada no orfanato até se tornar um dos maiores produtores da Boca do Lixo em São Paulo.

Memória do Cinema
 A mostra também marcará a retomada do projeto Memória do Cinema, do Museu da Imagem e do Som, que desde os anos 1970 registra em áudio e vídeo depoimentos de personalidades do cinema nacional, sobretudo o de São Paulo. Esta primeira etapa do projeto será realizada em parceria com a Heco Produções, tendo como foco a produção da Boca do Lixo e irá ocorrer entre os meses de agosto e novembro de 2012. Serão registrados, em áudio e vídeo, 32 depoimentos, entre eles David Cardoso, José Mojica Marins, Andrea Tonacci, Jean-Claude Bernardet, Claudio Cunha, Claudete Joubert , Silvio de Abreu, Zilda Maio, entre outros. O depoimento de Antonio Polo Galante irá inaugurar a série de gravações.
 Confira, abaixo, a programação completa da mostra A boca da Boca – A produção de A. P. Galante:

QUARTA, 01.08
 18h15 Exibição de trailers raros de filmes da Boca do Lixo: Trilogia do terror (1968); A doce mulher amada (1969); As armas (1969); A mulher de todos (1969); e O cangaceiro sanguinário (1969)
 18h30 A mulher de todos (Rogerio Sganzerla, 1969, 80 min, pb)
 20h Debate: Antonio P. Galante e Inácio Araújo e Lançamento do livro O bilhete azul – passaporte para a liberdade, de Manuela Galante


QUINTA, 02.08
 18h30 Vidas nuas (Ody Fraga, 1967, 85 min, cor)
 20h Trilogia do terror (Luiz Sergio Person, Ozualdo Candeias e José Mojica Marins, 1968, 92 min, pb)


SEXTA, 03.08
 18h30 A doce mulher amada (Ruy Santos, 1969, 90 min, cor)
 20h No rancho fundo (Osvaldo de Oliveira, 1971, 86min cor)


SÁBADO, 04.08
 15h Terapia do sexo (Ody Fraga, 1978, 85 min, cor, semidocumentário)
 17h O cangaceiro sanguinário (Osvaldo de Oliveira, 1969, 85 min, cor)
 19h As armas (Astolfo Araújo, 1969, 85 min, cor)
 21h Ilha dos prazeres proibidos (Carlos Reichenbach, 1978, 90 min, cor)


DOMINGO, 05.08
 15h À flor da pele (Francisco Ramalho Jr., 1976, 100 min, cor)
 17h A filha de Emanuelle (Osvaldo de Oliveira, 1980, 94 min, cor)
 19h As safadas (Carlos Reichenbach, Inácio Araujo e Antonio Meliande, 1982, 86 min, cor)
 21h Convite ao prazer (Walter Hugo Khouri, 1980, 111 min, cor)

TERÇA, 07.08
 18h30 Anjos do Arrabalde (Carlos Reichenbach, 1986, 104 min, cor)
 20h Debate: Mulheres da Boca, com Helena Ramos, Neide Ribeiro, Zilda Mayo e Aldine Müller - Homenagem a Carlos Reichenbach

terça-feira, 1 de maio de 2012

Nunca dirigi e nunca casei (Neide Ribeiro)

Segue um conto que publiquei na Zingu do mês passado sobre a atriz Neide Ribeiro. Teve gente que respeito muito (como Sergio Andrade e Alfredinho Sternheim) que curtiram. Me senti honrado. Segue o conto que recebeu o nome de Nunca dirigi e nunca casei (Neide Ribeiro). É uma história em primeira pessoa de um espectador de pornochanchada que fica apaixonado pela Neide na São Paulo do início dos anos 80. O conto não fica restrita ao cinema. Tem várias coisas. O leitor atencioso irá perceber diversos assuntos que ficaram num segundo plano. O Alfredinho Sternheim quer inclusive mostrar o conto para a própria Neide Ribeiro.   

NUNCA DIRIGI E NUNCA CASEI (NEIDE RIBEIRO) 
Janeiro, 19
A vida não é fácil. Falta de emprego, falta de mulher, time sem conquistar títulos. Reergo-me toda vez que bebo a cachaça Tatuzinho. Sei que isso não é coisa de pessoas responsáveis. Mas não admito que me chamem de vagabundo. Em hipótese alguma. Isso é xingamento, humilhação. Prefiro ser chamado de desocupado. Aí sim.
De vez em quando, vou no orelhão perto da pensão e ligo pros meus pais. Invento que estou me dando mal na cidade grande. “Mãezinha amada, como anda? O quê? Faculdade… ainda estou pensando. Emprego tá difícil também. Não tem como vocês me ajudarem?”. A tática às vezes funciona. O problema é quando meu pai atende o telefone. Quando é mãe tudo fica mais fácil, e tem que falar: “Mãezinha querida e amada”. Da última vez falei somente “querida” e ela não me ajudou. Pra almoçar os sete dias da semana, tive que vender toda minha coleção de Ping Pong Cards. Tudo agora está nas mãos do filho do dono da pensão. Moleque fedorento, cheio de pintinhas. Parece figurante de fita do Zé do Caixão. Vocês acham que ganhei muito dinheiro? Se fosse assim eu já estava no La Licorne curtindo a noite toda, jogando cédulas do Oswaldo Cruz pra mulherada. Já imaginou eu tomando champagne com a amada Laura Garcia? E a tia Tânia? Quanto tempo não vejo ela. Se estivesse em mares melhores, eu nem me lembraria que existe a maldita Tatuzinho.
Com o capital recém adquirido, posso tentar uma vaga em algum lugar. Compro alguns jornais: A Gazeta EsportivaNotícias PopularesPopular da Tarde. Mas quem quer emprego? Só de ouvir isso me dá um tremendo calafrio. Sobre o futebol não vou nem comentar. Andamos com uma má sorte dos diabos. Mas mantenho fé no Jorginho Putinatti. O cara é palmeirense mesmo. Pela situação do clube, de noite, irei tomar outra dose cavalar de Tatuzinho. A minha avó sempre dizia: “A vida não é fácil”. Em São Paulo, parece que nunca foi.
Uma capa de jornal me chama a atenção na banca. É uma belezoca que mais parece saída de Hollywood. É pequena, rosto chamativo, impõe respeito. Na realidade, ela bem que poderia estar no outdoor da Biotônica Fontoura. Realmente, a moça está cheia de saúde. Leio que o nome da cocotinha é Neide Ribeiro, está estrelando um novo filme que está em cartaz no Cine Marabá e circuito chamado Palácio de Vênus. Poxa, no elenco ainda tem Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Elizabeth Hartmann. Só filé mignon. Irei na sessão o quanto antes. Eu já tinha visto alguns filmes com a Neide, só não me lembrava dela. Realmente trata-se de uma rapariga das melhores qualidades.
Janeiro, 21
Manhã sombria. Na hora do almoço, pego o primeiro CMTC pro centro. Realmente, minha agenda anda meio cheia. Cheia de nada pra fazer. No radinho que eu trouxe do interior, vou escutando o programa de esportes da Panamericana com o Cândido Garcia e Orlando Duarte. Mas as notícias sobre a equipe são negativas. Que merda! Logo hoje num jogo importante. Chego na avenida São João e entro no primeiro boteco vagabundo.
- Amigo, me vê uma Crush…
- Mas você não é aquele camarada que fica tomando Tatuzinho?
- Poxa meu velho, estou tentando evitar a fadiga. Depois, eu acabo tomando essas cachaças vagabundas e vocês são os responsáveis- digo apontando o dedo para ele. Sou baixo e magricelo. Mas o cara ficou com medo. Me trouxe logo uma Crush.
Vejo uma loira deslumbrante passar pela rua. Me lembro que estou cada dia mais pobre. O que adiantaria ter uma garota daquelas se não teria onde levá-la? A vida não é fácil. Passei no Cine Marabá e me impressionei positivamente com os lobby cards do Palácio de Vênus. Compro a entrada e vejo a película. Realmente, era muito gozado e a Neide Ribeiro está um arraso. No final do filme, ela termina andando de patins e se jogando. Me deixou completamente louco. Ela é uma atriz acima da média. Quando ela fala algo, percebemos que ela tem um carisma e é dona de uma sensibilidade exacerbada. É uma espécie de rainha do nosso cinema. Se eu tivesse uma graninha, eu ia localizá-la, falar da minha paixão por ela. Só que minhas reservas financeiras não conseguem comprar nem uma revista em que ela tenha saído. De noite, eu poderia tomar uns tragos com o Noite Ilustrada no Clube de Paris ou dar uma esticada no La Vie em Rose. Mas estou quebrado. Guardei minhas últimas notas pra ir ver o jogo do Palmeiras. Não esquecerei do radinho pra escutar o garotinho Osmar Santos. Se estiver pegando mal a Globo, fico mesmo na Bandeirantes ouvindo o Fiori Gigliotti.
Janeiro, 22
Não comento mais futebol neste diário. Assunto encerrado. A única notícia boa é que não tomei ontem a maldita Tatuzinho. Sonhei com a Neide Ribeiro a noite inteira. Lembrei que ela tinha sido agente secreta num outro filme. Foi tudo rodado numa praia do litoral paulista. Mas diziam que era na tal Ilha dos Prazeres Proibidos. Li na coluna do Jota Santana no Notícias Populares que ela vai estrelar um outro longa-metragem do mesmo realizador de Palácio de Vênus. Trata-se de um filme chamado A Fêmea do Mar e a maravilhosa Aldine Müller vai fazer a filha dela. Poxa, mas aí começa uma nova confusão. Esse povo que faz pornochanchada é gozado. As duas tem quase a mesma idade! Como uma vai ser a mãe da outra? Só nesses filmes mesmo. Mas dane-se. Quando estrear, eu vou acabar vendo num a sessão no Marabá ou no Windsor com os meus últimos centavos.
Janeiro, 23
Vocês se lembram daquele dinheiro que ganhei vendendo toda a minha coleção de Ping Pong Cards? Então, acabou. Não é que o dinheiro sumiu. Foi muito pior. Eu andava sem ter o que fazer nessa cidade. E fui jogar sinuca num estabelecimento de segunda linha na Lapa. E não é que um camarada quis apostar uma grana comigo nisso? Dizer que me fudi foi pouco. Lá no interior eu era o Carne Frita da sinuca, João Antônio das coloridas. Aqui não sirvo nem pra limpar os sapatos dos caras. Perdi quase tudo. Paguei e quase não sobra grana pro CMTC da volta. Que droga. Tomei várias doses de Tatuzinho. Mas acredito que conseguirei dormir.

Janeiro, 24
Acordei decidido a mudar a minha situação na capital bandeirante. Mas hoje é sábado. Logo no dia em que se é impossível arrumar emprego. Vou deixar isso pra outro momento. Um cinema de subúrbio está passando um filme com a Neide que saiu de cartaz. A película se chama Corpo Devasso, produção do David Cardoso. Sim, aquele mesmo que apareceu outro dia na Hebe dizendo: “Só faço longas-metragens pro público que só tem moedas no bolso”. Parece que sou um desses. Preciso pegar duas conduções pra chegar na sala. Quer saber? Não tenho nada pra fazer. Irei lá.
Janeiro, 25
Estou precisando de novos horizontes, seguir outros rumos e caminhos. Minha paixão pela Neide Ribeiro está se tornando uma obsessão doentia. A vida não é fácil. Quando a Neide aparece inteira na tela, eu fico obcecado. Estou começando a colecionar recortes de jornais, revistas e algumas propagandas em que ela aparece. Como será o nosso encontro? Como será o nosso enxoval? Neide, você prefere lua de mel nas Ilhas Gregas ou em Paris? Com os meus fundos atuais, não dá pra ir nem pra Santos. Quem sabe dar um passeio no Jardim Zoológico ou na Casa do Bandeirante, no Butantã. Não é somente a beleza, ela se impõe nos filmes. Parece que ela possui uma espécie de força interna. Entendo que ela é uma leoa, uma estrela com um brilho próprio. Não estou dizendo que eu não admire Patrícia Scalvi, Zilda Mayo e outras deusas da Boca paulistana. Mas ela parece que tem uma luz especial. Algo difícil de descrever.
Sei que pior que não encontrá-la, é permanecer falido e sem emprego. Mas essa situação muda. Minhas andanças sem rumo na capital paulista terão fim em breve. Amanhã é segunda-feira e irei arrumar uma maldita ocupação.
Janeiro, 26
Acordei com uma ressaca braba. Foi mais Tatuzinho. Vou tentar não ficar alcoólatra. Como minha agenda anda lotada, passei pelo centro e encontrei minha musa numa dessas publicações masculinas. Tá na cara que eu comprei. Vi seu rosto… sua face adorada e fiquei doente. Olha, Neide Ribeiro vicia mais que Tatuzinho. Pena que a revista seja de papel e não seja a própria deusa em carne e osso. Se eu tivesse uma chance de conhecê-la, só de olhá-la de longe ficaria satisfeito. Até emprego eu ia arrumar. Mas precisava de uns trocados pra correr atrás disso. Gastei a grana comprando a revista da Neide. Mas só fiz isso porque ela era capa da publicação.
Janeiro, 28
Novo sonho com a rainha da Boca paulistana. Parecia realidade. O resultado foi tão forte que estou pensando em ir lá qualquer hora, quem sabe falar com ela. Afinal, a moça não deve ter tantos fãs. Nem escuto mais o horário esportivo no rádio. Deixei de tomar cachaça vagabunda. Estou me tornando um compulsivo pela Neide. Daqui a alguns meses, vai estrear um outro filme com a moça. Se chama Violência na Carne do diretor Alfredo Sternheim. Ela é atriz e está numa casa que é seqüestrada por ex-marginais. Poxa, fiquei realmente curioso para ver essa película. Soube que a Neide está presente porque deu nos jornais que a Censura liberou o longa. Tenho que esperar mais uns quatro meses pra conseguir ver essa produção. Realmente, a vida não é fácil.
Janeiro, 30
Que fase! Num emprego querem que você tenha língua estrangeira. No outro, diploma de datilografia. Vocês acham que eu estudei filosofia? Poxa, o máximo que eu lia era aqueles romances tipo Sharon Scott, Charlie Chan. Estão falando que o Enéas vai vir da Itália jogar no Palmeiras. Poxa, na Portuguesa ele jogava o maior bolão. Pelo menos isso me animou o dia. Não suporto mais o cheiro de cachaça sem vergonha. Estou numa fase triste e aguda. Por isso, resolvi adotar a cerveja preta. Faz uma linha de bebida proletária (afinal, é cerveja), mas se diz um pouco sofisticada. Vou pegar um dinheiro emprestado pra ir fazer minhas refeições diárias em algum local de segunda linha. Vida ordinária. Vou ter que esperar mais alguns meses para rever Neide Ribeiro na telona em filme inédito. Já revi Palácio de Vênus dezenas vezes. Minha esperança é que apareça alguma cópia com algo diferente. Estou decorando as falas do filme.
Fevereiro, 3
Estou quebrado. Agora é verdade. Desse jeito, vou voltar pro interior. Essa cidade é predatória e vai te destruindo aos poucos. Minhas ambições são fáceis de serem alcançadas: emprego decente, namoro com Neide Ribeiro e Palmeiras campeão. Alguma coisa de outro mundo? Penso que não. Ontem fiz uma das piores coisas que poderia ter feito. Tomei doses crepusculares de Tatuzinho e conheci uma moça muito feia num desses bares fedorentos. Mas como eu estou numa pior, topei a parada. Não me lembro o nome dela, só sei que a chamei de Neide. Depois, ela falou: “Essa Neide é sua irmã? Sua mãe? Por quê você fala tanto nela?”.
Fevereiro, 5
Falta grana até pra pagar o fim de mês da pensão. Agora vou vender o quê? O rádio? O meu relógio? Minhas roupas? Tá foda. Sento num bar de um português conhecido que fica perto da pensão.
- Manda o de sempre.
- Mas tu vais começar logo cedo gajo?
- Lógico. Melhor. É pra evitar a fadiga- respondo, numa tentativa de ser um talento na comunicação Brasil-Portugal.
- Aqui estás- diz ele me trazendo mais uma dose da Tatuzinho.
Todo dono de bar é uma espécie de psicólogo. Peço um conselho pro gajo.
- O senhor sabe, estou sem emprego, sem remuneração. Devendo todo mundo. Fico tomando Tatuzinho toda hora. E toda noite sonho com uma atriz maravilhosa da pornochanchada que nem sabe que eu existo.
- Olha meu filho, posso te falar uma única coisa. A vida não é fácil.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

30 anos de um clássico do cinema paulista

O catarinense Ody Fraga (1927-1987) foi indiscutivelmente um dos maiores nomes da história do cinema brasileiro. Todos os personagens de seus filmes são diferenciados. Como roteirista, ele escreveu os diálogos de mais de 60 longas-metragens. Como realizador, dirigiu 25 filmes. O raro e espetacular "O Sexo Nosso de Cada Dia", é talvez seu melhor trabalho como diretor. Três jovens mulheres, Bionda (Neide Ribeiro), Letícia (Sandra Graffi) e Lola (Elys Cardoso) são insatisfeitas sexualmente. Decidem então alugar o ponto de uma cafetina de rua (Arlete Montenegro) e por três noites tornam-se damas da noite. Infelizmente, Nelson Rodrigues não teve tempo para escrever essa história. Mas Ody Fraga e a Boca do Lixo sim. Sem qualquer tipo de preconceito ou moralismo, o enigmático criador realizou um filme feminino por excelência. Assistindo a essa fita, conseguimos perceber que Ody parece entrar dentro das almas de suas personagens, sem qualquer julgamento ou arbítrio.

A atuação de Neide Ribeiro como a dominadora Bionda é extraordinária. Poucas atrizes no cinema nacional tiveram a entrega como desta "pantera cinematográfica" neste filme. Sua interpretação carregada e forte desmonta de uma vez o estereótipo de que as mulheres são frágeis. Na minha opinião, é realmente um pecado Walter Hugo Khouri nunca tê-la dirigido. Uma mulher da grandeza de uma Neide Ribeiro, merecia hoje ser mais reconhecida pelos cinéfilos e pelas novas gerações. Neide era a atriz preferida de Fraga. Eles trabalharam juntos em seis longas-metragens. 

A atriz Sandra Graffi, que depois se casaria com o produtor Roberto Galante, também está perfeita como a jovem frígida por excelência. Sem falar em Elys Cardoso, que está deslumbrante como a cerebral Lola, melhor papel dela no cinema.

Com fotografia recortada do grande mestre Cláudio Portioli e montagem certeira de João de Alencar, torna-se impossível assistir somente uma vez esta película. Já que "O Sexo Nosso de Cada Dia" não é um filme. É um estudo sobre a sexualidade humana.

domingo, 3 de julho de 2011

Neide Ribeiro na propaganda da Monark

A atriz Neide Ribeiro foi um dos grandes nomes do Cinema da Boca. Era uma profissional bastante requisitada para os filmes do diretor Ody Fraga. Os dois trabalharam juntos em seis longas-metragens, muitos verdadeiros clássicos como A Dama da Zona, Palácio de Vênus e O Sexo Nosso de Cada Dia.

Além de atuar, Neide foi garota-propaganda de diversas marcas. No anúncio acima, vemos a moça em cima de uma das bicicletas ergométricas Monark.  

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Neide Ribeiro na capa do NP


AS MÁQUINAS DO NP
Para os que gostam de ver a atriz Neide Ribeiro exatamente como veio ao mundo é só assistirem ao filme “Tortura do Sexo” (E agora José?), com produção de David Cardoso e direção de Ody Fraga. Na maioria das cenas, Neide inteirinha nua, sem deixar dúvidas aos espectadores.

Publicado originalmente no jornal "Notícias Populares" em 22 de maio de 1980