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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “A festa de dona Marlene” (29/9/1979)

FIGUEIREDO/CORINTHIANS

 

A festa de Dona Marlene

A primeira dama do Corinthians roubou o banquete ludo-político


RICARDO KOTSCHO

 

Estavam presentes o presidente da República, três ministros de Estado, os comandantes militares em São Paulo, o governador, o prefeito e demais altas autoridades civis e militares. Mas o dono da festa foi uma mulher, Marlene Matheus, a primeira dama do Corinthians. Vestida num longo alvinegro, dona Marlene não cabia em si de contente e desbancou o governador Paulo Maluf na tarefa de puxar o presidente Figueiredo pelo braço. Tão feliz estava a primeira dama corintiana, nesta gloriosa festa dos 69 anos do Sport Club Corinthians Paulista, que ela já fazia planos para o futuro, anunciando que daqui a um mês, quando o presidente da República voltar a São Paulo para o lançamento da pedra fundamental do novo estádio do clube, “nós vamos colocar dois milhões de corintianos na rua”. Dona Marlene até ganhou um troféu junto com os campões paulistas de 77.

Logo na entrada do ginásio, palco do banquete para duas mil pessoas (posta de peixe grelhada com salada “wadorf”, camarão com molho remolhado, supremo de frango com risoto e champingnons à provençal, maçã glacê), um imenso painel com as cores do Brasil e do Corinthians e as efigies de Figueiredo e Matheus; bandeirinhas alvinegras de graça para todos. Quando o presidente entrou, a banda da PM tascou o hino do Corinthians (Matheus queria o Hino Nacional, mas o Palácio do Planalto vetou), todos acenaram as bandeirinhas e Figueiredo logo recebeu uma de dona Marlene, para acenar também.

Há muito não se via uma festa tão autenticamente tropical. Políticos, cartolas, jogadores e treinadores, conselheiros do clube e suas digníssimas, todos confraternizavam no imenso tablado decorado com cravos brancos e vermelhos. Havia até representantes das torcidas organizadas – Atômico, Estopim, Mosqueteiros do Timão, etc – devidamente acomodados no seu lugar de sempre: nas arquibancadas. Um coro de 270 sócias-atletas do Corinthians, fantasiadas, começou a gritar Figueiredo, Matheus/Figueiredo, Matheus. Figueiredo abriu uma exceção e se dispôs a falar à imprensa. Em sua única declaração em São Paulo revelou que era corintiano desde os seis anos de idade. A veteraníssima repórter Clarice Amaral, emocionadíssima, parecia uma principiante ao microfone: “Conseguimos captar algumas palavras do presidente”. E, ao contínuo, Matheus lascou lá seu pronunciamento, da lavra de seu eterno ghost-writer Mário Campos: “Corinthians, senhor presidente, é um potencial de desenvolvimento patrimonial e esportivo, que, quando plenamente atingido, o situará como verdadeira linha auxiliar do poder público (...)”.

O centroavante Palhinha também tentou puxar o banquete mas para o lado, por assim dizer, político-sindical, mas não foi feliz. Ao topar com o ministro do Trabalho, Murillo Macedo, falou-lhe das agruras dos jogadores e do protesto que entregou ao presidente da Federação Paulista de Futebol contra o maluco calendário do campeonato. Inútil. O inefável Macedo respondeu com outra pergunta, mais mansa: “Você é mineiro de onde?”. De Belo Horizonte, respondeu Palhinha. “Pois eu sou de Sete Lagoas”, retrucou o ministro do Trabalho. E todos atacaram as atrações do banquete, que estava muito gostoso, segundo comentários ouvidos pela reportagem.

 

A “Fiel” ficou de fora. Como sempre

Mas Elisa, torcedora-símbolo, disse: “Meu Curíntia é meu país!”

TONICO DUARTE

O deputado Biro-Biro chegou esbaforido. Terno cinza de colete e tudo, novinho, comprado em crediário de loja popular. Queria saber se teria de “falar com o hôme”. Antes de mais nada, é bom esclarecer que o “homê” era o general Figueiredo, que ontem, tentou ser mais João do que nunca, ao comparecer ao banquete de aniversário do Sport Club Corinthians Paulista, também conhecido como “Timão”. Biro-Biro, que na última eleição recebeu mais votos do que muito parlamentar, deveria ter perguntado a seu colega Nabi Abi Chedid, que passava ao largo, pouco antes da chegada presidencial: “Acho que vou ficar apavorado se ele me perguntar sobre aqueles votos que tive”, confessava Biro-Biro. “Já pensou se ele me pergunta? O que é que eu vou dizer?”.

Mas o “home” chegou e não houve nada de apocalíptico – a não ser a parafernália de sempre: batedores com sirenes a toda chega-pra-lá de agentes de segurança (delicadamente, como mandam os tempos de abertura), gritinhos dos que ficaram fora da festa, etc. Estava armada a grande festa-modelo “glamour patropi” para receber o presidente da República. De um lado, solícito e elegante, o outro mandachuva do evento, Vicente Matheus: “Só o Corinthians consegue trazer um presidente da República, clube nenhum mais pode. Por isso estou orgulhoso e emocionado”.

Lá fora, o povão sofria espasmos de satisfação. O presidente chegou de terno cinza escuro, e muitos lembravam que ele trazia estampado um ar mais saudável do que Geisel, presente ao Corinthians no ano passado. Só uma decepção, de Tuim, um velho torcedor: “Nossa, como ele é baixinho! É quase da altura do Matheus. Sabe como é, a gente vê aquelas fotos dele fazendo ginástica e imagina que seja do tamanho do Jairo (o goleiro do Corinthians de quase 2 metros de altura)”.

Dona Marlene Matheus esteve vigilante para que tudo corresse bem de acordo com o figurino. Já de manhã, ela saiu de casa e foi direto comprar uma grava para Geraldão, o centroavante. Geraldão não tinha gravata para a grande festa.

De noite, do lado de fora do ginásio, a segurança se encarregava de barras qualquer pretensão da “Fiel” de ver o João de perto. Só Elisa, a torcedora-símbolo, teve a sua chance. Peruca caju enroladinha, vestido soirée preto de rendas e catim, ela olhou para o João, abria o sorriso desdentado e não se conteve: “Ah, esse meu Curíntia é um país!”.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 29 de setembro de 1979, edição 30

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Este jogo foi um conflito de gerações” (29/10/1979)

SANTOS 3, SÃO PAULO 0

 

Este jogo foi um conflito de gerações



De um lado, a juventude de Pita e João Paulo. De outro, o cansaço de Edu e Teodoro

 

RICARDO KOTSCHO

 

Última grande estrela da belle-epoque do futebol paulista, ele não foi visto pelos que foram ontem à tarde ao Morumbi. Como nos tempos do seu reinado, “eu e o Getúlio ficamos 15 anos no poder”, João Mendonça Falcão, 63 anos, barba branca por fazer, calças e sapatos brancos, depois de três meses de ausência do futebol voltou a ser a principal atração do “pátio de milagres”, como é conhecido o saguão dos vestiários do Morumbi.

Falcão foi o mais malhado dirigente esportivo de todos os tempos e dá risada quando lê os jornais de hoje em dia. “Essa imprensa está acomodada pra burro. Eu levava pau todo dia...” E ele tem toda a razão: faltando meia hora para começar o jogo, o Morumbi ainda está semi-deserto, as torcidas muito comportadas, não há mais aquela guerra dos tempos em que Falcão emprestava dinheiro da Federação Paulista de Futebol para o Corinthians comprar Paulo Borges e Zé Maria, o Santos trazer Carlos Alberto e Rildo do futebol carioca e o Palmeiras ganhar a briga por Ademir da Guia.

“Acabaram as estrelas”, diz ele, sem incluir na lista, humildemente, o próprio Falcão, que agitava a brincadeira e fazia o futebol ser o melhor programa do domingo à tarde em São Paulo. Tão nostálgico anda Falcão que ele sente saudades até de Paraná e Vitor, jogadores do São Paulo sem tantos recursos que entravam em campo para dar porrada: “Cada porrada que o Vitor dava no Pelé fazia o estádio inteiro se levantar. E hoje quem acaba com quem? É tudo japonês, uma japonesada danada...”.

Mais da metade do Morumbi está vazio quando o Santos entra em campo, já meio cansado, com aquela má vontade de quem vai apenas cumprir a rotina. Daquele futebol cheio de truques, mandingas, safadeza e muita graça dos tempos de Falcão só está em campo a velha fotógrafa Meire, tirando aquelas fotos pousadas dos times que nunca saem em jornal nenhum.

No que o Santos deu a saída, Juari foi com tudo em cima da defesa do São Paulo. Menos de um minuto, primeira falta. E hoje, Ailton Lira, o terror da bola parada, está em campo. Mas chuta em cima da barreira. O Santos solta seus dois pontas malucos, Nílton Batata e João Paulo, em cima de Antenor, de volta depois de quatro meses de ausência. O Santos precisa de um ponto hoje para garantir a sua classificação e vem matando em cima do São Paulo, que parece estar saindo direto de uma bela feijoada. Juari e Rubens Feijão fazem pizza em cima de Chicão, Estevam e Bezerra. Aos cinco minutos, num contra-ataque rápido, Ailton Lira lança Juari pelo alto. Bezerra bobeia e está feito o primeiro gol: um leve toque na saída de Valdir Perez, Santos 1 a 0. E o massacre continua. Com dez minutos de jogo, o São Paulo ainda não conseguiu passar do meio de campo. Até o pequeno Nélson, refugo do São Paulo que o Santos levou, arrisca-se a chutar ao gol. Zé Sérgio, a grande arma do São Paulo, ainda não pegou na bola.

O São Paulo vai de Edu, que remédio? Ele sofre falta e ele mesmo bate, uma pancada que raspa a trave. O goleiro do Santos inspira tanta confiança que em vez dele orientar a barreira é a barreira que orienta Flávio. Zé Sérgio, deslocado para a ponta-direita, dá um chutinho e Flávio quase aceita. O São Paulo começa a fazer todo o seu jogo em cima de Zé Sérgio e o Santos faz o de costume: dá pau.

Os meninos da Vila cansaram-se logo e o provecto meio campo do São Paulo consegue equilibrar as coisas quando o jogo chega à primeira meia hora. Antenor bate um meio escanteio pela direita, Serginho tenta um bate-pronto, erra, mas mesmo assim Flávio quase consegue colocar a bola para dentro. Com seu elegante conjunto cor de vinho, Flávio é, a essa altura, a grande esperança da torcida do São Paulo. E o Santos bota todo mundo em cima de Zé Sérgio para garantir, como o São Paulo fazia quando havia um certo camisa 10 no Santos. A batucada da torcida do São Paulo está que nem o time: parece uma gravação. O Santos quase faz o segundo num vídeo-taipe do primeiro gol, mas Juari desta vez chuta para fora. Na sequência, Zé Sérgio empata, mas Ayeta anula o gol, alegando falta de Serginho em Flávio.

O jogo já estava dando sono quando Nilton Batata acordou e deu um passeio em cima de Chico Fraga, que consegue ser o pior na defesa do São Paulo. Batata vê Juari livre na área, este vai à linha de fundo e centra para trás, na medida para Rubens Feijão que, com calma, mete no meio do gol, sem, chance para Valdir Perez. Santos, 2 a 0. A coisa pega fogo. O São Paulo dá a saída, Edu centra e Rubens Feijão mete a mão na bola de bobeira. Pênalti que Serginho chuta em cima de Flávio, que defende com os pés, a bola bate no travessão e na volta o goleiro consegue mandar para longe.

O Santos volta para o segundo tempo trocando passes e o São Paulo fica só cercando, olhando. O problema do São Paulo com o Santos é um conflito de gerações, insolúvel. Aqueles senhores Chicão, Teodoro, Bezerra, Edu sentem-se impotentes diante da molecada do Santos. Com seu boné branco de técnico argentino e aquele ar que já nasceu cansado, Pepe vê o Santos perder um gol atrás do outro, brincando. Chicão entra para quebrar Rubens Feijão e não tinha outro jeito, já estava virando baile. Só Nilton Batata perdeu três gols feitos e ainda estamos em dez minutos do segundo tempo. Moleza como esse Chico Fraga ele nunca mais vai pegar. Mário Juliato, que dizem ser o técnico do São Paulo, resolve tomar uma providência: chama de uma vez Luis Muller e Jaime e, enquanto eles se aquecem, Juari faz o terceiro aos 13 minutos: João Paulo centra da esquerda, a bola bate no baixo ventre de Juari e entra para o desespero de Valdir Perez. Santos 3 a 0.

Saem Estevam e Chicão, mas a esta altura poderia sair qualquer um e entrar qualquer outro destas preciosidades que Juliato tem no banco, que daria na mesma. O Santos passeia em campo como se não tivesse adversário. E antes do jogo Juliato ainda anunciou que este seria o time-base do São Paulo para disputar as finais. Então, ótimo: agora, ele já sabe que faltam onze. Mas até que a torcida se diverte. Aos 25 minutos, num centro de Jaiminho, Edu e Serginho dão uma bela trombada dentro da área. Não há feridos. No Morumbi, cada um se diverte como pode: Ayeta distribui cartões amarelos como se fosse sopa do falecido Zarur. A torcida do Santos – veio gente até de Monte Sião, Minas Gerais – pede mais um, mais um, e é justo. Meia hora do segundo tempo, Ailton Lira sai de campo, aplaudido de pé, para entrar Pita, mas o jogo propriamente dito já acabou. Em campo, todos parecem satisfeitos com o resultado.

 

O JOGO FOI ASSIM:

Santos- Flávio; Nelson, Cassiá, Fernando e Gilberto; Gilberto Costa, Ailton Lira (Pita) e Rubens Feijão; Nilton Batata, Juari e João Paulo.

São Paulo- Valdir Perez; Antenor, Estevam (Jaime), Bezerra e Chico Fraga; Chicão (Luis Muller), Teodoro e Jaiminho; Edu, Serginho e Zé Sérgio.

Juiz- João Leopoldo Ayeta

Renda- 1.585.110.000 com 28.607 pagantes.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 29 de outubro de 1979, edição 55

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Palmeiras foi o melhor nessa pelada concorrida” (5/11/1979)

Palmeiras foi o melhor nessa pelada concorrida



 

RICARDO KOTSCHO

 

Até que tinha bastante gente no velho Parque Antártica, além de alguns voyeurs nas janelas dos prédios em volta. E os palestrinos mostravam uma animação digna de grande jogo quando seu time entrou em campo. Como se tratava apenas mais um jogo cumpre-tabela-do-Nabi, que não valia mais nada, pelo menos para o time da casa, fiquei perguntando-me que motivos teriam levado aquele povo todo ao estádio ontem à tarde. Na falta de um sociólogo de plantão (que sociólogo largaria os seus livros para assistir um Palmeiras e Comercial?), tive que me contentar com as explicações dos cronistas esportivos a meu lado que, entre um bocejo e outro, procuraram ajudar-me. Um dos motivos mais votados foi o mau tempo, que fez o pessoal voltar antes das praias. Outra razão: as sogras. Sim, ainda não se inventou nada melhor para fugir do encantador domingo à tarde que o velho futebolzinho. Entre ficar em casa assistindo ao Sílvio Santos com a sogra e pegar um futebol, qualquer que seja o espetáculo, os que optaram pelo Parque Antártica viram que haviam escolhido uma pelada muito animada. Onde ia a bola, ia todo mundo atrás.

O Palmeiras só conseguiu chegar ao gol aos 10 do primeiro tempo: Pires cruzou da direita e Motoca cruzou para fora. O momento de maior emoção foi quando o juiz Aragão avançou de dedo em riste para o goleiro Vandeir, que não é nenhum Doca Street e, portanto, só faltou ficar de joelhos sob vossa excelência. Pedrinho acertou um belo chute de primeira aos 15 minutos, que Vandeir colocou para escanteio. O resto é só chutão para todo lado. Aos 25´, Pedrinho levou a defesa do Comercial na corrida, centrou para Jorge Mendonça, que matou no peito e bateu com força: Palmeiras, 1 a 0.

Depois desse gol, Jorge Mendonça tomou uns trancos e foi jogar atrás de Beto Fuscão. O fôlego do Comercial já tinha acabado e era até engraçado ver Carlos Hansen, com seu físico de campeão de festa de cerveja (título disputado palmo a palmo com o lateral Marco Antônio), correr atrás de Pires e Motoca sem achar a bola. O ponta Jáder tem a cor de Pelé, o físico de Pelé, a pose de Pelé, só lhe falta o futebol. Aliás, não só para ele: os que estão em volta fazem muita pirueta para pouco futebol.

Um minuto do segundo tempo: Pedrinho lança Carlos Alberto, que entra sozinho na área, passa pelo goleiro e enfia para o gol vazio: Palmeiras, 2 a 0. Agora não é mais um jogo, o Palmeiras brinca de dois-toques. Nem o relógio do placar aguenta e deixa de marcar o tempo do jogo. Telê olha repetidamente para o placar e para o seu relógio, não consegue entender o que está acontecendo. De repente, Tadeu Ricci aparece sozinho na área do Palmeiras e cabeceia para espanto de Beto Fuscão, fazendo o primeiro gol do Comercial, aos 26 minutos. Quatro minutos depois, Jáder vai marcar o gol de empate, mas Aragão apita impedimento. Pouco importa que Pedrinho estivesse sobre a linha do gol: na hora do aperto, os grandes podem sempre contar com a ajuda do juiz. Os que não encontraram nada melhor para fazer ontem à tarde já estavam deixando o estádio quando o Palmeiras teve o seu último suspiro: depois de três chuveirinhos seguidos sobre a área, a bola vem de Carlos Alberto para a cabeça de Polozi, que acerta no canto esquerdo: Palmeiras, 3 a 1. Que felicidade!

O JOGO FOI ASSIM:

Palmeiras- Gilmar; Rosemiro, Beto Fuscão, Polozi e Pedrinho; Pires, Motoca e Jorge Mendonça; Jorginho (César), Carlos Alberto e Baroninho (Nei).

Gols: Jorge Mendonça, Carlos Alberto e Nei.

Comercial- Valdeir; Marco Antônio, Carlinhos, Léo e Fantick; Maurício, Tadeu Ricci e Carlos Hansen; Jáder, Vander e Dau (José Roberto).

Gols: Tadeu Ricci.

Juiz: José de Assis Aragão.

Renda: Cr$ 655.290,00, com 11.724 pagantes

 

Enfim, um grande jogador: Pedrinho

Pedrinho foi mais uma vez o melhor zagueiro e o melhor atacante do Palmeiras. Perfeito na marcação, foi à frente e dos seus pés saíram os dois gols. Provou que é o melhor lateral-esquerdo do futebol brasileiro, mas Cláudio Coutinho prefere Marco Antônio (quando Júnior, o novo Nílton Santos que ele descobriu, não pode jogar).

PALMEIRAS

Gilmar- Viu o jogo de graça e tomou gol que ninguém viu.

Rosemiro- Operário da bola, valente, transformou o ponta Dau em seu marcador.

Beto Fuscão- Se tivesse 20 anos e 20 quilos a menos...

Polozi- Tão discreto que só se lembraram dele quando marcou o terceiro gol.

Pedrinho- Melhor em campo, a exceção à regra que confirma a mediocridade que é regra na nova safra de jogadores.

Pires- Errou muitos passes, parece desorientado.

Mococa- A nova promessa do Palmeiras. Continua prometendo.

Jorge Mendonça- Jogou bem e fez um gol até tomar a primeira pancada. Depois sumiu.

Jorginho- Uma promessa de promessa, tipo Vaguinho.

Carlos Alberto- É o chamado centroavante brigador. Mas não achou ninguém para brigar.

Baroninho- De vez em quando acerta um bom chute. Ontem não foi dia.

 

COMERCIAL

Vandeir- Não teve culpa nos gols e salvou outros.

Marco Antônio- Tem que mudar de ramo e de categoria. Quem sabe, como meso-pesado?

Carlinhos- Quando achou a bola, deu uns chutões.

Leo- Acompanhou Carlinhos.

Fantick- Pegou moleza: não tinha a quem marcar.

Maurício- Ficou sozinho no meio da roda, coitado.

Tadeu Ricci- Tinha largado o futebol e voltou. Ninguém sabe por que.

Carlos Hansen- Rapaz robusto, mas muito sem jeito.

Jader- Ganhou o motorádio do avesso. Pior impossível.

Vander- Correu feito um condenado e não viu a bola.

Dau- Bom estilo, sem a bola. Com ela, algo desajeitado.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 5 de novembro de 1979, edição 60

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: "A vida torta de Mané Garrincha" (27/08/1979), Ricardo Kotscho, Jornal da República

PIRAPOZINHO, 26 - URGENTE- Apareceu aqui hoje, nas barrancas do Paranapanema, um cidadão de nome Manuel Francisco dos Santos, dizendo-se Mané Garrincha. A notícia da sua presença colocou em polvorosa esta pequena cidade de 30 mil habitantes. “Mas ele não está doente no Rio?”. Hospedou-se na pensão do Morais, junto com a equipe do Milionários F.C. Ganhou buquê de flores, placa de prata e beijos de moças bonitas, no Estádio Municipal. O juiz apita, Garrincha com a bola. O lateral-esquerdo, Antônio Carlos, 25 anos, o Bunda Baixa, vai em cima dele, Garrincha faz que vai, mas não vai, a torcida dá risada. Viajou 1.100 quilômetros, oito horas e meia de ônibus, para jogar 45 minutos e ganhar seis mil cruzeiros de cachê. Saiu de campo suado, sujo e feliz.

 

A vida torta de Mané Garrincha

 




Da alegria do povo à obscuridade de um treinador de meninos

 

RICARDO KOTSCHO

 

Dias atrás na televisão, a voz cavernosa de Sargentelli fazia um apelo dramático ao presidente da República para ajudar o Mané, dar pelo menos uma casa para ele morar. Enquanto as imagens mostravam seus dribles e gols fantásticos, ficava a impressão de que do velho ídolo só restara um indigente sem teto. Um dos seus poucos amigos de depois da queda, porém, me garantiu que Garrincha tem várias propriedades em Pau Grande, apartamento alugado no Rio, casa com piscina em Bangu, dinheiro emprestado (10 mil cruzeiros por mês em promissórias), e um salário de 23 mil cruzeiros como técnico da futebol da Legião Brasileira de Assistência.

Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha famoso, agora apenas um Mané, havia voltado às manchetes no começo de agosto. Internado às pressas num hospital carioca, falavam que ele estava muito mal, na maior miséria, maluco, à beira da morte, mas ninguém explicava direito o que aconteceu. E  depois não se falou mais nele. Sempre foi assim na vida desse menino de uns 45 anos (nem sobre a sua idade entra-se em um acordo), com nome de passarinho vira-lata (Garrincha, ele mesmo explica, é passarinho vadio até para cantar) e um montão de filhos (contando nos dedos e puxando pela memória, lembra de pelo menos doze). As fotografias publicadas pelos jornais quando ele foi internado eram assustadoras, o rosto inchado, disforme, coisa daqueles retratos de Greta Garbo depois de velha. Foi só uma disfunção intestinal, diziam umas notícias, outras falavam em alcoolismo crônico e havia mesmo quem jurasse que a grave doença de Garrincha era a saudade.

Saudade do quê, de quem? Saudade dele mesmo, do Garrincha que brincava com a bola como Chaplin com o cinema e por onde passava com suas pernas tortas se divertia, divertindo os outros. “Seu problema é imaturidade emocional” – diagnosticou o médico Carlo Henrique Melo, que cuidou do nosso Carlitos no quarto 209 da Casa da Saúde Ênio Serra. “Enquanto jogava, mostrava no desempenho da profissão um raciocínio rápido. Quando parou, entrou numa fase de depressão e regrediu emocionalmente”. Garrincha estava com hipertensão arterial, encefalopatia hipertensiva e perda de consciência quando foi levado ao hospital por sua atual companheira, Vanderléia (viúva do ponta-direita Jorginho Carvoeiro, que morreu de leucemia), numa noite de sábado. Ela o encontrara num bar em Bangu, onde mora hoje com os pais de Vanderléia, com um jeito muito esquisito, calado e arredio, justo ele que não trocava nada por uma boa brincadeira. Ainda no hospital, ainda drogado, ele só chamava por Nílton Santos, seu maior amigo, compadre e confidente. Mas não o reconheceu quando Nílton foi visita-lo.

Foi sem muitas esperanças de falar com ele – “O Mané não está dizendo coisa com coisa”, me desanimaram no Rio – que fui encontra-lo há dez dias na velha colônia de férias do Ministério da Fazenda em Paulo de Frontin, pequena cidade da região serrana, a 80 quilômetros do Rio. Além do mais, dizia-se, haviam montado um verdadeiro cordão sanitário em torno de Garrincha com psiquiatras, neurologistas, assistentes sociais, psicólogos e o diabo para apressar a sua recuperação.

O velho casarão no topo da serra parecia abandonado e foi com muito custo que encontrei alguém para perguntar pelo hóspede ilustre – e único, naquela quarta-feira fria e chuvosa de inverno. Eram quatro horas da tarde e Garrincha estava no quarto assistindo a desenhos animados na televisão com sua filha Márcia (19 anos, a única das suas filhas que mora com ele; nascida da união dele com dona Iraci, colega de fábrica em Pau Grande, para a casa de quem sempre voltou quando brigava com seus amores no Rio).

De calção, camiseta e chinelos, andando lentamente e com o corpo mais curvado que de costume, fios brancos invadindo o cabelo e a barba, tinha tudo de um Garrincha aposentado, mas não de um Garrincha doente à beira da morte. Cumprimentou-me com a alegria de um velho amigo – e eu que nunca o havia visto na vida – e foi logo falando do passarinho que pegou, um tranca-ferro bonito. O passarinho, ficaria sabendo depois, não foi ele quem pegou, pertence a um empregado da colônia. Mas Garrincha tinha razão, ou alguém duvida que ele iria ficar com o passarinho? No seu mundo, não há, nunca houve, uma separação nítida entre realidade e fantasia.

Antes que lhe fizesse qualquer pergunta, a caminho do imenso salão de refeições da colônia, onde passamos sentados o resto da tarde recolhendo fragmentos de sua vida, Garrincha foi logo dizendo: “Agora, não tenho mais nada, gente boa. Mas passei um susto danado...Foi aquela maldita pimenta...Eu estava pensando que era herói, comendo uma danada de uma pimenta...Não sou herói mais não...”.

Faz uns quatro meses que as coisas começaram a piorar para o seu lado, desde que Elza Soares, de quem se separou há uns dois anos, não o deixou mais ver o seu filho Manoel Garrincha dos Santos, de três (o primeiro filho homem, depois de tanta mulher, que ele ficou nascer) e pela primeira vez na vida Mané virou “João” e entrou em desespero, passou a beber conhaque de manhã, o dia todo, a qualquer hora. Bem, Elza alega nas conversas com amigos que se separou de Garrincha porque ele já estava bebendo demais “e eu não quero ver o Mané morto na minha cama”. Segundo o Garrincha, Elza o traiu. Seja como for, o homem lembrado como tudo começou não tem mais nada de “Garrincha, a alegria do povo”. É um homem triste, mas que não deixa de rir da própria desgraça. Só fica feliz mesmo quando lembra do passado.

Dá uma longa espiada em volta, acende um cigarro. “Sabe, se eu tivesse que ficar um ano todo aqui não teria problema. Eu vivo bem em qualquer lugar. Jogador de futebol não tem pátria, um dia está aqui, outro dia na Arábia Saudita, na Arábia maldita, qualquer lugar...” E dá risada. Só que agora ele não é mais jogador de futebol, o riso fica parado no meio do caminho, mas ele não desiste. Lembra logo o convite que recebeu do governo de Honduras para passar 15 dias lá “treinando meninos”.

“Não fui porque me ofereceram muito pouco, 2.500 dólares. Ainda se fosse uns cinco mil dólares, já daria uns 20 mil cruzeiros, né? Aí eu iria. Nunca fui doido por dinheiro, mas agora já ligo um pouquinho”. Se não for para ganhar muito dinheiro diz que prefere treinar os meninos da LBA. “Levo esse trabalho muito a sério. Treinar criança de família pobre é bom, porque não é para ganhar jogo, só para tirar as crianças dos vícios das ruas”. Ao lado de outros ex-jogadores, como Vavá, Jair da Rosa Pinto, Índio, Garrincha é um professor ambulante que vai treinar meninos em Caxias, Nilópolis, São João do Meriti, Piabetá.

“Oito desses meninos hoje são profissionais. Está frio, né? Espera um pouco que vou tirar meu passarinho lá de fora”.

Mais um café, outro cigarro, as lembranças de Garrincha agora param no “jogo da gratidão”, em 73. “Até o Pelé jogou, o Maracanã estava cheio. Mas teve muito roubo. Só me deram um milhão e trezentos, já viu uma coisa dessas? O Maracanã cheio...Aí a Elza cismou de comprar uma churrascaria, aquela lá perto do campo do América, o Bigode do Meu Tio. Mas se eu não entendo nada de churrascaria, nem ela, roubaram a gente, né? Em três meses, deu 300 mil de prejuízo. Mulher quando cisma com uma coisa, sai de perto...Vem com uma conversa mansa, uma conversa boa...” Garrincha não conta, mas com o dinheiro do jogo cismou de comprar também uma Mercedes e uma casa na Barra da Tijuca. Exatamente dez anos ante desse jogo beneficente, ele estava no auge da carreira. Voltara do Chile como o grande herói do bicampeonato mundial. Chovia convites e o Botafogo jogava quase todo dia, batendo em todo mundo. Tinha acabado de dar 3 a 0 no Fluminense, três gols de Garrincha, quando num amistoso na Bahia, um certo lateral esquerdo de nome Pesão caiu em cima da sua perna direita, afetando o joelho. Levado por um amigo para o Hospital dos Acidentados, no Rio, foi-lhe recomendado pelo médico Mário Jorge Carvalho um tratamento sério, três meses de absoluto repouso. Mas o Botafogo tinha uma excursão marcada para a Itália e se Garrincha não fosse sua cota seria cortada pela metade. E lá foi Garrincha com o joelho inchado – “tiravam o derrame com uma injeção e depois faziam uma infiltração, eu sei que fiz seis jogos”. O suficiente para o Juventus comprar seu passe por 700 mil dólares. “Cheguei a posar com a camisa do Juventus e tudo, ia ganhar uma nota, mas aí o presidente do Botafogo, o Paulo Azeredo, pediu um milhão de dólares e não deu certo o negócio”.

Garrincha renderia um bom dinheiro para o Botafogo, que o vendeu já arrebentado para o Corinthians em 1966. Depois da Copa da Inglaterra, foi contratado pelo Flamengo. O técnico Tim garantia que ainda recuperaria Garrincha, até que encontraram uma garrafa de pinga debaixo da sua cama na concentração. Acabou indo para a Itália. Ainda esperava fazer um bom contrato. Mas o único que conseguiu foi o de relações públicas do Instituto Brasileiro de Café. “Até que eu não me queixava. Mas a Elza cismou de vir embora para o Brasil e começou a desgraçar. Entrou um tal de Camilo no IBC e me mandaram embora de lá. Disseram que não queriam nada de futebol no IBC, mas eu não estava lá como jogador...Era relações públicas...Eu gostava lá da Itália. Quer dizer, tinha o inverno, mas você precisava ver que roupas bonitas eu usava lá no inverno. Brasileiro era o que não faltava lá em casa. E todo mundo levava uma cachacinha...Mas eu gostava mais de conhaque, por causa do frio. Eu gostava porque na rua os caras não entendiam nada do que eu falava. Entrava num bar e falava pro cara: o arrombado, me dá uma caninha aí. E o cara lá, naquela: Que parla?, que parla? Aí eu falava: Que parla nada, dá uma coca-cola mesmo...

Na volta ao Brasil, Garrincha ainda jogaria no Olaria, na Portuguesa carioca, andou por vários cantos, mas não tinha mais jeito e ele não se conformava, de ter deixar o futebol. Por isso, desde aquele seu jogo de despedida em 73, voltou mais ao Maracanã. “O futebol hoje está muito diferente. Muito toque de bola, demora para chegar no gol. Nosso negócio sempre foi contra-ataque, jogadas rápidas, os gringos ficavam loucos com isso. Parece que escreveram para eles: você pega a bola, faz assim, faz assado e se não dá certo eles ficam perdidos. Desse pessoal que está aí só gosto do Júlio César, do Flamengo, que vai lá na linha de fundo que nem eu”.

Além das lembranças, ele não cuidou nada nesses tempos em que ia à linha de fundo e centrava, meio gol feito. Sua espingarda ele deu de presente a um amigo quando saiu de Pau Grande e foi morar no Rio, em 63. (“Quando a gente vai para a cidade desacostuma tudo, não gosto mais de matar, não, não tenho coragem, só pego passarinho no alçapão”). E o roupão da Copa de 62 foi-se embora. Estava fazendo frio em Pau Grande, Garrincha estava com o roupão, veio um amigo reclamar que nunca ganhava nada dele. E Garrincha ficou só de sunga. “Só tenho uns troféus, mas também estou dando. As pessoas guardam para mim, mostram para as visitas e assim todo mundo lembra do Garrincha. Que adianta ficar nos caixotes lá em casa, não tenho onde por?...”.

De tantas vezes que mudou de casa nos últimos tempos ele nem tem ânimo de tirar os troféus das caixas. “Olha, se eu não mudei de casa umas 17 vezes com a Elza, foi pouco. A mulher parecia cigana. Ás vezes eu até saia para a rua, só pegava o endereço novo e falava: de noite apareço lá”. Sua última parada é a casa dos pais de Vanderléia, no Rio da Prata, em Bangu, onde mora há quase dois anos. “Mas o velho está querendo a casa de volta, porque quando chove molha dentro...”. Ao se referir às suas famílias, ele fala “o pessoal de Bangu, o pessoal de Pau Grande, o pessoal do Rio”. No dia dos pais foi pessoal de todo lado visita-lo na colônia de férias, tanta gente que Garrincha teve de almoçar duas vezes. Só faltava encontrar o compadre Nílton Santos. “O cumpadre dizia sempre que a maior felicidade dele foi jogar sempre no meu time, se não ele tava liquidado...”.

Vieram avisar que estava na hora de jantar. Fazia frio em Paulo de Frontin e nada de se conseguir localizar algum médico que desse alta para Garrincha. “Eu quero ir embora daqui, já estou bom. Me telefonaram hoje de São Paulo convidando para ser técnico do Milionários. Mas logo eu? Tem tanta gente, o Dudu, o Djalma Santos, o Bellini, eu vou falar o quê para eles, como eles devem jogar? Eu mesmo falar comigo mesmo como devo jogar, já viu uma coisa dessas? Eu quero é jogar. Semana que vem a gente se vê em São Paulo. Toma cuidado aí com a estradinha, de noite é muito perigoso”. De noite contei essas histórias para o psiquiatra Eros Sucena Martins Teixeira, um dos fundadores do “Grupo de Psico-Síntese”. Que sintetizou: “Garrincha é um anjo”.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 27 de agosto de 1979, edição 1