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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Santos vende Juari para o México” (6/12/1979)

 Santos vende Juari para o México


Por 13 milhões de cruzeiros, ele foi para o Universidade de Guadalajara. Luís Fernando deve ocupar seu lugar

 

CELSO BERTOLI, de Santos

 

O Santos acabou desfazendo-se de um dos seus poucos ídolos desde a saída de Pelé: vendeu Juari, o seu maior goleador nos últimos tempos, por Cr$ 13 milhões, ao Universidad de Guadalajara, do México. A transação foi concretizada na tarde de ontem entre o presidente Rubens Quintas e o empresário Nicola Gravina, sendo o pagamento realizado a vista.

Juari, que deveria jogar hoje no amistoso contra o XV de Jaú, como parte das negociações do goleiro Marola, viajará na próxima quarta-feira para o México, juntamente com o diretor de patrimônio do Santos, Ricardo Chadad, para acertas as bases de seus dois anos de contrato. Comenta-se que o jogador deverá receber 80 mil dólares (Cr$ 2.560.000) de luvas e 15 mil dólares (Cr$ 480.000) de salários, uma vez que não tem direito aos 15% por não ter ainda dois anos de profissionalismo.

A venda de Juari pegou de surpresa a grande torcida santista, que em lugar de ver a diretoria contratar um grande craque – no caso, Luís Fernando, do América de São José do Rio Preto -, acabou perdendo o seu goleador. mas o próprio presidente Rubens Quintas afirmava que a diretoria só tomou essa decisão devido a um compromisso assumido com o atacante logo após a desclassificação do Santos para as finais do Campeonato Paulista – ou seja, a de vender seu passe para outra agremiação.

“Realmente, o Juari por diversas vezes veio solicitar diversas vezes que eu colocasse seu passe à venda”, explicou Quintas. “E, no meu entender, por tudo o que ele vem enfrentando em sua vida particular, cheguei à conclusão de que o jogador não teria mais condições de continuar na Vila Belmiro. Foi um bom negócio, tanto para o Santos como para o próprio atleta”.

Num canto da sala do presidente, no segundo andar da Vila Belmiro, enquanto Quintas acertava os detalhes finais da transação, Juari comentava que, caso não fosse negociado até o final dessa temporada, estaria disposto até a abandonar o futebol. “Não dava mais para continuar no Santos”, disse ele. “Só quero dizer que aqui na Vila ainda tenho muitos amigos e que não estou saindo por pressa de ninguém, muito menos da torcida, pela qual sempre fui respeitado como jogador de futebol; saio por outros problemas, que prefiro não revelar, problemas esses que acabaram com minha permanência no Santos.

O centroavante tem hoje 20 anos e estava há cinco na Vila Belmiro. Começou sua carreira no Pavunense, de São João do Meriti, e veio para Santos em 74 para atuar no juvenil. Sua estreia como profissional aconteceu somente em 76, na Vila Belmiro, numa partida contra o XV de Jaú, mas seu primeiro contrato só foi assinado em 77.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 6 de dezembro de 1979, edição 87

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “O Santos ainda pode ser bicampeão” (16/11/1979)

SANTOS 4, NOROESTE 0

O Santos ainda pode ser bicampeão

 


TONICO DUARTE

 

O Noroeste conseguiu transformar a comemoração dos noventa anos da República num autêntico Dia das Mães. Ao perder de 4 a 0 para o Santos, ontem no Parque Antártica, a equipe de Bauru foi tão maternal e compreensiva quanto aquela senhora que, dizem, padece num paraíso. E o agradecido Santos, que só não fez mais por pura preguiça, conservou suas chances de chegar à final. Mas é difícil, pois precisa vencer, agora, o Palmeiras e o Guarani.

Até que o Santos começou indeciso, com Pita, seu pior jogador, errando muitos passes. Em compensação, lá na esquerda, João Paulo fazia gato e sapato de Borges e de todos aqueles que se atrevessem a marca-lo. Foi assim que, logo aos 5 minutos, ele driblou na velocidade a Tobias e Jorge Fernandes, deu a Juari, recebeu de volta e fez 1 a 0.

Três minutos depois, aos 8´, foi a vez de Nilton Batata passar facilmente por Santos, cruzar para trás, e encontrar Juari colocando rente à trave direita de João Marcos: 2 a 0. A esse gol, o centroavante santista denominou “despedida de solteiro”. Hoje, ás 18 horas, Juari casa-se com Márcia, uma professora santista.

Estava tão fácil que o Noroeste só conseguiu chutar sua primeira bola no gol de Pais aos 26 minutos, num arremate torto de Wallace. Mas, aos 28´, em nova falha da defesa, o Santos chegaria ao seu terceiro gol: João Paulo lançou Juari, Ednaldo quis colocar ordem na casa e acabou tocando por cobertura, fazendo contra. Entretanto o juiz José Pereira da Silva deu esse gol como sendo de Juari.

O segundo tempo começou e o Santos continuou desperdiçando a mamata que o Noroeste lhe oferecida. O último gol do jogo aconteceu aos 21 minutos: Pita chutou, João Marcos rebateu e Rubens Feijão pulou de “peixinho” para fazer 4 a 0. Depois disso, o jogo passou à dar sono e, para quebrar a monotonia, a torcida pediu a entrada de Ailton Lira, no que foi prontamente atendida por Pepe. O próprio técnico, nos vestiários, confessaria a sua surpresa diante do futebol ridículo do Noroeste: “Foi realmente um jogo muito fácil para o Santos. Mas, por um lado, isto é bom, pois temos de guardar as nossas forças para estes dois jogos dificílimos que teremos pela frente”.

Ao lado de Pepe, quase sem ser notado, estava Dorval. O ex-ponta direita do Santos aparente bem menos que os seus atuais 44 anos de idade. Metido num elegante safári azul, Dorval cumprimentava Pepe e desejava-lhe boa sorte nos próximos jogos: “Eu vou precisar mesmo” – respondeu Pepe.

Súbito, ambos começaram a lembrar os velhos tempos e chegaram a mesma conclusão: “Hoje em dia, o futebol perdeu sua beleza”.

 

O JOGO FOI ASSIM

SANTOS: Pais; Nelson, Cassiá, Fernando e Gilberto; Gilberto Costa, Pita e Rubens Feijão (Ailton Lira); Nilton Batata, Juari e João Paulo

NOROESTE- João Marcos; Borges, Tobias, Jorge Fernandes e Santos; Ednaldo, Helinho e Mardoni (Salomão); Jorge Maravilha, Leia e Wallace.

Juiz – José Pereira da Silva

Renda – Cr$ 840.370,00

Público pagante – 14.541 pessoas

Gols- João Paulo, aos 5´, Juari aos 8´ e aos 28´do primeiro tempo. Rubens Feijão aos 2´do segundo tempo.

Cartões amarelos- Ednaldo e Wallace.

 


Publicado originalmente no Jornal da República em 16 de novembro de 1979, edição 70

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Este jogo foi um conflito de gerações” (29/10/1979)

SANTOS 3, SÃO PAULO 0

 

Este jogo foi um conflito de gerações



De um lado, a juventude de Pita e João Paulo. De outro, o cansaço de Edu e Teodoro

 

RICARDO KOTSCHO

 

Última grande estrela da belle-epoque do futebol paulista, ele não foi visto pelos que foram ontem à tarde ao Morumbi. Como nos tempos do seu reinado, “eu e o Getúlio ficamos 15 anos no poder”, João Mendonça Falcão, 63 anos, barba branca por fazer, calças e sapatos brancos, depois de três meses de ausência do futebol voltou a ser a principal atração do “pátio de milagres”, como é conhecido o saguão dos vestiários do Morumbi.

Falcão foi o mais malhado dirigente esportivo de todos os tempos e dá risada quando lê os jornais de hoje em dia. “Essa imprensa está acomodada pra burro. Eu levava pau todo dia...” E ele tem toda a razão: faltando meia hora para começar o jogo, o Morumbi ainda está semi-deserto, as torcidas muito comportadas, não há mais aquela guerra dos tempos em que Falcão emprestava dinheiro da Federação Paulista de Futebol para o Corinthians comprar Paulo Borges e Zé Maria, o Santos trazer Carlos Alberto e Rildo do futebol carioca e o Palmeiras ganhar a briga por Ademir da Guia.

“Acabaram as estrelas”, diz ele, sem incluir na lista, humildemente, o próprio Falcão, que agitava a brincadeira e fazia o futebol ser o melhor programa do domingo à tarde em São Paulo. Tão nostálgico anda Falcão que ele sente saudades até de Paraná e Vitor, jogadores do São Paulo sem tantos recursos que entravam em campo para dar porrada: “Cada porrada que o Vitor dava no Pelé fazia o estádio inteiro se levantar. E hoje quem acaba com quem? É tudo japonês, uma japonesada danada...”.

Mais da metade do Morumbi está vazio quando o Santos entra em campo, já meio cansado, com aquela má vontade de quem vai apenas cumprir a rotina. Daquele futebol cheio de truques, mandingas, safadeza e muita graça dos tempos de Falcão só está em campo a velha fotógrafa Meire, tirando aquelas fotos pousadas dos times que nunca saem em jornal nenhum.

No que o Santos deu a saída, Juari foi com tudo em cima da defesa do São Paulo. Menos de um minuto, primeira falta. E hoje, Ailton Lira, o terror da bola parada, está em campo. Mas chuta em cima da barreira. O Santos solta seus dois pontas malucos, Nílton Batata e João Paulo, em cima de Antenor, de volta depois de quatro meses de ausência. O Santos precisa de um ponto hoje para garantir a sua classificação e vem matando em cima do São Paulo, que parece estar saindo direto de uma bela feijoada. Juari e Rubens Feijão fazem pizza em cima de Chicão, Estevam e Bezerra. Aos cinco minutos, num contra-ataque rápido, Ailton Lira lança Juari pelo alto. Bezerra bobeia e está feito o primeiro gol: um leve toque na saída de Valdir Perez, Santos 1 a 0. E o massacre continua. Com dez minutos de jogo, o São Paulo ainda não conseguiu passar do meio de campo. Até o pequeno Nélson, refugo do São Paulo que o Santos levou, arrisca-se a chutar ao gol. Zé Sérgio, a grande arma do São Paulo, ainda não pegou na bola.

O São Paulo vai de Edu, que remédio? Ele sofre falta e ele mesmo bate, uma pancada que raspa a trave. O goleiro do Santos inspira tanta confiança que em vez dele orientar a barreira é a barreira que orienta Flávio. Zé Sérgio, deslocado para a ponta-direita, dá um chutinho e Flávio quase aceita. O São Paulo começa a fazer todo o seu jogo em cima de Zé Sérgio e o Santos faz o de costume: dá pau.

Os meninos da Vila cansaram-se logo e o provecto meio campo do São Paulo consegue equilibrar as coisas quando o jogo chega à primeira meia hora. Antenor bate um meio escanteio pela direita, Serginho tenta um bate-pronto, erra, mas mesmo assim Flávio quase consegue colocar a bola para dentro. Com seu elegante conjunto cor de vinho, Flávio é, a essa altura, a grande esperança da torcida do São Paulo. E o Santos bota todo mundo em cima de Zé Sérgio para garantir, como o São Paulo fazia quando havia um certo camisa 10 no Santos. A batucada da torcida do São Paulo está que nem o time: parece uma gravação. O Santos quase faz o segundo num vídeo-taipe do primeiro gol, mas Juari desta vez chuta para fora. Na sequência, Zé Sérgio empata, mas Ayeta anula o gol, alegando falta de Serginho em Flávio.

O jogo já estava dando sono quando Nilton Batata acordou e deu um passeio em cima de Chico Fraga, que consegue ser o pior na defesa do São Paulo. Batata vê Juari livre na área, este vai à linha de fundo e centra para trás, na medida para Rubens Feijão que, com calma, mete no meio do gol, sem, chance para Valdir Perez. Santos, 2 a 0. A coisa pega fogo. O São Paulo dá a saída, Edu centra e Rubens Feijão mete a mão na bola de bobeira. Pênalti que Serginho chuta em cima de Flávio, que defende com os pés, a bola bate no travessão e na volta o goleiro consegue mandar para longe.

O Santos volta para o segundo tempo trocando passes e o São Paulo fica só cercando, olhando. O problema do São Paulo com o Santos é um conflito de gerações, insolúvel. Aqueles senhores Chicão, Teodoro, Bezerra, Edu sentem-se impotentes diante da molecada do Santos. Com seu boné branco de técnico argentino e aquele ar que já nasceu cansado, Pepe vê o Santos perder um gol atrás do outro, brincando. Chicão entra para quebrar Rubens Feijão e não tinha outro jeito, já estava virando baile. Só Nilton Batata perdeu três gols feitos e ainda estamos em dez minutos do segundo tempo. Moleza como esse Chico Fraga ele nunca mais vai pegar. Mário Juliato, que dizem ser o técnico do São Paulo, resolve tomar uma providência: chama de uma vez Luis Muller e Jaime e, enquanto eles se aquecem, Juari faz o terceiro aos 13 minutos: João Paulo centra da esquerda, a bola bate no baixo ventre de Juari e entra para o desespero de Valdir Perez. Santos 3 a 0.

Saem Estevam e Chicão, mas a esta altura poderia sair qualquer um e entrar qualquer outro destas preciosidades que Juliato tem no banco, que daria na mesma. O Santos passeia em campo como se não tivesse adversário. E antes do jogo Juliato ainda anunciou que este seria o time-base do São Paulo para disputar as finais. Então, ótimo: agora, ele já sabe que faltam onze. Mas até que a torcida se diverte. Aos 25 minutos, num centro de Jaiminho, Edu e Serginho dão uma bela trombada dentro da área. Não há feridos. No Morumbi, cada um se diverte como pode: Ayeta distribui cartões amarelos como se fosse sopa do falecido Zarur. A torcida do Santos – veio gente até de Monte Sião, Minas Gerais – pede mais um, mais um, e é justo. Meia hora do segundo tempo, Ailton Lira sai de campo, aplaudido de pé, para entrar Pita, mas o jogo propriamente dito já acabou. Em campo, todos parecem satisfeitos com o resultado.

 

O JOGO FOI ASSIM:

Santos- Flávio; Nelson, Cassiá, Fernando e Gilberto; Gilberto Costa, Ailton Lira (Pita) e Rubens Feijão; Nilton Batata, Juari e João Paulo.

São Paulo- Valdir Perez; Antenor, Estevam (Jaime), Bezerra e Chico Fraga; Chicão (Luis Muller), Teodoro e Jaiminho; Edu, Serginho e Zé Sérgio.

Juiz- João Leopoldo Ayeta

Renda- 1.585.110.000 com 28.607 pagantes.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 29 de outubro de 1979, edição 55

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Histórias da Vila Belmiro” (11/10/1979)

FUTEBOL ALEGRE

 

Histórias da Vila Belmiro




SEVERINO MENDES

 

Clodoaldo fez Coritiba chorar

Clodoaldo está de volta, pois a saudade da beira da praia era maior que o dinheiro do Coritiba, e Pepe assumiu e acalmou os meninos. A Vila Belmiro mudou muito nos últimos dias, nem lembra mais a, praça de guerra daqueles sessenta tumultuosos dias do técnico Hilton Chaves. Dos velhos tempos restou apenas um tremendo leão-de-chácara para “enquadrar” os jornalistas.

 

Sonhos de Pepe, o encorujadinho

Pepe já está acostumado a ser tratado assim, desde que aposentou o chute formidável e se transformou em técnico de futebol lá mesmo no Santos, onde está há 25 anos. Os diretores, quando ele assumiu o lugar de Hilton Chaves na equipe principal: “Pepe ficará no cargo até o fim do ano. Quando teremos de encontrar um técnico de gabarito para dirigir o clube”.

Não se diz uma coisa dessas mas Pepe, até a semana passada treinador dos juvenis, nem liga. É um desses temperamentos dóceis. Certa vez, falando do seu filho mais velho, que treinava na Vila, disse: “É como eu. Bate de esquerda, forte e é calado, encorujadinho”. Pepe é assim, sempre encorujadinho, mas desta vez não interpretem seu silencia como sinal de fraqueza – ele está disposto a ficar.

Se depender da torcida, Pepe não sai nunca mais. Ontem, na Vila Belmiro, um grupo dizia: “Não fizemos jogadores em casa? Porque não podemos fazer técnicos?”. Agora, Pepe pretende resolver os problemas táticos do time e garantir a classificação para a segunda fase do campeonato, com o apoio dos jogadores, quase todos formados por ele mesmo, no time de juvenis. Pepe é um liberal, desses que perdoam falhas e acham que concentração não ganha jogo. Os dirigentes é que tem medo. Afinal, dizem sempre os cartolas, liberdade é negócio perigoso.

A cidade estava preparada para assistir aos milagres de uma dupla realmente infernal: na boca do túnel, o técnico Tim, genial craque do passado, chamado El Peón, um treinador cheio de estratégia e malandragem: dentro do campo, como seu braço direito, o futebol bonito de Clodoaldo, que aceitou deixar a Vila Belmiro para renascer em Curitiba. Estavam preparando as câmaras de televisão, multidões de repórteres e fotógrafos prontas para as grandes manchetes. Foi aí que o telefone tocou e o Coritiba, o clube mais popular do Paraná, sofreu como se tivesse perdido um campeonato para o Atlético – era Clodoaldo avisando que não ia mais.

O presidente do Coritiba estava disposto até a pagar 150 mil cruzeiros mensais a Clodoaldo, quantia fabulosa para os padrões locais, mas o jogador, que já havia tirado fotografia com a camisa do novo clube, achou que era pouco para fazê-lo esquecer a bola da praia. “É que minha vida está aqui em Santos”, explicou Clodoaldo: “todos os dias, mesmo quando estou machucado ou dispensado dos treinos, passo na Vila Belmiro para bater um papo. Praticamente fui criado aqui e, no moimento em que vesti a camisa do Coritiba, não resisti: não terei condições psicológicas para vestir outra camisa”. Mas não é só saudade. Segundo alguns torcedores do Santos, o destino de Corró está traçado: assim que encerrar a carreira, ou tomará conta dos juvenis ou aceitará um cargo de dirigente. Vai ser cartola.

 

Hílton sofreu na mão dos meninos

Na véspera de sua saída do clube, o ex-técnico Hílton Chaves declarou à imprensa, engasgado de emoção: “Eu tenho pena deles, podem crer: tenho porque eles fazem tudo para acertar e não estão acertando”. Falava dos jogadores, os chamados “Meninos da Vila”, amargando derrota atrás de derrota. Mas há quem diga que Hílton Chaves foi vítima desses jogadores e “Meninos da Vila” é uma expressão que lembra as rebeldias da FEBEM.

É possível. Senão, como explicar a repentina ascensão do time, que ganhou do Botafogo (3 a 1) e do Comercial (3 a 0), jogos disputados em Ribeirão Preto, onde até o velho Santos de Pelé tropeçava em toda sorte de dificuldades?

Mas na Vila, logo que Hílton resolveu ter pena do Santos à distância, treinando o Cruzeiro de Belo Horizonte, a crise está esquecida e, “meninos” como Gilberto, Toninho Vieira, Nílton Batata, Pais, Antônio Carlos e Valdemir recebem os benefícios de uma anistia realmente ampla e irrestrita. É o prêmio pelo bom comportamento e o esforço em campo, uma prova de que, pelo menos por enquanto, a equipe reconhece um comando, inexistente nos sessenta desastrosos dias que Hílton Chaves passou na Vila.

E os culpados pelo que houve? Não se sabe, mas, por via das dúvidas, a diretoria do Santos proibiu a entrada da imprensa nos vestiários da Vila Belmiro. O pessoal trabalha na antessala, vigiado por um robusto funcionário.

 

Publicado originalmente no Jornal da República em 11 de outubro de 1979, edição 40

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Grandes matérias esportivas do Jornal da República: “Uma vitória da torcida santista?” (1/10/1979)

PALMEIRAS 2, SANTOS 1

 

Uma vitória da torcida santista?

 



A derrota de ontem deve custar – para alívio geral – a cabeça do técnico Hílton Chaves

 

TONICO DUARTE

Cacau é dessas figuras que vivem de pequenos expedientes, um biscate aqui, outro ali – personagem ao vivo e em cores de João Antônio. Ontem ele acordou cedo, foi ao Anhangabaú vender umas quinquilharias, a fim de livrar um dinheiro para ver o seu Santos jogar. Tinha que arrumar o suficiente para o ônibus, ingresso para a geral e um gole de “51”, porque ninguém é de ferro. Cacau conseguiu, mas que decepção: o Santos perdeu de 2 a 1 para o Palmeiras e agora está muito mais remota a sua participação no terceiro turno, que realmente decidirá este monstrengo chamado Campeonato Paulista.

Quando o jogo terminou, Cacau já encontrara os culpados por mais um fracasso santista: Pais e o técnico Hílton Chaves. Ele reclamava do goleiro – “tomou um gol torto daqueles”, referindo-se ao “frango” no gol olímpico de Baroninho, ainda no primeiro tempo. Quanto ao técnico, pelo menos uma satisfação: Hílton deverá deixar o clube ainda hoje, demitido pelos dirigentes. E o pobre Cacau meteu-se numa briga com alguns palmeirenses, quase virando notícia do repórter policial Beija-Flor.

Antes do jogo começar, Beija-Flor andava de um lado para o outro do saguão do Morumbi. Quem o escuta pelo rádio, narrando com tanta violência, não imagina que ele seja baixinho. Pensamos logo de um Fleury com o microfone em punho, pronto a dar aquele conhecido prefixo: “Polícia chamandooooo!”.

Beija-Flor é ligeiramente estrábico, esconde os olhos atrás das lentes grossas. Usa bigodinho à lá “Vampiro de Curitiba” e o cabelo preto vaselinado para trás. Parece, na verdade, uma miniatura de Jânio Quadros.

Mas, no saguão do Morumbi, vai acontecendo o inusitado. Primeiro, a estranha chegada do presidente do Corinthians. Vicente Matheus, que não tinha nada o que fazer ali. Matheus, uma gargantilha de ouro com a efígie de São Jorge, puxa-me para um canto e, entre suas gargalhadas, lasca uma daquelas tiradas que fazem a delícia de seus críticos: “Ei, não vai dizer que sou palmeirense, hein?”.

Outro acontecimento insólito é a presença de uma parafernália cinematográfica, gritos de luzes “luzes, câmera, ação”. O cineasta Djalma Batista utilizou o saguão do Morumbi como cenário de seu primeiro longa-metragem, a estória do jogador de futebol Asa Branca, que deverá ser lançado em abril do ano que vem. O take que estava sendo filmado era sobre a estreia de Asa Branca num time grande. Asa não foi bem e o ambiente no clube imaginário está bastante conturbada: “Esta é uma estória do sonho brasileiro, daquele jogador do interior que vem arriscar a sorte num time grande. Já rodamos 20% do filme, com o financiamento da Embrafilme”, diz Djalma, parecendo deslumbrado com o ambiente.

O jogo está para começar. Dentro das novas normas do CND – quem atrasar paga multa -, os dois times estão em campo bem antes das 16 horas. Gilmar chama atenção por seu novo uniforme: calção preto brilhante, camisa azul vistosa, com recortes brancos na gola com duas faixas paralelas ao longo das mangas. O goleiro do Palmeiras trata de explicar tanta elegância: “Além da parte técnica, é preciso aprimorar o visual”.

Começa a partida, e o Santos parece ligeiramente melhor. Sua torcida já ensaia o conhecido coro para o adversário – “um, dois, três, quatro, cinco mil. Queremos que o Palmeiras vá pra...”, rimando com alguma coisa que não era varonil ou céu de anil. Mas é o Santos quem sofre o primeiro gol, aos 40 minutos do primeiro tempo: Baroninho cobra um escanteio pelo lado direito e – pasmam-se as duas torcidas – está feito o gol olímpico. É bem verdade que Pais colaborou, numa falha incrível.

Pais também colaboraria no segundo, aos 38 da fase final, saindo do gol atabalhoadamente, permitindo que Pedrinho concluísse com facilidade para a meta vazia. Na verdade, há muito que o goleiro sofrera um evidente descontrole emocional. Primeiro, ele tentou agredir Jorginho, depois foi tomar satisfações com o incipiente juiz João Leopoldo Ayeta.

O nervosismo parecia tomar conta de alguns jogadores do Santos, como Nílton Batata, que andou trocando pontapés com Baroninho e Pedrinho. O azar maior foi do lateral-esquerdo do Palmeiras, que revidou e acabou sendo expulso. Aos 40, num de seus raros momentos de lucidez, o Santos diminuiu através de Juari.

Do clássico – se é que se pode utilizar este qualificativo para o jogo – restou mais uma vez a prova de incompetência dos homens que dirigem o futebol paulista. Apenas 21.363 pessoas pagaram ingresso, porque ninguém aguenta mais tanto desvario. Ficou também a doce saudade daquele tempo em que o Palmeiras era o único time capaz de fazer frente aqueles onze gênios que formavam a maravilhosa equipe do Santos. De um lado havia Pelé, do outro Ademir da Guia. Hoje, quando vai a campo, a torcida já sabe que será insultada pelo joguinho de Nílton Batata, Baroninho e quejandos.

 

O JOGO FOI ASSIM

Palmeiras 2, Santos 1

Palmeiras – Gilmar; Rosemiro, Silva, Soter e Pedrinho; Pires, Jorge Mendonça (Mococa) e Zé Mário (Carlos Alberto); Jorginho, César e Baroninho.

Santos – País; Nélson, Cassiá, Fernando e Washington; Gilberto Costa, Rubens Feijão (Célio) e Toninho Vieira (Cardim); Nílton Batata, Juari e João Paulo.

Juiz: João Leopoldo Ayeta.

A renda foi ridícula: Cr$ 1.162.780,00. Apenas 21.363 pessoas pagaram ingresso, o que já é muito para o nível técnico do campeonato paulista.

Gols: Baroninho aos 40´do primeiro tempo. Pedrinho aos 38´e Juari aos 40´do segundo.

Cartões amarelos: Cassiá, Nílton Batata e Silva.

Cartão vermelho: Pedrinho.

 



Publicado originalmente no Jornal da República em 1º de outubro de 1979, edição 31  

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Entrevistas históricas da Sexy: Rubens Ewald Filho (outubro de 1997)

30 Anos Esta Noite

 


Rubens Ewald Filho acaba de completar 30 anos como crítico de cinema. Já assistiu a 17.000 filmes e tem uma memória prodigiosa para lembrar detalhes curiosos da maioria deles. Mais que isso, conseguiu virar uma personalidade exercendo atividade muito perigosa: a crítica

 

Num universo paralelo, Rubens Ewald Filho não é um crítico de cinema, mas sim um próspero exportador de bananas. Não, você não está assistindo ao filme errado. A família dele, era, afinal, proprietária de uma enorme fazenda de bananas em Santos, litoral de São Paulo. Menino tímido e desajeitado, oprimido pela avó – uma matriarca de romance do Gabriel Garcia Márquez -, Rubens encontrou nos livros e no escurinho do cinema sua passagem para outra dimensão. “Minha infância é uma mistura de ‘História sem Fim’ com ‘A Rosa Púrpura do Cairo’”, confessa, fazendo reverências, naturalmente, ao cinema.

 

Nesta época, começou a fazer, num caderno escolar, anotações sobre os filmes que via. Escrevia o enredo, nomes de atores, diretores, e ainda fazia cotações. Graças ao caderninho, ele sabe, hoje, exatamente a quantos filmes já assistiu: 16.950 (até o fechamento dessa edição).

 

Estudante de colégio marista, seu destino parecia traçado: ser encaminhado ao seminário, como queria a avó. Tentando escapar a esse destino pior que a morte, Rubens, 17 anos, encarou três faculdades: Direito de manhã, História e Geografia à tarde e Jornalismo, á noite.

 

Para desespero doa pais, acabou optando por Jornalismo. Nesta época, porém, as finanças da família já não iam tão bem. A falência batia à porta e, sem poder econômico, a matriarca não teve pulso para impedir a decisão do neto.

 

Chegando a São Paulo, Rubens acabou entrando na equipe do “Jornal da Tarde” que, naquela época, se, dedicava ao nobre propósito de revolucionar a imprensa diária no País. Começou fazendo a coluna “filmes na TV”. Segundo ele mesmo, foi a primeiro crítico a vir “das bases”. Ao contrário de seus colegas da época, que perdiam em teses eruditas sobre a Sétima Arte, Rubens escrevia como um fã: dava detalhes sobre os bastidores e contava, por exemplo, quem havia comigo quem durante as filmagens – isso tudo sem perder o apurado senso crítico, sua marca registrada.

 

Mas, inquieto, recusou-se a ficar apenas atrás de uma máquina de escrever. Virou ator de teatro e cinema, escreveu roteiros e acabou como autor de telenovelas. Seu trabalho mais recente foi “Éramos Seis”, para o SBT.

 

Hoje, aos 51 anos, 30 como crítico, Rubens Ewald Filho é diretor de produção e programação da HBO Brasil, canal a cabo distribuído pela TVA. Ali desenvolve vários projetos de parceria com o cinema nacional, além de começar a garimpar novos autores.

 

Nesta entrevista, realizado no Restaurante Tucupy, em São Paulo, Rubens contra um pouco de sua história e fala de jornalismo, novela, personalidades...E cinema, naturalmente. Tudo temperado com deliciosas doses de sacanagem.



Para cercar a fera, SEXY escalou o diretor de redação Palmério Dória, o editor Edson Aran e três convidados muito especiais: Paulo Cabral (nosso ex-editor adjunto, que debandou da SEXY para virar autor de novelas na Record), Maria Ângela de Jesus (gerente de produção da HBO Brasil e crítica de cinema da “Vogue”) e Paulo Leite (ator e proprietário do Tucupy).

Silêncio no set, claquete...Rodando!

Palmério Dória: Você escreveu no “Aqui São Paulo”, do Samuel Wainer, um artigo chamado “Eu, Pornógrafo”. Você é pornógrafo?

Rubens Ewald Filho: Eu vim de Santos, sou da Baixada, e peguei uma época em que o cais ainda tinha cabaré. Hoje o cais é feio, mas naquela época o cais tinha shows; as putas dançavam, cantavam...

PD: A putaria tinha seu charme...

REF: Gente, era um filme inacreditável. Santos tinha uma coisa de nudez...Porque é uma cidade litorânea, né? Então tinha o lado família e também o lado putaria. As duas coisas convivam harmonicamente.

PD: A sua iniciação sexual foi lá?

REF: Não; curiosamente não foi. Foi internacional: foi na Argentina. Na verdade, eu acho que não sou exatamente um pornógrafo. Acho que sou voyeur. Quem trabalha com cinema é voyeur, gosta de observar compulsivamente. Eu vinha de uma família classe média alta...Sabe aquela família que tinha dinheiro e nunca soube? Só soube que era rica quando perdeu tudo? A gente exportava banana para a Argentina. Tinha uma matriarca, a minha avó, que controlava toda a família. E eu era a principal vítima dela. Nunca tive amigo, nunca brinquei com ninguém; era muito tímido.

Paulo Cabral: E quem te levava ao cinema?

REF: Meu pai e minha mãe. Eles também eram vítimas da minha avó, que era uma personagem muito forte. Eu era um menino arrumadinho, enfim, um pentelho insuportável! (Risadas) Minha infância é uma mistura do filme “História Sem Fim” e “A Rosa Púrpura do Cairo”, porque tudo o que eu fazia era ler e ir ao cinema. Eu não podia jogar futebol porque era um desastre, era muito desajeitado...(Rubens começa a gesticular e derruba um copo de suco na mesa). Tá vendo? Sou assim até hoje! (Risos).

Paulo Leite: Mas, apesar disso, você tem uma paixão notória pelo futebol.

REF: Eu cresci em Santos na época do Pelé. Era impossível não se interessar. Tenho cadeira cative no Santos Futebol Clube.

PD: Mas o crítico de cinema, quando começou a nascer?

REF: Eu tinha um caderninho quando era garoto. Todo filme que eu via eu anotava no caderninho.

PD: Via várias vezes o mesmo filme?

REF: Não, era só uma vez. Os filmes mudavam semanalmente. Por causa desse caderninho sei exatamente quantos filmes já vi até hoje.

PD: E quantos são?

REF: Quase 17.000. Está mais ou menos em 16.950.

PL: Você nunca pensou em atuar ou dirigir? Ou você sublimou isso?

REF: Eu não sublimei, eu fui à luta. Mas, só pra não perder o fio da meada, nesse caderninho eu anotava o nome do filme, o nome do ator e o nome do diretor.

PD: Desde garoto você tinha interesse pelo diretor? Porque na minha infância isso não existia, só tinha o mocinho e o bandido.

REF: Eu tinha interesse pelos diretores grandes como Hitchcock, John Ford. Na minha época tinha duas revistas que foram importantes na minha formação: a “Filmelândia” e a “Cinelândia”. Isso me ajudou muito, porque até hoje eu tenho na cabeça a história dos filmes, dos bastidores.

Edson Aran: Nessa época, quem eram seus tesões? Que atrizes despertavam sua líbido?

REF: Eu andava com uma foto da Kim Novak na carteira.

Maria Ângela de Jesus: Rubens, já que você falou na Kim Novak, você fez uma entrevista com ela e ficou visivelmente abalado...

REF: É, ela me deu o telefone, pedindo que eu a trouxesse ao Brasil. Ela está com 64 anos, mas está deslumbrante.

PL: Comível?

REF: Não só comível, como sedutora. Ele tem aqueles olhos verdes que são uma coisa! A voz rouca dela é absolutamente sedutora.

PD: Você ainda tá apaixonado pela Kim Novak! (Risos)

REF: O problema de infância só agravou. É muito difícil você encontrar uma pessoa 30 anos depois e ela ainda estar linda, sedutora...

PD: Aliás, falando em tesões, parece que a Liv Ullmann ficou caidinha por você...

REF: Não, a Liv Ullmann...Você conhece a atriz, né? São sedutoras profissionais. A Liv Ullmann chegou pra entrevista e disse que não tinha nada a dizer porque já tinha sido entrevistada pela HBO recentemente. Mas aí ela completou: “Ah, não tem importância, a gente vai ficar flertando”. Fizemos a entrevista de mãos dadas. Eu com as velhas sou sucesso absoluto! (Risadas). Tem uma outra também que eu nunca contei pra ninguém, que é a Esther Williams. No primeiro Festival do Rio de Janeiro, o FestRio, em 85, 86, chega a Esther Williams como convidada. Ela tinha acabado de ficar viúva do Fernando Lhamas e estava bem bonitona ainda. Ela entrou no Hotel Nacional e disse: “Gente, isso aqui é um circo! Eu não vou ficar aqui!”. E foi embora. Maravilhosa, né? Daí a gente se conheceu numa festa, ela olhou pra mim e disse: “Você vai ser meu escort”. E eu fui escort dela.

PL: E rolou?

REF: Para de ser vulgar! Eu não vou contar quem eu comi. Continuo sendo um cavalheiro.

EA: Mas as pernas mais bonitas do cinema eram da Esther Williams ou da Cyd Charisse?

REF: Eram da Cyd Charisse. Eu coloco outra pessoa, que não sei se você já prestou atenção: Ann Miller.

PD: Bem, mas vamos voltar à história da Argentina. Como foi sua primeira vez?

REF: Lembra da história da banana, né? Eu tinha 16, 17 anos e fui pra Argentina com meu primo para negociar bananas. O representante que negociava com a gente nos deu de presente duas prostitutas. Aí ele arranjou um apartamento e meu primo ficou com uma mulher de um lado e eu fiquei com a outra num divã. E você sabem, a puta argentina é uma grande puta...

EA: Qual é a diferença?

REF: Ah, não vai me deixar mal...Olha, eu sempre fui preocupado com a performance. Não gostava daquele negócio de encostar na mulher e ela: “Ah! Ah! Ah!”. (Risos) Mas o detalhe é que no quarto tinha um espalho pelo qual eu observava o outro casal...E teve um agravante: na hora, a puta do outro menstruou. Quer dizer, virou mesmo uma novela mexicana. (Risadas). Achei muito divertido.

PD: No dos outros é groselha, né?

EA: Rubens, você já transou no cinema?

REF: Nos meus bons tempos, já. Você me lembrou uma coisa que era muito emocionante, que é aquela coisa de passar as mãos nos peitos no cinema. Por isso que o filme “Houve Uma Vez Um Verão” é marcante para muita gente.

PL: Você fez uma legendagem brilhante para o filme “As Sandálias de Um Pescador”. Dá pra fazer sacanagem assistindo um filme como aquele?

REF: Totalmente. Eu acho que só excita mais. Eu estudei num colégio marista, né? Queriam que eu virasse padre.

PD: Você já apresentou o Oscar quantas vezes?

REF: Quinze. Você sabe como eu comecei a apresentar um Oscar? Eu convidava alguns amigos e fazia a festa do Oscar na minha casa. Uma vez a Globo foi lá, me entrevistou e perguntou quem iria ganhar. Eu acertei na mosca. Quando eles precisaram de alguém pra um debate antes do Oscar, me chamaram. Depois me convidaram pra fazer a transmissão.

MAJ: Hoje em dia, quem você gosta de entrevistar?

REF: Gosto dos velhos ou das velhas, gente que na minha infância significavam alguma coisa. Ou diretores. Gosto de conversar com pessoas inteligentes, e atores em geral, me desculpem, não são lá muito inteligentes. Particularmente o ator americano, que é meio abobado, centrado, só sabe dele.

PD: Quem são os grandes atores do cinema?

REF: O grande ator constrói o personagem de dentro pra fora. Aqueles atores naturalistas americanos como Cary Grant, Gary Cooper, Humprey Bogart, James Stewart dão uma aparência de absoluta naturalidade. São eternos. Antiatores são, por exemplo, o Dustin Hoffman e o Robert De Niro, que, pra cada acerto, erram cinco. Mas...Ah, eu ia contar uma fofoca maravilhosa que ninguém no Brasil publicou!



PD: Vá em frente!

REF: Nos Estados Unidos se pode publicar tudo, né? Mas na França não. Então você só fica sabendo das fofocas quando vai lá. Vocês sabem por que a Simone Signoret ficou daquele jeito? Era uma mulher maravilhosa e em um ano virou uma velha. Ela bebia. Tudo bem, muitos bebem, mas sabe por que ela bebia? Porque o Yves Montand, marido dela, a traía com a filha dela.

PD: Transava com a enteada?

REF: É, transava com a enteada.

MAJ: Woody Allen 20 anos antes...

REF: É...Eles conviviam naquele ménage à trois, que para ela era muito dolorido. Ele foi ficando cada dia mais destruída e foi se acabando.

PD: Estou muito chateado com você Rubens, porque você não se apaixonou pela Ava Gardner...

REF: Ava Gardner era meu ídolo! Você se lembra de um filme chamado “O Barco das Ilusões”? É a primeira lembrança que eu tenho de ter chorando no cinema. Ela era o máximo, a mulher mais linda que já existiu.

PL: O Sinatra também achava, né?

REF: Ele era enlouquecido por ela. A Ava Gardner tinha o dom natural de fazer a vagina se contrair, como se fosse uma gueixa.

EA: Era a famosa xoxota de alicate.

REF: Isso. Por isso que os homens enlouqueciam com ela. Vocês conhecem a história do Ali Khan, o playboy árabe que comeu todas em Hollywood?

PD: Não, qual é?

REF: Não é que ele tinha pau grande, não. É que desde criança ele foi treinado para segurar o orgasmo. Ele ficava horas de pau duro. Por isso, ele foi o grande comedor da época. Mas no caso dele não era dom, era treino, tanto é que ele teve câncer na próstata.

PD: Pra tudo se tem um preço...

EA: Mas, mudando de assunto, o que você pensa dessa tonelada de críticos que tem aí hoje em dia?

REF: Bom, não tem mais críticos, né? Os que sobraram são o Sérgio Augusto e o Inácio Araújo...O problema é que crítica sempre foi assim: a pessoa precisava de um bico, mandavam o cara escrever sobre cinema. O cara cobria notícias policiais e escrevia sobre cinema. Eu fui, na verdade, o primeiro crítico que veio das bases. Embora eu tivesse formação intelectual, eu contava o que era importante, quem havia feito, as fofocas de bastidores...Quer dizer, escrevia como um fã.

PD: Aliás, como você se sente sendo uma enciclopédia ambulante?

REF: É muito bom. Eu tenho meu telefone na lista e se uma pessoa me liga, querendo alguma informação, eu atendo, converso com ela.

PD: Você é uma utilidade pública cinematográfica! Mas fale um pouco de seu trabalho na Globo, onde, aliás, nós fomos colegas...

REF: Eu tenho uma historinha bonitinha sobre a Globo. Eu estava no Rio, hospedado na casa do Ney Latorraca, quando morreu a Ingrid Bergman. Ligaram pra mim nove horas da manhã. Eu tinha de entrar ao vivo. Sentei, no estúdio e a Leda Nagle, que apresentava o jornal disse: “Rubinho, o cinema perdeu hoje uma grande estrela, Ingrid Bergman...” Eu tinha de olhar pra câmera e ler o texto. Quando olhei, a câmera tinha recuado e eu não estava enxergando absolutamente nada! Aí teve aquele segundo interminável, eu respirei e falei o texto...E tinha um pedaço que eu não me lembrava...Quer dizer, foi uma merda. Saí dali pensando “me fodi em rede nacional, acabou minha carreira”. Fui a última pessoa a sair do estúdio e o editor estava me esperando. E ele disse: “Puxa vida, você gostava muito da Ingrid Bergman não? Você é tão frio, mas ficou tão emocionado! Parabéns!” (Risadas).

PD: Mudando de assunto, você gosta do cinema brasileiro?

REF: Sim, sim.

EA: Mas durante anos você foi tido como inimigo do cinema nacional, por quê?

REF: Porque eu trabalhava num lugar chamado Globo...Quando me chamaram pra ser comentarista da Globo foi um pouco de caso pensado. Eles não podiam falar mal de nada. Eu era a única pessoa que podia chegar no ar e falar tal filme é uma merda, o Stallone é um bosta. E tinha filmes nacionais ruins também. Quase matei o Nelson Rodrigues do coração porque, num festival aí, o público saiu no meio da apresentação de “Os Sete Gatinhos”. E eu disse na Globo que era um exemplo típico da coisa certa pela razão errada. Não era para sair por motivos moralistas, mas porque o filme era péssimo. O Nelson tava vendo e quase morreu. O Neville de Almeida me odeia até hoje por causa disso. Mas o filme é mesmo um pavor e o Neville é um péssimo cineasta.



PL: O que tá acontecendo com o cinema nacional hoje é fogo de palha ou está pintando mesmo algo novo?

REF: Olha, nem fui almoçar com o pessoal da Disney, que quer produzir filmes brasileiros. Se a Disney entrou nessa é porque algo mudou.

EA: Mas isso também não decorre de uma indigência atual do cinema americano?

REF: O grande cinema comercial americano está muito ruim, muito fraco. O ano passado foi um ano negro, tanto que o Oscar premiou filmes independentes como “O Paciente Inglês” e “Segredos e Mentiras”, que não são excelentes, mas eram os melhores entre o que havia. Mas, independentemente disso, o cinema brasileiro está se recuperando. Aliás, vocês conhecem a minha teoria sobre por que o Collor acabou com o cinema?

Todos: Não.

REF: Se vocês virem “Joanna, a Francesa”, vão encontrar nos créditos o ex-presidente Collor como motorista de produção! Devia ser um moço jovem, pretensioso, querendo virar ator. E o Cacá Diegues naturalmente não deu colher de chá. Eu imagino a cena: ele dizendo “um dia me vingo, um dia vou foder você!”. (Risos) Tem outra história com o ex-presidente: eu já briguei com o Collor. Antes dele ser presidente, claro. Eu e o Ney Latorraca estávamos no Gallery e tinha um cara brigando com uma moça. O sujeito tava sendo supergrosseiro. Aí fomos lá, intervimos e botamos o cara pra fora. E a moça explicou “esse cafajeste tem vergonha de me namorar porque eu sou aeromoça!” Corta. Anos depois, estou num avião da Transbrasil e a aeromoça vem falar comigo. Disse: “Você não se lembra de mim, mas eu sou aquela moça da boate e sabe quem era a pessoa da qual vocês me protegeram? O presidente Collor”. (Risos)

PD: “Dona Flor” é um bom filme na sua opinião?   

REF: É um bom filme. Tem uma coisa sensual. Nesse ponto de venda no exterior é mesmo a sensualidade. Somos um país quente, a gente se toca, se abraça...“Dona Flor” fez sucesso no mundo inteiro porque é a encarnação da sensualidade brasileira. A Sônia Braga é a personificação disso; ela é naturalmente sensual.

MAJ: Mas, então, por que a Sônia Braga não deu certo nos Estados Unidos?

REF: Primeiro, ela foi pros Estados Unidos já madura, com 34 anos. E, depois, a Soninha é preguiçosa. Ela morou um ano e meio em Nova York sem aprender inglês. Como alguém pode fazer carreira lá sem aprender inglês? Uma vez encontrei com ela em Cannes, chamei ela num canto e disse: “Sônia, você precisa se arrumar, você é uma estrela e tal”, mas não adiantou...Bom, mas tem uma coisa: no ano seguinte ela voltou de caso com o Robert Redford. (Risadas). Quer dizer, acho que ela deu certo sim...

PL: Você também foi ator, né?

REF: Eu nunca quis ser ator, mas, quando cheguei aqui em São Paulo, o Rubem Biáfora, diretor de cinema, olhou pra mim e falou “você tem uma cara ótima, parece o Orson Welles jovem” e me chamou pra fazer um filme chamado “As Gatinhas”. Eu fazia um bancário mau-caráter. Logo depois, o Ozualdo Candeias me convidou para fazer outro filme. Era uma espécie de faroeste brasileiro e eu era bandido. Fiz seis filmes, na verdade.

MAJ: Você trabalhou com o Walter Hugo Khouri também, né?

REF: O Khouri era outro que achava que eu tinha cara boa pra fazer cinema. Aí me convidou para fazer “Amor, Estranho Amor”. O astro era o Tarcísio Meira, mas ele estava fazendo uma peça no interior e não chegou a tempo para uma filmagem. Era uma cena de uma festa que tinha como convidado o governador de Minas, que era o Mauro Mendonça. O Tarcísio tinha que receber os convidados, mas como não estava, o Khouri me colocou para fazer isso. Aí a Vera Fischer, que era a estrela do filme, me viu e disse pro Khouri que eu era um bom ator, que talvez fosse legal aumentar meu papel. E assim foi. É nesta sequência da festa que a Xuxa faz um strip-tease.

PD: Você gostou do strip?

REF: Naquela época se dizia o seguinte: o Pelé não deixava ela filmar de costas porque ela não tinha bunda, mas tinha belos seios. E ela tinha o encanto, uma juventude, era super-espontânea. Aliás, é só ver o filme para perceber que ela fez plástica. Ela tinha duas bochechonas.

PC: Por que você parou de fazer cinema?

REF: Essas experiências foram muito legais porque eu aprendi a fazer cinema. Acho que você não pode criticar algo que não sabe fazer. Não precisa fazer bem, mas tem que saber como se faz. Noventa por centro dos críticos não têm a menor noção do que seja montar, roteirizar, dirigir. Mas eu desisti porque uma vez, num avião, uma pessoa falou pra mim: “Olha, se fosse você fazendo a si mesmo, eu ainda aceitava...Mas você fazendo outro personagem eu não gostei”. Quer dizer, eu criei uma persona que é o Rubens, uma figura pública do cinema. Quem gosta de cinema se identifica comigo; então acho que se faço outro papel as pessoas não gostam. Vou dar um exemplo: Marília Gabriela é uma pessoa adorável, gosto muitíssimo da Gabi. Ela era uma ótima repórter, fazia brilhantemente a TV Mulher, era a deusa da Globo, até o dia em que resolveu cantar. Fez um disco e um especial que era assim: o Gil virava pra ela e dizia: “Gabi, você é maravilhosa”; o Caetano, “Gabi, você é maravilhosa”. No dia seguinte, o Brasil inteiro odiava a Gabi. Porque foi uma overdose. O público não perdoa, o público sabe quando alguém está querendo aparecer demais. Tanto que a Gabi pirou, foi demitida da Globo por telefone, e só foi se reencontrar no “Cara a Cara”, na Bandeirantes. Não sei se ela vai ficar zangada comigo, mas não canta, Gabi! O público não quer; da mesma forma que não quer me ver na tela trabalhando como ator.

PC: Isso significa que, quando o público não gosta de um filme, ele tem razão?

REF: Noventa e oito por cento das vezes. Entre a opinião da crítica e do público, prefiro a do público. Ele tem uma intuição maravilhosa.

PC: E os 2% que sobram? Por que eles cometem injustiça contra algum filme?

REF: Esses 2% representam o não-acesso. Existem filmes muito interessantes que as pessoas não descobrem. Semana passada estreou em São Paulo “O Último Jantar”, que é um filme ótimo, mas ninguém viu. Ficou só uma semana em cartaz.

PL: O mercado exibidor é o vilão?

REF: É vilão. É vilão porque é tipicamente brasileiro: o dono é rico, mas a empresa é pobre. Os exibidores têm uma mentalidade dos anos 1940. É um absurdo um país como o nosso, com a população que tem, ter 1.400 salas de cinema. É ridículo. Um filme americano normal estreia nos Estados Unidos com 2.200, 2.400 salas. É como se todas as salas brasileiras estivessem passando um único filme.

(The End)

Publicado originalmente na revista “Sexy” em outubro de 1997

Chamada da entrevista com Rubens Ewald Filho na capa da revista "Sexy" de outubro de 1997