Mostrando postagens com marcador Rodrigo Montana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rodrigo Montana. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Salvador do Amaral (1938-2022)

 





Foi numa atividade do mestrado. Eu tinha que mostrar um trecho do meu objeto pra uma classe cheia. Tinha gente na mesma classe estudando coisa chique: John Ford, cinema polonês, pioneiros da TV. O meu era o cinema do Francisco Cavalcanti, que fazia filmes policiais de baixo orçamento na Boca. Bem, como vocês devem imaginar a chance de darem risada era muito grande. Como eu conhecia bem a filmografia do Chico separei um dos melhores trechos de “O Cafetão” (1982). O gozado é que tanto a professora como os colegas ficaram impressionados com o trecho. “Que fotografia incrível? Quem é o fotógrafo?”. Bem, o fotógrafo era Salvador do Amaral (1938-2022), que morreu neste sábado (dia 2 de abril). Salvador era avesso a dar entrevistas. Conversei umas duas vezes por telefone com ele mas sem grandes prolongamentos. Queria ficar sossegado com a família, com sua esposa, a atriz Marli Machado. Salvador trabalhou em mais de 50 longas-metragens brasileiros em diferentes ocupações: dirigiu, fotografou, produziu, atuou, foi assistente de câmera, fez elétrica, still, foi maquinista. Foi outro coringa da Boca. Começou na TV Excelsior e depois esteve com José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Fazia um dos secretários de Mojica no programa “Além, Muito Além do Além” (1967), na TV Bandeirantes. Aproximou-se de Cavalcanti quando ele iniciava sua carreira e precisava de um fotógrafo. Dizia o próprio Chico: “Eu sempre trabalhava com o Salvador do Amaral que era um diretor de fotografia pequeno, mas que respeitava o diretor”. Salvador era um operário do cinema. No entanto, quando foi entrevistar o Rubens Eleutério, este era só elogios a Salvador: “O Salvador sabia sempre o que estava fazendo (...) Porque o Salvador tem o seguinte: quando ele não sabia as coisas ele tinha humildade de chegar e falar: ‘Olha, eu não sei. Isso eu nunca fiz’”. Salvador trabalhou com o ator e produtor Amacio Mazzaropi em três longas-metragens. Foi gerente de produção em “Uma Pistola Para Djeca” (1969), eletricista em “Betão Ronca Ferro” (1970), o filme do circo do Mazza e foi assistente de câmera e auxiliar de eletricista em “O Grande Xerife” (1971), espécie de sátira aos faroestes italianos que estavam em moda na época. Salvador também esteve em “Panca de Valente” (1968) de Luiz Sérgio Person. Senão estou enganado e a memória não me trai ele faz um dos capangas do filme. Esse filme foi um gigantesco fracasso e limou a carreira de Person no Brasil. Sei que tanto Salvador como o eletricista Francisco Ravagnoli, o Padre foram bastante próximos ao Person nessa época, tendo trabalhado em comerciais e filmes institucionais que Person fazia na sua produtora: a Lauper Filmes. Era uma das grandes empresas de filmes comerciais de São Paulo na década de 1970.

Mas Salvador fez muitas coisas no cinema paulista. Teve escritório na Boca e uma agência de modelos. Com Chico ele fez 21 longas-metragens. Esteve sob as ordens de Cavalcanti e com este estabeleceu uma parceria duradoura. Na produtora de Chico, a Plateia Filmes, Salvador do Amaral tornou-se um nome associado. Estiveram juntos em trabalhos representativos do diretor como “O Porão das Condenadas” (1979), um grande sucesso de bilheteria; na reconstituição de época “Ivone, a Rainha do Pecado” (1983); no belo e criativo policial “Almas Marginais” (1984) e até no infantil “Padre Pedro e a Revolta das Crianças” (1984), em que Pedro de Lara rivaliza com José Mojica Marins. E até o então jovem apresentador Gugu Liberato faz uma pequena ponta. Chico era muito criativo para filmes policiais de baixo orçamento. Vamos ver ele novamente trabalhando com Salvador Amaral no clássico um tanto trash “Horas Fatais-Cabeças Trocadas” (1986), co-dirigido por Clery Cunha. Quando o sexo explícito chega, Cavalcanti tenta voltar aos sucessos anteriores do policial popular mas sem o mesmo êxito anterior.

Bastante versátil, Salvador do Amaral também teve uma pequena parceria com o cineasta ítalo-brasileiro Rafaelle Rossi, primeiro sendo assistente de câmera e por fim dirigindo a fotografia de filmes como “Boneca Cobiçada” (1980) e o mega-sucesso “Coisas Eróticas” (1982), primeiro filme brasileiro de sexo explícito.

Na última vez que estive com o amigo Rodrigo Montana em seu escritório na rua dos Andradas ele dizia que teve poucos amigos verdadeiros em cinema. Salvador era um deles. Já faz dez anos que Montana me disse isso e que ele morreu. Desde então, aquele quadrilátero de ruas não é o mesmo pra mim. Evito andar por aquelas esquinas. Parece que algo me persegue. Serão fantasmas? Não. Acabo me lembrando dos meus amigos de cinema que já morreram. Praticamente todos sem nenhum reconhecimento. O Brasil é prodígio nessas coisas.  Descanse em paz Salvador. Outro amigo da Boca que vai antes do tempo combinado.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Nove anos sem Rodrigo Montana

 

Hoje se completam nove anos sem o cineasta Coriolano Rodrigues Mineiro, o Rodrigo Montana (1940-2012), diretor de Rodeio de Bravos. Ele tinha um escritório na rua dos Andradas, no centro e marcou a minha vida e de vários amigos. 


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Memórias do setorista da Boca I: Rodrigo Montana





Coriolano Rodrigues Mineiro. Esse nome não está entre os cineastas mais celebrados do Brasil. Os mais intelectuais podem lembrar-se de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues. Mas Coriolano nunca foi famoso. Sua história sempre esteve nas entrelinhas, nos bastidores. Mas sua história foi um verdadeiro filme: cheio de altos e baixos. Mas ele não era conhecido na Boca do Cinema por seu nome. No quadrilátero ele era conhecido como Rodrigo Montana, o Rodrigo. Nós nos conhecemos no escritório que ele mantinha na rua dos Andradas, centro de São Paulo, na Boca. Lá ele comandava a “Associação São Paulo, a Cidade e o Cinema”. Seu objetivo era fazer o calçadão da fama do cinema paulistano tal qual Hollywood. Mas Montana era maior que qualquer calçadão. Sempre nos encontrávamos nas dependências da sua instituição que só tinha um associado: ele mesmo. É interessante como as pessoas acreditam piamente nos seus sonhos ou fingem bem. Rodrigo era um sonhador. “Você sabe o que é uma boiada? Você sabe o que é o sertão de Mato Grosso?”. Sua escola foi essa. Tinha respeito pelos animais, principalmente cavalos. Ele dizia que conseguia ficar sentado num cavalo e com as próprias mãos pegar uma moeda no chão. Todos os filmes de temática sertaneja ou que tinham cavalos Rodrigo era chamado. Fomos muito próximos, nos víamos a cada quinze dias. O único longa-metragem que ele dirigiu foi “Rodeio de Bravos” de 1982 que nunca foi lançado comercialmente. Os exibidores queriam que o filme tivesse sexo explícito. Montana não aceitou e ficou assim. Sua filmografia foi mais extensa como ator (“no D´Gajão eu morri cinco vezes”) e diretor de produção. Essa última talvez sua melhor atividade dentro do cinema. Montana insistia que ela tinha trazido a moda country pro Brasil e que tinha criado aquele coração nas campanhas do Paulo Maluf. Já fazem sete anos que Montana morreu. E parece que não consigo esquecer dele. Todo dia penso nele. Nunca mais liguei para a irmã dele, a dona Irma. Capaz dela ter morrido também.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Um ano sem Rodrigo Montana



Um ator desconhecido, José Mojica Marins Rodrigo Montana (chapéu e costeleta) e um figurante. Bastidores de D'Gajão Mata para Vingar (1972).

Cariolano Rodrigues Mineiro. Na Boca paulista ele ficou conhecido como Rodrigo Montana. Foi na rua do Triunfo que este profissional se consagrou. Seu nome está perpetuado na galeria de homens que passaram pela Hollywood paulistana. “O tigre quando morre deixa a pele. O homem seu nome”. Essa frase serve pra você Rodrigão. Guerreiro do nosso cinema e da nossa cultura. O centro de São Paulo sem você não é a mesma coisa.     

domingo, 5 de maio de 2013

“Montana era um dos maiores guerreiros da Boca do Lixo”

O inventor da moda country, mestre dos filmes sertanejos, Crocodilo Dundee da rua do Triunfo. São diversas as maneiras de definir um personagem controverso e único como o cineasta Rodrigo Montana (1940-2012). O roteirista Diógenes Gonçalves conheceu de perto o homem. Apesar de bem jovem, Dio fez o roteiro para Castelo de Amor, longa-metragem nunca concluído por Rodrigo. O roteirista ia diariamente ao escritório do realizador trabalhar no projeto. Diógenes relembrou alguns dos momentos de sua parceria com Montana ao VSP.



Violão, Sardinha e Pão- Como foi escrever o roteiro do longa-metragem Castelo de Amor? Quanto tempo você conviveu com o Montana?


Diógenes Gonçalves- Foi legal porque foi o primeiro longa-metragem que escrevi e tive a oportunidade de trabalhar com cinema, embora o filme não tenha sido rodado. Além de ser co-roteirista eu seria também seu assistente na direção do trabalho. Quanto á história não era bem o que eu mesmo faria, mas ali tive uma oportunidade de abrir outros caminhos e vi que poderia trabalhar escrevendo roteiros. Pra falar a verdade não me lembro de tempo...Foram meses mas nunca os contei.



VSP- Quais foram as maiores dificuldades em realizar este trabalho?


DG- As dificuldades foram a falta de grana e o gênio teimoso do Montana. Eu tinha que argumentar muito algumas coisas pra escrever no roteiro e ele muitas vezes queria que fosse exatamente do jeito dele. E a remuneração que não tive. Ele mau tinha dinheiro pra minha condução ou pra comer. Não recebi nada pelo roteiro.



VSP- O escritório do Rodrigo era parada obrigatória de muitos personagens inusitados. Quais deles você se lembra?


DG- Me recordo do Pio Zamuner, do Luiz Gonzaga dos Santos e pude conhecer o Fauzi Mansur também. Ás vezes quando ia lá no escritório eu encontrava o Pio e o Montana numa lanchonete de uma esquina próxima. Aí a gente ficava trocando ideia e bebendo umas cervejas. Era legal ouvir as estórias da época do Mazzaropi. O Luiz sempre ia por lá pra ver que o Montana estava planejando. E depois por indicação do Montana, o Fauzi entrou em contato comigo pra ver a possibilidade de fazer uma parceria também pra escrever roteiros.



VSP- Existe algum episódio que você vivenciou ao lado do Rodrigo e acha legal contar?


DG- Quem conhece o Montana sabe que ele tinha muitas estórias da vida dele e as contava numa velocidade muito lenta. Eram bem interessantes, mas da forma que ele contava dava até sono (risos). Contava da experiência espiritual que teve de quando entrou em coma após um derrame, das mancadas do Sady Baby e muitas outras.


VSP- Apesar de ser uma pessoa amável, Montana era um senhor de personalidade forte. Existiu algum momento em que ele foi desagradável com você?


DG- Em meio as dificuldades que eu disse antes, houve momentos em que ele ficava muito irritado por pouca coisa e em alguns deles tive vontade de deletar tudo que eu havia escrito e ir embora. Mas preferi segurar a onda da minha indignação e raiva e seguir em frente, pois eu não sabia quando iria ter uma outra oportunidade com cinema.



VSP- Você acompanhou de perto o esforço dele em tentar realizar Castelo de Amor. Qual era a importância desse filme para ele?


DG- Tanto ele como eu não víamos a hora de surgir os recursos pro filme. E ele nunca se deixava abalar e perdia as esperanças. Ele tinha certeza de que uma hora isso surgiria de alguma maneira, isso me dava ânimo também pois eu sabia que seria muito difícil. Ele era na minha opinião, um dos maiores guerreiros da velha escola da Boca do Lixo, passando muita dificuldade mas estava ali lutando querendo produzir filmes Mas infelizmente a hora dele chegou e esse sonho dele não se concretizou.


VSP- Na sua opinião, qual é o legado de Montana para o cinema brasileiro?


DG- Acho que muita gente do audiovisual (quem já trabalha ou estuda) se o conhecesse (mesmo não gostando do seu estilo, tipo e forma de trabalho), tomaria como exemplo a sua perseverança, não importando a idade ou condições favoráveis. Afinal acho que deixou muitos trabalhos com a marca e toque dele, infelizmente só não concluiu o Castelo de Amor.

sábado, 4 de maio de 2013

Filmes perdidos da Boca: Rodeio de Bravos (1982)



Matar boi, dirigir produção de cinema, agenciar gatas nas noites paulistanas. Difícil é dizer o que Cariolano Rodrigues Mineiro, o Rodrigo Montana (1940-2012) não realizou na sua vida. Mexer com cavalos era com ele mesmo. Parecia que Montana falava o mesmo idioma dos animais tal era a sua habilidade em dominar os bichanos.

O realizador tinha vários projetos cinematográficos. Mas o único que acabou sendo realizado foi Rodeio de Bravos que nunca foi lançado comercialmente. Sobre o único filme dirigido por Rodrigo pouco se sabe e pouco foi publicado. Rajá de Aragão fez o roteiro deste drama sertanejo. Fanático por faroestes, Montana acabou fazendo o primeiro longa-metragem nacional a tratar do rodeio. Tem seus méritos e era uma figura humana adorável. A única cópia de seu filme estava em seu escritório, localizado no centro de São Paulo. Tentei por diversas vezes fazê-lo vender o longa-metragem para o Canal Brasil ou cedê-lo a Cinemateca Brasileira. Rodrigão nunca aceitou isso. Acredito que ele queria lançar Rodeio de Bravos numa sala de cinema ampla com público, imprensa especializada e circunstância. "Quem sabe no Marabá ou no Art Palácio", dizia ele com bom humor. Um sonho que acabou não se concretizando