Mostrando postagens com marcador Coisas Eróticas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Coisas Eróticas. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de abril de 2016

O sucesso e a decadência de Raffaele Rossi



Por Ruy Martins Sanches

Com milhões no bolso, Raffaele Rossi estava realizado. Para alguns amigos, a fortuna reacendeu o brilho dos seus olhos azuis e a pele clara de seu rosto. Os passos acabrunhados que demonstrava ao caminhar pelas calçadas da Boca desapareceram. Livre do peso da responsabilidade de garantir o sustento da família, agora mais numerosa, Rossi era outro. Seu futuro também. Altivo, mas não orgulhoso. E mais próximo e mais compreensivo com aqueles que o procuravam. Francisco Cavalcanti, José Mojica Marins e João Manuel Baptista concordam – Raffaele Rossi deu a mão a muita gente depois que ficou rico. “Depois que o Mazzaropi morreu, ele ajudava muita gente que trabalhava na PAM”, diz Francisco Cavalcanti, produtor, diretor e ator de diversos filmes na Boca paulista.

Na companhia de Renata e do filho Eduardo, embarcou para a Itália meses após a confirmação de ser o número um na lista do cinema brasileiro. Finalmente proclamara sua independência! E a vontade de rever sua terra natal, sua humilde residência e os parentes e conhecidos da saudosa Sant´Arsenio foi a primeira das vontades que o dinheiro conseguido, depois de vencer tantos problemas e tantos preconceitos, pôde lhe proporcionar.

Quando voltou, o gênero pornô já fazia rotina da Boca do Lixo. Os exibidores não queriam outra coisa para mostrar. Sexo explícito era o que dava dinheiro, era o que mantinha as salas cheias, o lucro fácil. Então, com muito dinheiro no bolso, Rossi associou-se a Francisco Lucas, proprietário de dezenas de salas de exibição no centro de São Paulo, para a produção de dois pornôs: Império do Pecado e De Todas a Maneiras, ambos dirigidos por Marcelo Motta, em 1981 e 1983, respectivamente.

Com tempo para desfrutar os prazeres que a vida lhe negara até estourar na bilheteria com Coisas Eróticas, Rossi resolveu inovar. E investir numa antiga paixão: o futebol. Palmeirense e amigo de vários jogadores de futebol, alguns dos quais inclusive no financiamento de alguns de seus filmes, Rossi funda um clube de futsal- o Grêmio Recreativo Rossi. A sede era localizada em sua casa, no sítio que comprara em Embu-Guaçu, nas cercanias de São Paulo, e para onde se mudara com esposa e filhos logo após o estrondoso sucesso de seu filme. Rossi frequentemente excursionava com a equipe dentro e fora do Brasil e da qual faziam parte três jogadores paraguaios pertencentes à seleção vice-campeã mundial de futsal daquele país. E bancava as festas e banquetes que se seguiam após as vitórias ou as derrotas, tanto fazia. A essa altura a vida de Rossi era sempre uma celebração. Entre uma partida de futebol e outra, Rossi ainda realizou uma continuação de Coisas Eróticas, que chamou espertamente de Coisas Eróticas II (1984), obviamente a fim de capturar o mesmo público que havia lotado alguns anos antes as salas de exibição para ver aquele que é considerado o primeiro pornô nacional.

Com a maior parte das salas de exibição do país inundadas por produções de baixíssimo nível e a invasão de pornôs estrangeiros o sucesso de Rossi não continuou. Coisas Eróticas 2, mesmo contando com algumas estrelas da Boca como Jussara Calmon, Marília Nauê e o casal erótico Eliana e Walter Gabarron, não obteve o sucesso que ele esperava, registrando oficialmente pouco mais de 1,1 milhão de espectadores. Ainda assim ocupando a quinta maior bilheteria do ano. A rotina de voltar a competir com produtos semelhantes ao seu ameaçava sua competência de realizador novamente. Então, com a introdução do videocassete no mercado brasileiro, Rossi muda o foco e abre, em companhia dos filhos, sua própria distribuidora de vídeos, a fim de comercializar suas películas. A Rossi Vídeo também é responsável pelo lançamento comercial no país do filme Je vous salue, Marie (Jean-Luc Godard, 1985); meses depois perde a batalha judicial travada com os distribuidores americanos pela distribuição de outro título polêmico da década: A Última Tentação de Cristo (Martin Scorsese, 1988).

O prazer pelo futebol leva Rossi a associar-se na produção de A Pelada do Sexo (1985) de Mário Lúcio. Mesmo com o sexo explícito dentro de campo, o público não compareceu e o filme fracassou. Mas Rossi não é de desistir facilmente e tenta mais uma vez ainda com um filme igual aos outros. Em 1987, produz e dirige Gemidos e Sussurros. De novo um filme em episódios no qual trazia o nome da atriz Zaíra Bueno. E de novo um filme seu passara despercebido, como muitos outros produzidos na Boca do Lixo naquele ano. A competição com os filmes nacionais e estrangeiros do mesmo gênero, além da proliferação de locadoras de vídeos e dos videocassetes já instalados na sala de estar de milhares de lares brasileiros era árdua. O filão lucrativo que ele mesmo iniciara estava se esgotando, para desespero de muitos. E o pior: começara a trazer sérias preocupações aos realizadores que enxertavam seus filmes com cenas de sexo sem o consentimento dos envolvidos nas filmagens. (...)

Enquanto sua união com Maria Cândida desmoronava, Rossi ainda desfrutava das festas e das viagens que empreendia em companhia de seu time de futebol. Era o começo de seu amargo fim. E também o início daquela que é considerada a primeira indústria brasileira de filmes independentes, que fez o que pôde para manter-se na ativa até ser engolida pelo monstro que ele mesmo ajudara a criar. Raffaele Rossi morreu do mal de Alzheimer no dia 5 de novembro de 2007, na única propriedade que lhe restava, o seu pequeno sítio em Embu-Guaçu. Ao seu lado, naquele momento, estavam sua primeira esposa Davina, de quem nunca se separou oficialmente e dois de seus filhos – Rafael e Eduardo, além do caseiro Benedito.


Publicado originalmente na dissertação de mestrado O homem que calou a Boca: uma análise da obra de Raffaele Rossi de Ruy Martins Sanches defendida na Universidade Anhembi Morumbi em 2013.

terça-feira, 26 de abril de 2016

E assim conheceram as maravilhas do sexo



Por Denise Godinho e Hugo Moura

Era comum, que na Boca do Lixo, os cineastas se preocupassem em como fazer a publicidade dos filmes. Principalmente porque havia grande demanda de produções brasileiras graças à lei da obrigatoriedade, como será explicado mais à frente. Assim, era preciso haver destaque nas portas do cinema para que o espectador escolhesse tal filme e não outro. A falta de recursos para investimentos em publicidade fazia com que os cartazes fossem os únicos responsáveis pela propaganda e, geralmente, eles eram apelativos e podiam até não demonstrar relação com o enredo da produção. Além disso, os pôsteres de filmes da Boca, quando realizados por diretores consagrados, eram ilustrados pelo traço inconfundível de Benício, o artista mais requisitado nessa missão e que intensificava a formosura das belas atrizes da época. Raffaele não havia sequer cogitado o desenhista. Afinal, com que dinheiro ele poderia pensar nisso?

Quando o cineasta teve a ideia de aproveitar a fresta que Império dos sentidos tinha aberto, surgiu também a preocupação em tornar a sua nova empreitada algo chamativo aos olhos dos apreciadores de cinema. Afinal de contas, estes deveriam ser fisgados pelo cartaz ainda antes de comprar o ingresso. A bem da verdade, após sua primeira semana de exibição, Coisas eróticas não necessitaria mais do pôster para chamar a atenção do público.

O único material de divulgação do filme trazia uma morena deitada de costas, tomando sol à beira do que se supõe ser uma piscina. O grande foco é a bunda arrebitada, bem torneada e bronzeada. No alto, com erros estranhos de pontuação, lê-se “...E assim! Conheceram as maravilhas do sexo!...”. Embaixo, o título Coisas eróticas.

Quem das atrizes teria sido incumbida da honra de ilustrar o cartaz? Essa simples dúvida se transformou em um enigma desvendado diversas vezes.



Publicado originalmente em GODINHO, Denise & MOURA, Hugo. Coisas eróticas: a história jamais contada da primeira vez do cinema nacional. São Paulo: Panda Books, 2012.  

sábado, 23 de abril de 2016

Aquelas coisas eróticas


Por Denise Godinho e Hugo Moura

A princípio, Raffaele Rossi tinha apenas uma ideia e talvez até contasse secretamente com o apoio dos amigos. Laerte Calicchio, apesar de parecer o mais consciente deles, caiu em uma crise de riso prolongado que durou longos segundos. Ria desesperadamente porque sabia que não seria fácil convencer o amigo do contrário. Estava louco? Apesar de viverem uma abertura política, a censura ainda existia. E estava escrito ali, naquela mesma revista, que o tal filme japonês, produzido três anos antes, enfrentava resistência do governo para ser exibido o país. Imagine um filme nacional! Além do mais, Raffaele vivia produzindo com baixo orçamento e seu dinheiro quase nunca era suficiente para um filme. Naquele momento estavam filmando Boneca cobiçada com a estrela da época, Aldine Müller. “Mas não, ele nunca está satisfeito” – esbravejava. Walmir concordava com tudo o que Laerte aprontava quase que didaticamente ao amigo. Não era o momento de mexer com uma produção desse nível. Ora, sexo explícito em um cinema? E ainda cobrar ingresso? Laerte não acreditava na empreitada e achava que seria um trabalho que poderia leva-los a cadeia ou, no mínimo ao fracasso.

Talvez fosse mesmo, para a realidade do Brasil na época. Fora do país, o mundo já havia visto na telona, quase dez anos antes, o que aqui, aparentemente, só se fazia entre quatro paredes. O clássico Garganta profunda, de 1972, dirigido por Gérard Damiano, revolucionou o cinema americano contando a história de uma mulher que tinha o clitóris na garganta. A obra impulsionou outras produções do gênero, como Atrás da porta verde, daquele mesmo ano, dirigido pelos irmãos Mitchell, Artie e Jim, e O diabo na pele de miss Jones, de 1973, também de Damiano. Todos eles se tornaram referência do estilo cinematográfico já no início da década de 1970, assim como o também revolucionário e aclamado pela crítica Império dos sentidos, aquele tal filme japonês produzido em 1976 pelo diretor Nagisa Oshima.

Raffaele Rossi ouviu todos os contras com atenção, tirou o pente fino de plástico marrom do bolso da camisa e penteou os cabelos emplastrados de brilhantina divididos para o lado. Cada movimento era feito pausadamente, como se, enquanto se mexesse, estivesse degustando os conselhos lançados pelos amigos aflitos.

- Mie amici, eu não quero fazer um pornô. Eu quero apenas inserir uma cena pornô em Boneca cobiçada.

Até então, o brasileiro havia se contentado com os inocentes mamilos descobertos de atrizes como Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Zaíra Bueno e Débora Muniz. Prestes a entrar na década de 1980, o país já andava lentamente para uma abertura democrática depois de anos de chumbo quente em cima das manifestações artísticas.

Durante a década anterior, qualquer música, peça teatral, jornal ou filme que incitasse uma interpretação política sobre o contexto que o país vivia, caía no corte. A nudez, por sua vez, servia como uma via de escape. Enquanto as pessoas estivessem se masturbando nos cinemas, não explodiriam bombas pelas cidades. Embora antirrevolucionário, o nu ainda era o guardião dos maus costumes e, por isso, deveria ser castigado. E foi. Retaliar os filmes de pornochanchada virou praxe e, ás vezes, eles se tornaram incompreensíveis, tamanho o corte da censura. Tudo porque, aparentemente, não era permitido mostrar dois seios de uma só vez, de acordo com determinada portaria do Conselho Superior de Censura. Era como se os censores se divertissem durante as sessões: “Vamos liberar um mamilo só”.

É claro que uma cena explícita não passaria facilmente pelos censores. Pelo menos, ainda não naquela época. Raffaele sabia disso, mas a adrenalina de enfrentar o Departamento de Censura e a dona Solange Hernandes, a temida chefe da tesoura, que não perdoava nem a mais pura das cenas eróticas, fazia a expedição cada vez mais excitante. Para ele, a censura era burra e bastava algum truque para que a permissão fosse carimbada nos usuais documentos de liberação. Foi o que ele fez. O diretor, espertamente, usou um truque de luz para disfarçar a penetração do ator Oásis Minniti em Vânia Bonier. A filmagem, feita à contraluz, pouco mostrava e deixava a cena subentendida. Apesar de implícita, essa pode ser considerada a primeira cena de sexo explícito do cinema brasileiro.

Para alívio de Rossi, Boneca cobiçada estreou em junho de 1980, oito meses depois de o filme japonês entrar em cartaz.

Eram lindas aquelas mulheres nos cartazes dos filmes. A pele tinha um bronzeado inalcançável em plena capital paulistana. As saias estampadas, geralmente rodadas, ou bem justas com fendas laterais, pouco mostravam, mas davam pistas sugestivas do que cobriam. Em meio à correria cotidiana na agitada São Paulo, é provável que muitos homens tenham ficado com torcicolo ao se afastarem, do cinema enojado pedindo o dinheiro de volta. Para Raffaele, os espectadores não queriam sentir nojo de sexo. Muito pelo contrário, sexo deveria ser excitante.

Era 15 de outubro de 1981, uma quinta-feira. A reunião estava marcada para as quatro horas da tarde, no escritório da Empresa Cinematográfica Rossi. Laerte organizava os rascunhos escritos durante a noite anterior em uma pasta. Pelos seus cálculos, aquele enredo duraria cerca de quarenta minutos. Era a história de dois casais que se conheciam por um anúncio de jornal para amantes de swing. Sabia que agradaria a Raffaele, embora sentisse um misto de empolgação e medo gelando sua barriga. Em decisão prévia, o diretor havia dito que, para economizarem recursos, o filme teria três capítulos, cada um com uma história diferente. Laerte era o convidado para escrever e dirigir uma delas. Era a primeira vez que essa oportunidade se apresentava a ele. Em Boneca cobiçada havia trabalhado como assistente de direção e, nos créditos finais, nem seu sobrenome havia sido mostrado.

Laerte apanhou uma a uma as folhas que, encardidas pelo manuseio de seus dedos sujos graças à fita da máquina de escrever, exibiam a história elaborada durante toda uma madrugada regada a café e a um maço inteiro de Hollywood. Enquanto as organizava na pasta, relia frases desconexas que eram fisgadas por seus olhos vigilantes.

Enquanto isso, Raffaele andava pela rua do Triumpho em direção ao escritório. Apreensivo com a reunião que se seguiria, estava cabisbaixo e com os ombros protegendo o pescoço. Desligou-se do mundo prestando atenção à rotina cíclica de seus pés a cada passo dado – um na frente do outro. Não reparou quem vinha andando em sua direção, animada, com o sorriso largo sempre a postos para cumprimenta-lo.

No fim da década de 1970, Vanilda Ana Plácido, então com vinte anos, trabalhava em uma revendedora de veículos na avenida Rio Branco, no Centro de São Paulo. A catarinense já vivia na cidade havia cinco anos. Suas formas arredondadas e bem distribuídas, seu sorriso ruidoso e seus cabelos longos e negros chamaram a atenção de um professor de artes da Universidade de São Paulo. Ele a convidou para ser modelo vivo em uma aula sobre as formas do corpo humano. A ideia era que ela ficasse nua em frente aos alunos para que eles aprendessem a desenhar o corpo humano em diferentes situações. Como o rosto se movimenta ao chupar uma laranja? Como as pernas se flexionam quando abaixamos para pegar uma caixa?

Ela aceitou a proposta com a condição de que não precisasse largar o emprego. E ficaram combinados que ele marcaria as aulas nos momentos em que ela estivesse livre. Vanilda gostou do trabalho e o fato de conseguir ficar horas congelada em uma posição logo chamou a atenção do grupo de teatro do campus, que a convidou para participar de uma peça. A partir dali, Vanilda passou a rodar São Paulo fazendo teatro amador. Em uma dessas apresentações, um produtor da rua do Triumpho a chamou de canto e perguntou-lhe se ela gostaria de fazer cinema.

Vanilda adotou Vânia Bonier como nome artístico, e em 1980 estreou nas salas de cinema nacional com a produção O império das taras, dirigido por José Adalto Cardoso. É irônico pensar que ela trabalhou durante cinco anos na avenida Rio Branco, próximo à rua do Triumpho, e só entrou para o cinema depois de topar ser modelo vivo no Butantã, um bairro distante da efervescência cinematográfica.



Raffaele Rossi sempre achou graça no jeito ingênuo de Vânia se portar. Ela havia acabado de entrar para o cinema e fazia questão de conversar com todos para manter próximas a ela as oportunidades de convites para outras produções. Por isso, não pensou duas vezes ao pega-lo pelo braço e leva-la à reunião que aconteceria em breve no escritório. Durante o caminho, adiantou que estava prestes a fazer um filme que entraria para a história do cinema e que ela não poderia perder a chance de participar dele.

A equipe sentia algo entre ansiedade e receio da aventura. Raffaele Rossi acalmava os ânimos usando o filme Império dos sentidos como exemplo. “Se ele foi liberado, o nosso também vai ser”, tranquilizava, ainda que todos ali soubessem que a produção japonesa havia sido liberada sob a justificativa de que era um filme de arte, e exclusivamente para o festival.

Laerte contou resumidamente a sua história antes de mostrar os papeis rascunhados. Diante de bocas entreabertas e sobrancelhas arqueadas, ele leu o roteiro até o último ponto final. A história era repleta de palavrões, sadomasoquismo, cenas homossexuais e sexo grupal. Laerte pôde sentir um frio percorrer toda a sua espinha depois de segundos de silêncio daqueles que o olhavam perplexos. Era o esboço de um dos capítulos e eles nem sequer imaginavam qual seria o enredo dos outros dois. Raffaele se levantou da cadeira, penteando os cabelos emplastrados.

- Pensou em um nome para esse capítulo?- perguntou.

- “Coisas eróticas”.

- “Coisas eróticas” ? - indagou, arqueando uma sobrancelha.

- É, já que o episódio é cheio de coisas eróticas – explicou Laerte, gaguejando.

Raffaele prosseguiu penteando os cabelos, ignorando o fato que os fios já estavam perfeitamente alinhados, e passou a andar em círculos sob silêncio, receoso daqueles que aguardavam uma reposta para o título sugerido por Laerte. O próprio autor imaginava que não tinha tido uma boa ideia e tratava de buscar mentalmente outros possíveis nomes para arrematar a crítica que de certo viria. Mas, para a surpresa de todos, ela não veio.

- “Coisas eróticas” – o diretor rompeu o silêncio da saleta soletrando cada sílaba pausadamente como se degustasse a sensação que as duas palavras juntas provocaram. – É isso Laerte! Achamos o título o título! O filme inteiro deve se chamar Coisas eróticas.

A primeira filmagem começaria no dia seguinte.  

Publicado originalmente em GODINHO, Denise & MOURA, Hugo. Coisas eróticas: a história jamais contada da primeira vez do cinema nacional. São Paulo: Panda Books, 2012. 


sábado, 16 de abril de 2016

O diretor de Coisas Eróticas


Por Denise Godinho e Hugo Moura

Em uma tarde do verão de 1979, Raffaele Rossi entrou de cabeça erguida no bar Soberano. O botequim tinha sido inaugurado em 1961 no número 155 da rua do Triunfo. Era no balcão de sete metros de extensão, logo na entrada, que os cineastas da Boca do Lixo paulistana se reuniam para conversar sobre cinema, o cachê da nova estrela que perambulava nas redondezas ou o jogo de futebol da noite anterior. É verdade que, em muitas ocasiões, o bar se estendia até a rua, porque os grupos de frequentadores ficavam na calçada, os copos americanos repletos de cerveja em suas mãos. O salão do fundo abrigava 12 mesas, cada uma delas rodeada por quatro cadeiras. Ali era servido o tradicional almoço, desde o concorrido bacalhau na brasa até o frango com polenta. O proprietário, Serafim, cuidava de manter seus clientes entretidos com os copos cheios. De vez em quando, até arriscava um número de mágica com o baralho engordurado que ficava em cima do balcão. Em geral, o Soberano era parada obrigatória de técnicos, atores, diretores e produtores que trabalhavam na região, embora todos eles se misturassem também a prostitutas e traficantes que prestavam seus árduos serviços nas redondezas. Raffaele Rossi não costumava frequentar o bar, apesar de trabalhar por ali fazendo justamente cinema. O cineasta italiano era tímido e, embora conhecesse todos, nunca tomava a iniciativa para uma conversa; como as pessoas raramente o chamavam, ele entrava e saía do bar de cabeça baixa. Com exceção daquela tarde calorenta.

O italiano entrou dando passos firmes e largos sob olhares desconfiados. Afinal, ele devia dinheiro ou favores a parte daqueles que almoçavam ali. Serafim estranhou a presença de Raffaele no boteco, embora não tivesse nada contra ele. Todas as pouquíssimas ocasiões em que o diretor havia consumido algo do bar, tinha pago certinho e, ás vezes, chegava até a deixar alguma gorjeta. Raffaele deu de ombros e partiu quase farejando mesa por mesa em busca de alguém ou alguma coisa em cada canto o botequim. Foi lá no fundo, depois das três colunas que enfileiravam e dividiam as 12 mesas do restaurante e, sob o barulho das conversas paralelas, que o diretor avistou o amigo Laerte Calicchio saindo do banheiro e enxugando as mãos nas próprias calças. Partiu como um foguete em direção a ele. Antes que Laerte pudesse perguntar o que o amigo estava fazendo ali, já tinha sido puxado pelo braço em direção à calçada onde outro amigo, Walmir Dias, os esperava, com o mesmo olhar de espanto e dúvida estampado no rosto.

Raffaele partiu na frente, em direção ao lado sul da rua, deixando no ar a ideia de que os dois deveriam segui-lo – e foi o que fizeram. Não entendiam o que estava acontecendo e também não podiam questionar entre si, porque o fôlego era suficiente apenas para manter o passo apressado que o amigo impunha a eles. Quase o perderam de vista quando entrou à direita na rua Vitória. Sacaram que estavam sendo levados para a Empresa Cinematográfica Rossi, localizada na rua dos Andradas, paralela à rua do Triunfo, quase de quintal com o bar Soberano.

Ele subiu os quatro lances de escada de dois em dois degraus. Se fosse possível adivinhar o que se passava nas cabeças de Laerte e Walmir, de certo supunham alguma má notícia. Mas Raffaele estava sorrindo quando buscou cada um deles. Estava? Não lembravam mais. Poderia ser um processo que alguém da Boca abrira contra ele. Afinal, não seria a primeira vez. Laerte chegou a esbravejar para si mesmo entredentes que não tinha mais idade para aquilo!

Raffaele parou na escada e se arqueou, debruçando as duas mãos nos joelhos. Respirava com dificuldade e esperava lentamente que os batimentos cardíacos voltassem ao normal. Enquanto isso, os amigos já o haviam alcançado.

- Vamos até a sala, não é nada ruim, eu prometo- disse ainda com a voz rouca e pausada.

Eles andaram em silêncio alguns metros em direção à porta de madeira que dava acesso à salinha do diretor na produtora. Era um cômodo de cerca de dez metros quadrados em um prédio residencial, onde prostitutas disputavam espaço entre malandros, cavalheiros neurastênicos e idosas decadentes que acompanhavam, com desprezo, o fluxo contínuo de visitantes em seus aposentos. Não existia luxo nenhum, mas era o que Raffaele poderia pagar. O prédio por si só fazia jus ao apelido Boca do Lixo, mas não era pior nem melhor que outros edifícios na região. A saleta alugada tinha documentação em dia, mas não passava de um espaço maltratado e organizado apenas por um sofá de tecido marrom antigo na parede central e uma mesa de ferro com quatro cadeiras. Em um dos cantos, os equipamentos eram empilhados e cobertos por uma grande lona azul. Do outro lado, um filtro de água feito de barro se equilibrava em um banquinho perneta.

Todos se sentaram-se à mesa. Laerte folheou uma revista Manchete que estava à sua frente, mas não teve tempo de apreciar uma foto ou ler uma linha de alguma reportagem, pois Raffaele arrancava de supetão e com violência a publicação de suas mãos. Abriu a revista e virou folha a folha, procurando algo. Dobrou-a ao meio e jogou na mesa a Manchete aberta na página em que uma reportagem falava sobre um filme japonês com cenas de sexo explícito que chegaria ao Brasil em breve. Laerte e Walmir se espremeram e passaram juntos os olhos pelas linhas do editorial. O diretor decerto se divertia com a situação quando se apoiou no encosto de uma das cadeiras que rodeavam a mesa e passou a observar os amigos. Eles pareciam não entender nada.

- Temos que fazer isso. É a oportunidade de nos darmos bem!- profetizou.


Publicado originalmente em GODINHO, Denise & MOURA, Hugo. Coisas eróticas: a história jamais contada da primeira vez do cinema nacional. São Paulo: Panda Books, 2012.  

sábado, 2 de abril de 2016

Raffaele Rossi em abril no VSP

Em abril, o VSP aborda a obra e a trajetória do cineasta ítalo-brasileiro Raffaele Rossi (1938-2007). Responsável pela direção de longas-metragens de diversos gêneros, ele ficou famoso por dirigir o clássico Coisas Eróticas (1983), primeiro filme nacional de sexo explícito. Rossi ganhou muito dinheiro com a produção deste trabalho que tornou-se um dos maiores êxitos de bilheteria da história do cinema brasileiro. Todo sábado um capítulo sobre o ítalo italiano que mudou a trajetória do cinema adulto brasileiro.

ROSSI, Raffaele – (Arsenio, Itália, 1938- Embu-Guaçu, 2007). Radicado em São Paulo desde 1954. Em 1963, vendia equipamentos cinematográficos. Começa a fazer documentários e, ligado ao cinema da Boca, atua como produtor-diretor, por vezes fotógrafo e montador de seus filmes. Produtor de A doutora é boa pacas (Tony Rabatoni e Pio Zamuner) e O império do sexo explícito (Marcelo Mota). Aprendeu a técnica na realização de seus filmes, atuando em vários gêneros: mistério, bangue-bangue (em que chegou a construir uma cidade), policiais e história caipira. Ingressa no erótico com o sucesso de Roberta, a moderna gueixa do sexo, seguido de Coisas Eróticas, o primeiro de sexo explícito brasileiro a surgir nas telas. (Depoimento ao autor).

1971- O homem lobo (Pinheiros Filmes); 1973- Pedro Canhoto, o vingador erótico; 1974- A gata devassa; Seduzida pelo demônio (Marte Filmes); 1975- Pura como um anjo...será virgem?; 1977- Roberta, a moderna gueixa do sexo; 1978- João de Barro (Panther´s); 1979- Uma cama para sete noivas, co-dir José Vedovato (Titanus Filmes); 1980- A casa de Irene; 1981- Boneca cobiçada; Coisas eróticas (Panther´s); 1982- De todas as maneiras (O prólogo); 1984- Coisas eróticas 2; 1987- Gemidos e Sussurros (E.C. Rossi).


Publicado originalmente em MIRANDA, Luiz Felipe. Dicionário de cineastas brasileiros. São Paulo: Art Editora, 1990.

sábado, 14 de julho de 2012

Lançamento bombástico em agosto

A atriz Jussara Calmon irá lançar a sua biografia em agosto. Jussara Calmon, Muito Prazer, é o resultado de uma longa pesquisa do escritor Fábio Fabrício Fabretti. A polêmica obra irá revelar histórias inéditas sobre a musa capixaba. 

Na década de 80, Jussara escandalizou os moralistas ao protagonizar alguns dos maiores clássicos do cinema erótico brasileiro. A morenice da atriz esteve presente em diversos longas-metragens do período como Rio Babilônia de Neville de Almeida e A Menina e o Estuprador de Conrado Sanchez. O lançamento da editora Giostri promete ser uma das grandes pedidas do mercado editorial no ano. Jussara Calmon, Muito Prazer, irá abordar toda a vida pessoal e profissional da atriz. Desde a infância sofrida até a consagração no carnaval e no cinema brasileiro. Este é o segundo lançamento do ano que aborda a vida profissional da musa. O livro  Coisas Eróticas - A História Jamais Contada da Primeira Vez do Cinema Brasileiro de Denise Godinho e Hugo Moura também fala do início de carreira da atriz. Afinal, Jussara é uma das protagonistas do primeiro filme brasileiro de sexo explícito.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Vânia Bonier está na Trip de julho


A atriz Vânia Bonier é tema de uma reportagem especial da edição de julho da revista Trip. São cinco páginas falando sobre a vida pessoal e profissional da musa da primeira geração do pornô brasileiro. No final dos anos 80, Vânia tornou-se uma das principais vestais da Boca paulistana. Seu debut foi no clássico Coisas Eróticas de Raffaele Rossi, primeira produção nacional XXX. Mas a atriz chegaria ao estrelato ao participar do longa-metragem 24 Horas de Sexo Explícito do diretor José Mojica Marins, o Zé do Caixão. O filme foi um estrondoso sucesso de bilheteria por trazer cenas de sexo simulado da atriz com o pastor alemão Jack. Todos os detalhes desta produção e dos demais trabalhos da musa no cinema da rua do Triunfo estão na matéria. A reportagem é assinada pelo jornalista Carlos Primati com base em entrevistas com contemporâneos, pesquisadores e com a própria atriz.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

É amanhã!

Coisas Eróticas completa três décadas de vida amanhã. Lançado nos cinemas, o longa fez grande sucesso. Os jornalistas e pesquisadores Hugo Moura e Denise Godinho realizam a pré-estreia do documentário A Primeira Vez do Cinema Brasileiro no cine Windsor (av. Ipiranga, 974), neste sábado (dia 07), às 19h. Entrada franca. Confiram a programação:

18h: coquetel de boas vindas

19h: exibição do documentário A Primeira Vez do Cinema Brasileiro

20h30: coquetel de intervalo

21h: mesa de debate com a presença de Eduardo Rossi (filho do Raffaele), Fábio Fabrício Fabretti (escritor e biógrafo da Jussara Calmon), Walder Laurentis (ator de Coisas Eróticas) e Débora Muniz (atriz da Boca e que falará sobre o período de transição entre pornochanchada e o pornô)

22h: exibição de Coisas Eróticas

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Documentário sobre Coisas Eróticas será exibido sábado

A única coisa ruim é que será no mesmo horário de Palmeiras e Ponte Preta, pelo Campeonato Brasileiro.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Documentário sobre Coisas Eróticas será exibido pela primeira vez


A Primeira Vez do Cinema Brasileiro será mostrado na íntegra pela primeira vez. O longa-metragem vai ganhar duas exibições no II PopPorn Festival, evento especializado em pornografia e indústria do sexo no Brasil. O filme será exibido no sábado (dia 2) ás 15h10 e no domingo (dia 3) ás 20h15. Todo festival será na Trackers (rua Dom José de Barros, 337, segundo andar, centro). De autoria de Denise Godinho, Hugo Moura e Bruno Graziano, o documentário aborda os trinta anos de Coisas Eróticas, primeiro filme brasileiro de sexo explícito. São 34 entrevistados falando sobre a vida e a obra do diretor Raffaele Rossi, conhecido nome da Boca do Lixo de São Paulo. Após a exibição de A Primeira Vez no sábado (dia 2), haverá um debate sobre os novos rumos do pornô brasileiro. Os ingressos para o evento custam R$ 25.

segunda-feira, 19 de março de 2012

30 Anos de Coisas Eróticas

Por Matheus Trunk

Mais de quatro milhões e 700 mil brasileiros assistiram, mas pouca gente se lembra. Em 1982, o longa-metragem Coisas Eróticas lotou os cinemas tupiniquins. Tudo porque o filme foi o primeiro nacional com cenas de sexo explícito – o público queria ver as musas Zaíra Bueno, Jussara Calmon e Marília Nauê. O casal de jornalistas Denise Godinho e Hugo Moura decidiu contar as histórias mirabolantes ao redor do pornô, desde as que envolveram a produção até a decadência do diretor por causa dum time de futebol amador. O resultado da pesquisa está no livro-reportagem Coisas Eróticas - A História Jamais Contada da Primeira Vez do Cinema Brasileiro, que será lançado no dia 4 de abril pela editora Panda Books.

Como surgiu o interesse de vocês escreverem um livro sobre o filme Coisas Eróticas

Hugo Moura: Tudo começou em 2009 com o trabalho de conclusão do curso de jornalismo. Naquele ano, comemorava-se os 30 anos do filme Império dos Sentidos, exibido no Brasil em 79. Até ali, nenhum filme brasileiro de sexo tinha sido levado às telas. Isso nos deixou inconformados. Pela internet, descobrimos que o primeiro filme pornô brasileiro tinha sido o Coisas Eróticas. Mas não havia mais nada na Internet sobre o filme! E aí começamos a investigar e, para a nossa surpresa, havia uma história genial por trás de tudo isso. E falar sobre a Boca do Lixo, em geral, foi um prazer. É nosso cinema. Marginal, esquecido por muitos, mas foi dali que muita gente – que anda por aí em novelas, inclusive – saiu.

Denise Godinho: Em 2009, o Brasil era um dos maiores produtores de filme pornô do mundo. Em que momento essa história tinha mudado? Pelo Google encontramos em alguns blogs que o primeiro pornográfico havia sido dirigido pelo Raffaele Rossi. Mas muito pouco se falavam sobre a história do filme e seus bastidores.  

Qual foi a maior dificuldade em fazer o livro?

Hugo: Pra mim, a maior dificuldade foi encontrar os atores, atrizes e produtores que participaram de Coisas Eróticas. Isso porque eles não fizeram parte do lado mais conhecido da Boca. Se a Boca era, de alguma maneira, underground, o grupo do diretor Raffaele Rossi era o lado B do underground. Além disso, vários deles usavam nome artístico! Depois o desafio que surgiu foi o de convencer essas pessoas a relembrar algo que fizeram 30 anos atrás. Em alguns casos, a família daqueles que participaram do filme não fazia ideia. Então é um tema delicado para quem trabalhou no primeiro pornô brasileiro. Hoje, os atores e atrizes são pais e alguns até avós. Outra é casada há anos sem que o marido não saiba que ela participou disso. O grau de intimidade teve de ser grande para as conversas que tivemos com os atores.

Denise: Vale ressaltar que o projeto sobre o filme surgiu a princípio como um documentário. Quando recebemos o convite para escrever o livro, já estávamos batalhando atrás da pesquisa há um ano, então, para escrever foi mais fácil, porque já conhecíamos a história e já tínhamos contato com as fontes. Mas alguns relatos mudavam de entrevistado para entrevistado. Por exemplo, no caso do ator Oásis Minniti, quando ele era o rei do sexo surgiu o ator Osvaldo Cirilo para concorrer a fama pornográfica com ele. Tudo durou pouco porque infelizmente ele faleceu graças à AIDS. Esta informação acabou se misturando na cabeça de alguns entrevistados e muitos nos disseram, convictos, que Oásis é quem havia morrido de AIDS. Só quando encontramos sua família, depois de algum tempo, que descobrimos a verdadeira história. Na verdade, Minniti faleceu graças a um infarto.

Coisas Eróticas foi um sucesso de bilheteria. É verdade que o diretor Raffaele Rossi perdeu grande parte do dinheiro que ganhou com um time de futebol amador?

Hugo: O Raffaele torrou pelo menos metade do que ganhou com Coisas Eróticas no time de futebol de salão que se chamava Grêmio Recreativo Rossi. Ele montou um time de estrelas e trouxe jogadores até do exterior para a agremiação. Ele gostava muito de futebol e, apesar de a família não o apoiar em nada neste lado do esporte, continuou em frente e, infelizmente, deu no que deu. A grana acaba... Não tem jeito. Mas conta-se que ele pagava salário mais alto até do que times grandes Até fretou um avião para levar o time para jogar pela América do Sul. Só isso deve ter saído uma grana preta.

Denise: Além disso, todos os entrevistados nos disseram que ele gastava dinheiro sem receio. Se um dia ele queria comer numa cantina italiana, ele não se contentava em ir só com a família. Chamava mais dez pessoas e pagava pra todo mundo. Fazia festas enormes no sítio cinematográfico que ele comprou em Embu Guaçu com a grana do filme. Viajou e curtiu a vida adoidado. O Eduardo Rossi, filho do diretor, não sabe explicar em que momento exato o dinheiro acabou porque, segundo ele, o Raffaele era bem reservado quanto a isso. Parece que em um dia eles viviam uma vida farta e, de repente, tudo acabou. 

Que tipo de episódio inédito sobre o filme o livro conta?

Hugo: O Coisas Eróticas é mal visto. E está completamente esquecido - por estudiosos, cinéfilos, pesquisadores. Ele é o patinho feio do cinema. Patinho feio do pornô. Episódio inédito eu não sei dizer, porque não sei o que é inédito. De verdade. Porque basta dar um Google pra ver que praticamente não se fala sobre o filme. Há textos perdidos em alguns poucos blogs e é tudo. O livro fala de onde o Raffaele começou, quando ele chegou ao Brasil - o cineasta é italiano -, como começou na área cinematográfica, como teve a ideia para o Coisas Eróticas. O livro conta toda a história do filme. Como foi o convite aos atores, a vontade em fazer um filme de sexo explícito, o estouro de sucesso que foi, o Cine Windsor, os atores e produtores hoje em dia... O final de vida do Raffaele. Tem tanta coisa que era obscura sobre o filme e acredito que o livro vai trazer luz para esses episódios obscuros.

Denise: Como o Hugo disse, acho que a história dos bastidores do filme é inédita. O livro conta como o Raffaele abordou os atores para participarem desta empreitada um tanto quanto polêmica, como eles burlaram a censura e estourou nos cinemas. Acredito que o mais interessante é saber como o Raffaele teve a ideia de fazer o Coisas e como ele sofreu enquanto a obra não alcançou os cinemas. Quem assiste ao filme hoje não acredita que houve uma luta e tanto para que ele conseguisse ser exibido.

Na opinião de vocês, qual o maior mérito do filme Coisas Eróticas?

Hugo: Coisas Eróticas apareceu numa época em que não havia videocassete ou internet. Os jovens de hoje podem consumir pornografia com um computador. Os pais podem ficar sem saber pra sempre porque existe computador pessoal. Daí, de repente, um cara, durante a ditadura militar, consegue fazer passar pela censura um filme pornô. Depois, coloca nos cinemas e lota sala dia e noite, noite e dia. E por quê? Porque as pessoas queriam ver sacanagem. Não tinha nada além de revistas pornô nas bancas - que deviam ser vendidas em sacos de pão para ninguém ver - ou pornôs estrangeiros que eram vistos clandestinamente em Super-8. O público pôde assistir sexo pela primeira vez. Coisas Eróticas contribuiu para acabar com um tabu imbecil de que sexo não podia ser mostrado. E derrubou hipocrisias, também, do regime militar, que abriu as pernas - num trocadilho bobo - para a putaria. Nos Estados Unidos, por exemplo, o primeiro pornô a ir para o cinema foi Garganta Profunda, em 1972. No Brasil, Coisas Eróticas só se viu projetado numa tela de cinema em 82. Quer dizer, dez anos depois! Estávamos atrasados.

Denise:O longa mostrou para o Brasil o que antes só se fazia entre quatro paredes. Não acredito que foi o filme de Raffaele que abriu as portas da liberdade impedida pela censura, porque ele só alcançou os cinemas e o país já passava por uma abertura política. Mas, foi o primeiro filme que o brasileiro pôde ver e, dessa vez, com atores e situações típicas brasileiras. A mulata bonitona, o cara barrigudo, a rua que ele passa pra comprar pão todo dia, a praia que ele vai ao final de semana. Ou seja, era um filme que trazia aspectos brasileiros com pornografia. Até então, sexo era visto em revistas importadas que traziam estereótipos de outros lugares, que não era típico por aqui. E por isso, acho que ficou uma sensação de “Nossa, a gente também faz isso!”. 

Publicado originalmente na revista Vice em 15/03/2012