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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Recortes sobre Ody Fraga




Por Nuno César Abreu

Ody Fraga era reconhecido, mesmo por uma crítica historicamente mais exigente, por ter propostas de conteúdo mais respeitável, um olhar crítico sobre a classe média, opiniões estéticas e políticas (também em relação à classe cinematográfica) articuladas. Entre seus pares, cultivava um certo cinismo e fama de preguiçoso.

Cláudio Portioli relata:

Com o Ody Fraga, eu fiz uns oito filmes. Eu gostava de trabalhar com ele. (...) Na hora de filmar, ele tinha uma preguiça que não tinha tamanho. Mas todos os roteiros dele tinham sempre uma proposta, uma coisa a mais. Dava pra sentir que havia alguma coisa no roteiro que era boa. (...) O dia em que não tinha vontade de filmar, ele relaxa (...). Dizia assim:
- Monte uma grua ali.
- Mas por que uma grua, Ody Fraga?
- Porque, enquanto eles montam a grua, a gente descansa.
O pessoal levava umas duas horas pra montar aquelas gruas velhas, caindo aos pedaços.

A despeito do perfil marcado pelo espírito crítico, cinismo, mordacidade e “preguiça”, Ody Fraga tinha a confiança irrestrita dos produtores, não só pela qualidade do seu trabalho, mas também por respeitar os prazos, trabalhar com rapidez e eficiência.



A esse respeito, diz Luiz Castillini:

Ele era prático. Era capaz de matar uma sequencia inteira num plano só. Sabia como fazer, sabia muito bem os atalhos, como chegar rápido num momento (...). Perceber o que ia render (...) e chegar rápido ao máximo do rendimento dramático, com o ator, na marcação, com a luz. Chegar num ponto em que, além dali, tentar mais alguma coisa é gastar tempo e dinheiro. Ele percebia logo o que um ator podia render e não exigia mais do que a pessoa podia dar. Também não é uma crítica ás pessoas: cada um tem o seu limite. Era realmente muito rápido, e mais: escrevia cenas muito fáceis de ser realizadas. Nada mirabolante. Ou seja, ele fazia o que o povo da época gostava.

Para quem teve uma cultivada fama de preguiçoso, é de admirar que além dos roteiros que escreveu sob encomenda para diretores e produtores, ele tinha escrito e dirigido seus próprios filmes, em quantidade apreciável mesmo para os padrões da Boca. Entre seus filmes não há um estrondoso sucesso, mas consistentes bilheterias, resultando numa folgada relação custo-benefício, tanto nos investimentos financeiros quanto nos artísticos. Entre 1976 e 1983, Ody Fraga filmou (escreveu e dirigiu) de dois a três filmes por ano, trabalhando com os principais produtores da Boca do Lixo.

Ody Fraga foi responsável pela iniciação profissional de Guilherme de Almeida Prado, um dos mais talentosos realizadores da “segunda geração” da Rua do Triunfo. Descendente da tradicional família paulista, Guilherme de Almeida Prado (Ribeirão Preto, SP, 1942) formou-se em engenharia, mas desejava faze cinema, atividade na qual já se havia exercitado quando estudante, na bitola super-8. Foi levado à Boca do Lixo por Cláudio Portioli.

Segundo Almeida Prado:

Ele me botou numa produção do David Cardoso dirigida pelo Ody Fraga. Eu assinei como assistente de direão, mas, naquele tempo, isso não existia. Nem o David Cardoso sabia o que era assistente de direção. Eu sabia, porque tinha lido, estudado. Eles precisavam era de um continuísta, queriam alguém que fizesse tudo. Eu lembro que o Portioli falou pra mim: “Tudo o que eles perguntarem você diz que sabe, que você faz. Depois me pergunta e eu te explico. Diz que faz tudo, depois a gente resolve o que vai acontecer”. Eu lembro que a única coisa que eu não topei foi fazer still (fotos de cena), porque detesto tirar fotografia. O Portioli ficou furioso, porque ele tinha dito que eu fazia e, depois, ele teve que fazer. Acabou fazendo direção de fotografia, câmera, e ainda fazia o still. O filme chamava-se E agora, José?

Com cabeça formada na engenharia, cinéfilo e estudioso, Guilherme implementaria, como assistente de direção, certas práticas de organização e administração das filmagens comuns em produções estruturadas, mas que não eram devidamente realizadas na Boca do Lixo.

Prossegue Guilherme de Almeida Prado:

O David Cardoso nunca tinha visto uma análise técnica, uma ordem do dia. Quando apareceu um cara que fazia ordem do dia, sabia fazer análise técnica, sabia o que era continuidade direitinho...Quando eu cheguei lá e fiz ordem do dia, todo mundo levou um susto. Depois o David Cardoso já queria que eu fizesse ordem do dia pra uma semana inteira seguinte, não só pro dia seguinte. O diretor de produção não sabia olhar análise técnica e entender. Então, eu fiz oito filmes em um ano e meio, na Boca (...).
O Ody foi o diretor com quem eu fiz mais filmes, com quem eu tive um relacionamento mais próximo. Ele era um personagem único. Estava sempre tirando sarro de tudo, a todo momento. O Ody era uma pessoa que tinha, com certeza, um nível cultural um pouquinho acima da Boca. E tinha bastante ascendência, tanto positiva como negativa. Só o fato de ele ter dito (a um produtor) que o meu roteiro era maravilhoso, mas não era comercial, matou o meu roteiro. E ele sabia que estava matando. (Na Boca) era melhor ele falar que era uma droga, mas comercial, entendeu?

Esse depoimento de Guilherme de Almeida Prado reitera duas ou três coisas que ficamos sabendo sobre a Boca: o recrutamento era feito de modo a colocar as pessoas em ação diante de problemas, para mostrarem se sabiam fazer ou não; a avaliação de um projeto ou roteiro era francamente comercial; um produtor bem estabelecido (para os padrões da Boca), como David Cardoso, não conhecia análise técnica – uma prática comum de produção que organiza a filmagem, a racionalidade das relações de trabalho, o uso de equipamentos, transporte etc., e, por consequência, administra a economia do filme. São fatores aparentemente contraditórios, como quase tudo na Boca do Lixo: o sistema de produção era conduzido por uma visão decisivamente comercial, mas não havia planejamento – necessário a qualquer atividade econômica -, e o recrutamento da mão-de-obra não passava por nenhum critério de competência.

A atriz Matilde Mastrangi, que trabalhou em alguns filmes dirigidos por Ody, faz interessantes revelações a respeito do seu cinema e do tipo de relações de trabalho que ele mantinha. Nelas, mais uma vez, Walter Hugo Khouri surge como referência:

Eu adorava o Ody, nunca recusei um trabalho dele, trabalhamos muito juntos. (...) Eu gostava de trabalhar com o Ody pela maneira de ele tratar a gente. (...) Quando escrevia alguma coisa, ele me ligava para ver se eu queria fazer. Quando o produtor me chamava e eu dizia que não ia fazer, o Ody me ligava, tentando me convencer.
(...) O Ody era um intelectual, lia muito. Uma pessoa que sabia mais das coisas. Você pega um roteiro dele e compara com um do Castillini, em concordância verbal, erro de português...Os do Castillini, eu, que só tenho o ginásio, corrijo. Tem gente que sabe e gente que se mete a fazer. O Khouri escrevia mais ou menos a mesma coisa que o Ody escrevia, só que o Ody levava para o popular e o Khouri queria fazer uma coisa mais elitizada. Mas o produto era a mesma coisa, o que mudava era a embalagem. O Khouri também era intelectual, uma pessoa de bom gosto, com uma estética diferente, mas ele fazia a mesma coisa que o Ody. Eu coloco os dois no mesmo patamar.

Para Luiz Castillini, Ody foi um mestre, com quem aprendeu, além da ironia, “a enxergar cinema de verdade. Não o ABC, a coisa técnica, mas o que tem por trás da técnica”. De fato, Ody Fraga enxergava por trás da técnica. Plenamente consciente de seus instrumentos de trabalho e dotado de uma aguda visão social, seus diagnósticos são sempre precisos, tanto a respeito das relações internas ao cinema da Rua do Triunfo quanto deste com o cinema brasileiro e com o Brasil, como se pode notar neste trecho da já mencionada entrevista concedida por ele em 1982 (o ano em que estamos nesta narrativa):

Eu não tenho amor pela Boca. Eu acho que ela está completando um ciclo; tem que mudar para outra fase, senão vai morrer. Uma certa produção mais barata parece que está perdendo lugar. Não só pela inflação geral e do cinema. Parece que o público está solicitando uma coisa mais fina. Mais bem acabada. E esses filmes mais bem acabados, mais interessantes, fazem puxar o resto para cinema (...) O problema é o seguinte: a Boca tem que passar para sua segunda fase. A primeira fase, o primeiro ciclo, já se completou.

Seu diagnóstico, sem dúvida, detectava problemas estruturais da Boca naquele momento. De fato, vivia-se então uma fase de esgotamento, tanto de um “estilo” (práticas significantes) como de um “modo de produção” (práticas de produção), centrados na fórmula erotismo + produção barata + título apelativo + divulgação em mídias populares, que, com níveis diversos, se estabeleceu como modelo. Os filmes não estariam acompanhando o que parecia ser uma elevação no nível de exigência do público, o que era facilmente percebido, por um lado, pela queda do movimento das bilheterias de modo geral e, por outro, pelo sucesso de produtos com melhor embalagem.

Ody Fraga- Porque a Boca dá uma idéia (de) que é um negócio meio anárquico, mas não é. Ela criou um folclore próprio, uma mitologia própria. E a realidade dela é outra. Sujeito menos avisado, que não penetra na coisa, chega na rua do Triunfo e vê um pouco da casca do que já não é mais. Houve um tempo em que o folclore disso era uma beleza. Hoje você não vê mais ninguém pela rua – o restaurante do Serafim, o bar do Ferreira, aquilo tudo acabou. Esse folclore está acabando, porque o tipo de produção que girava com esse folclore acabou. Um ciclo se completou. O negócio de se fazer muitas fitinhas, de sexo só, vai acabar. O sexo e a discussão sobre ele vão prosseguir numa segunda etapa.

FC- Qual vai ser essa segunda etapa?

Ody Fraga- Vai ser o seguinte: primeiro – melhor apuro de qualidade técnica de acabamento dos filmes. Hoje não dá mais resultado, como aconteceria até cinco anos atrás, investir um mínimo de dinheiro para tirar o máximo de resultado. Não está mais correspondendo uma coisa com a outra. As fitas de acabamento marreta estão dando resultados marretas e medíocres também. A Boca está atravessando, no momento, um dos seus períodos de crise. Um dos seus períodos agônicos. A Boca está em agonia. Eu aplico o agônico no sentido Unamuno (autor do ensaio A agonia do cristianismo): é quando todo o organismo, todo ser, começa a se convulsionar, a sofrer e entrar em pânico. A entrar em crise, não para morrer, mas para passar a uma outra etapa. Nessa passagem, muita coisa fica pelo caminho – a coisa não tem condição de sobrevivência mesmo. É bem – um pouco – a luta do mais apto. Porque, num primeiro momento, teve gente que se beneficiou de uma determinada situação. O gabarito mental era pequeno e eles tinham o fôlego e o gabarito mental na mesma dimensão. No momento em que se amplia essa dimensão, eles ficam mentalmente do mesmo tamanho. Não têm nada para crescer. Não têm perspectiva, nem visão. Não têm abertura intelectual, abertura mental para isso. Esse pessoal já está ficando no meio do caminho. (...) Hoje, estão trabalhando os produtores que se estruturaram. Hoje, estão sobrevivendo na Boca os empresários. O resto vai acabar. Em cinco anos não tem mais. Esse é o negócio.



Publicado originalmente em:

ABREU, Nuno César. Boca do lixo: cinema e classes populares. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2006. Páginas 114 a 119.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Papo de Boqueiro com Toni Gorbi

O eletricista, gaffer e diretor de fotografia Antônio de Souza Neto, o Toni Gorbi (Conselheiro Pena, MG, 23/02/1951-) trabalhou em mais de 60 longas-metragens. Ele relembra a parceria com Carlos Reichenbach, Cláudio Portioli, Jean Garrett e Ody Fraga.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

“O filme está acima de tudo”


São mais de 60 longas-metragens no currículo. Antonio de Souza Neto, o Toni Gorbi, é um homem com uma história notável dentro da cinematografia brasileira. Participou da construção da Transamazônica e veio pra São Paulo tentando novas oportunidades profissionais. Acabou ingressando no cinema da rua do Triunfo como eletricista. Trabalhou diversas vezes com técnicos importantes como Cláudio Portioli. “Ele me ensinou tudo sobre a ética no cinema. Foi meu maior mestre depois do meu pai”. A rua do Triunfo terminou seu ciclo como polo da cinematografia. Mesmo assim, Gorbi prosseguiu sua carreira trabalhando em comerciais e atuando como gaffer em longas-metragens. Na quinta-feira da semana passada (dia 8), estreou o filme A Grande Vitória, primeira oportunidade de Gorbi como diretor de fotografia. Nesta entrevista ao VSP, o veterano fala sobre esse novo trabalho e relembra parte da sua trajetória.

Violão, Sardinha e Pão- O senhor trabalhou em mais de 60 longas-metragens nacionais. Como surgiu a oportunidade de você fotografar A Grande Vitória?

Toni Gorbi- Eu já trabalho como fotógrafo documentarista há algum tempo. A oportunidade apareceu quando um amigo na O2, Carlos Vecchi, me apresentou para o Stefanno Capuzzi, diretor do filme e sugeriu que eu iniciasse uma nova fase como fotógrafo em longa-metragem.

VSP- Qual é a sua expectativa com esse trabalho?

TG- Esse ano completo 40 anos na indústria cinematográfica. Achei que fosse o momento de tentar algo novo. Minha expectativa é que a indústria possa reconhecer novas formas de trabalho dentro da fotografia digital e descubra que é possível fazer um novo cinema. Isso tanto em questões financeiras quanto tecnológicas. 

VSP- Foi muito difícil você trocar o trabalho como gaffer para diretor de fotografia?

TG- Uma função complementa a outra, apenas prova que ambos devem trabalhar em conjunto. Pra mim foi algo muito natural, pois sempre procurei estabelecer uma ponte entre uma área e outra. Agora pude comprovar o resultado positivo após anos de trabalho. 

VSP- Como foi o seu relacionamento com o ator Caio Castro que estrela a produção?

TG- O Caio é uma pessoa incrível. Pode ser visto por muitos como um simples galã, mas afinal de contas qual cinema não é formado por galãs? Porém acima de tudo ele é um ator extremamente profissional e dedicado. Ele sabe respeitar a equipe e na minha opinião a palavra galã não é nem um pouco ofensiva. Ela pode ou não pode vir acompanhada de outros adjetivos. No caso do Caio eu só tenho boas coisas a dizer. Me orgulho muito de ter trabalhado com ele nesse projeto.

VSP- A Grande Vitória é uma cinebiografia. O senhor acredita que este gênero cinematográfico pode ser mais explorado pelo cinema brasileiro?

TG- O cinema brasileiro deveria retratar mais a nossa cultura e enaltecer os talentos originais da nossa terra. As biografias são parte do que temos de melhor no país e retratam - sem dúvida alguma - figuras da maior importância para o mundo todo. Pode parecer um pouco pretensioso, mas talvez seja apenas orgulho brasileiro. Orgulho maior de saber das riquezas que temos em nosso país e que, apesar de tudo, muitos só pensam em retratar o que temos de ruim. Não devemos omitir as partes ruins do nosso país e da nossa história, mas se não passarmos a ter orgulho daquilo que podemos conquistar, nunca venceremos.

VSP- Qual é a sua opinião sobre o cinema brasileiro atual?

TG- Vejo o cinema atual como uma retomada do que foi o cinema na época do boom da (produtora) Vera Cruz. Aquela explosão de estúdios, equipamentos, possibilidades. Era tudo tão possível e de repente alguém colocou o pé no freio, e tudo foi tomado por um grande vazio. Depois, foi preenchido por um período conhecido como Boca do Lixo- a fábrica das pornochanchadas. Mas isso não é nenhuma vergonha pois foi um período necessário à sobrevivência do cinema nacional.Agora é como se tudo tivesse sido retomado, porém de maneira fresca, vibrante...real. É um cinema novo cheio de possibilidades. Por isso, acredito que devemos nos prender as coisas boas que ele pode nos trazer e não deixar passar essa oportunidade.

VSP- Em breve poderemos ver mais longas-metragens que o senhor fotografou?

TG- Continuo buscando uma boa parceria com amigos diretores e fotógrafos. Já recebi alguns convites após a estreia do filme, mas são projetos que ainda não foram anunciados. Por isso, ainda não posso divulgar os nomes.
  
VSP- O senhor iniciou sua carreira no cinema da Boca. Quais coisas o senhor aprendeu na rua do Triunfo que utiliza o seu trabalho atual?

TG- Aprendi a trabalhar para o filme e não para mim. No cinema, o filme está acima de tudo.

VSP- Trabalhar com um fotógrafo como o Cláudio Portioli foi importante para a sua carreira?

TG- O Portioli me ensinou tudo sobre a ética no cinema. Ele me ensinou a trabalhar em qualquer tipo de projeto, junto a qualquer equipe e a importância da união. Ele me ensinou o que é missão. Ele foi meu maior mestre depois do meu pai.
  
VSP- Por quê o senhor acredita que poucos técnicos daquela época conseguiram permanecer ativos dentro do cinema brasileiro?

TG- Porque muitos não acreditaram na possível evolução e modernização do cinema brasileiro. A verdade é que desde a época da Vera Cruz o cinema vem se modernizando. Isso aconteceu com a chegada de um refletor HMI até os o uso de refletores de LED e câmeras digitais. Porém, poucos técnicos da época se interessaram por essas transições. Eu tenho 63 anos e nunca achei que idade pudesse ser empecilho para a modernização e bom trabalho.      

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Filmes perdidos da Boca: O Império das Taras (1980)



José Adalto Cardoso começou a despontar na Boca no período dourado do quadrilátero. Antes de ingressar na direção, o moço de Arapongas trabalhou com diversos realizadores como José Mojica Marins, Cláudio Cunha, Edward Freund e Fauzi Mansur. Adalto tinha escrito um roteiro para um concurso da Embrafilme. O nome do trabalho era interessante: Descaminhos. O produtor Alexandre Adamiu apareceu e topou produzir a empreitada. O filme tinha os ingredientes eróticos que a maioria dos filmes paulistas da época tinham. O diretor de fotografia Cláudio Portioli entrou de sócio.



As filmagens foram realizadas nas cidades de Santana de Parnaíba e Pedreira sem grandes dificuldades. Adalto sempre foi um realizador conciliador que buscava unir elenco e equipe técnica. Mesmo na primeira direção, Adalto fez questão de falar do interior de São Paulo, região onde cresceu. A fita chamava-se Descaminhos mas foi lançado comercialmente como O Império das Taras em 10 de dezembro de 1980 no cine Marrocos. O título apelativo buscava despertar a curiosidade dos cinéfilos.

domingo, 7 de julho de 2013

“Essa história de dizerem que a Boca foi faculdade é papo furado”



Abril de 2012. O pessoal da Boca do Lixo de São Paulo estava em festa. O realizador Mário Vaz Filho apresentou seu novo curta-metragem (A Mulher Barata) protagonizado pela atriz Débora Muniz. Pouco depois da exibição, os papos se prolongam num bar anexo ao Pessoal do Faroeste. Nesse interim, converso rapidamente com o diretor sobre esse trabalho. Marinho ficou famoso por dirigir diversos clássicos do pornô brasileiro nos anos 1980 como Um Pistoleiro Chamado PapacoAbre as Pernas, Coração e A Dama de Paus. Sarcástico e explosivo, Marinho é do tipo de entrevistado que não foge das perguntas. Confiram o papo que tive com ele.



Violão, Sardinha e Pão- Como surgiu a ideia desse curta?



Mário Vaz Filho- Eu sou fã do Kafka. Mas isso eu fiz uma brincadeira né? Uma brincadeira porque eu achei que o barato era uma mulher barata de cobrar barato. As características na minha opinião...relendo eu percebi que dava pra fazer uma brincadeira em cima.



VSP- Como foi trabalhar com a Débora Muniz mais uma vez?



MVF- Só teria feito o filme se ela pudesse. Tenho uma certa liberdade com ela pra trabalhar. Eu achei que a personagem tinha que ter certa disponibilidade de ficar pelada, aquelas coisas todas. Hoje tem uma certa cabreragem em relação a isso. Encontrei com ela num evento e falei o que ia ser. Ela topou, escrevi o roteiro. Fiz algumas mudanças...eu não sabia como fazer a barata. Mas o Ciambra (Antônio Ciambra, diretor de fotografia) falou que ele ia resolver o problema. Com essas duas coisas resolvidas, eu já tinha falado com o Diomédio (Diomédio Piskator, produtor). Ele achou legal a ideia do curta. Esse filme irá entrar num longa de cinco episódios. O Diomédio produziu, foi um parceiro muito importante. Cuidou de toda parte da produção. A gente juntou os amigos e a coisa aconteceu.



VSP- Quais são seus próximos projetos na área?



MVF- Eu tenho dois projetos aprovados pela lei mas é difícil de arrumar. Estou com um parceiro como captador de recursos. Um projeto é ficção e outro é documentário. O documentário é sobre água baseado num livro. Esse gênero não é o muito meu esquema...prefiro ficção. Mas acho que vou partir pra essa porque não dependo de ator. Não que eu não goste de ator. Mas hoje é meio complicado. Querem gente global, quer isso, aquilo. Se você não tiver certo entrosamento com esse pessoal começa a inviabilizar os projetos.



VSP- Dos seus filmes, qual é o preferido?



MVF- Não sei...filme é como filho. Lógico que alguns estão com mais problemas. Outros menos. Mas é difícil né? Ultimamente tenho feito somente curta-metragem mas a maioria eu gosto. Não vejo outra forma de fazer dentro da proposta. Não posso dizer gosto mais desse, gosto mais daquele. Gosto muito do Autofagia, um filme pouco visto. O que eu fiz com as crianças também em Sorocaba.



VSP- O seu filme Um Pistoleiro Chamado Papaco continua fazendo muito sucesso na Internet. O que você acha disso?



MVF- Eu acho...fazer o quê?



VSP- É verdade que você está escrevendo um livro de memórias sobre o Cinema da Boca?



MVF- O livro está praticamente pronto. Estou dando os retoques finais pra ver como vou poder viabilizar com alguma editora. Mas o trabalho está concluído e fala sobre os mais de 40 longas-metragens que eu trabalhei. Falta somente o acabamento final, colocar as fotos. Mas a mão-de-obra pesada está feita. Falta os retoques. Cada vez que eu pego mudo alguma coisa. De uma certa forma, está pronto.



VSP- Você foi assistente de muita gente na Boca: Kopesky, Ody, Toninho, Jean. Qual foi o mais importante pra você?



MVF- Jean Garrett. Não digo que ele seja o meu mestre, mas foi o cara que eu me senti melhor trabalhando. O pouco que eu sei aprendi muito com ele. Ele era como um irmão pra mim. Dois caras da Boca que eram como irmãos pra mim: ele e o Cláudio Portioli (diretor de fotografia). Tive outros grandes amigos. Mas esses eram amigos da gente ficar juntos todos os dias.



VSP- No livro vai ter muitas histórias sobre o Jean?



MVF- Claro. Isso vai ter. Tudo aquilo que você queria me perguntar vai estar no livro.



VSP- Só pra sintetizar Marinho: a Boca foi uma faculdade pra você?



MVF- Isso é conversa. Que papo furado é esse? Não tem faculdade. Cinema é aquilo, o cara aprende. Faz ou não faz, sabe ou não sabe. O Plínio Marcos é que falava um negócio legal: “Não tem escola pra artista”. Embora eu não me considere artista. O cara pode aprimorar, adquirir conhecimento. Mas ou você tem aquela coisa de saber fazer ou não tem. Se ele não tiver, não adianta Boca, não adianta porra nenhuma. Não é qualquer um que pode chegar e falar: “Eu vou dirigir um filme”. Lógico que a Boca foi uma escola. Aí você vai sacando as coisas. Mas eu acho que o teatro foi. É uma somatória de coisas que a gente tem e depois tenta colocar. Ou sabe ou não sabe.



VSP- O que você acha do cinema brasileiro atual?



MVF- Eu tenho visto pouco. Não tenho visto com a intensidade que eu gostaria. Ás vezes falta de tempo, falta de saco. Uma série de coisas. Mas dos últimos que eu vi...o que eu gostei foi o Cama de Gato. Um filme barato, feito meio na raça sem muito nhem nhem nhem. Eu gosto do Tropa de Elite, mais do primeiro que do segundo. Gosto do Carandiru, Cidade de Deus. Mas eu não poderia falar porque muitas coisas boas eu não vi. Vi algumas coisas em DVD e muitas eu não gosto. Mas eu teria que ter um tempo pra raciocinar em cima.



VSP- Você acha que ainda existe muito preconceito contra os cineastas que eram da Boca?



MVF- Lógico que existe. Existe muito. Aquela velha coisa: “Será que eles vão colocar o dinheiro no bolso? Será que eles vão fazer?”. Uma coisa é certa: bem ou mal, a gente aprendeu a fazer cinema com muito pouco. Já pensou eu com dois, três pau na minha mão vão falar: “O cara vai colocar metade do dinheiro no bolso e ainda vai fazer um filme legal”. Esse filme não custou nada. Sabe o que esse filme custou? Foram três almoços. Tá certo: o pessoal colaborou, não ganhou. Se o produtor pagasse todo mundo seria uns 50 mil. Sobre a Boca...o pessoal de faculdade curte muito. Quer levar a gente toda hora pra ir falar...



VSP- Dar palestra...



MVF- Inclusive eu estou com saco cheio disso. Estou querendo dar palestras mas recebendo. O que eu tinha fazer de graça já fiz. Quem tinha que levar o meu já levou. Isso eu falo até pras mulheres que deram pra mim. Ou me dá algum ou eu não vou. Agora se tiver algum e algum legal. Senão, eu não vou. É aquela história: a Cacilda Becker colocou no teatro dela: “Não me pessa de graça a única coisa que eu tenho pra vender”. O que eu pra vender hoje é isso: a minha experiência, o que eu participei. Por quê eu vou dar de graça isso? Sendo que os negos cobram. Quem quiser compartilhar com isso vai ter que pagar. Senão, eu fico no bar jogando conversa fora com os meus amigos. Aí sim eu posso fazer de graça.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Filmes perdidos da Boca: Instinto Devasso (1987)



 Musa de Castellini, Patrícia Scalvi também está em Instinto Devasso



A Embrapi (Empresa Brasileira de Produtores Independentes) merece um capítulo dentro da história do cinema paulista. A produtora foi uma tentativa de realizar filmes de maneira independente dentro da Boca do Lixo. A empresa tentava mesclar películas populares com trabalhos mais pessoais. Dessa maneira, a Embrapi aglutinou alguns dos maiores talentos daquela geração: Jean Garrett, Cláudio Portioli, Mário Vaz Filho, Antônio Meliande, Antonio Moreras, Eder Mazzini, Carlos Reichenbach, Concórdio Matarazzo, Ody Fraga e Luiz Castellini. Este último dirigiu um único longa-metragem produzido pela empresa: Instinto Devasso. O próprio Castellini acredita que este seja seu trabalho mais pessoal. Infelizmente, trata-se de seu filme menos lembrado.



Filme autoral e hermético, Instinto Devasso chegou aos cinemas quando as fitas de sexo explícito estavam reinando as nossas salas. Por isso, o longa-metragem demorou cinco anos para entrar no circuito comercial. O roteiro parece ser tirado de algum filme europeu: trata-se de um drama existencial sobre um homem decadente (Ênio Gonçalves) que leva uma prostituta para sua casa de praia. Ele parece achar que a moça é superior ás demais pessoas. O filme conseguiu ser exibido no Rio Cine-Festival. Instinto acabou não recebendo nenhum prêmio no evento. Segundo Castellini, o júri avaliou o longa-metragem de maneira preconceituosa. O pior de tudo é que desde então, o realizador nunca mais conseguiu dirigir um filme. Realizado há mais de 25 anos, Instinto Devasso permanece como o último longa-metragem dirigido por Castellini. Um diretor talentoso que permanece praticamente ignorado pela nova geração de realizadores nacionais. Um profissional dedicado e obstinado que está fora do cinema brasileiro.