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terça-feira, 2 de outubro de 2018

Nicole Puzzi ganha mostra na Cinemateca Brasileira

A Cinemateca Brasileira promove durante o mês de outubro a mostra retrospectiva “Eu, Nicole Puzzi, Possuída Pelo Prazer”, dedicada a carreira da atriz Nicole Puzzi. São nove longas-metragens e um curta que contam parte significativa da trajetória da atriz. Entre as produções selecionadas está o filme de estreia da musa (Possuídas Pelo Pecado de Jean Garrett) e obras de destaque do diretor Walter Hugo Khouri (Eros, o Deus do Amor e Eu). O evento é uma realização da ADAP (Associação dos Artistas Amigos da Praça), ELA (Escola Livre de Audiovisual), Cinemateca Brasileira e Canal Brasil. A mostra conta com curadoria de Ivam Cabral, Rodolfo Garcia Vazquez e Márcio Aquilles.  Toda mostra é gratuita. A Cinemateca Brasileira está localizada no Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, zona sul de São Paulo. A instituição é próxima a estação Vila Mariana do metrô.

VSP comenta alguns dos longas-metragens presentes na mostra:

Ariella (1980, John Herbert)
Cotação: ***
Um clássico do drama erótico e da filmografia da musa. Baseado num livro da polêmica escritora Cassandra Rios, Ariella (Nicole Puzzi) é criada pela família responsável pela morte de seus verdadeiros pais. Ela descobrirá a sexualidade e armará uma vingança. Filme bem acabado e bem dirigido. Destaque para o elenco estrelar que contou com gente do porte de Laura Cardoso, Sérgio Hingst e Christiane Torloni.
Sábado (06/10) ás 19h
Sábado (13/10) ás 17h



As Sete Vampiras (1986, Ivan Cardoso)
Cotação: ****
Um clássico de filmografia do cineasta Ivan Cardoso com roteiro de Rubens Francisco Lucchetti. Sílvia (Nicole Puzzi) inicia as pesquisas de uma planta carnívora que passa a atacar diversas pessoas. Ao mesmo tempo, uma série de crimes começam a acontecer com um grupo de balé chamado As Sete Vampiras.
Sábado (06/10) ás 21h
Quinta (11/10) ás 19h

Damas do Prazer (1979, Antônio Meliande)
Cotação: ****
Um grande roteiro de Ody Fraga. A vida diária de um grupo de prostitutas durante o mercado do sexo na Boca paulistana. Nicole Puzzi faz uma moça chamada NP que gosta de notícias de jornais sensacionalistas. O talentoso curta-metragem mineiro Lembranças de Mayo de Flávio V. Sperling (Flamingo) é exibido na mesma sessão.   
Quinta (04/10) ás 20h30
Sábado (13/10) ás 21h

Eros, o Deus do Amor (1981, Walter Hugo Khouri)
Cotação: ****
Filmado com a câmera subjetiva, o longa-metragem trata da vida sentimental de Marcelo (Roberto Maya). Suas relações com as mulheres seja a mãe, a esposa, a filha, a amante ou antigas namoradas. Um dos grandes trabalhos de Khouri.
Sexta-feira (05/10) ás 21h
Domingo (14/10) ás 18h



Eu (1986, Walter Hugo Khouri)
Cotação: **
O milionário Marcelo (Tarcísio Meira) reúne um grupo de mulheres na sua casa de praia. O elenco feminino é o destaque com Nicole Puzzi, Bia Seidl, Monique Lafond e Christiane Torloni.
Sexta-feira (05/10) ás 19h
Quinta-feira (11/10) ás 21h

Possuídas Pelo Pecado (1976, Jean Garrett)
Cotação: ***
Primeiro filme protagonizado pela moça vinda do Paraná. A trama gira em torno do ricaço Leme (Benjamin Cattan) que sente-se frustrado por não ter tido um filho com a esposa Raquel (Meiry Vieira). O motorista André (David Cardoso) planeja dar um golpe para ficar com o dinheiro do patrão utilizando a filha da empregada doméstica da casa (Nicole Puzzi). Uma trama envolvente. Terceiro longa-metragem dirigido por Jean Garrett e o último pela produtora Dacar Filmes de David Cardoso.
Domingo (07/10) ás 18h
Domingo (14/10) ás 20h

sábado, 28 de maio de 2016

Superfêmeas IV: Nicole Puzzi

 NICOLE PUZZI
“Eu amava aquele ambiente. Eu amava...”.



Por Bianca Bellucci, Heros Macedo, Heverton Bruno, Larissa Palmer, Renata Rocha e Tamires Camargo.

- Coloca o som e o microfone ali no meio das duas camas, porque capta o som da voz das duas. Vai captar bem, mesmo quando elas pularem de uma cama para a outra. Se pegar o barulho da cama a gente dubla, mas vai captar bem o som. Coloca o som aqui, bem no meio das duas camas.

Algum tempo depois de tudo ter sido preparado:

- Está tudo bom? Som?- pergunta o diretor.

- Perfeito !

Começa a filmagem. Nicole Puzzi de um lado. Monique Lafond de outro. As duas começam a pular de uma cama para a outra apenas de babydolll. De repente, olham pra baixo e...

- O que é isso? Com esse cara aqui embaixo eu não filmo!- esbraveja Nicole.

- Como? Cadê...Seu filho da puta! Você acha que aqui é lugar de...

- Mas o senhor me mandou colocar o som aqui.

- O som! Eu mandei colocar você? Você quer desrespeitar as minhas atrizes?

Sem saber o que fazer, o assistente sai debaixo da cama, onde tinha se escondido “estrategicamente” para segurar o microfone, e pede desculpas. Mil desculpas. Em seguida pede substituição. Nicole e Monique não deixam. A lição já tinha sido aprendida. Nunca mais ele voltaria a cometer abuso desses.

Nicole lembra-se disso com um sorriso no rosto. Mas nem toda confusão deixou boas lembranças. Certa vez, entre 1978 e 1979, uma mulher deu um soco na atriz sem razão aparente.

- Ela me viu. Ela veio com um ódio tão grande e me deu um soco. E eu não entendi. Ela sabia quem eu era. Sabia o meu nome. Sabia tudo. Então, começou a me xingar. Eu era meio foda...Eu ia matar aquela mulher porque eu era meio fodona mesmo. Mas aí me seguraram e ela correu. Se eu pego ela, teria machucado muito e talvez fosse me arrepender depois.

Nunca entendeu direito o que aconteceu. Como a mulher sabia quem ela era e o motivo da bronca.

- Meus filmes eram censurados. Não passava na TV e eu não era conhecida na TV. De que outro jeito ela sabia quem eu era?

Nicole era cabeça quente, desbocada e...Sincera. Apaixonadíssima pelo cinema produzido na Boca do Lixo. Apaixonada pelo trabalho Antônio Polo Galante, Walter Hugo Khouri, Jean Garrett, entre outros famosos diretores da pornochanchada. Era tão apaixonada que sua carreira na rua do Triunfo começou antes que o tempo permitisse. Ainda não havia completado 18 anos de idade quando a jovem Nicole começou no filme “Possuídas pelo Pecado” (1975). A estreia só foi possível graças a um homem que zanzava pela Praça da Sé prometendo a todos que “tirava documentos”. Esse ato de ousadia lhe rende broncas até hoje de David Cardoso, ator conhecido como “Rei da Pornochanchada”, e seu primeiro diretor.

A partir daí, foi um filme atrás do outro. E poderiam ter sido muito mais, pois, segundo Nicole, ela recusou mais produções do que fez. Embora tenha, como diz, “aptidão para papeis dramáticos”, os diretores adoravam coloca-la como ninfeta, mesmo após seus 24 anos de idade. A atriz mexia com a imaginação dos homens mais velhos que enxergavam nela uma doce sensualidade. De todas as personagens que fez, a que mais marcou a sua carreira sem dúvida foi Ariella: uma jovem órfã, herdeira de uma grande fortuna, mas que sofria nas mãos de seus pais adotivos, que desejavam a sua herança.

Mas nem só de atuação vivia Nicole Puzzi. Curiosa e cismada de que tinha que conhecer de tudo e mais um pouco da vida, ela se interessou por Nietzsche, trabalhou como enfermeira, cursou Direito e tinha um fascínio pelo comportamento do ser humano. Agora, quer ver o lado de atriz de Nicole falar mais alto? Faça uma crítica sobre a pornochanchada ou critique seus colegas de profissão.

- Essas coisas são apontadas com o dedo do preconceito. Era o gênero do povinho, diziam da pornochanchada na época. Coisas que as gentinhas, vamos dizer assim, faziam. Todo mundo queria fazer sexo, mas empurravam a culpa para nós, como se fossemos os culpados, os responsáveis.

Certa vez, estava em um salão de beleza se preparando para gravar e, do nada, “uma mulher mal resolvida”, como diz Nicole, sem mais nem menos começou a falar das atrizes da pornochanchada:

- Por que toda atriz de cinema é puta?

A mulher questionava a todos do salão em voz alta, deixando o cabelereiro, que não sabia onde se escondia, olhando para Nicole sem saber o que fazer. Depois de um tempo, sem poder aguentar mais, Nicole respondeu em alto e bom som.

- Porque a gente faz exatamente aquilo que você faria se estivesse no seu lugar.

Silêncio. Um pouco depois o silêncio virou simpatia. Que virou camaradagem por parte da mulher. Até que ela ousou mostrar umas fotos mais picantes que havia tirado para o namorado. “Fotos ridículas e tiradas em um motelzinho de quinta”, de acordo com Nicole, que fez questão de mostra-las ao salão todo, é claro.

Os diretores, atores e outros personagens da Boca a amavam. O seu jeito esquentado e sincero conquistou Walter Hugo Khouri. O diretor fazia questão de tê-la em quase todo filme que dirigia, tornando-a uma de suas musas – talvez a principal. Khouri praticamente criou uma personagem justamente para ela em “Eu” (1987). No longa, Nicole vive Lila, uma das várias mulheres que não resistem aos encantos de Marcelo, um milionário tarado interpretado por Tarcísio Meira. Nessa obra, Nicole recebe mais espaço para mostrar o lado dramático – seu último trabalho antes de ir para a televisão.

No entanto, antes de atingir o status de musa da pornochanchada, Nicole largou a ideia de ir para um colégio de freiras aos 14 anos de idade, simplesmente por que tinha na cabeça que não queria casar. Viveu uma vida, que segundo ela, foi diferente do normal.

- Eu tinha uma família de mentalidade mais tradicional, mas uma família espetacular. Aí eu me torno atriz de pornochanchada. Por quê? Porque resolvi ser rebelde. Aí confronto uma porção de coisa em mim mesma e nos outros. Tomo um caminho difícil. Eu sempre soube que ser atriz de pornochanchada naquela época ia ser terrível.

E foi durante uma conversa com sua família que Nicole escutou o que precisava para sair do Paraná, tomar o seu rumo, conquistar a carreira nos cinemas e seguir para São Paulo:

- Você vai quebrar a cara, minha filha- disse Orlando Ferreira, pai de Nicole, quando descobriu o que filha queria fazer – Você vai quebrar a cara; Você escolheu uma coisa que vai ser muito dura pra você.

Nicole olhava, esperando ser expulsa de casa.

- Você vai quebrar a cara e tem uma coisa: quando você quebrar a cara...

“Fodeu!”, pensou Nicole, assustada. Seu Orlando continuou:

- Quando você quebrar a cara, você volta aqui para o pai, que o pai vai te ajudar a catar os cacos. Vai viver a tua vida, mas eu estou aqui.

Os anos de ouro da pornochanchada e da rua do Triunfo passaram. As idas ao boteco para comer pão com mortadela junto ao elenco depois de cada gravação – ou melhor, Nicole, vegetariana desde aquela época, pedia queijo ou comia pão puro – também passaram, mas não impedem Nicole Puzzi de seguir sonhando com um merecido reconhecimento da parte do público para com as obras que participou. Também para com os diretores, atores e amigos que fez lá na Boca do Lixo.

- Olha, eu vivi bem por que eu acho que amava aquele ambiente. Só viveu mal quem ia viver mal em qualquer lugar. Eu amava aquele ambiente. Eu amava.

FICHA TÉCNICA



Nome completo: Tereza Nicole Puzzi Ferreira
Nome artístico: Nicole Puzzi
Data de nascimento: 17 de maio de 1958
Naturalidade: Floraí, Paraná.

Principais bilheterias da pornochanchadas:
“Possuídas pelo pecado” (1976), Jean Garrett
“Dezenove mulheres e um homem” (1977), David Cardoso
“Escola penal de mulheres violentadas” (1977), Antônio Meliande
“Pensionato das vigaristas” (1977), Osvaldo de Oliveira
“Reformatório das depravadas” (1978), Ody Fraga

Outros trabalhos relevantes:
“Ariella” (1980), John Herbert
”Gabriela” (1983), Bruno Barreto
“Eu” (1987), Walter Hugo Khouri
“Barriga de aluguel” (1990/91), novela Rede Globo
“A Boca de São Paulo” (2013), livro de sua autoria
“Pornolândia” (2014), programa Canal Brasil.

Onde vive hoje: São Paulo, capital
O que faz hoje: Ativista, assistente social, apresentadora e atriz.


Publicado originalmente no trabalho acadêmico Superfêmeas- as mulheres que fizeram a história da pornochanchada de autoria de Bianca Bellucci, Heros Macedo, Heverton Bruno, Larissa Palmer, Renata Rocha e Tamires Camargo, publicado como trabalho de conclusão do bacharelado em jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo em 2014.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Curta com veteranos da rua do Triunfo é premiado em Recife



O curta-metragem Lembranças de Mayo recebeu o prêmio de melhor filme na VII Janela Internacional de Recife que acabou no domingo retrasado (dia 15). A produção mineira de 28 minutos é a estreia do diretor Flávio C. von Sperling, o Flamingo, e teve no elenco dois nomes conhecidos do cinema da Rua do Triunfo: Cláudio Cunha e Nicole Puzzi. "A Boca [do Lixo] foi o ciclo mais diverso, rico, livre e debochado do nosso cinema", opina o realizador.

A história do curta gira em torno do namoro da atriz Zilda (Nicole Puzzi) com um músico mais jovem (Samuel Marotta). O rapaz apresenta a musa ao pai (Cláudio Cunha), fã da atriz no passado. O triângulo amoroso está formado. Flamingo está esbanjando otimismo com seu filme. "Vamos enviar para todos os festivais. Espero que o curta tenha uma carreira interessante e seja visto pelo maior número possível de pessoas."

O jovem realizador só lamenta que Lembranças de Mayo seja o último trabalho de Cláudio Cunha no cinema. O ator morreu em abril deste ano sem ver o curta pronto. "É um misto de uma tristeza terrível de ele ter partido e uma honra enorme de ele ter me dado essa oportunidade de trabalharmos juntos", resume Flamingo. VICE conversou com ele.

Violão, Sardinha e Pão- Qual é a emoção de o filme ter sido premiado na Janela Internacional de Recife?
Flamingo: Impossível ter estreia melhor. Vê-lo na tela do Cine São Luiz com o carinho que o Janela Internacional tem com os filmes já foi um prêmio. Confesso que não imaginava ser premiado. É uma comédia (gênero historicamente tratado como menor), além de a mostra competitiva brasileira ter sido recheada de muitos filmes bons. Agradeço ao júri e, sobretudo, a todo mundo que soltou aquelas risadas que ouvi durante a sessão – que foi linda. O filme tá aí pra isso.

Como surgiu a ideia do curta Lembranças de Mayo?
A ideia surgiu em meados de 2012. O Maurílio Martins, da produtora Filmes de Plástico, surgiu com a primeira ideia [de] que devíamos fazer um filme chamado Lembranças de Mayo. Sempre falávamos isso, sempre papo de boteco. Em 2013, me reuni com meus sócios Leonardo Amaral e Samuel Marotta, e, embalados na cachaça, fizemos uma espécie de escaleta, apontando cenas e situações. A partir disso, desenvolvi o roteiro.

Qual influência o cinema da Boca teve no curta?
O filme foi uma homenagem, uma declaração de amor a esse tipo de cinema, sobretudo às atrizes. A Boca foi o ciclo mais diverso, rico, livre e debochado do nosso cinema, tendo produzido de tudo: filmes de horror, guerra, comédias eróticas, musicais, caipiras – viva Carcaça –, westerns. As chamadas pornochanchadas são os filmes com os quais o Lembranças se relaciona de maneira mais explícita. O filme tem signos, tropos, clichês típicos do gênero: cena de voyeurismo, a figura do 'corno', etc., além de recursos de linguagem caros ao gênero homenageado (e ao cinema italiano popular, outra grandíssima influência para mim e para o filme).

É verdade que inicialmente você queria a atriz Zilda Mayo para o papel principal?
Sim. Cheguei a visitá-la em Araraquara. Zilda foi um doce, e conversamos uma tarde inteira sobre cinema. Nem chegamos a falar especificamente do roteiro, ela leu depois de nos despedirmos. Ela me ligou, agradecendo e [se] mostrando lisonjeada com a homenagem. Mas ela optou por não atuar no filme. Algumas cenas, ela achava delicada. Ela estava num momento pessoal difícil.

Como foi trabalhar com o Cláudio Cunha?
Cláudio é cinema. Ator gigante e cineasta maior ainda. Ator seguro: não ensaiávamos (apenas quando tinha mais gente em cena ou movimento de câmera), apesar de termos filmado em película e com poucas latas. Ele me passava essa segurança. Além de ser a alegria do set. Qualquer segundo de respiro (entre planos, momentos de refeições, etc.), ele chegava com as piadas horríveis que se tornavam geniais quando contadas pelo Cláudio.

E a Nicole?
Nicole tem aquilo que poucas atrizes têm: uma presença natural quase mística. Nos detalhes, no olhar. Ela e a câmera se conhecem. Se amam, aliás. A experiência e o talento extensos da Nicole me ajudaram muito a ter segurança na hora de dirigi-la. Foi, graças a ela, um desafio muito menor do que eu antecipava.

Quais as maiores dificuldades que você teve na produção do curta?
Filmamos em dezesseis milímetros. Tínhamos apenas seis latas de 66 minutos para uma fita de 30 minutos. Vacilou, já era. O filme tem dois planos-sequência e um plano da [cantora] Flávia Falcão cantando uma música inteira para a câmera. Dá aquele medo de errar e faltar. Graças à equipe e ao elenco, conseguimos filmar tudo na conta certa. Foi o primeiro filme que dirigi em película, e esse desafio de faltar filme me ensinou a dar mais atenção aos ensaios. Acredito que também ganhei mais segurança para a minha próxima direção.

Como você se sente por seu filme ser o último trabalho do Cláudio Cunha no cinema?
É um misto de uma tristeza terrível de ele ter partido e uma honra enorme de ele ter me dado essa oportunidade. É uma responsabilidade tremenda ter feito o último filme dele, e me dói profundamente que ele tenha ido sem poder assistir ao nosso filme.

Lembranças de Mayo vai ser exibido em mais festivais?
O filme foi convidado para a mostra Vingança dos Filmes B, em Porto Alegre, e mesmo no Cine Under, no Recife. Por enquanto, essas são as exibições marcadas. Mas agora vamos começar a enviar para todos os festivais e mostras. Espero que tenha uma carreira interessante e seja visto pelo maior número possível de pessoas.

Quais são seus novos projetos?
Não tem nenhum filme prestes a ser realizado agora. Os projetos ainda estão em fase de argumento ou roteiro. Posso dizer, sem dúvidas, que a Boca tem influência em tudo que fiz/faço/fizer. Mas meus próximos projetos não terão essa relação tão explícita com a Boca como o Lembranças de Mayo.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Cine Faroeste exibe documentário inédito sobre o cinema da Boca

O documentário Boca Livre: Histórias de Um Cinema Libertário recupera a trajetória de personagens que trabalharam no cinema paulista entre as décadas de 1960 e 80. O média-metragem assinado pelo diretor Ricardo Corsetti será exibido gratuitamente no próximo sábado (dia 21) ás 14 horas no Cine Faroeste (rua do Triunfo, 305, Luz). Entre os entrevistados do filme estão musas como Nicole Puzzi, Noelle Pine e Vanessa Alves e diretores como Clery Cunha e Luiz Gonzaga dos Santos. Segundo o release, o documentário “visa destacar o fato que o cinema produzido em São Paulo (...) mostrou-se muito mais ousado do que o cinema brasileiro contemporâneo (não sujeito a Censura) no sentido de abordar de forma muito mais “livre” e criativa questões relacionadas ao sexo e, até mesmo a situação política do Brasil”. A conferir.

sábado, 14 de junho de 2014

Nicole Puzzi em entrevista exclusiva: “Fui feliz fazendo pornochanchada e daí?”


Uma das maiores musas do cinema brasileiro. Nicole Puzzi foi uma atriz conhecida pelo público das produções da rua do Triunfo. A moça do Paraná trabalhou em diversos longas-metragens mostrando sua beleza e talento. Ela está de volta á televisão, mas agora como apresentadora. Desde o início deste mês, Nicole está apresentando o programa Pornolândia, atração que vai ao ar todas as quartas-feiras ás 00h no Canal Brasil. VSP conversou com a musa sobre esse e outros assuntos.

Violão, Sardinha e Pão- Como surgiu a oportunidade de você apresentar o Pornolândia?

Nicole Puzzi- O programa foi idealizado pelo diretor Roy Lui di Paul e a produtora Mayara Medeiros, pensando em mim como apresentadora, mas ainda não nos conhecíamos pessoalmente. Depois entraram em contato, eu achei muito interessante e aceitei devido ao ineditismo da forma de conduzir um tema tão explorado: o sexo.

VSP- É a primeira vez que você apresenta um programa de TV?

NP- Sim. Nunca pensei em ser apresentadora.

VSP- Quantos episódios foram gravados nesta primeira temporada do programa?

NP- 26 episódios.

VSP- Quais são os assuntos discutidos no programa?

NP- O enfoque é o sexo em todas as nuances, ou seja, conversamos com artistas, garotas de programa, professores, especialistas que se dedicam a falar ou viver do sexo. Fugimos do padrão estabelecido da moral vigente. Não condenamos nem exaltamos, apenas expomos sem preconceitos o que acontece no mundo sexual. Não temos intenção nenhuma de levantar bandeiras. 

VSP- Seu último trabalho como atriz em televisão foi a novela Amor e Revolução no SBT. Você pretende fazer novos trabalhos na telinha?

NP- Adoro fazer novelas, mas se não me chamam também não peço. Sou tranquila nesse assunto, vivo bem e feliz longe das telas. Antes de ser atriz, sou uma pessoa normal que trabalha muito em outro ramo, além de me dedicar, e muito, à causa animal.

VSP- A maioria das musas da Boca não desenvolveram uma carreira na TV. Você acredita que isso aconteceu por puro preconceito?

NP- Isso é óbvio. O problema é que gente mal resolvida sexualmente costuma jogar todas suas frustrações e recalques sexuais encima de quem se liberou numa época sobrecarregada de tabu. Falta de auto conhecimento sexual provoca preconceitos sérios neste campo. Eu não me importo. Fui feliz fazendo pornochanchada e daí?
Por outro lado, muitas atrizes que fizeram pornochanchada e conseguiram bons contratos com a Globo escaparam desse preconceito. Conclusão: o preconceito, em verdade, só prevalece se você estiver fora da TV Globo, ou seja, o preconceito é maior quando o ator\atriz não pertence a Globo e esse preconceito independe do passado do artista e é exclusivo do público e da mídia.

VSP- Dentro da sua filmografia, quais foram os filmes que você mais gostou de fazer?

NP- Talvez Ariella e Eu.

VSP- Existia alguma espécie de concorrência entre as atrizes da época?

NP- Não. Nunca senti isso. Haviam muitos filmes a serem realizados. Recusávamos mais do que aceitávamos.

VSP- Você escreveu quatro livros (senão estou enganado). Tem novos projetos nessa área?

NP- Não. Estou sempre pensando em escrever algo, aliás, estou sempre escrevendo, mas não tenho nenhum projeto. 

VSP- Você sente falta de não participar de longas-metragens? Trabalhar com jovens cineastas seria algo difícil para você?

NP- Não sinto falta e nem me engano. Os cineastas precisam de nomes globais para vender mundialmente os seus produtos. Dá pra entender. Nada em cinema seria difícil para mim.

VSP- Quais são seus projetos futuros?

NP- Meus projetos são todos pessoais e se relacionam com os animais. Vou continuar no Pornolândia até quando der. 

domingo, 8 de junho de 2014

Epicentro Cultural promove exposição Musas da Boca

O Epicentro Cultural está promovendo a exposição Musas da Boca contando com fotos e posters de atrizes que marcaram época no cinema brasileiro. As homenageadas são Nicole Puzzi, Zilda Mayo, Vanessa Alves, Noelle Pine e Eny Novakosky. Estivemos na abertura do espaço que contou com a presença da musa Vanessa Alves e do cineasta Alfredo Sternheim. A exposição segue por tempo indeterminado no espaço e é gratuita. O Epicentro Cultural fica localizado na rua Paulistânia, 66, Vila Madalena.


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Musas da Boca na Placar: Nicole Puzzi


A FÃ E SEUS FÃS

“Posso não ser o Montanaro...mas será que eu posso ficar com você?” Com esta inesperada tirada, o estilista e ator Ney Galvão arranca gargalhadas do público na peça O Terceiro Beijo, em cartaz no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo, na qual interpreta um homossexual que se envolve com a encantadora Nicole Puzzi. Aliás foi a própria atriz que modificou o texto original “Posso não ser Clark Gable...”, e colocou o nome do jogador da Pirelli e da Seleção Brasileira na história.

São-paulina roxa e fã de Casagrande, Nicole Puzzi, 26 anos, sempre gostou – e praticou- do vôlei. “É um esporte bem feminino. As mulheres não gostam de ouvir isso, mas acho que o futebol é só para homens”, diz a atriz, que finalmente criou coragem e foi conhecer toda a equipe da Pirelli na última semana. Antes de um treino da equipe, resolveu até vestir um uniforme e posar ao lado dos ídolos, cujas fotos forram uma parede de seu camarim. “São todos mesmo umas gracinhas”, disse algo assustada com a impetuosidade dos craques, que trocaram animados cotoveladas na disputa do privilégio de posar ao lado dela. Nicole deixou o Ginásio Municipal de Santo André com um pedido ao próprio Montanaro: “Você volta amanhã?”.

Publicado originalmente na Placar em 14 de setembro de 1984

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Dacar: a produtora do mestre David Cardoso




Por Alexandre Aldo Neves, especialmente para o VSP

A DACAR Produções Cinematográficas é uma das produtoras mais ativas do cinema paulista dos anos 70 e 80. Fundada por David Cardoso em 1973/4 e sediada à alameda Dino Bueno (próximo à Boca do Lixo), sua primeira realização foi o western Caçada Sangrenta. O longa-metragem foi dirigido por Ozualdo Candeias nos rincões de Mato Grosso. As três produções seguintes ficaram a cargo do então estreante Jean Garrett – o artesão da Boca: A Ilha do Desejo (com as musas Helena Ramos e Zaíra Bueno), Amadas e Violentadas e Possuídas Pelo Pecado (com a estreante Nicole Puzzi). Esses foram os primeiros grandes sucessos de público da produtora e que possibilitaram ao seu proprietário se arriscar na direção da pomposa produção de 1977: 19 Mulheres e Um Homem.


Neste filme David Cardoso se superou! Levou 19 (ou melhor, 18) universitárias num road movie pelo interior do Brasil rumo á fronteira com o Paraguai. David confirma ser esse seu maior sucesso de público. Helena Ramos, Patrícia Scalvi e Aldine Müller ajudaram a estruturar a trama.


Nos anos 80, David ganharia o título de rei da pornochanchada. Isso se deve em grande parte à bem sucedida parceria estabelecida com o roteirista e diretor Ody Fraga – o gênio do sexo – a qual possibilitaram a realização de significativos sucessos como A Noite das Taras (com Matilde Mastrangi), Aqui Tarados! (com Zaíra Bueno) e do triunfal As Seis Mulheres de Adão.


Com o advento do sexo explícito nas telas de todo país, a DACAR decidiu não tirar o seu time de campo. A produtora investiu nesse segmento com a realização de apenas quatro filmes de longa-metragem. Contudo, foi o suficiente para consagrá-la também nesse formato de cinema. Duas de suas produções pornôs são citadas até hoje em vários sites e fóruns de discussão na internet em vários países do mundo, são eles: O Viciado em C... e As Novas Sacanagens do Viciado em C... (que contam as desventuras de um matuto na cidade grande, interpretado pelo meu conterrâneo Sílvio Júnior).


No final dos anos 80, o Brasil encontrava-se mergulhado no caos econômico e a Boca viu sua estrutura ser desmanchada dia-após-dia. Neste contexto de insegurança econômica e esvaziamento das salas de cinema a DACAR resolve investir em mais uma e derradeira produção: O Dia do Gato um filme policial marcado por ser o último roteiro do genial Ody Fraga que morreu antes da finalização do filme. A parceria estava desfeita e David retirava seu time de campo.


Para concluir, vale lembrar que nem só de longas-metragens viveu a DACAR, ela produziu alguns curtas e documentários (Na Rota dos Diamantes e Cataratas do Iguaçú), além de peças de teatro (P.S. Seu Gato Morreu e Os Homens).


David Cardoso – o galã e proprietário da DACAR – mudou-se para Campo Grande/MS após o desmantelamento do nosso cinema, contudo, recentemente resolveu se aventurar pelo mundo da sétima arte e produziu o média-metragem Fronteira.


Não há como negar: a DACAR é uma das produtoras mais importantes do NOSSO CINEMA.


Alexandre Aldo Neves é geógrafo e pesquisador de cinema brasileiro. Em 2010, ele defendeu mestrado sobre o assunto (A Paisagem Pantaneira Pela Ótica do Cinema Brasileiro) na Universidade Federal da Grande Dourados, Mato Grosso do Sul.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Feliz aniversário Nicole Puzzi


Deusa, musa, vestal. São diversas palavras que podem ser usadas para descrever a atriz Nicole Puzzi. De personalidade forte, a moça vinda do Paraná vingou na Boca paulistana. No auge do movimento cinematográfico paulistano, sua presença era capaz de tornar qualquer filme um sucesso de bilheteria. O público masculino tinha obsessão por ela. Acredito que seus melhores trabalhos tenham sido nos longas assinados pelo mestre Walter Hugo Khouri. Também destacamos Ariella, um dos únicos filmes dirigidos pelo ator John Herbert. Além do cinema, Nicole fez teatro e esteve em várias novelas, como Amor e Revolução, do SBT. Mais recentemente, a musa publicou sua segunda biografia A Boca de São Paulo, pelo selo Clube de Autores. Desejamos um feliz aniversário e muitas felicidades para essa atriz acima da média.