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terça-feira, 27 de novembro de 2018

Documentário sobre Francisco Cavalcanti estará pronto em 2019



Francisco Cavalcanti e José Mojica Marins. Acervo de Fabrício Cavalcanti especialmente para o VSP
O cineasta Fabrício Cavalcanti está preparando um longa-metragem documental sobre a trajetória profissional do ator, cineasta e produtor Francisco Cavalcanti (1941-2014). O documentário ganhou o nome de Meu Pai em 24 Quadros. Pai de Fabrício, Chico dirigiu, produziu e protagonizou mais de 20 longas-metragens na Boca do Lixo paulista entre as décadas de 1970 e 1980. “Ele começou no gênero policial misturando ação, erotismo e humor. Sempre trabalhou com baixo orçamento e sem depender dos meios oficiais”, diz Fabrício com exclusividade para o VSP.

Meu Pai em 24 Quadros está sendo filmado desde 2013. A ideia original era ser um curta-metragem. Mas o realizador percebeu que precisava de mais tempo para contar a trajetória de Francisco Cavalcanti. O longa-metragem possui depoimentos de inúmeros nomes da Boca paulista como o ator e cineasta José Mojica Marins (Zé do Caixão), o cineasta Clery Cunha, o ator e diretor de efeitos especiais José Lopes (Índio), a atriz Dalma Ribas, a atriz Marli Machado, o diretor de fotografia Salvador do Amaral, o cineasta Mário Vaz Filho, o montador Walter Wanny e o diretor de fotografia Virgílio Roveda (Gaúcho). Fabrício Cavalcanti acredita que o documentário esteja pronto no primeiro semestre de 2019. “Sempre é muito complicado trabalhar com um gênero como esse que não atinge um público tão grande. Mas esse longa-metragem acaba sendo uma espécie de retrato do de uma época do cinema paulista”.

Segue um teaser do documentário:

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Papo de Boqueiro com Clery Cunha

O cineasta Clery Cunha (Leopoldo Bulhões, GO, 22/06/1939) celebrizou-se pela direção de filmes policiais populares como “Os Desclassificados” (1972), “O Outro Lado do Crime” (1978), “Joelma, 23º Andar” (1979) e “O Rei da Boca” (1979).

terça-feira, 22 de março de 2016

Um documentário para um cineasta popular

Com previsão para o primeiro semestre deste ano, o documentário de longa-metragem Meu pai a 24 quadros resgata a trajetória pessoal e profissional do ator e cineasta Francisco Cavalcanti (1944-2014). Seus filmes, cujos roteiros pareciam tirados de jornais populares dada a mistura de sexo, vingança e violência, não eram elogiados pela crítica e nem tinham espaço nos festivais, mas fizeram sucesso entre o público mais humilde nos anos 1970 e 1980.

Conhecido por ser um realizador que dedicou sua carreira ao gênero policial, Chico iniciou sua carreira artística como radialista e radioator. Também passou pelo circo e ganhou fama ao estrelar seus próprios filmes na Boca do Lixo paulistana. "Ele sempre foi rotulado como um popular por sempre trabalhar com orçamentos controlados e sem apoio governamental", analisa o cineasta Fabrício Cavalcanti, filho de Chico e diretor do documentário. Fabrício conversou com a VICE sobre seu filme e a obra de seu pai.


VICE: Como surgiu a ideia do documentário? 
Fabrício Cavalcanti: Muita gente conhece os filmes do Chico. Mas não é todo mundo que conhece toda a carreira artística dele. A ideia é contar a vida desse realizador que é rotulado como popular. Eu ia fazer uma edição final de dez minutos, ia dar num curta-metragem. Mas eu achei que esse tempo era insuficiente pra conseguir contar toda a carreira dele. Aí resolvi fazer um documentário de longa-metragem que deve chegar em 90 minutos no corte final.


Quais foram as principais dificuldades? 
Entrevistar pessoas que fizeram parte da história dele, sendo que muitos moram fora de São Paulo. O (ator) José Dumont começou na escolinha do Chico e concordou em dar depoimento. Mas ele mora no Rio e por isso dependemos de quando ele vier pra São Paulo. A dificuldade é que não temos financiamento governamental porque trabalhamos com orçamento reduzido. O (diretor de fotografia) Salvador do Amaral e a (atriz) Marli Machado deram depoimentos recentes. Então, nossa principal dificuldade foi falta de verba.


Como o filme aborda a relação dele com o cinema popular? 
O Chico era um idealista. Os filmes dele tinham que dar dinheiro pra conseguir fazer outro trabalho. Ele tinha esse ideal pra conseguir fazer novos trabalhos e sempre estar realizando novos projetos. O Chico foi um cineasta que não se beneficiou de nenhuma lei ou órgão governamental. Sempre teve orçamentos pequenos. Então, os filmes dele dependiam exclusivamente do retorno de bilheteria.


Ele fazia um cinema artesanal, né? 
Sim. Era um cinema artesanal, mas ele não era uma tão inexperiente assim na técnica. Ele manjava de fotografia e com o tempo ele ficou conhecendo todos os processos da produção do início ao fim de um longa-metragem. Mas nunca deixou fazer um cinema artesanal. O interessante é que os estudantes de comunicação das universidades normalmente sentem uma afinidade pela produção da rua do Triunfo. Isso porque eles têm que fazer cinema sem recursos. Mas o Chico teve filmes muito populares, praticamente todos tiveram retorno de bilheteria.


É possível comparar o cinema do seu pai com outros realizadores que trabalharam com gênero na Boca como Tony Vieira e Alex Prado? 
Talvez o Tony pelos dois abordarem o gênero policial. Eu acho os filmes do Chico mais bem acabados que os do Alex. O Tony começou antes do Chico, mas eles tinham origens artísticas diferentes. O Chico Cavalcanti teve influência do circo, da radionovela, do teatro.

O primeiro filme que ele tentou dirigir foi um bangue-bangue baseado numa peça teatral chamada Quando a violência dominou. Eu sei que esse filme seria rodado em preto-e-branco e protagonizado por três cantores: Sérgio Reis, George Freedman e Carlos Gonzaga. Eles chegaram a rodar algumas cenas, mas não a concluir as filmagens. Nessa época, ele ainda não tinha conhecimento de como se distribuía. Ainda era muito ingênuo para trabalhar numa indústria como o cinema.


Da filmografia do seu pai, quais filmes você considera os melhores? 
O Porão das Condenadas, O Filho da Prostituta, O Cafetão e o próprio Mulheres Violentadas com a Helena Ramos. Um filme que representa bem a passagem do tempo é o Amor Imortal. Esse trabalho foi realizado com recursos limitados e mostrou nesse trabalho que se adaptou ao digital
.

Na época da Boca, o distribuidor interferia demais. O produto final muitas vezes acabava não sendo fiel a cabeça do diretor. Tinha que inserir cenas de sexo e colocar cenas apelativas pra ter mais público.


Você acredita que ainda existe muito preconceito contra o cinema da Boca? 
Preconceito existe contra o cinema brasileiro em geral. Se a pessoa tem preconceito contra a produção da Boca eu acho positivo. Porque pelo menos a pessoa sabe que isso existiu. Muita coisa daquela época está ingênua pros dias de hoje. Mas muitos que não gostavam até ficaram saudosistas e tem saudade daquele cinema artesanal. Era uma arte mais intuitiva, mais idealista.


O que você espera com o documentário? 
Espero estar sendo o mais justo possível com a obra do Chico. Porque ele era um empresário honesto: empregou muita gente com o cinema. Pretendo com esse documentário perpetuar a importância de um cineasta como o Chico. Mas o filme não se esgota na obra dele. O documentário levanta os bastidores da Boca, a amizade dele com outros profissionais da velha guarda como o Clery Cunha, Salvador do Amaral e com o próprio Mojica.


O que falta pro seu filme ficar pronto? 

Pretendo finalizar em abril. Minha dificuldade foi bancar a produção porque não tive nenhum parceiro, nenhum patrocinador. Estou batalhando pra conseguir um circuito de exibição e depois colocar na TV a cabo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Memórias da Boca em cartaz

O longa-metragem Memórias da Boca segue em cartaz no Cine Belas Artes (rua da Consolação, 2423) em um horário diário. É a oportunidade de conferir esse filme de perto.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Memórias da Boca estreia dia 10/12

O longa-metragem Memórias da Boca estreia no dia 10 de dezembro no Caixa Belas Artes (rua da Consolação, 2423). O filme é composto por oito episódios que misturam ficção e documentário evocando o polo cinematográfico de São Paulo entre os anos 1960 e 1980.  Seguem as descrições dos episódios que compõe o filme de 84 minutos:

Amigas para Sempre – comédia de Alfredo Sternheim com Elisabeth Hartmann e Neide Ribeiro. Elas interpretam duas atrizes do cinema da Boca que se encontra em um café. A conversa, inicialmente fraterna em meios às lembranças, descamba para uma intensa discussão.
Passagem de Tempo – documentário de Mário Vaz Filho. O diretor narra o surgimento da Embrapi, produtora independente formada por dez cineastas da Boca para ser uma alternativa às empresas tradicionais. Homenageia aos falecidos Ody Fraga, Jean Garrett, Antonio Moreiras e Cláudio Portioli. 
Bangue-bangue – de Valdir Baptista. Com Walter Wanny e José Índio Lopes. Diálogo nostálgico e brincalhão entre dois técnicos e atores faz evocação da feitura dos westerns no Cinema da Boca. Cenas de filmes e depoimento do crítico Rodrigo Pereira e Mário Vaz Filho.
Entrando pelo Cano – comédia de Tony D´Ciambra, com Amanda Banffy, Eduardo Silva, Gilda Vandenbrande, Zé da Ilha. Um encanador, por engano, vai parar em um prostíbulo da Boca do Lixo onde uma atendente o trata como cliente agendado para condutas bizarras.
Triumpho 134 – Os Cineclubes na Boca do Lixo - de Diogo Gomes dos Santos. Com imagens da época e depoimentos de Alain Fresnot, André Gatti, entre outros, o filme resgata a importância do movimento cineclubista no local e na época da Ditadura Militar.
Experiência Macabra – de Clery Cunha. Com cenas de Joelma, 23º andar, que dirigiu em 1980, o cineasta Cunha lembra um fato cômico envolvendo o ator Carlos Marques durante as filmagens em um depósito funerário.

Autofilmagem – de José Mojica Marins. Um passeio atual com José Mojica Marins pela rua do Triunfo.  Ele discorre sobre a importância e a versatilidade do cinema da Boca, lembra também a solidariedade que existia e que ajudou a viabilizar vários projetos de muitos cineastas.

Mil Cinemas – de Diomédio Piskator. Com Débora Muniz, Mel Lisboa, Carla Gobbi, Beto Magnani, Osvaldo Gonçalves, Juan Carlos Alarcón, Wilson Sampson e outros. Metalinguístico, encena em linguagem fragmentada e com humor, os bastidores de uma filmagem atual na Boca do Lixo.   

quinta-feira, 19 de março de 2015

Cine Faroeste exibe documentário inédito sobre o cinema da Boca

O documentário Boca Livre: Histórias de Um Cinema Libertário recupera a trajetória de personagens que trabalharam no cinema paulista entre as décadas de 1960 e 80. O média-metragem assinado pelo diretor Ricardo Corsetti será exibido gratuitamente no próximo sábado (dia 21) ás 14 horas no Cine Faroeste (rua do Triunfo, 305, Luz). Entre os entrevistados do filme estão musas como Nicole Puzzi, Noelle Pine e Vanessa Alves e diretores como Clery Cunha e Luiz Gonzaga dos Santos. Segundo o release, o documentário “visa destacar o fato que o cinema produzido em São Paulo (...) mostrou-se muito mais ousado do que o cinema brasileiro contemporâneo (não sujeito a Censura) no sentido de abordar de forma muito mais “livre” e criativa questões relacionadas ao sexo e, até mesmo a situação política do Brasil”. A conferir.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Perfil de um diretor: Clery Cunha


Clery Leite da Cunha, pseudônimo artístico de Clery Cunha. Radialista e cineasta, nasceu em 22 de junho de 1939 em Leopoldo Bulhões, Estado de Goiás. Completando seus estudos no Ateneu Dom Bosco, de Goiânia, transferiu-se para São Paulo, onde iniciou suas atividades artísticas numa escola de desenho publicitário; fundou um grupo amador, União Teatral Juvenil, mais tarde Jaguar Tele Equipe, apresentando-se em vários clubes da Capital. Ainda no teatro, participou de duas montagens profissionais, “Antigone-América” de Ruth Escobar e “Sorocaba Senhor” de Antonio Abujamra. Inaugura-se a TV Cultura – Canal 2 (na época Emissora Associada) onde se destacou de sobremaneira como assistente de produção e ator do programa “Enquanto a Cidade Dorme”, de saudoso Dr. João Amoroso Neto, além de participar de vários tele-teatros daquela emissora; depois, produziu e dirigiu a série “Juventude Sem Rumo” para a televisão, excursionando por várias capitais do Brasil. Atraído pela sétima arte, figurante nos filmes: “Conceição”, “Convite ao Pecado”, “Carnaval Sangrento” e “Lampião, o Rei do Cangaço”. Como ator-coadjuvante, participou dos filmes: “Um Pistoleiro Chamado Caviúna”, “Essa Nêga Chamada Tereza” e “O Exorcista de Mulheres”, mas sua grande chance e seu primeiro trabalho importante foi através de Konstantin Tkaczenko, que lhe confiou a assistência de direção do filme “Idílio Proibido”, seguindo-se nessa atividade nas películas “As Mulheres amam por Conveniência”, “Maridos em Férias”, “A Virgem” e “Como Evitar o Desquite”. Como Diretor-Assistente fez “Macho e Fêmea”, estreando como Diretor em “Os Desclassificados”. Em seguida, dirigiu “A Pequena Orfã”.

Publicado originalmente na revista Cinema em Close Up em 1976.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O cinema popular de Clery Cunha



Homem de irrestrita versatilidade, Clery Cunha tornou-se um dos mais célebres personagens do Cinema da Boca. O rádio e a televisão foram os órgãos formadores deste empenhado realizador. Os dois veículos estão presentes em diversos de seus longas-metragens, especialmente nas fitas policiais. O jornalismo policial transmitido para as classes baixas foram fundamentais na formação do diretor. Isso fica evidente quando Clery convidou o radialista Gil Gomes, então um astro do veículo para ser o narrador de O Outro Lado do Crime. Com produção do jornalista Moracy do Val, o longa contou com a presença do ator José Lewgoy, nome conhecido das chanchadas e novelas brasileiras.

Clery iniciou-se na sétima arte como coadjuvante. Fez filmes com Carlos Coimbra, Ary Fernandes, Edward Freund. Mas foi o austríaco Konstantin Tkachenko foi a primeira pessoa a dar chance ao jovem goiano na área de direção. Neurótico de guerra e um tanto turrão, o europeu não fazia ideia que estava iniciando a carreira de um dos mais audaciosos diretores paulistas de todos os tempos. Em 1972, Cunha conseguiu concluir seu primeiro longa-metragem: Os Desclassificados. A fita tratava de um tema polêmico para a época: um jovem que se apaixona pela própria madrasta. O elenco foi encabeçado por atores de renome como Hélio Souto e Joana Fomm ajudaram no bom desempenho da produção nos cinemas. Lançado em duas das principais salas do centro de São Paulo como o Art Palácio e Rio Branco, Desclassificados conseguiu encontrar um público próprio. As publicidades da época exploraram moças em trajes sumários. A Censura deixou o filme liberado somente para maiores de 18 anos. A propaganda era interessante: “Nas bocas, cortiços e vielas...nas mansões luxuosas...nas boates, restaurantes e “inferninhos”...ou no meio da multidão”.

O cinema policial de Clery é diferente das produções do mesmo gênero do Cinema Novo como Assalto ao Trem Pagador (1962) de Roberto Farias. Com influência do cinema internacional, os personagens de Farias são vítimas da sociedade. Moram em favelas e querem a ascendência social. O crime acontece como algo justificável. Os personagens de produções de Clery Cunha, Francisco Cavalcanti e Tony Vieira não. Os bandidos são maus por sua própria natureza. Não são nunca vítimas da sociedade. A influência dos diretores cinema-novistas são filmes esquerdistas de diretores internacionais.

Os cineastas da Boca paulista são inspirados pela rua. São pessoas sem nenhuma formação acadêmica ou formal. Dessa maneira, os programas populares de rádio e televisão exerceram decisiva importância nessas pessoas. Sem contar os jornais popularescos como o Notícias Populares.

No ano seguinte, Cunha dirigiria uma fita livre inspirada numa novela de sucesso da TV Excelsior paulista (A Pequena Orfã). O ator Dionísio Azevedo e o cantor Noite Ilustrada fazem participações importantes. Apesar da boa produção, percebe-se que Clery nasceu mesmo para fazer filmes policiais. 
 
Em 1974, o realizador goiano desenvolve um de seus melhores trabalhos: Pensionato de Mulheres. O filme trata de uma pensão para jovens que chegam para morar na cidade grande. Seus dramas e suas vivências. O corajoso filme trata de aborto, machismo e solidão urbana em plena Ditadura Militar. Se esse trabalho fosse dirigido por qualquer realizador estrangeiro, teria recebido prêmios em diversos festivais. A veterana Silvana Lopes interpreta a dona da pensão feminina com maestria. No ano seguinte, Clery dirige uma comédia (Eu Faço...Elas Sentem) e em seguida um faroeste com a dupla sertaneja Léo Canhoto e Robertinho (Chumbo Quente). Apesar dos bons resultados de bilheteria, não são trabalhos tão autorais de Cunha. No final da década de 1970, Clery retorna para o gênero que havia adotado no início de sua carreira cinematográfica: o policial. O Outro Lado do Crime é um longa-metragem inventivo e bem dirigido.

O caprichado roteiro é assinado pelo próprio diretor e pelo ator Jesse James Costa, colaborador do cineasta goiano em inúmeros trabalhos. Narrado por Gil Gomes, o filme conta a história de um marido (José Lewgoy) que planeja a morte da própria esposa para ganhar rios de dinheiro. Feito sem grande orçamento e com inventividade, O Outro Lado é um dos mais instigantes exemplares do filme policial nacional. Embora explore certo erotismo das jovens atrizes em suas películas, Clery é um realizador do cinema de gênero. Em 1980, o realizador lança seu filme mais conhecido: Joelma 23º Andar. Trata-se de um dos primeiros longas-metragens nacionais baseado numa obra literária espírita. A fita conta a história real de um incêndio que aconteceu no edifício Joelma, no centro de São Paulo. O acidente resultou na morte de 174 pessoas. A obra cinematográfica obteve sucesso de público e elogio dos críticos.

O filme posterior de Clery Cunha é mais um policial: O Rei da Boca. Protagonizado pelo ator Roberto Bonfim, o longa-metragem conta a trajetória do personagem ficcional Pedro Cipriano da Silva. De homem simples a um dos líderes da bandidagem paulista. Prostituição de menores e tráfico de drogas são alguns dos crimes em que o protagonista se envolve. O elenco feminino é encabeçado por Claudete Joubert e Zilda Mayo. O interessante da obra é que O Rei da Boca mostra a prostituição sem romantismo. As moças atendem os clientes de maneira rápida, sem nenhum prazer. Apenas por motivos econômicos.

A década de 1980 é considerada o período final das utopias. A segunda metade do período também foi meio cruel para o cinema brasileiro. O cinema de gênero feito por artesãos como Alex Prado, Clery Cunha, Francisco Cavalcanti e Tony Vieira perdeu espaço. As salas que passavam este tipo de película fecharam. Em 1987, Clery codirigiu com o amigo Francisco Cavalcanti seu último filme para o cinema: Horas Fatais- Troca de Cabeças. Desde então, Clery vem tentando terminar mais um longa-metragem. Um dos seus projetos atuais é inspirado nas histórias policiais da Cidade Tiradentes, bairro periférico da Zona Leste de São Paulo.

O cinema brasileiro perde quando não produz filmes de gênero. Perde também por não ter realizadores autodidatas. Uma cinematografia rica é construída por pessoas com diferentes formações. Clery Cunha é um realizador brasileiro por excelência. Ele e seus filmes merecem a nossa atenção.